{"id":304224,"date":"2019-12-09T08:07:48","date_gmt":"2019-12-09T11:07:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=304224"},"modified":"2019-12-09T08:07:48","modified_gmt":"2019-12-09T11:07:48","slug":"tom-jobim-e-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tom-jobim-e-a-ditadura\/","title":{"rendered":"Tom Jobim e a ditadura"},"content":{"rendered":"<div class=\"td-post-header\">\n<header class=\"td-post-title\">\n<h1 class=\"entry-title\"><\/h1>\n<p class=\"td-post-sub-title\"><em><strong>Ent\u00e3o vou ao reflexo da m\u00fasica de Tom Jobim no romance \u201cA mais longa dura\u00e7\u00e3o da juventude\u201d. A sua m\u00fasica vem como um dos acontecimentos est\u00e9ticos do tempo da ditadura<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"td-module-meta-info\">\n<div class=\"td-post-author-name\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-sharing-top\">\n<div id=\"td_social_sharing_article_top\" class=\"td-post-sharing td-ps-bg td-ps-notext td-post-sharing-style1 \">\n<div class=\"td-post-sharing-visible\">\n<div class=\"td-social-sharing-button td-social-sharing-button-js td-social-handler td-social-share-text\">\n<div class=\"td-social-but-text\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-content\">\n<div class=\"td-post-featured-image\"><a class=\"td-modal-image\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/12\/tom-jobim-e-a-ditadura-por-urariano-mota-tom-jobim.jpg\" data-caption=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"entry-thumb\" title=\"tom jobim\" src=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/12\/tom-jobim-e-a-ditadura-por-urariano-mota-tom-jobim.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 690px) 100vw, 690px\" srcset=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/12\/tom-jobim-e-a-ditadura-por-urariano-mota-tom-jobim.jpg 690w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/12\/tom-jobim-e-a-ditadura-por-urariano-mota-tom-jobim-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/12\/tom-jobim-e-a-ditadura-por-urariano-mota-tom-jobim-631x420.jpg 631w\" alt=\"\" width=\"690\" height=\"459\" \/><\/a><\/div>\n<div class=\"td-a-rec td-a-rec-id-content_top  td_uid_2_5dee2266ab94b_rand td_block_template_10\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"adv-dfp-google\" data-google-query-id=\"CJfHzreuqOYCFYSZWwodczgMKQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/21622511100\/jornalggn_blog\/jornalggn_horizontal_2_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h4>P<strong>or Urariano Mota<\/strong><\/h4>\n<p>Por for\u00e7a destes meses malditos de fascismo, para falar sobre Tom Jobim pesquiso sobre a sua vida na ditadura, sobre o que ele passou e nem sempre deixou claro. Na Wikip\u00e9dia, encontro:<\/p>\n<p>\u201cEm 1971,\u00a0ano anterior \u00e0 composi\u00e7\u00e3o de \u2018\u00c1guas de Mar\u00e7o\u2019, Tom Jobim havia sofrido a \u00fanica grande persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em sua vida.<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81guas_de_Mar%C3%A7o#cite_note-GARCIA-2010\/RIVISTA-4\">[4]<\/a>\u00a0Em um protesto contra a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Censura\">censura<\/a>\u00a0que vigorava durante a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ditadura_militar_no_Brasil\">ditadura militar no Brasil<\/a>, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Festival_Internacional_da_Can%C3%A7%C3%A3o\">Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o<\/a>, da\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rede_Globo\">Rede Globo<\/a>. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados.<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81guas_de_Mar%C3%A7o#cite_note-TERRA-5\">[5]<\/a>\u00a0Segundo declara\u00e7\u00f5es posteriores de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Chico_Buarque\">Chico Buarque<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Edu_Lobo\">Edu Lobo<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ruy_Guerra\">Ruy Guerra<\/a>, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atr\u00e1s e retornassem ao festival. A press\u00e3o n\u00e3o funcionou, mas \u2013 na opini\u00e3o de Chico e Ruy \u2013 instigou o aparelho repressivo do regime a enquadr\u00e1-los na\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lei_de_Seguran%C3%A7a_Nacional\">Lei de Seguran\u00e7a Nacional<\/a>.<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81guas_de_Mar%C3%A7o#cite_note-GARCIA-2010\/RIVISTA-4\">[4]<\/a>\u00a0Depois, Tom foi intimado v\u00e1rias vezes a prestar depoimento, chegou a ter o seu\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Telefone\">telefone<\/a>\u00a0grampeado e a suas\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carta\">cartas<\/a>, violadas.<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81guas_de_Mar%C3%A7o#cite_note-GARCIA-2010\/RIVISTA-4\">[4]<\/a>\u00a0Segundo Tom, a quest\u00e3o foi resolvida \u2018de uma maneira bastante brasileira\u2019, quando um escriv\u00e3o de pol\u00edcia solid\u00e1rio o chamou e disse: \u2018Olhe, o senhor n\u00e3o queira se meter com pol\u00edcia\u2026 Isso aqui n\u00e3o \u00e9 bom. Neg\u00f3cio de pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 bom. Vou bater um neg\u00f3cio aqui para o senhor\u2026\u2019. E assim, o escriv\u00e3o bateu \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/M%C3%A1quina_de_escrever\">m\u00e1quina de escrever<\/a>\u00a0uma declara\u00e7\u00e3o, que Tom assinaria. \u2018Este papel aqui diz que o senhor n\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o\u2019\u201d.<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81guas_de_Mar%C3%A7o#cite_note-MARTINS-ABRANTES\/1993-6\">[6]<\/a>\u201d<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira, porque ao continuar a pesquisa mais adiante venho a saber dessa pris\u00e3o pouco divulgada:<\/p>\n<p>Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo, Paulinho da Viola e Ruy Guerra foram presos pelo DOPS por terem se recusado a participar do Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1971. Segundo Chico, o respons\u00e1vel pela pris\u00e3o teria sido o pr\u00f3prio Paulo C\u00e9sar Ferreira, que na \u00e9poca era assessor de Walter Clark e organizava o Festival. Paulo C\u00e9sar Ferreira, ex-diretor da Rede Globo de Televis\u00e3o, usou a estrutura da ditadura para for\u00e7ar m\u00fasicos a se apresentarem no 6\u00ba Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, em 1971.<\/p>\n<p>Pior, ou melhor,\u00a0 para a reputa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos compositores: eles divulgaram uma carta na imprensa denunciando que n\u00e3o participariam do Festival devido \u00e0 censura. Todos eles foram presos pelo Dops (Departamento Estadual de Ordem Pol\u00edtica e Social) e, durante um dia inteiro, ficaram detidos e receberam amea\u00e7as. Os policiais do Dops alegavam que a atitude dos m\u00fasicos era de car\u00e1ter \u201ccomunista\u201d, e que eles deveriam comparecer ao Festival. A Rede Globo j\u00e1 havia comercializado os direitos de transmiss\u00e3o do 6\u00ba Festival para outros pa\u00edses, tendo interesses econ\u00f4micos na participa\u00e7\u00e3o dos artistas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vou ao reflexo da m\u00fasica de Tom Jobim no romance \u201cA mais longa dura\u00e7\u00e3o da juventude\u201d. A sua m\u00fasica vem como um dos acontecimentos est\u00e9ticos do tempo da ditadura:<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"ggnads adv-dfp-google\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cPenso na mais longa dura\u00e7\u00e3o da juventude, resistente nos cabelos brancos, no cora\u00e7\u00e3o a pulsar regenerado, no peito renascido para o amor. Como um broto que rebenta na \u00e1rvore envelhecida, penso. E, no entanto, eles que de nada sabiam v\u00e3o pela Imbiribeira, palmilhando a Estrada do Sol, de Jobim e Dolores Duran, que cantavam ao sair de manh\u00e3 da garagem da casa de Tonh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 de manh\u00e3<br \/>\nVem o sol<br \/>\nMas os pingos da chuva<br \/>\nQue ontem caiu<\/p>\n<p>Ainda est\u00e3o a brilhar<br \/>\nAinda est\u00e3o da dan\u00e7ar<br \/>\nAo vento alegre<br \/>\nQue me traz esta can\u00e7\u00e3o\u2026\u201d<\/p>\n<p>Em outro ponto da mem\u00f3ria, o ano de 1972 foi um dos mais luminosos de nossas vidas. Como \u00faltima luz de\u00a0 estrela, brilhou n\u00e3o somente por compara\u00e7\u00e3o \u00e0s trevas do ano seguinte. Mas em si mesmo. Se n\u00e3o antecedesse viradas tr\u00e1gicas, seria um ano digno do mais caloroso afeto. 1972 foi como um disco vinil, uma can\u00e7\u00e3o que ouv\u00edamos sem parar na radiola de ficha wurlitzer. Da embriaguez na noite ao arrependimento na manh\u00e3, havia sempre uma can\u00e7\u00e3o em nosso caminho, de Blue Moon com Ella Fitzgerald a YellowSubmarinee Chovendo na Roseira. Mas ao confrontar h\u00e1 pouco o sentido da mem\u00f3ria, pude ver que levamos para um mesmo espa\u00e7o acontecimentos de tempos diferentes. Isso quer dizer, os anos \u00e0s vezes se confundem, unificados e na unidade do sentimento. Assim, guardei como de 1972 a manh\u00e3 de um s\u00e1bado em que ouvi Chovendo na Roseira em 1974. Por que a can\u00e7\u00e3o na voz de Elis Regina veio como se fosse de 1972? Entendo, ou procuro entender o amolecimento el\u00e1stico do cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 que na mesa do bar no P\u00e1tio de Santa Cruz ouvimos a voz de Elis e o piano de Tom Jobim. Ficamos suspensos na manh\u00e3 de 1974 como se cant\u00e1ssemos em um jardim de p\u00e9talas vermelhas. \u201cOlha, est\u00e1 chovendo na roseira, que s\u00f3 d\u00e1 rosa, mas n\u00e3o cheira\u201d. Vinha um n\u00f3 na garganta que deixava a gente sem fala, e o empurr\u00e1vamos para baixo com goles de cerveja.\u00a0 \u201cAdivinhou a primavera\u201d, pensei h\u00e1 pouco, de modo apressado, que podia ter sido no ano da luz de 1972. Mas se tivesse pesquisado no \u00edntimo, veria que o sentimento num instante de 1974 n\u00e3o poderia ser o de 1972\u201d.<\/p>\n<p>Agora, como uma liga\u00e7\u00e3o \u00e0 sua morte em 8 de dezembro de 1994, lembro a m\u00fasica que mais ouvi quando soube do \u00faltimo dia de Tom Jobim em Nova York:<\/p>\n<p>No CD Passarim, Borzeguim, Isabella v\u00e3o passando. \u00c9 o velho novo Tom renovando o peito da gente. S\u00fabito, paro. Ou\u00e7o uma voz entre a brincadeira e a seriedade:<\/p>\n<p>\u201cUn, deux, trois\u201d, e vem um coro feminino, e come\u00e7o a ouvir uma conversa mel\u00f3dica de Tom, entre a brincadeira e a seriedade mais uma vez:<\/p>\n<p><i>\u201cWhen I arrived in New York<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>The immigration officer asked me<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Where have you been, Mr. Bim?<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Where have you been, Joe?<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>You\u2019ve been abroad for too long, Mr. Bim,<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Haven\u2019t you been?<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>I got to the hotel exhausted to my room<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Having to attend a cocktail<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Late that afternoon<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>And there my boss Nesuhi,<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>An old friend of Jobim\u2019s, said:<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>May I introduce you to Gloria?<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>By all means<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Buy all jeans\u2026\u201d<\/i><\/p>\n<p>E vem ent\u00e3o uma melodia que \u00e9 um estender-se de Tom ao piano, uma can\u00e7\u00e3o que acende na gente uma melancolia t\u00e3o doce quanto letal:<\/p>\n<p><i>\u201cI\u2019ve never been in Paris for the summer<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>I\u2019ve never drank a Scotch with this bouquet<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>My life is such a mess let\u2019s have a Brahma<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>I\u2019m happy that you called,<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>I really feel touch\u00e9<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Oh, it\u2019s been a long, a very long time<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Since a Brazilian has been in Paris com voc\u00ea\u201d<\/i><\/p>\n<p>E chegam uns acordes breves do piano que s\u00e3o uma impress\u00e3o digital de Tom, que remetem a Wave, que remetem a \u00c1guas de Mar\u00e7o, que remetem \u00e0 voz nos dedos do Jobim maduro. Ent\u00e3o ele retoma, num prolongamento, numa repeti\u00e7\u00e3o com outras palavras:<\/p>\n<p><i>\u201cYou look so cute there wearing my pajamas<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>You look so sexy with my pince-nez<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Let\u2019s highjack this Concord to the Bahamas<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Come on dress up my love<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Let\u2019s go to the ballet<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Oh, it\u2019s been a long, a very long time<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Since a Brazilian has danced with you<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Le pas-de-deux\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Por que a gente lembra e insiste em lembrar uma can\u00e7\u00e3o de versos t\u00e3o bobos? Esque\u00e7amos por ora a li\u00e7\u00e3o antiga de que a letra na m\u00fasica n\u00e3o tem vida pr\u00f3pria, aut\u00f4noma. Esque\u00e7amos que os estruturalistas, quando reclamam a primazia absoluta do texto, s\u00e3o t\u00e3o med\u00edocres quanto estreitos e amesquinhadores. Esque\u00e7amos. Un, deux, trois. E volta a melodia:<\/p>\n<div>\n<div><span class=\"ctaText\">Leia tamb\u00e9m:<\/span>\u00a0\u00a0<span class=\"postTitle\">Com que canalhice eu vou, Noel, de puta ou santa? Por Rui Daher<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p><i>\u201cI\u2019ve never been in Paris for the summer<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>I\u2019ve never drank a Scotch with this bouquet<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>My life is such a mess let\u2019s have a Brahma\u2026\u201d<\/i><i><\/i><\/p>\n<p><i><\/i><\/p>\n<div class=\"code-block code-block-4\"><\/div>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nem o \u201ca minha vida est\u00e1 uma bagun\u00e7a, uma confus\u00e3o tamanha, vamos a uma cerveja\u201d, que nos toca de passagem como uma confiss\u00e3o. O que h\u00e1 nessa m\u00fasica \u00e9 a hist\u00f3ria que sabemos de Tom, posterior a ela. Como esquecer que Tom morreu em Nova York? Como esquecer que o c\u00e2ncer de bexiga fez com que ele morresse, com toda tecnologia e avan\u00e7o norte-americano, em um hospital t\u00e3o longe? N\u00e3o riam, por favor, mas os artistas s\u00e3o meio bruxos, meio profetas. Sei que esta n\u00e3o \u00e9 a hora de uma discuss\u00e3o racionalista, para que se prove a vigorosa intui\u00e7\u00e3o que possui um artista.<\/p>\n<p>Isso exigiria uma descida at\u00e9 o nascimento da arte nas sociedades mais primitivas, quando a religi\u00e3o, a invoca\u00e7\u00e3o aos deuses an\u00edmicos era ao mesmo tempo uma representa\u00e7\u00e3o do sonho humano. Isto exigiria ainda o relato da experi\u00eancia viva, que temos observado ao longo do tempo. N\u00e3o, agora \u00e9 come\u00e7o do ano. O que importa agora \u00e9 dizer: a brincadeira, a piada de Tom, sobre uma sua chegada a Nova York, traz para n\u00f3s, seus sobreviventes, a luz da precariedade da vida humana.<\/p>\n<p><i>\u201cI\u2019m happy that you called,<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>I really feel touch\u00e9<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Oh, it\u2019s been a long, a very long time<\/i><i><br \/>\n<\/i><i>Since a Brazilian has been in Paris com voc\u00ea.\u201d<\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ent\u00e3o vou ao reflexo da m\u00fasica de Tom Jobim no romance \u201cA mais longa dura\u00e7\u00e3o da juventude\u201d. 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