{"id":303906,"date":"2019-12-06T11:47:20","date_gmt":"2019-12-06T14:47:20","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=303906"},"modified":"2019-12-06T11:47:53","modified_gmt":"2019-12-06T14:47:53","slug":"a-conturbada-vida-de-joao-candido-lider-da-revolta-da-chibata-preso-expulso-da-marinha-e-internado-como-louco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-conturbada-vida-de-joao-candido-lider-da-revolta-da-chibata-preso-expulso-da-marinha-e-internado-como-louco\/","title":{"rendered":"A conturbada vida de Jo\u00e3o C\u00e2ndido, l\u00edder da Revolta da Chibata preso, expulso da Marinha e internado como louco"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Andr\u00e9 Bernardo<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/10128\/production\/_110023856_bbc_joocndido5.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o C\u00e2ndido\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido liderou uma revolta de mais de 2.300 marinheiros em 1910<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 hoje, quase 110 anos depois, n\u00e3o se sabe ao certo o que levou o comandante do Minas Gerais, Jo\u00e3o Batista das Neves, a ordenar que o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes levasse 250 chibatadas: a suspeita de ter embarcado, \u00e0s escondidas, com duas garrafas de cacha\u00e7a; a acusa\u00e7\u00e3o de ter agredido um cabo com uma navalha; ou um pouco dos dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1910, faltas leves eram punidas pelos oficiais da Marinha com a pris\u00e3o em solit\u00e1ria, a p\u00e3o e \u00e1gua, por um per\u00edodo de tr\u00eas a seis dias. J\u00e1 as ofensas mais graves, como desrespeito \u00e0 hierarquia, recebiam como castigo 25 chibatadas, na frente de toda a tripula\u00e7\u00e3o e ao som do rufar de tambores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que, no dia 21 de novembro daquele ano, a senten\u00e7a imposta a Marcelino, amarrado a um mastro do conv\u00e9s e nu da cintura para cima, revoltou um grupo de marinheiros negros que, cansado de sofrer castigos f\u00edsicos de seus oficiais brancos, resolveu organizar um motim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, \u00e0s 22h, o clarim n\u00e3o pediu sil\u00eancio. Chamou para o combate. Sob a lideran\u00e7a de Jo\u00e3o C\u00e2ndido, 2.379 marinheiros \u2014 em sua maioria, negros e pardos \u2014 assumiram o comando de quatro navios de guerra \u2014 Minas Gerais, S\u00e3o Paulo, Bahia e Deodoro \u2014, que estavam ancorados na Ba\u00eda de Guanabara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos gritos de &#8220;Viva a liberdade!&#8221; e &#8220;Abaixo a chibata!&#8221;, a marujada i\u00e7ou bandeiras vermelhas de insurrei\u00e7\u00e3o, apontou 80 canh\u00f5es na dire\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro e amea\u00e7ou bombardear a ent\u00e3o capital da Rep\u00fablica, caso suas exig\u00eancias n\u00e3o fossem cumpridas: melhores sal\u00e1rios, anistia aos revoltosos e, principalmente, o fim dos castigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa raz\u00e3o, o motim, que durou apenas cinco dias, de 22 a 27 de novembro, entrou para a Hist\u00f3ria como a Revolta da Chibata. &#8220;N\u00e3o pod\u00edamos admitir que, na Marinha do Brasil, um homem ainda tirasse a camisa para ser chibatado por outro homem&#8221;, declarou Jo\u00e3o C\u00e2ndido, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em mar\u00e7o de 1968.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Chibata, nunca mais!<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um tiro de canh\u00e3o, de advert\u00eancia, chegou a ser disparado. Atingiu um corti\u00e7o e matou duas crian\u00e7as. Enquanto parte da popula\u00e7\u00e3o fugia apavorada, a outra parte, curiosa, corria para o cais, para assistir ao vaiv\u00e9m dos navios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pressionado por pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o, o rec\u00e9m-empossado presidente da Rep\u00fablica, o marechal Hermes da Fonseca, aceitou as condi\u00e7\u00f5es e p\u00f4s fim \u00e0 rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Jo\u00e3o C\u00e2ndido e os outros marujos, at\u00e9 ent\u00e3o an\u00f4nimos e subalternos, viraram not\u00edcia e obrigaram os poderosos a ceder. Durante cinco dias, a capital do Brasil esteve sob sua posse e, na medida em que conquistaram seu principal objetivo, que era o fim dos castigos corporais, sa\u00edram vitoriosos&#8221;, afirma o historiador Marco Morel, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), organizador do livro A Revolta da Chibata (2016), escrito pelo seu av\u00f4, Edmar Morel, e autor do livro\u00a0<i>Jo\u00e3o C\u00e2ndido &#8211; A Luta pelos Direitos Humanos<\/i>\u00a0(2008).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14F48\/production\/_110023858_bbc_joocndido4.jpg\" alt=\"Os marinheiros assumiram o comando de quatro navios\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Os marinheiros assumiram o comando de quatro navios<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apontado como o l\u00edder do movimento, Jo\u00e3o C\u00e2ndido passou a conceder entrevistas para os principais jornais da \u00e9poca. &#8220;As carnes de um servidor da p\u00e1tria s\u00f3 ser\u00e3o cortadas pelas armas dos inimigos, mas nunca pela chibata de seus irm\u00e3os. A chibata avilta&#8221;, declarou, em 1910, ao jornal Correio da Manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tr\u00e9gua, por\u00e9m, durou pouco. J\u00e1 no dia seguinte, logo que os rebelados come\u00e7aram a desembarcar, Hermes da Fonseca voltou atr\u00e1s. E, por decreto, come\u00e7ou a perseguir todos os que participaram do levante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fisicamente, Jo\u00e3o C\u00e2ndido era um gigante, mas, nunca abusou de sua superioridade f\u00edsica. H\u00e1bil no uso das palavras, sempre cumpria o que prometera, ao contr\u00e1rio do presidente que, logo que recuperou os navios, traiu os compromissos assumidos&#8221;, afirma o escritor Alcy Cheuiche, autor do livro\u00a0<i>Jo\u00e3o C\u00e2ndido, o Almirante Negro<\/i>\u00a0(2010).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos 2.379 marujos revoltosos, 1.216 foram expulsos da Marinha. Outros 600 foram presos e 105 obrigados a embarcar nos por\u00f5es do navio Sat\u00e9lite, rumo \u00e0 Amaz\u00f4nia, para trabalhos for\u00e7ados na produ\u00e7\u00e3o da borracha. Catorze deles nunca chegaram ao destino. Foram fuzilados durante a viagem e tiveram seus corpos jogados ao mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A revolta de 1910 teve o mais infame dos desfechos&#8221;, escreveu o jornalista Oswald de Andrade, em\u00a0<i>Um Homem Sem Profiss\u00e3o &#8211; Sob as Ordens de Mam\u00e3e<\/i>\u00a0(1958).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido foi preso, interrogado e, \u00e0s v\u00e9speras do Natal de 1910, levado para a Fortaleza de S\u00e3o Jos\u00e9, na Ilha das Cobras (RJ), onde ficava o Batalh\u00e3o Naval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um calabou\u00e7o onde s\u00f3 cabiam seis prisioneiros, dividiu a solit\u00e1ria com 17 companheiros. Ali, os marujos ficaram por tr\u00eas dias, sem ter o que comer ou beber e debaixo de um sol escaldante. Sob o pretexto de desinfetar a &#8220;jaula&#8221;, imunda de fezes e urina, os carcereiros jogaram cal l\u00e1 dentro. Apenas dois dos 18 encarcerados sobreviveram: Jo\u00e3o C\u00e2ndido e Jo\u00e3o Avelino Lira, de 26 anos. Os demais morreram de fome ou de asfixia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A via-cr\u00facis de Jo\u00e3o C\u00e2ndido n\u00e3o terminou ali. Em abril de 1911, foi mandado para o Hospital Nacional dos Alienados, onde permaneceu por dois meses. Logo, o diretor da institui\u00e7\u00e3o, Juliano Moreira, atestou que, de louco, Jo\u00e3o n\u00e3o tinha nada. Liberado, voltou \u00e0 pris\u00e3o, onde sobreviveu a uma tentativa de assassinato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ano e meio depois, no dia 29 de novembro de 1912, foi levado a julgamento. Apesar de absolvido das acusa\u00e7\u00f5es, foi expulso da Marinha. O apelido de &#8220;Almirante Negro&#8221; quem lhe deu foi o escritor Jo\u00e3o do Rio, que trabalhava no jornal Gazeta de Not\u00edcias.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Um l\u00edder nato<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho de escravos, Jo\u00e3o C\u00e2ndido Felisberto nasceu no dia 24 de junho de 1880, em uma fazenda em Encruzilhada do Sul (RS), a 170 km de Porto Alegre. Aos 14 anos, ingressou na Marinha, como grumete (recruta). Como marinheiro, Jo\u00e3o C\u00e2ndido navegou por tr\u00eas continentes \u2014 Europa, Am\u00e9rica e \u00c1frica \u2014 e aprendeu a operar quase todos os instrumentos a bordo, do leme ao canh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;De origem muito pobre, Jo\u00e3o C\u00e2ndido n\u00e3o estudou. Mas tinha uma sabedoria e um esp\u00edrito de lideran\u00e7a que permitiram que se destacasse na Marinha. Aprendia tudo de olhar&#8221;, afirma o jornalista Fernando Granato, autor do livro\u00a0<i>O Negro da Chibata<\/i>\u00a0(2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre outras expedi\u00e7\u00f5es, Jo\u00e3o C\u00e2ndido participou da miss\u00e3o que, em 1903, disputou com a Bol\u00edvia o territ\u00f3rio do Acre. \u00c0 \u00e9poca, contraiu tuberculose e chegou a ficar internado por tr\u00eas meses no Rio. Recuperado, foi mandado para a Inglaterra, em julho de 1909, para aprender a operar o encoura\u00e7ado Minas Gerais, de fabrica\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao voltar da Europa, depois de conversar com marujos ingleses, os mais politizados do mundo, tentou negociar o fim da chibata com o ent\u00e3o presidente Nilo Pe\u00e7anha. N\u00e3o teve sucesso.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1AB0\/production\/_110023860_bbc_joaocandido_ascomarquivonacional.jpg\" alt=\"'Quando morreu, em 1969, Jo\u00e3o C\u00e2ndido ainda inspirava medo nas autoridades', afirma o jornalista Fernando Granato\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Quando morreu, em 1969, Jo\u00e3o C\u00e2ndido ainda inspirava medo nas autoridades&#8217;, afirma o jornalista Fernando Granato<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Velhos amigos&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao sair da pris\u00e3o, em 30 de dezembro de 1912, Jo\u00e3o C\u00e2ndido passou a fazer biscates e a vender peixes para sobreviver. Durante muitos anos, sa\u00eda de casa \u00e0 noitinha e s\u00f3 voltava na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi carregando cestos de peixe na Pra\u00e7a XV que, em 1937, an\u00f4nimo e pobre aos 57 anos, conheceu o jornalista Edmar Morel, ent\u00e3o rep\u00f3rter do jornal O Globo, que decidiu escrever sua biografia,\u00a0<i>A Revolta da Chibata<\/i>\u00a0(1959).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O livro ressuscitou Jo\u00e3o C\u00e2ndido, que voltou a ser not\u00edcia meio s\u00e9culo depois de seu feito nas \u00e1guas da ba\u00eda da Guanabara. Quando Jo\u00e3o C\u00e2ndido faleceu, meu av\u00f4 foi um dos que carregou seu caix\u00e3o, sob forte temporal e cercado de policiais. Mais que amigos, tornaram-se parceiros, c\u00famplices e solid\u00e1rios&#8221;, afirma Morel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em mar\u00e7o de 1953, quando soube que o Minas Gerais seria vendido como sucata para a It\u00e1lia, Jo\u00e3o C\u00e2ndido subiu em seu modesto caiaque, o Tr\u00eas Marias, e remou at\u00e9 o ancoradouro. L\u00e1, deu um longo beijo de despedida no seu casco enferrujado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido se casou tr\u00eas vezes, com Marieta, Maria Dolores e Ana, e teve 11 filhos. Viveu seus \u00faltimos anos de vida em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na Baixada Fluminense, numa rua sem asfalto, luz el\u00e9trica ou \u00e1gua encanada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Embora nunca tenha sido castigado na Marinha, meu pai n\u00e3o aceitava que os companheiros fossem torturados. N\u00e3o foi um ato de hero\u00edsmo o que ele fez. Foi um ato de humanidade&#8221;, relata o filho Adalberto C\u00e2ndido, o Candinho, de 81 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A maior li\u00e7\u00e3o que meu pai deixou foi n\u00e3o abaixar a cabe\u00e7a para ningu\u00e9m. E assumir as consequ\u00eancias do que faz&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 6 de dezembro de 1969, Jo\u00e3o C\u00e2ndido, ent\u00e3o com 89 anos, deu entrada no Hospital Get\u00falio Vargas, no Rio, onde morreu dois dias depois, de c\u00e2ncer no intestino. No dia do enterro, um grupo de policiais, \u00e0 paisana, compareceu ao cemit\u00e9rio do Caju para fotografar quem estava l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando morreu, em 1969, Jo\u00e3o C\u00e2ndido ainda inspirava medo nas autoridades. Passados 50 anos, n\u00e3o teve o reconhecimento merecido. Embora signifique um marco hist\u00f3rico de ruptura contra um sistema racista e opressor, a Revolta da Chibata \u00e9 praticamente desconhecida para a maioria dos brasileiros&#8221;, afirma Granato.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;O drag\u00e3o do mar&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido n\u00e3o foi o \u00fanico a ser perseguido. Todos aqueles que, de alguma maneira, prestaram homenagens ao &#8216;Almirante Negro&#8217; tiveram que arcar com as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O humorista Appar\u00edcio Torelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, foi um deles. Em outubro de 1934, decidiu transformar a vida de Jo\u00e3o C\u00e2ndido em folhetim,\u00a0<i>A Insurrei\u00e7\u00e3o dos Marinheiros de 1910<\/i>, e public\u00e1-la em s\u00e9rie no jornal Folha do Povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta do 10\u00ba cap\u00edtulo, foi sequestrado e espancado por homens encapuzados. Debochado, passou a pendurar na porta de sua sala na reda\u00e7\u00e3o do jornal uma placa onde se lia: &#8220;Entre sem bater&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor Aldir Blanc passou por perrengue parecido. Em 1970, ele e o parceiro, Jo\u00e3o Bosco, compuseram a m\u00fasica\u00a0<i>O Mestre-Sala dos Mares<\/i>, sucesso na voz de Elis Regina. Os censores implicaram com a letra e &#8220;convidaram&#8221; Aldir para depor no antigo Pal\u00e1cio do Catete, hoje Museu da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;L\u00e1, um policial negro sempre arranjava um jeito de parar bem perto de mim: eu, sentado, e ele, de p\u00e9, com o coldre da arma quase encostado em meu nariz&#8221;, recorda o compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aldir Blanc fez o imposs\u00edvel para a censura liberar a m\u00fasica: &#8220;marinheiro&#8221; virou &#8220;feiticeiro&#8221;, &#8220;negros&#8221; cedeu lugar para &#8220;santos&#8221; e &#8220;almirante&#8221; foi substitu\u00eddo por &#8220;navegante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O samba s\u00f3 passou por um truque: um funcion\u00e1rio da ent\u00e3o gravadora RCA ensinou que, se mud\u00e1ssemos radicalmente o t\u00edtulo, eles n\u00e3o leriam a letra e ela passaria com algumas pequenas altera\u00e7\u00f5es, bem doidas. Bolamos, ent\u00e3o, &#8216;<i>Mestre-Sala dos Mares<\/i>&#8216; e, como n\u00e3o tinha a palavra &#8216;negro&#8217; no t\u00edtulo, metemos a bola entre as canetas da censura&#8221;, gaba-se o compositor.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Turmalina 18-50<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 para c\u00e1, o &#8216;Almirante Negro&#8217; j\u00e1 inspirou samba-enredo da Uni\u00e3o da Ilha, ganhou est\u00e1tua na Pra\u00e7a XV, recebeu anistia p\u00f3stuma do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e, desde o m\u00eas passado, \u00e9 reconhecido como her\u00f3i do Estado do Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Por mais que tentassem derrubar sua hist\u00f3ria, Jo\u00e3o C\u00e2ndido foi sempre lembrado e festejado como o l\u00edder de centenas de marinheiros negros que deram um basta aos desumanos castigos corporais&#8221;, afirma o historiador \u00c1lvaro Pereira Nascimento, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro\u00a0<i>Cidadania, Cor e Disciplina na Revolta dos Marinheiros de 1910<\/i>\u00a0(2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ainda faltam mais biografias e, tamb\u00e9m, a repara\u00e7\u00e3o financeira \u00e0 fam\u00edlia de Jo\u00e3o C\u00e2ndido e \u00e0s dos demais marinheiros. N\u00e3o receberam um centavo ap\u00f3s serem ilegalmente perseguidos e expulsos da Marinha de Guerra entre 1910 e 1912&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mais recente homenagem a Jo\u00e3o C\u00e2ndido partiu do dramaturgo Vin\u00edcius Bai\u00e3o. Ele \u00e9 autor e diretor do espet\u00e1culo\u00a0<i>Turmalina 18-50 &#8211; Os \u00daltimos Dias do Almirante Negro em terra<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo da pe\u00e7a, encenada pela Cia. Cerne, faz alus\u00e3o ao \u00faltimo endere\u00e7o do marinheiro em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti: Rua Turmalina, Lote 18, Quadra 50.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O reconhecimento de Jo\u00e3o C\u00e2ndido est\u00e1 aqu\u00e9m do que deveria ser. At\u00e9 hoje, os livros did\u00e1ticos comentam muito superficialmente a Revolta da Chibata e, por esse motivo, muitos brasileiros n\u00e3o sabem quem \u00e9 e o que fez Jo\u00e3o C\u00e2ndido. Ele precisa ser colocado no mesmo pante\u00e3o dos grandes her\u00f3is como Zumbi, Tiradentes ou Dandara&#8221;, garante o dramaturgo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje, os livros did\u00e1ticos comentam muito superficialmente a Revolta da Chibata e, por esse motivo, muitos brasileiros n\u00e3o sabem quem \u00e9 e o que fez Jo\u00e3o C\u00e2ndido. 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