{"id":304084,"date":"2019-12-08T06:51:36","date_gmt":"2019-12-08T09:51:36","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=304084"},"modified":"2019-12-08T06:51:36","modified_gmt":"2019-12-08T09:51:36","slug":"o-samba-nasceu-aqui-mas-a-bahia-nao-cuida-bem-dele-diz-edil-pacheco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-samba-nasceu-aqui-mas-a-bahia-nao-cuida-bem-dele-diz-edil-pacheco\/","title":{"rendered":"\u2018O samba nasceu aqui, mas a Bahia n\u00e3o cuida bem dele\u2019, diz Edil Pacheco"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<h2>Em entrevista ao bahia.ba, compositor baiano, que completa 50 anos de carreira, reafirma a necessidade da luta pela defesa do samba na Bahia<\/h2>\n<div class=\"autor\">Andr\u00e9 Carvalho<\/div>\n<div id=\"div-share\"><\/div>\n<div class=\"materia\">\n<div class=\"conteudo_post\">\n<figure id=\"attachment_208305\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/27172222\/15436194135c01c355d99b8_1543619413_3x2_md.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208305 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/27172222\/15436194135c01c355d99b8_1543619413_3x2_md.jpg\" alt=\"Foto: Antonio Brasiliano\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua obra revela a leveza de um povo sofrido, de rara beleza, que vive cantando. De profunda grandeza \u00e9 sua m\u00fasica: procurando alegria em pra\u00e7as, largos, quintais e botequins. Da Bahia para todo o Brasil.<\/p>\n<p>Completando 50 anos de carreira neste ano de 2019, o baiano Edil Pacheco tem sua trajet\u00f3ria art\u00edstica marcada pela defesa intransigente do samba no meio fonogr\u00e1fico e \u00e9 considerado um dos grandes respons\u00e1veis pela fixa\u00e7\u00e3o do ijex\u00e1 como g\u00eanero musical brasileiro.<\/p>\n<p>Suas cria\u00e7\u00f5es, eternizadas em grava\u00e7\u00f5es de int\u00e9rpretes como Clara Nunes, Jair Rodrigues, Jo\u00e3o Nogueira, Gilberto Gil, Gal Costa, Agep\u00ea e Alcione, entre tantos outros, refletem a alma musical de um Brasil profundo.<\/p>\n<p>Composi\u00e7\u00f5es pontilhadas de brasilidade, forjada ainda na inf\u00e2ncia em Maragogipe, quando, ao romper da noite, esperava a m\u00e3e apagar o candeeiro para pular a janela e ir \u201cbahiar\u201d com o samba de roda do Rec\u00f4ncavo.<\/p>\n<p>L\u00e1 se v\u00e3o cinco d\u00e9cadas desde que Eliane Pittmann gravou \u201cFim de tarde\u201d, parceria com Luiz Galv\u00e3o, dando in\u00edcio a uma caminhada de sucesso, que o colocou como um dos sambistas mais gravados do Pa\u00eds \u2013 estima-se que o maragogipano tenha mais de 250 composi\u00e7\u00f5es registradas (\u201ceu acho que \u00e9 at\u00e9 mais\u201d, acredita ele).<\/p>\n<p>Edil Pacheco\u00a0conversou com a reportagem do\u00a0<strong>bahia.ba\u00a0<\/strong>em duas ocasi\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o desta entrevista. A primeira delas, na Pituba, bairro onde mora, em um longo bate-papo regado \u00e0 cerveja, e a segunda no restaurante Viola Vadia, na Boca do Rio, depois uma suculenta rabada.<\/p>\n<p>Ele\u00a0falou, entre outras coisas, sobre sua inf\u00e2ncia em Maragogipe, a chegada a Salvador, o in\u00edcio da carreira art\u00edstica, a amizade com Ederaldo Gentil e Jo\u00e3o Nogueira e o Dia do Samba na capital baiana. Aos 74 anos, segue defendendo com unhas e dentes o samba, que, para ele, precisa ser mais bem cuidado na Bahia. \u201c\u00c9 uma luta, rapaz\u201d.<\/p>\n<p>Com a palavra, Edil Pacheco:<\/p>\n<p><strong>bahia.ba\u00a0\u2014\u00a0O que voc\u00ea ouvia na sua inf\u00e2ncia? O que tocava na sua casa quando voc\u00ea era crian\u00e7a l\u00e1 em Maragogipe? Quais s\u00e3o as primeiras refer\u00eancias que voc\u00ea tem de m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Edil Pacheco\u00a0\u2014\u00a0<\/strong>As primeiras refer\u00eancias que eu tenho \u00e9 de quando eu morava em uma avenida l\u00e1 em Maragogipe e nos finais de semana tinha muito samba de roda. Aqueles sambas que praticamente n\u00e3o tinham instrumentos de harmonia. Era s\u00f3 palma batida na m\u00e3o, prato e faca, atabaque e muita voz. E eu esperava minha m\u00e3e dormir, pulava a janela da minha casa e\u00a0ficava l\u00e1 escutando.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Era de dia ou de noite que aconteciam esses sambas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>De noite. Nessa \u00e9poca n\u00e3o tinha luz em casa. Poucos lugares tinham luz. Ainda era na base do candeeiro. Eu me lembro que eu come\u00e7ava a ler gibi e a\u00ed minha m\u00e3e, em determinado hor\u00e1rio, dizia: \u201cTem que apagar o candeeiro para n\u00e3o gastar o g\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Logo depois, quando come\u00e7ou a ter luz l\u00e1 em casa, a gente n\u00e3o tinha r\u00e1dio, mas o tio Ant\u00f4nio tinha. Tio Ant\u00f4nio\u00a0era um curandeiro l\u00e1 de Maragogipe, que fazia uns curativos, fazia cirurgia, tomava conta. E a \u00fanica casa que tinha r\u00e1dio era a dele. E eu me lembro que todo s\u00e1bado, no final de tarde, eu ia para l\u00e1. Eu ia para l\u00e1 ouvir a R\u00e1dio Nacional. Ouvia Luiz Vieira, Luiz Gonzaga, Orlando Silva, Marin\u00eas, Vicente Celestino\u2026<\/p>\n<p><strong>.ba \u2014\u00a0Crian\u00e7a ainda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Crian\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Isso era o qu\u00ea?\u00a0Anos 40?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu nasci em 45, ent\u00e3o era nos anos 50.\u00a0Foi a\u00ed que eu comecei. Quando eu vim para Salvador, eu fui morar com minha irm\u00e3, Joselita, na Liberdade. Morava na Liberdade, na rua do C\u00e9u. E ela e o marido dela gostavam muito de Roberto Silva, tinham aquela cole\u00e7\u00e3o \u201cDescendo o Morro\u201d. Eu ouvia muito aquilo. Era f\u00e3 do Roberto Silva.\u00a0Gostava dos sambas de\u00a0Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, escutava muito Cust\u00f3dio Mesquita.\u00a0A minha forma\u00e7\u00e3o foi essa a\u00ed.<\/p>\n<p>Me lembro uma vez, quando eu ainda morava em Maragogipe, que um candidato a deputado chamado Jo\u00e3o Doria [pai do atual governador de S\u00e3o Paulo] foi l\u00e1 para fazer um com\u00edcio. E Luiz Vieira era o\u00a0mestre de cerim\u00f4nias.\u00a0O cara fazia o discurso no coreto da pra\u00e7a e a cidade toda assistia, mas para ver, na verdade, Luiz Vieira. E ele cantava \u201cMenino de Bra\u00e7an\u00e3\u201d, \u201cEstrela Mi\u00fada\u201d, aqueles sucessos todos.\u00a0E logo que ele desceu do coreto eu me aproximei dele.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, ele veio fazer um programa aqui em Salvador chamado \u201cEu show Luiz Vieira\u201d. Era na televis\u00e3o em Itapu\u00e3. E ele me encarregou de tomar conta dos artistas locais. Ele trazia estrelas da m\u00fasica brasileira e eu colocava um baiano para fazer o encontro. Foi a\u00ed que eu comecei a compor, que eu comecei fazer m\u00fasica.<\/p>\n<p>Nesta \u00e9poca, eu morava em\u00a0um\u00a0pensionato. E nesse pensionato morava um jornalista chamado Fernando Vita. Foi Vita quem me incentivou a come\u00e7ar a compor. A\u00ed, eu\u00a0comecei a fazer umas m\u00fasicas, sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o. Foi ele quem me apresentou Eliane Pittmann, que foi quem gravou minha primeira m\u00fasica.\u00a0Mas eu j\u00e1 conhecia a turma toda dos baianos, Moraes Moreira, Luiz Galv\u00e3o. Inclusive, minha primeira m\u00fasica foi com Galv\u00e3o, \u201cFim de Tarde\u201d. T\u00ednhamos um grupo chamado Fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E voc\u00ea se lembra de ter escutado Batatinha e Riach\u00e3o na r\u00e1dio Sociedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Batatinha tinha um programa chamado \u201cVamos acordar\u201d, que era produzido por J. Luna. Come\u00e7ava \u00e0s seis da manh\u00e3. Me lembro\u00a0dele cantando \u201cJaj\u00e1 da Gamboa\u201d.\u00a0Foi a primeira vez que eu ouvi falar de Batatinha.\u00a0Riach\u00e3o era sucesso na r\u00e1dio. Eu cheguei a ver programa de audit\u00f3rio na R\u00e1dio Sociedade ali na rua Carlos Gomes com o Riach\u00e3o. J\u00e1 era sucesso. Foi escutando a R\u00e1dio Sociedade que comecei a\u00a0ouvir falar de Batatinha, Riach\u00e3o e Panela.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Como foi sua vinda a Salvador?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu vim para Salvador pela primeira vez para servir o Ex\u00e9rcito, mas o meu irm\u00e3o conseguiu me encaixar no \u201cexcesso de contingente\u201d e eu acabei voltando para\u00a0Maragogipe. Depois, meu irm\u00e3o arrumou um trabalho para mim numa pastelaria l\u00e1 no Pau Mi\u00fado. O dono era um portugu\u00eas, porco pra caramba, e eu s\u00f3 fiquei l\u00e1 uma semana. E voltei, de novo, para Maragogipe.<\/p>\n<p>A\u00ed voltei para Salvador mais uma vez para trabalhar em outra pastelaria, no Largo 2 de Julho. Isso era por volta de 1963, antes do Golpe, ainda. No Golpe, eu j\u00e1 estava\u00a0trabalhando com o meu tio em uma empresa de transportes.\u00a0E, paralelamente, eu fui fazendo m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Como conheceu Batatinha, mestre?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Batatinha eu conheci quando ainda trabalhava ainda na pastelaria. Foi em um evento que teve no Pelourinho. Ele estava com uma cantora paulista chamada Tuca, uma menina que cantava muito bem, cantava bonito. E ele me convidou para acompanh\u00e1-lo em um show chamado \u201cEu\u00a0sou, tu \u00e9s, ele \u00e9: gente\u201d.\u00a0\u00a0A\u00ed, durante o per\u00edodo de ensaio, tinha uma deixa de um texto, que Vieira Neto, que era o produtor,\u00a0 disse: \u201cPreciso botar uma m\u00fasica aqui para essa deixa\u201d. E o Batatinha me pediu para fazer: \u201cFa\u00e7a, vou dizer que \u00e9 minha\u201d. A\u00ed mostrei para Batatinha e ele adorou a m\u00fasica. Da\u00ed ele mostrou a m\u00fasica para Vieira Neto: \u201cO que voc\u00ea acha?\u201d. E ele adorou. Ent\u00e3o,\u00a0Batatinha disse: \u201cA m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 dele\u201d. Chamava \u201cExperi\u00eancia pr\u00f3pria\u201d. Depois fiz outra, chamada \u201cProtetor do samba\u201d. E fui fazendo mais m\u00fasica.<\/p>\n<p>A\u00ed nasceu uma amizade boa.\u00a0Batatinha tamb\u00e9m me levou para o teatro Vila Velha, onde existia naquela \u00e9poca um programa chamado \u201cImproviso\u201d. Toda sexta-feira, a partir de meia-noite. Iam todos os artistas aqui da \u00e1rea, os consagrados: Tom Z\u00e9, Ant\u00f4nio Carlos Jocafi, Walter Queiroz, Walmir Lima, Batatinha, Maria Creuza. Era o pessoal que fazia m\u00fasica naquela \u00e9poca. Ent\u00e3o foi a\u00ed, levado por Batatinha, que comecei a me interessar pela coisa.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E seu contato com Escolas de Samba aqui em Salvador? Como foi? Com Ederaldo Gentil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu morava no Largo Dois de Julho. Tinha um apartamento l\u00e1 e emprestava sempre a Ederaldo. Ent\u00e3o, n\u00f3s t\u00ednhamos uma liga\u00e7\u00e3o muito forte. N\u00f3s almo\u00e7\u00e1vamos juntos, ele era relojoeiro.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Voc\u00eas eram muito amigos, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A gente tinha uma liga\u00e7\u00e3o, tinha um neg\u00f3cio. A ponto da gente ir para o Rio de Janeiro, eu bancando tudo. Peguei o carro, chamei ele, ele n\u00e3o botou nada, s\u00f3 para ir em minha companhia, mesmo. Ent\u00e3o, a gente combinava assim, por exemplo: vamos comer moqueca de arraia na casa de fulano hoje. A\u00ed, eu passava l\u00e1, pegava ele. Ent\u00e3o, era assim. Ele tomava a chave do meu apartamento emprestado para levar as namoradas pra l\u00e1. Uma amizade grande mesmo, era meu irm\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208361\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/28091242\/IMG-20190128-WA0030.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208361 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/28091242\/IMG-20190128-WA0030.jpg\" alt=\"Ederaldo Gentil Edil Pacheco\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Edil Pacheco e Ederaldo Gentil: parceria de samba e de vida \u2013\u00a0 Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Ele era muito ligado com o lance de Escola de Samba.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A\u00ed, ele j\u00e1 era enturmado. J\u00e1 estava fazendo as coisas no Filhos do Toror\u00f3. E eu estava chegando. E ele me perguntou:\u201dVamos fazer um samba?\u201d. Teve um ano que ele fez oito sambas.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Porque ele tinha brigado com o Toror\u00f3.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>\u00c9. Teve um ano que ele fez para todas as concorrentes do Toror\u00f3. E tr\u00eas foram feitos comigo.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Foi sua estreia a\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Foi minha estreia.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0As Escolas para as quais voc\u00eas fizeram os sambas voc\u00ea lembra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Filhos da Liberdade, Unidos do Canela e Juventude do Garcia. No Garcia, foi o \u201cSamba, Canto Livre de um Povo\u201d, que ele gravou.\u00a0L\u00e1,\u00a0n\u00f3s ganhamos. Nas outras n\u00e3o teve concurso. Acontece que\u00a0a Juventude do Garcia j\u00e1 era uma escola poderosa, junto com a Diplomatas de Amaralina, e tinha que ter concurso. S\u00f3 que n\u00f3s ganhamos o concurso e teve o maior problema porque eu n\u00e3o era da escola. E ainda era branquelo. Inclusive teve um buxixo na imprensa. A\u00ed eu disse que nunca mais eu ia fazer o samba enredo.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E os sambas do Canela e da Liberdade voc\u00ea n\u00e3o lembra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o lembro. O da Canela, eu me lembro que o tema era \u201cBranca de Neve e os Sete An\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0A\u00ed, nunca mais se meteu com Escola de Samba depois\u00a0disso.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Nunca mais quis. Por isso mesmo.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0\u201cAl\u00f4 madrugada\u201d, parceria sua com Ederaldo, foi um grande sucesso, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Foi.\u00a0Essa hist\u00f3ria \u00e9 boa. Uma vez, Ti\u00e3o Motorista me ligou. \u201cRusso\u2026\u201d. Ele me chamava de Russo. \u201cRusso, o Jair Rodrigues vem a\u00ed para fazer um show e eu quero mostrar umas m\u00fasicas para ele. Voc\u00ea me d\u00e1 uma for\u00e7a, me acompanha?\u201d. \u201cPois n\u00e3o\u201d. Ai ele passou l\u00e1 no pensionato, me pegou, ficamos esperando\u00a0Jair sair do programa de televis\u00e3o que ele estava gravando e fomos para o Hotel Costa Azul. Paramos na porta do hotel e ficamos cantando alguns sambas. Dali a pouco, Jair me pergunta: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o faz nada, n\u00e3o?\u201d. \u201cFa\u00e7o\u201d. \u201cCanta o seu a\u00ed\u201d. A\u00ed eu cantei uma. Ele: \u201cCante outra\u201d. Eu cantei. E ele disse: \u201cVou gravar essa\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0\u201cAl\u00f4 Madrugada\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o. \u201cAna\u201d. Uma m\u00fasica minha e de Cid Teixeira. \u201cAna dos olhos bonitos\/ quem fez bonito os olhos seus\/ Ana dos olhos bonitos\/ Queria os seus olhos nos olhos meus\u201d. Naquela linha meio Chico Buarque. A\u00ed, Jair disse: \u201cVou gravar essa\u201d. Um m\u00eas depois, eu peguei o carro e\u00a0 fui para o Rio. E\u00a0chamei Ederaldo Gentil. Eu tinha um Fusca 65. \u201cGentil, eu vou para o Rio de Janeiro, o Jair Rodrigues vai gravar minha m\u00fasica, n\u00e3o quer ir comigo n\u00e3o?\u201d. \u201cVambora\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E foram de Salvador para o Rio de Fusca.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>De Fusca. Chegamos l\u00e1, fizemos contato com Jair. Ele disse: \u201cVou gravar aquela sua m\u00fasica\u201d. Essa m\u00fasica n\u00e3o era com Ederaldo, n\u00e3o. E eu tinha mostrado \u201cAl\u00f4 Madrugada\u201d, mas ele n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o. A\u00ed chegamos l\u00e1 no apartamento dele, no Leme. Estava toda a c\u00fapula da Polygram l\u00e1. E ficamos conversando. \u201cCanta a\u00ed a m\u00fasica que vou gravar\u201d, ele disse. \u201cCanta outra a\u00ed\u201d. A\u00ed eu cantei \u201cAl\u00f4 madrugada\u201d. E ele: \u201cVou mudar, quero gravar essa\u201d.<\/p>\n<p>A\u00ed, os caras da Polygram perguntaram pra gente: \u201cQuanto \u00e9 que voc\u00eas querem?\u201d. O Jair, naquela \u00e9poca, estava estourado com \u201cIrm\u00e3os coragem\u201d, estava estourado o disco, tudo estourado. A\u00ed eu cheguei para o editor, que era meu amigo, Z\u00e9 Loureiro, e\u00a0disse: \u201cN\u00e3o, pode deixar, eu s\u00f3 quero tirar umas fotos aqui para levar para a Bahia dizendo que a gente est\u00e1 assinando o contrato\u201d. O cara botou quatro fot\u00f3grafos. Eu assinando o contrato de uma m\u00fasica. Um aqui, um aqui, um aqui e um aqui. Mandou as fotos. Dinheiro eu n\u00e3o quis.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Foi o primeiro sucesso de Ederaldo tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Foi o primeiro sucesso de Ederaldo. E teve um detalhe que quando saiu o disco, eu fiquei chateado. Porque veio Edm\u00edlson de Jesus Pacheco e Ederaldo Gentil Pereira. N\u00e3o veio o nome art\u00edstico da gente.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Em 1963, voc\u00ea participou do grupo Fun\u00e7\u00e3o. Como foi isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Esse grupo foi ideia de um jornalista chamado Cid Seixas Fraga. Quem eram os personagens? Batatinha, eu, Ti\u00e3o Motorista, Galv\u00e3o, Moraes Moreira, Teresa, Celeste e um grupo chamado Ecl\u00e9ticos, que tinha a mesma forma\u00e7\u00e3o dos Beatles. Eu era considerado bossanovista, Batatinha fazia aquele samba com pitada de blues. E depois chegou Ederaldo Gentil. Quem pediu para Ederaldo Gentil se incorporar ao grupo Fun\u00e7\u00e3o foi o jornalista An\u00edsio F\u00e9lix. Ent\u00e3o, Ederaldo Gentil come\u00e7ou a fazer parte do grupo. Ent\u00e3o, o come\u00e7o foi esse a\u00ed. Sem nenhuma pretens\u00e3o mesmo de fazer m\u00fasica para ganhar dinheiro.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E a\u00ed, pouco depois teve esse contato Eliane Pittmann n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eliane Pittmann foi o seguinte. Eu morava no pensionato com meu amigo jornalista Fernando Vita.\u00a0E ele ficava me dizendo: \u201cRapaz, tem uma cantora a\u00ed que \u00e9 muito boa\u201d. E, na \u00e9poca, estava sendo realizado aqui na Bahia as filmagens de \u201cCapit\u00e3es de Areia\u201d, uma produ\u00e7\u00e3o francesa. E Eliane Pittmann fazia parte do elenco.<\/p>\n<p>Ela\u00a0estava para gravar um disco, estava bem na m\u00eddia, e anunciou que ia gravar um disco novo, que queria gravar sambas de compositores baianos.\u00a0A\u00ed\u00a0Vita falou: \u201cVamos l\u00e1 mostrar para mulher, que as suas m\u00fasicas s\u00e3o boas\u201d. Eu relutei um pouco, mas ele acabou me convencendo. A\u00ed fomos l\u00e1 e cantei duas m\u00fasicas para ela. Ela gravou as duas, mas s\u00f3 saiu uma. Porque a outra a censura pegou.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0\u201cFim de tarde\u201d e \u201cPassatempo\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Isso.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E \u201cPassatempo\u201d a censura cortou\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A censura cortou. E o disco saiu com 11 m\u00fasicas.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E n\u00e3o foi regravada depois?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o. N\u00e3o foi regravada depois, n\u00e3o. A m\u00fasica \u00e9 minha, de Batatinha e de Cid. Mas saiu s\u00f3 \u201cFim de tarde\u201d, que fiz com Galv\u00e3o. A\u00ed foi meu batismo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208360\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/28090540\/IMG-20190128-WA0021.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208360 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/28090540\/IMG-20190128-WA0021.jpg\" alt=\"Foto: Divulga\u00e7\u00e3p\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Edil Pacheco com os baluartes do samba baiano Ederaldo Gentil e Batatinha \u2013 Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Em 1972, voc\u00ea musicou uma pe\u00e7a de teatro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Quincas Berro D\u2019\u00e1gua. De Jorge Amado. A primeira encena\u00e7\u00e3o foi no teatro Vila Velha. Alta produ\u00e7\u00e3o. Com dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Augusto, que \u00e9 meu parceiro na m\u00fasica \u201cEnsinan\u00e7a\u201d. E tamb\u00e9m \u00e9 parceiro de Gil em \u201cRoda\u201d. Jo\u00e3o Augusto era diretor do teatro. A primeira encena\u00e7\u00e3o de Quincas Berro D\u2019\u00c1gua foi ele quem dirigiu.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Voc\u00ea musicou a pe\u00e7a toda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu fiz uma m\u00fasica das cinco\u00a0que entraram\u00a0na pe\u00e7a. Fizeram as m\u00fasicas eu, Dorival Caymmi, Gereba, Fernando Lona. N\u00f3s quatro. A\u00ed Nara Le\u00e3o gravou uma, MPB-4 outra\u2026<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Voc\u00ea gravou tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu gravei, foi a primeira vez que eu gravei cantando.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E depois, em 1975, voc\u00ea fez um show com Batatinha e Ederaldo, \u201cO samba nasceu na Bahia\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Isso a\u00ed aconteceu o seguinte. Primeiro, n\u00f3s t\u00ednhamos feito \u201cNosso samba simplesmente\u201d. A\u00ed n\u00e3o era com Batatinha. Era eu, Ederaldo e Cida Passos, uma cantora baiana. Fizemos esse show. Depois, no ano seguinte, n\u00f3s montamos \u201cE o samba continua\u201d. Tamb\u00e9m com Cida e Ederaldo. Era ali no Pelourinho, embaixo, no subsolo, um teatro maravilhoso. E quando n\u00f3s come\u00e7amos a fazer, era para ser coisa de duas semanas, mas acabamos ficando um temp\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed, ent\u00e3o, n\u00f3s chamamos Batatinha e montamos \u201cO Samba nasceu na Bahia\u201d. Chamamos Perfelino Neto, chamamos professor Cid Teixeira, fizemos uma pesquisa e levamos para o teatro um grupo que existia aqui no Nordeste de Amaralina, que cultuava ainda aquela coisa da chula, do samba de roda, com aquelas violas que eles mesmo faziam. Que foi um trabalho que o Fred Dantas depois at\u00e9 trabalhou nesse contexto, s\u00f3 que ele n\u00e3o teve muito elemento como n\u00f3s tivemos.<\/p>\n<p>Esse show era aberto com este grupo de Nordeste de Amaralina, com aquelas violas, com aqueles instrumentos que eles mesmo usavam. Isso deu uma pol\u00eamica a ponto de o Pasquim vir para c\u00e1. Baixou aqui uma equipe do Pasquim na \u00e9poca para cobrir e conversar sobre essa pol\u00eamica sobre onde o samba nasceu.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0J\u00e1 tinha aquela pol\u00eamica l\u00e1 atr\u00e1s, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Exatamente. A\u00ed veio o Sergio Cabral, o Ziraldo, veio o Paulo Francis, veio o Albino Pinheiro, veio Tarso de Castro. E esse show n\u00f3s levamos um tr\u00eas meses fazendo. \u201cO samba nasceu na Bahia\u201d. Foi um neg\u00f3cio maravilhoso.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Nos anos 70, voc\u00ea produziu o \u00e1lbum \u201cSamba da Bahia\u201d, com Riach\u00e3o, Batatinha e Panela.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>\u201cSamba da Bahia\u201d tem uma hist\u00f3ria muito interessante. Eu era Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Philips no come\u00e7o dos anos 70. E a\u00ed, montaram um show no Rio de Janeiro com Riach\u00e3o, Panela e Batatinha. Uma temporada. E este show foi gravado com a inten\u00e7\u00e3o de virar um disco. E Riach\u00e3o dia sim, dia n\u00e3o, falava: \u201cMalandro, cad\u00ea o disco?\u201d. E eu respondia: \u201cT\u00e1 vindo\u201d. A\u00ed comecei a cobrar o pessoal da Philips. At\u00e9 que o Roberto Menescal mandou a fita de rolo. \u201cEdil, escuta a\u00ed\u201d. E eu n\u00e3o gostei muito da qualidade t\u00e9cnica, n\u00e3o. E ele botou na minha m\u00e3o, n\u00e9? Ent\u00e3o, eu disse: \u201cN\u00e3o, essa bomba n\u00e3o est\u00e1 na minha m\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E n\u00e3o estava legal mesmo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o estava. A\u00ed eu mandei para Paulinho da Viola. \u201cSe Paulinho assinar embaixo a gente bota, se Paulinho n\u00e3o assinar, a gente n\u00e3o bota\u201d. E Paulinho n\u00e3o assinou.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Paulinho n\u00e3o tinha nada a ver com a gravadora, foi s\u00f3 um consultor ali.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Isso, foi um consultor. Ouviu a fita e disse que estava ruim. E Riach\u00e3o ali, me cobrando. A\u00ed eu falei para o Menescal: \u201cMenescal, \u00e9 o seguinte, a gente tem que gravar o disco. O Riach\u00e3o est\u00e1 me atormentando com essa hist\u00f3ria\u201d. Da\u00ed eles mandaram uma mesa de som e dois gringos. E eu fiquei encarregado\u00a0de produzir o disco.<\/p>\n<p>Na verdade, nos cr\u00e9ditos aparece Paulinho Lima como produtor. Mas Paulo Lima nem veio aqui, ele foi o cara que articulou. Eu saio no disco como arranjador, mas eu fui arranjador e produtor. Fui eu que produzi. N\u00f3s gravamos no Teatro Vila Velha, de noite, que tinha mais sil\u00eancio. Teve at\u00e9 um dia que um grilo apareceu e n\u00e3o conseguimos gravar. Enfim, gravamos esse disco \u201cSamba da Bahia\u201d, que tem Riach\u00e3o, Panela e Batatinha. \u00c9 um disco lindo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208880\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04105442\/bambas_edil_sesc_santana_0203-edit.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208880 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04105442\/bambas_edil_sesc_santana_0203-edit.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Com os Bambas de Sampa: \u201cS\u00f3 quero ficar cantando com essa turma\u201d \u2013 Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Mestre, um de seus maiores sucessos, para n\u00e3o dizer o maior, foi \u201cIjex\u00e1\u201d, gravado por Clara Nunes em 1982.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Em 1979, ela gravou \u201cApenas um adeus\u201d e depois, em 1981, gravou \u201cCora\u00e7\u00e3o valente\u201d. Ent\u00e3o, ela j\u00e1 vinha em uma sequ\u00eancia de grava\u00e7\u00f5es de m\u00fasicas minhas quando gravou \u201cIjex\u00e1\u201d. O \u201cApenas um adeus\u201d, que \u00e9 meu e do Roque [Ferreira], tem at\u00e9 uma hist\u00f3ria que o Paulinho Pinheiro, que na \u00e9poca era casado com Clara, colocou um verso no samba.\u00a0\u201cAs noites s\u00e3o cumpridas no passo da manh\u00e3\/ fa\u00e7amos as feridas o nosso talism\u00e3\u201d. Foi ele que botou.<\/p>\n<p>E o \u201cIjex\u00e1\u201d foi o seguinte: teve um anivers\u00e1rio de Jo\u00e3o Nogueira, na casa dele no Recreio, uma casa grande, lotada de gente. A Clara n\u00e3o estava l\u00e1, mas Paulinho foi. Era\u00a0um s\u00e1bado. A\u00ed o viol\u00e3o rodou, rodou. E\u00a0quando era l\u00e1 pras quatro da manh\u00e3, o viol\u00e3o chegou na minha m\u00e3o e eu cantei o \u201cIjex\u00e1\u201d. Quando eu cantei \u201cIjex\u00e1\u201d, eu senti um neg\u00f3cio diferente. A\u00ed, quando foi no outro dia, \u00e0s 10 da manh\u00e3, a Clara me liga: \u201cOi, vem pra c\u00e1\u201d. Ela fabricava vodka e fazia pra mim. \u201cJ\u00e1 fiz sua vodka\u201d. Ent\u00e3o, almo\u00e7amos eu, Clara, Paulinho, Mauro Duarte, o Bolacha, que sempre estava l\u00e1. A\u00ed, l\u00e1 pelas tantas, ela disse: \u201cVou gravar um disco novo, canta suas m\u00fasicas a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p>E eu escondendo meu neg\u00f3cio, porque eu fiz o \u201cIjex\u00e1\u201d para eu mesmo gravar. Porque estava fazendo um disco. Eu ia gravar aquele afox\u00e9, que era como n\u00f3s cham\u00e1vamos os ijex\u00e1s na \u00e9poca. Ainda n\u00e3o havia esse esclarecimento. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, fui eu quem esclareci isso para a m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p>Pois bem, conversa vai, conversa vem, cerveja, vodka, coisa e tal. Dali a pouco, ela diz assim: \u201cIsso \u00e9 bonito, mas voc\u00ea ainda n\u00e3o cantou o que voc\u00ea cantou ontem no anivers\u00e1rio do Jo\u00e3o, n\u00e3o. Paulinho me disse que voc\u00ea cantou um neg\u00f3cio diferente. Canta a\u00ed\u201d. E eu cantei. A\u00ed quando eu terminei de cantar, ela olhou para mim e disse: \u201cEu posso gravar isso a\u00ed?\u201d E eu respondi: \u201c\u00c9 sua\u201d.<\/p>\n<p>E essa m\u00fasica \u00e9 um divisor de \u00e1guas para mim. Sabe por qu\u00ea? Eu investi pra caramba.\u00a0Quando eu\u00a0fui para o Rio de Janeiro, eu gastei meu dinheiro todo. Vendi carro, vendi telefone, Moraes Moreira me emprestou dinheiro\u2026 A\u00ed veio \u201cIjex\u00e1\u201d e, gra\u00e7as a Deus, e eu retomei tudo.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E tem uma hist\u00f3ria legal a composi\u00e7\u00e3o dela, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A\u00ed foi o seguinte: eu comecei a fazer essa m\u00fasica no Rio e terminei de fazer em Maragogipe. Mas ficou um trechinho no meio s\u00f3 com a melodia, sem letra. E a\u00ed, l\u00e1 em Maragogipe, eu ficava, \u00e0s vezes, a manh\u00e3 inteira olhando para cima, na varanda. E minha sogra: \u201cMenino, voc\u00ea vai enlouquecer\u201d. E eu procurando. Isso durou um tempo, n\u00e3o foi um dia s\u00f3, n\u00e3o. At\u00e9 que determinada noite eu acordei a madame, Ana Maria, cutuquei ela e mandei ela escrever: \u201cRevela a leveza de um povo sofrido, de rara beleza, que vive cantando, profunda grandeza\u201d. A\u00ed, ela: \u201cP\u00f4, que bom, uma parceria minha e sua\u201d. E eu digo: \u201cNada disso, \u00e9 s\u00f3 minha\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 E o pessoal veio atr\u00e1s de voc\u00ea.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A\u00ed, come\u00e7ou. Gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0A\u00ed, voc\u00ea teve a ideia de compor sobre outros blocos de afox\u00e9.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Foi. Alcione gravou \u201cAfreket\u00ea\u201d e \u201cAra-k\u00eato\u201d, Agep\u00ea gravou \u201cIl\u00ea Ayi\u00ea\u201d e Roberto Ribeiro gravou \u201cOlodum\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Tudo com Paulo C\u00e9sar Pinheiro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Tudo com ele. E a\u00ed, um dia ele me ligou, dizendo que a gravadora queira fazer um disco, mas s\u00f3 t\u00ednhamos cinco m\u00fasicas.\u00a0Essas que Clara, Agep\u00ea, Alcione e Roberto Ribeiro tinham gravado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208881\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04110211\/bambas_edil_sesc_santana_0542.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208881 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04110211\/bambas_edil_sesc_santana_0542.jpg\" alt=\"Foto: Antonio Brasiliano\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O sambista baiano completou 50 anos de carreira neste ano de 2019 \u2013 Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Essa ideia da gravadora tinha a ver com aquela s\u00e9rie de sambas do Mauro Duarte e do Paulo C\u00e9sar Pinheiro sobre Escolas de Samba?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Exatamente. O gancho era esse.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Porque eles fizeram de v\u00e1rias Escolas de Samba do Rio, come\u00e7ando com \u201cPortela na Avenida\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Era para sair essa produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, mas esse disco n\u00e3o chegou a ser feito. E a Philips gostou mais do projeto de c\u00e1. A\u00ed o Paulinho veio pra Bahia\u2026<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Voc\u00eas j\u00e1 tinham cinco m\u00fasicas prontas e precisavam fazer outras.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>T\u00ednhamos quarenta dias para fazer outras cinco para fechar o disco. Uma mordomia total aqui, tudo pago pela gravadora. Quando ele chegou\u2026 Tr\u00eas horas depois que ele chegou a gente j\u00e1 tinha tr\u00eas prontas. No outro dia fizemos mais uma. A\u00ed ficou faltando uma. E eu disse: \u201cEssa n\u00f3s n\u00e3o vamos fazer agora\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0\u201cVamos curtir um pouco\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A\u00ed s\u00f3 no fim que fizemos a \u00faltima.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 E como foi que te despertou essa coisa de compor ijex\u00e1s?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Em 1980, eu acho, eu comecei a pensar em fazer um disco. Eu tinha feito \u201cPedras Afiadas\u201d em 1977 e comecei a pensar em fazer um novo disco. A\u00ed, pensei:\u00a0 \u201cVou fazer um afox\u00e9\u201d. E comecei a\u00a0compor \u201cIjex\u00e1\u201d, que todo mundo conhece por \u201cFilhos de Gandhi\u201d. A\u00a0palavra \u201cOju Ob\u00e1\u201d eu vi num muro, passando de carro na\u00a0Vasco da Gama.<\/p>\n<p>Depois, eu fiz uma pesquisa na Secretaria de Cultura, fiz um levantamento dos blocos afros. E foi a\u00ed que eu fui descobrir que todo mundo falava que o afox\u00e9 era um ritmo, era conhecido como um g\u00eanero musical, e vim descobri que n\u00e3o era. Descobri que o ijex\u00e1 \u00e9 o ritmo e os afox\u00e9s s\u00e3o as entidades. Ent\u00e3o, foi um divisor de \u00e1guas. Eu fiz para gravar, mas a Clara me pediu e eu n\u00e3o pude negar.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E \u201cFilhos de Gandhi\u201d foi seu primeiro ijex\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o, antes teve uma m\u00fasica chamada \u201cOlhos de Nan\u00e3\u201d. Jair Rodrigues gravou essa m\u00fasica bem antes, mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia que era ijex\u00e1, s\u00f3 vim me tocar depois.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Quando voc\u00ea fez \u201cOlhos de Nan\u00e3\u201d voc\u00ea j\u00e1 tinha essa coisa com os ijex\u00e1s de escutar os Filhos de Gandhi? Do Gil? De onde veio essa coisa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Acho que foi bem antes do Gil.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Mas vem de onde, ent\u00e3o? Dos Filhos de Gandhi? Do Carnaval da Bahia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>\u00c9, exatamente.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Talvez tenha sido voc\u00ea quem levou o ritmo do ijex\u00e1 para a ind\u00fastria cultural, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>O Gil tamb\u00e9m fazia. Agora, eu n\u00e3o sei se o Gil j\u00e1 sabia que o ijex\u00e1 era o ritmo ou o toque. At\u00e9 hoje eu vejo alguns artistas\u00a0dizerem: \u201cVou cantar um afox\u00e9\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0O afox\u00e9 \u00e9 o agrupamento.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>O afox\u00e9 \u00e9 a entidade.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0\u00c9 como se fosse a Escola de samba, o bloco. E o ijex\u00e1 \u00e9 a batida, o ritmo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>O afox\u00e9 \u00e9 a Escola de Samba e o ijex\u00e1 \u00e9 o samba-enredo, pronto.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Que vem do candombl\u00e9.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Exatamente. \u00c9 o toque de chamamento de Ogum. T\u00e1 entendendo? \u00c9 isso a\u00ed que \u00e9 o ijex\u00e1. Hoje, eu\u00a0fa\u00e7o quest\u00e3o de falar em \u201cijex\u00e1\u201d e n\u00e3o \u201cafox\u00e9\u201d.\u00a0De alguma forma, serviu para colocar o ijex\u00e1 como g\u00eanero caracterizado na m\u00fasica brasileira, como tem outros tantos.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Queria falar um pouco do disco \u201cP\u00e9rolas Finas\u201d, tributo a Ederaldo Gentil, que voc\u00ea produziu.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>O \u201cP\u00e9rolas Finas\u201d \u00e9 o seguinte. O Ederaldo estava com aquele problema de depress\u00e3o. E o pessoal, acho que o Carlinhos Brown, junto com a Timbalada, chegou a gravar alguma coisa dele. E a irm\u00e3 dele disse que isso melhorou a cabe\u00e7a dele. A\u00ed, conversei com alguns amigos meus, Jos\u00e9 Cerqueira, que era da Brasken, e\u00a0n\u00f3s conseguimos o dinheiro e fizemos o disco.\u00a0Um disco maravilhoso, mod\u00e9stia \u00e0 parte.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Maravilhoso, mesmo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Ficou legal. Um disco \u00e0 altura que Ederaldo merece.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208882\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04110655\/bambas_sampa_edil_cachuera_0194-edit.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208882 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04110655\/bambas_sampa_edil_cachuera_0194-edit.jpg\" alt=\"Foto: Antonio Brasiliano\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Pacheco foi um dos respons\u00e1veis pela fixa\u00e7\u00e3o do ijex\u00e1 como g\u00eanero musical \u2013 Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Voc\u00ea tamb\u00e9m produziu o disco \u201cDo Lundu ao Ax\u00e9\u201d.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>O \u201cDo Lundu ao Ax\u00e9\u201d\u00a0\u00e9 uma esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o de \u201cO samba nasceu na Bahia\u201d. Eu andei um per\u00edodo fazendo uns trabalhos com o Paulinho Boca, meu parceiro Paulinho Boca, e pensei em\u00a0fazer um disco falando do samba da Bahia. Mas Paulinho pensou em uma coisa mais abrangente. Na hora, veio a ideia:\u00a0\u201cDo Lundu ao Ax\u00e9\u201d. Isso a\u00ed foi definitivo. \u201cDo lundu ao Ax\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Esse disco levou uns quatro ou cinco anos para a gente fazer porque foi se desdobrando, muitas pesquisas e tal. E eu tenho um d\u00e9bito com Vicente Barreto, que n\u00f3s esquecemos de colocar \u201cMorena Tropicana\u201d nesse disco. Mas eu ainda penso em fazer um document\u00e1rio, um v\u00eddeo, alguma coisa. E jogar o \u201cMorena Tropicana\u201d, do Vicente Barreto, que \u00e9 uma m\u00fasica maravilhosa. E aproveito a oportunidade para pedir desculpas a ele.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Teve mais algum disco que voc\u00ea produziu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu produzi o disco \u201cPara ver o meu povo sambar\u201d, de Walmir Lima. Tinha 25 anos que ele n\u00e3o gravava um disco. E eu consegui, juntamente com o professor Paulo Dourado. Arrumamos de gravar o CD dele e fizemos esse disco, que tem um samba da gente que a Marrom gravou agora, \u201cSanto Amaro \u00e9 uma flor\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E voc\u00ea tinha me dito certa vez que Ivete Sangalo ia gravar \u201cDe amor \u00e9 bom\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Ia gravar, n\u00e3o. Gravou.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 E saiu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o. Isso \u00e9 importante voc\u00ea colocar na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 N\u00e3o saiu no disco?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o, cortaram. Cortaram porque queriam me dar 5% de 18,5% que eu tinha direito. A Universal. A Universal tirou minha m\u00fasica do disco de Ivete Sangalo, porque queria me dar 5% de 18,5% que eu tenho direito e eu n\u00e3o quis. A\u00ed eles tiraram. Isso \u00e9 um terror, rapaz. Perdi uma grana, viu, velho? Mas tamb\u00e9m n\u00e3o abri m\u00e3o, n\u00e3o. Conversei muito com Paulinho Pinheiro.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E ele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Os caras querem a m\u00fasica como m\u00fasica incidental. N\u00e3o \u00e9 m\u00fasica incidental. M\u00fasica incidental \u00e9 quando pega um pedacinho e voc\u00ea pega e junta. E n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Era um pout-pourri?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Era um pout-porri. M\u00fasica incidental \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Ela n\u00e3o gravou e as outras que iriam entrar junto com o pout-pourri ca\u00edram tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Era um pout-pourri com duas m\u00fasicas. \u201cC\u00e9u da boca\u201d e depois \u201cAh, como \u00e9 bom viver, \u00e9 bom viver de amor\u2026\u201d P\u00f4, meu dinheiro. Eles vieram me dizer: \u201cOlha, Edil, a gente j\u00e1 falou com a \u00c2ngela\u00a0[Nogueira, vi\u00fava de Jo\u00e3o Nogueira] e\u00a0ela aceitou\u201d. \u201cEu n\u00e3o aceito\u201d. E liguei para \u00c2ngela. A\u00ed, tirou. Tirou. A gravadora tirou do disco. Depois eu acabei mandando um manuscrito pro empres\u00e1rio de Ivete: \u201cEstou autorizando lan\u00e7ar a m\u00fasica, n\u00e3o concordo com rela\u00e7\u00e3o a meu percentual, mas est\u00e1 autorizado a lan\u00e7ar\u201d. A\u00ed, o cara deve ter dito a ela: \u201cAh, ele n\u00e3o liberou, n\u00e3o, esse canalha a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 E como era sua parceria musical com Jo\u00e3o Nogueira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Todas as m\u00fasicas que fiz com Jo\u00e3o, praticamente todas, foram feitas em cima do que acontecia com a gente no momento.\u00a0Com \u201cMel da Bahia\u201d foi assim. Quando n\u00f3s come\u00e7amos a fazer o \u201cMel da Bahia\u201d, o antigo Mercado Modelo ainda existia. A\u00ed ele voltou para o Rio e o Mercado pegou fogo. E a gente teve que alterar o samba todo por causa do ensejo do Mercado Modelo. A\u00ed, o Mercado foi reconstru\u00eddo e eu consegui trazer ele para a reinaugura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes disso, ele veio aqui e n\u00f3s fomos almo\u00e7ar no Camafeu de Ox\u00f3ssi, no Mercado Modelo. Camafeu tinha um restaurante l\u00e1. Camafeu de Ox\u00f3ssi e M\u00e3e Menininha do Gantois. Um do lado do outro. E fomos no Camafeu. A\u00ed, chamamos Camafeu, chamamos o gar\u00e7om. \u201cCad\u00ea Camafeu?\u201d \u201cCamafeu n\u00e3o est\u00e1 mais aqui, ele alugou o restaurante para o portugu\u00eas. \u201cChama o portugu\u00eas\u201d. Era Seu Manoel, o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Quando ele chegou, a gente come\u00e7ou a cantar: \u201cCad\u00ea Camafeu, Manel\u2026\u201d E tinha um texto do Jorge Amado assim, em cima, que falava da Bahia, dos mist\u00e9rios. E no final dizia assim: \u201cVeio a Bahia e n\u00e3o conheceu Camafeu, n\u00e3o conheceu Salvador\u201d. E foi a\u00ed que a gente\u00a0colocou\u00a0\u201cN\u00e3o viu Camafeu?\/ n\u00e3o foi \u00e0 Bahia\/ falou Jorge Amado\u201d na m\u00fasica.\u00a0 E trocamos o Manuel por Seu Jorge Amado. \u201cCad\u00ea Camafeu, Seu Jorge? Cad\u00ea Camafeu, Jorge Amado?\u201d E fizemos o \u201cMel da Bahia\u201d.\u00a0O Jo\u00e3o gravou. E depois, na reinaugura\u00e7\u00e3o do Mercado Modelo, eu trouxe ele para c\u00e1 e ele cantou essa m\u00fasica, \u201cMel da Bahia\u201d.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Como era a amizade com ele? Como foi que voc\u00ea o conheceu e se tornou amigo dele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Com o Jo\u00e3o, eu acho que foi aqui. Eu andava muito no Rio de Janeiro, ligado no r\u00e1dio e uma vez eu ouvi Jo\u00e3o cantando uma m\u00fasica. \u201cHoje eu estou cheio de alegria\u201d [\u201cSonho de Bamba\u201d].\u00a0E ficou aquele neg\u00f3cio. A\u00ed, depois eu soube que Jo\u00e3o vinha para c\u00e1, teve uma festa da EMI-Odeon aqui em Salvador. Acho que veio Dori Caymmi, Jo\u00e3o Nogueira, Roberto Ribeiro, uma s\u00e9rie de artistas. Era uma coisa para Dorival Caymmi, anivers\u00e1rio dele. E foi a\u00ed que eu conheci Jo\u00e3o Nogueira aqui, pessoalmente.<\/p>\n<p>E come\u00e7amos a manter uma amizade. E tem particularidades. Quando eu fui contratado pela Polygram para fazer um disco, Helena Oliveira, que era da diretoria comercial da Phillips, me disse: \u201cEdil, qual artista voc\u00ea acha que a gente deve trazer para a companhia?\u201d Eu disse: \u201cJo\u00e3o Nogueira\u201d. \u201cP\u00f4, voc\u00ea est\u00e1 trazendo o cara para concorrer com voc\u00ea?\u201d Eu: \u201cn\u00e3o tem problema\u201d. T\u00e1 entendendo? Fui eu que levei Jo\u00e3o Nogueira para gravadora, p\u00f4.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Amizade boa, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>\u00c9. Eu me lembro que eu estava gravando e ele foi l\u00e1. Eu disse \u201c\u00d3 Jo\u00e3o, vou trazer voc\u00ea\u201d. Porque ele estava querendo chegar n\u00e9?\u00a0 E eu, de alguma forma, dei um empurr\u00e3o, vamos dizer assim.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208883\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04110900\/bambas_edil_sesc_santana_0028-edit.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208883 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04110900\/bambas_edil_sesc_santana_0028-edit.jpg\" alt=\"Foto: Antonio Brasiliano\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Edil Pacheco e as pastoras dos Bambas de Sampa, em S\u00e3o Paulo \u2013 Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E a\u00ed, Edil, s\u00e3o mais de 250 composi\u00e7\u00f5es gravadas. \u00c9 m\u00fasica, hein?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Acho que \u00e9 at\u00e9 mais.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Qual \u00e9 a que voc\u00ea mais gosta dessas que foram gravadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Tem uma vez que est\u00e1vamos eu o Jo\u00e3o Nogueira querendo fazer um samba na casa dele. Tomamos umas, coisa e tal, e nada. De repente, de uma amendoeira caiu uma folha. Quando a folha caiu, os dois falaram na mesma hora, com a mesma melodia. P\u00f4, a gente estava t\u00e3o sintonizado para fazer o samba que quando a folha caiu,\u00a0cantamos\u00a0juntos: \u201cO vento bateu na folha\u201d. A\u00ed completamos: \u201cFez a folha voar\/ na folha escrevi um verso\/ botei no correio expresso\/ pra depressa para o meu amor chegar\u201d [\u201cF\u00f4ia de amor\u201d]. Est\u00e1 entendendo?<\/p>\n<p>O primeiro samba que fiz com ele,\u00a0\u201cSalve a Bahia\u201d foi assim, tamb\u00e9m. No Mercado Modelo,\u00a0uma vez que eu o\u00a0trouxe pra c\u00e1. Est\u00e1vamos tomando uma cerveja eu, ele e \u00c2ngela. A\u00ed ele: \u201cVou para a Bahia a tristeza eu deixo de lado\u201d. Come\u00e7ou a fazer o samba sozinho e deixou na minha. Levou cinco anos na minha m\u00e3o. S\u00f3 a primeira parte. \u201cVou passear no meio da multid\u00e3o\/ bugiganga eu compro no mercado\/ cerveja bebo na Concei\u00e7\u00e3o\u201d. Ele deixou para mim. \u201cP\u00f4 cad\u00ea o samba?\u201d Cinco anos depois eu fiz: \u201cEstou falando consciente e baseado\/ n\u00e3o fa\u00e7o verso trocado nem mudo de opini\u00e3o\/ Tenho meu corpo fechado\u2026\u201d O Jair Rodrigues gravou antes do Jo\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208984\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/05082106\/bambas_de_sampa_salvador_0496.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208984 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/05082106\/bambas_de_sampa_salvador_0496.jpg\" alt=\"Foto: Antonio Brasiliano\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Todos os meses, Pacheco organiza o\u00a0 \u201cSamba na Varanda\u201d em Salvador \u2013 Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Voc\u00ea faz melodia e letra. Como \u00e9? Vem de uma vez? \u00c0s vezes voc\u00ea trabalha a melodia em cima da letra? A letra em cima da melodia ? N\u00e3o tem regra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o tem. \u00c0s vezes j\u00e1 vem pronta. E com Jo\u00e3o era tudo assim. Com Jo\u00e3o, todas as m\u00fasicas que a gente fez foi assim.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Outra coisa marcante em sua carreira \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o do Dia do Samba em Salvador.<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Desde 1987 eu toco o Dia do Samba. Mas desde 1972 eu participo ativamente do Dia do Samba.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Que teve a primeira edi\u00e7\u00e3o l\u00e1 no Campo da Gra\u00e7a ainda, certo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Que n\u00e3o era Dia do Samba ainda, era Noite do Samba e Dend\u00ea. E depois ficou caracterizado como Noite do Samba. S\u00f3 a partir de 1987 que a gente come\u00e7ou [a chamar de] Dia do Samba. Porque as festas eram sempre \u00e0 noite, mas foram crescendo de forma que come\u00e7aram a ter manifesta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios lugares, um grupo tocando aqui, outro ali. A\u00ed deixou de ser \u201cNoite\u201d. Durante o dia tinham v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es, a\u00ed come\u00e7ou o Dia do Samba.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0E a\u00ed em 1987 come\u00e7ou a ter uma coisa organizada com governo, prefeitura?\u00a0O poder p\u00fablico entrou na jogada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014<\/strong>\u00a0Em 1987, n\u00f3s viajamos para fazer o carnaval no Benin. Uma caravana baiana. Uma grande parte do Il\u00ea Aiy\u00ea, M\u00e3e Stella de Ox\u00f3ssi, Pai Balbino, Pierre Verger, Caryb\u00e9, Gilberto Gil, eu. Fizemos um carnaval de 15 dias l\u00e1. E durante essa experi\u00eancia que n\u00f3s fizemos l\u00e1 eu conversei muito com Gil. \u201cP\u00f4, ano passado n\u00e3o teve Dia do Samba. Vamos fazer o Dia do Samba de novo\u201d.\u00a0Porque isso foi no in\u00edcio de 1987. E em 1986, n\u00e3o houve o Dia do Samba. A\u00ed, chamei Gil, que era presidente da Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Matos, e marquei uma reuni\u00e3o. Fomos eu, Batatinha, Ederaldo e Ti\u00e3o Motorista. Reivindicamos uma ajuda para fazer o Dia do Samba. E retomamos em 1987.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0A\u00ed j\u00e1 com a Prefeitura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Quem consegui recurso foi a Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Matos [ligada \u00e0 Prefeitura de Salvador], atrav\u00e9s de Gil, que era o presidente na \u00e9poca. Recurso esse que\u00a0destinado\u00a0s\u00f3 aos m\u00fasicos acompanhantes. Os artistas que cantaram de gra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Teve algum Dia do Samba que foi mais marcante pra voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Teve um que veio Chico Buarque. Ele combinou que viria. E a\u00ed quebrou o p\u00e9 jogando bola e n\u00e3o veio. A gente n\u00e3o chegou a anunciar\u00a0ao p\u00fablico. Antes de anunciar, ele j\u00e1 disse que n\u00e3o poderia vir porque tinha quebrado o p\u00e9. Mas nos bastidores, as pessoas envolvidas no Dia do Samba sabiam que Chico viria e ele n\u00e3o veio. E no ano seguinte ele confirmou. Me lembro bem que fui com Batatinha no [Hotel] M\u00e9ridien falar com ele. Porque ele n\u00e3o conhecia Batatinha.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Isso foi nos anos 90 ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Acho que 1992 ou 1993. Ent\u00e3o, n\u00f3s fomos l\u00e1 e ele confirmou. A\u00ed, ficou aquele neg\u00f3cio: a gente come\u00e7ou a anunciar que Chico viria para o Dia do Samba e ficou aquela expectativa, \u201cser\u00e1 que ele vem mesmo?\u201d. E eu me lembro que eu disse: \u201c\u00d3, Chico, eu n\u00e3o tenho dinheiro, eu tenho ajuda de custo\u201d.\u00a0E Chico foi o \u00fanico participante do Dia do Samba que trouxe m\u00fasicos. A\u00ed, ele disse: \u201cVoc\u00ea d\u00e1 para os m\u00fasicos\u201d.\u00a0E abriu o show cantando: \u201cPensou que eu n\u00e3o vinha mais, pensou\/ cansou de esperar por mim\u201d [\u201cDe volta ao samba\u201d]. Foi uma apoteose.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208928\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04154435\/IMG-20190128-WA0037.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208928 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/04154435\/IMG-20190128-WA0037.jpg\" alt=\"Foto: Acervo Edil Pacheco\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Edil Pacheco e Leci Brand\u00e3o em uma lembran\u00e7a de tempos idos \u2013 Foto: Acervo Edil Pacheco<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 Voc\u00ea comp\u00f4s com Batatinha, Ederaldo Gentil. Com letristas, melodistas\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>O Luiz Vieira, o grande Luiz Vieira, era meu amigo. Est\u00e1 no Rio de Janeiro, firme e forte. Ele disse: \u201cRapaz, voc\u00ea faz m\u00fasica com todo mundo\u201d. E eu fa\u00e7o mesmo. Tenho com Capinan, com Paulo C\u00e9sar Pinheiro, tenho com Moraes Moreira, Luiz Melodia, tenho com Nelson Rufino, tenho com Walmir Lima, tenho com Roque Ferreira. As minhas m\u00fasicas s\u00e3o simples. Mas tem um negocinho assim que tem hora que pega. P\u00f4, \u00e9 simples pra caramba. Porque o dif\u00edcil \u00e9 voc\u00ea fazer o simples. Fazer o simples que \u00e9 dif\u00edcil. Fazer o dif\u00edcil \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Como voc\u00ea v\u00ea o samba da Bahia dentro do universo do samba brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu acho que o samba da Bahia tem as suas peculiaridades. O samba que eu fa\u00e7o, tem suas particularidades. O samba de Batatinha, de Nelson Rufino, tem suas particularidades. Mas o samba da Bahia est\u00e1 dentro de um contexto nacional. Nelson Rufino \u00e9 um exemplo disso: talvez ele seja o compositor baiano com mais sucessos. Ent\u00e3o, o samba da Bahia est\u00e1 dentro do sistema, est\u00e1 dentro deste contexto do samba do Brasil. Tem muita gente que canta os sambas achando que s\u00e3o de compositores cariocas e s\u00e3o m\u00fasicas dos baianos, Nelson Rufino, Roque Ferreira, Edil Pacheco\u2026 Ent\u00e3o, acho que o samba da Bahia est\u00e1 dentro deste contexto, est\u00e1 inserido na base da m\u00fasica popular brasileira de uma forma concreta, substancial.<\/p>\n<p><b>.ba\u00a0\u2014 E\u00a0voc\u00ea acredita que a Bahia cuida bem do samba?<\/b><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Por qu\u00ea? Como voc\u00ea v\u00ea isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>\u00c9 uma luta rapaz. E eu fico muito preocupado, converso muito com Nelson Rufino com rela\u00e7\u00e3o a isso. A gente trabalha para mudar esse conceito, n\u00e9? Est\u00e1 entendendo? Nelson Rufino e Roque Ferreira, por exemplo, s\u00e3o dois expoentes, s\u00e3o uns caras que est\u00e3o na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira. E a m\u00fasica de Nelson Rufino talvez tenha um alcance ainda maior. Agora, a Bahia n\u00e3o cuida bem do samba, n\u00e3o.\u00a0 Para mim, o samba nasceu aqui. Agora, que o Rio de Janeiro cuida melhor do samba, isso \u00e9 uma verdade.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0O que acontece?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>A classe m\u00e9dia baiana n\u00e3o vai ao samba. Com raras exce\u00e7\u00f5es. N\u00e3o estou dizendo que isso \u00e9 ci\u00eancia exata. Mas voc\u00ea vai no Rio de Janeiro, voc\u00ea v\u00ea as meninas de 14, 15 anos no samba, cantando tudo. Porra, bicho, a garotada. Eu vou l\u00e1 no Democr\u00e1ticos, no Rio, e quando d\u00e1 o intervalo, que botam a m\u00fasica mec\u00e2nica, eu saio observando a garotada cantando as m\u00fasicas. Tem um diferencial, logicamente: tem esse samba que esses caras botam a\u00ed\u2026<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0O pagode baiano. Mas a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o samba tradicional n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>N\u00e3o, \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0Mas tem a resist\u00eancia, n\u00e9, mestre?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Tem. Tem o neg\u00f3cio de Guiga, tem a coisa que eu fa\u00e7o aqui, tem uma coisa isolada ali. Seu Regis de Itapu\u00e3, o grupo Botequim. E a gente vai tentando a\u00ed.<\/p>\n<figure id=\"attachment_208986\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/05082840\/bambas_sampa_edil_cachuera_0205.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208986 size-full\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/05082840\/bambas_sampa_edil_cachuera_0205.jpg\" alt=\"Foto: Antonio Brasiliano\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cProduzo bem menos. Acho que a autocr\u00edtica est\u00e1 maior\u201d, diz Pacheco \u2013 Foto: Antonio Brasiliano<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014 E a nova gera\u00e7\u00e3o que vem a\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu vejo como uma coisa maravilhosa. O \u00canio [Bernardes] e o [Paulinho] Timor produziram recententemente discos \u00f3timos trazendo a velha guarda do samba baiano. E os m\u00fasicos que gravaram s\u00e3o todos jovens. E bons pra caramba. A Bahia tem \u00f3timos novos talentos, mas ainda est\u00e1 atr\u00e1s de S\u00e3o Paulo e Rio.<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que onde est\u00e1 se fazendo o melhor samba \u00e9 em S\u00e3o Paulo, com a garotada muito boa de samba. E eu fico impressionado que o p\u00fablico que vai me ver l\u00e1 \u00e9 diferente do p\u00fablico que vai me ver aqui. Aqui \u00e9 um p\u00fablico mais experiente e em S\u00e3o Paulo s\u00e3o mais jovens.\u00a0E eu acho que esse interc\u00e2mbio com o pessoal de s\u00e3o Paulo ainda vai acrescentar muito para o samba da gente. N\u00e3o falo nem por mim, mas pelos outros, Guiga de Ogum, Seu Regis de Itapu\u00e3, Bartho Ara, que s\u00e3o compositores que t\u00eam pouca coisa gravada.<\/p>\n<p><strong>.ba\u00a0\u2014\u00a0O que falta para voc\u00ea realizar como sambista ap\u00f3s 50 anos de carreira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EP \u2014\u00a0<\/strong>Eu n\u00e3o fa\u00e7o muito planejamento, n\u00e3o.\u00a0Estou ficando mais rigoroso. Fico achando que as coisas n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o boas e fico querendo fazer melhor. Produzo bem menos. Agora, eu acho que a autocr\u00edtica est\u00e1 maior.\u00a0J\u00e1 n\u00e3o atuo como atuava antes. Eu costumava levar sambistas daqui para o Rio, hoje n\u00e3o fa\u00e7o mais isso.<\/p>\n<p>Mas eu acho que estou numa fase boa, essa rela\u00e7\u00e3o com essa turma dos Bambas de Sampa [conjunto de S\u00e3o Paulo]\u00a0 me deu um g\u00e1s, porque voc\u00ea convive com uma turma mais nova. Teve um dia que n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1 na Barra do Paragua\u00e7u cantando com eles. Rapaz, eu senti uma emo\u00e7\u00e3o que eu nunca tinha sentido na minha vida, nem em show, nem em lugar nenhum, foi uma emo\u00e7\u00e3o muito grande. N\u00e3o quero fazer mais nada, s\u00f3 quero ficar cantando com essa turma. \u00c9 uma coisa como religi\u00e3o, uma coisa de tribo. Bonito para caramba, fiquei emocionado de chorar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KlXHSrqr4Rk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela\u00a0estava para gravar um disco, estava bem na m\u00eddia, e anunciou que ia gravar um disco novo, que queria gravar sambas de compositores baianos.\u00a0A\u00ed\u00a0Vita falou: \u201cVamos l\u00e1 mostrar para mulher, que as suas m\u00fasicas s\u00e3o boas\u201d. Eu relutei um pouco, mas ele acabou me convencendo. A\u00ed f<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":304085,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-304084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/samba-da-bahia.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=304084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304084\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/304085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=304084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=304084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=304084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}