{"id":304820,"date":"2019-12-15T10:06:27","date_gmt":"2019-12-15T13:06:27","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=304820"},"modified":"2019-12-15T10:06:27","modified_gmt":"2019-12-15T13:06:27","slug":"os-40-anos-de-london-calling-como-o-the-clash-mudou-o-rock-para-sempre-e-de-quebra-deu-voz-aos-derrotados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-40-anos-de-london-calling-como-o-the-clash-mudou-o-rock-para-sempre-e-de-quebra-deu-voz-aos-derrotados\/","title":{"rendered":"Os 40 anos de \u2018London Calling\u2019: como o The Clash mudou o rock para sempre e, de quebra, deu voz aos derrotados"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\"><em>O \u00e1lbum cl\u00e1ssico da banda punk brit\u00e2nica se mant\u00e9m no imagin\u00e1rio coletivo n\u00e3o s\u00f3 por ser um dos mais bem avaliados de todos os tempos, mas tamb\u00e9m porque suas letras voltam a ser de uma raivosa atualidade depois da vit\u00f3ria de Boris Johnson<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/QFZkEbVksrxdkHgvL2vmLMJj9BE=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/7J43WM7ABA2WRKXRWYRKZ635FA.jpg\" alt=\"Da direita para a esquerda, Nicky Headon (bateria), Mick Jones (guitarra), Paul Simonon (baixo) e o l\u00edder da banda, Joe Strummer (guitarra e voz). O The Clash em Nova York em 1978.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Da direita para a esquerda, Nicky Headon (bateria), Mick Jones (guitarra), Paul Simonon (baixo) e o l\u00edder da banda, Joe Strummer (guitarra e voz). O The Clash em Nova York em 1978.<\/figcaption><\/figure>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Jaime Lorite\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/jaime_lorite_chinchon\/a\/\">JAIME LORITE<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">Corre o ano de 1979. A conservadora\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/margaret_thatcher\" data-link-track-dtm=\"\">Margaret Thatcher<\/a>\u00a0acaba de tomar posse como primeira-ministra do Reino Unido. Em Downing Street, a mulher conhecida como Dama de Ferro aplicar\u00e1 uma agenda de privatiza\u00e7\u00f5es e cortes sociais. Enquanto isso, um esfarrapado que tem um sotaque meio escoc\u00eas como heran\u00e7a materna desfila pelos palcos do pa\u00eds com um adesivo da Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional na guitarra e a mensagem: \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nicaragua\" data-link-track-dtm=\"\">Nicar\u00e1gua<\/a>, um povo em luta\u201d. Quase uma evoca\u00e7\u00e3o da frase \u201cesta m\u00e1quina mata fascistas\u201d que o lend\u00e1rio m\u00fasico folk Woodie Guthrie exibia em seu instrumento.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>\u2018London Calling\u2019 funciona como obra unit\u00e1ria porque tem um tema principal. Esse tema, como n\u00e3o podia deixar de ser em seu contexto social, \u00e9 a derrota, e os protagonistas das can\u00e7\u00f5es s\u00e3o os derrotados<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\">O esfarrapado em quest\u00e3o, o cantor e guitarrista Joe Strummer (Ancara, Turquia, 1955\u2212Somerset, Reino Unido, 2002), que \u00e0s vezes ousa exibir tamb\u00e9m camisetas provocadoras do grupo armado alem\u00e3o Fra\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho, n\u00e3o passa por seu momento mais pr\u00f3spero. Embora a banda que ele lidera,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/the_clash\" data-link-track-dtm=\"\">The Clash<\/a>, seja um dos pilares da explosiva cena punk brit\u00e2nica, est\u00e1 muito longe de ter o sucesso popular necess\u00e1rio para garantir sua subsist\u00eancia econ\u00f4mica. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que o pr\u00f3prio movimento v\u00e1 sobreviver comercialmente, e Thatcher parece encarnar a representa\u00e7\u00e3o material de sua derrota.<\/p>\n<p class=\"\">Nesse ambiente desalentador, Strummer e os outros componentes do The Clash \u2212o tamb\u00e9m guitarrista Mick Jones (Londres, 1955), o baixista Paul Simonon (Brixton, 1955) e o baterista Topper Headon (Kent, 1955)\u2212 decidem apostar tudo ou nada. Depois de dois discos essenciais para o g\u00eanero, The Clash (1977) e seu sucessor Give \u2018Em Enough Rope (1978), a banda decide gravar um \u00e1lbum duplo com 19 can\u00e7\u00f5es muito al\u00e9m dos limites\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/punk\" data-link-track-dtm=\"\">da etiqueta punk.<\/a>\u00a0E com um lan\u00e7amento em datas especiais, para que as pessoas possam presentear seus entes queridos com o disco, como brincaria Jones, o guitarrista, em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 Trouser Press: \u201c\u00c9 como nosso recopilat\u00f3rio de \u201820 Grandes Sucessos\u2019. Sab\u00edamos que ia sair no Natal, por isso n\u00f3s o preparamos para poder competir com os discos de \u201820 Grandes Sucessos\u2019 dos outros grupos\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">O \u00e1lbum, uma mistura elaborada e inimagin\u00e1vel de seu caracter\u00edstico rock combativo com a can\u00e7\u00e3o tradicional americana, reggae, ska e world music, foi um sucesso mundial, que catapultou o grupo e o colocou entre os mais influentes do s\u00e9culo XX. Seu lan\u00e7amento completa 40 anos neste s\u00e1bado. Seu t\u00edtulo: London Calling.<\/p>\n<p class=\"\">O peso e a influ\u00eancia do terceiro trabalho do The Clash alcan\u00e7am gera\u00e7\u00f5es. Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine e do Audioslave, disse sobre o disco \u00e0 revista Classic Rock em 2016: \u201cUma semana depois de ouvi-lo pela primeira vez, escrevi a primeira can\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da minha vida. O The Clash me impulsionou a fazer m\u00fasica com conte\u00fado pol\u00edtico e a assumir uma posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d. Embora seja dif\u00edcil saber se a banda decidiu premeditadamente se afastar do estilo punk ao consider\u00e1-lo esgotado, o que \u00e9 evidente ao ouvir London Calling \u00e9 que n\u00e3o foram abandonados seus princ\u00edpios b\u00e1sicos, da forma como eles os entendiam. Ou seja: rebeldia contra o status quo, rejei\u00e7\u00e3o de todo dogmatismo, horizontalidade e, \u00e9 claro, inequ\u00edvocas e contundentes abordagens de esquerda.<\/p>\n<p class=\"\">No n\u00edvel musical, de fato, estavam empreendendo um caminho que tamb\u00e9m percorreriam outros colegas de sua gera\u00e7\u00e3o; sem ir mais longe, John Lydon \u2212antes conhecido como Johnny Rotten\u2212, ex-l\u00edder da outra grande banda emblem\u00e1tica daquele momento,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sex_pistols\/a\/\" data-link-track-dtm=\"\">os Sex Pistols<\/a>, tamb\u00e9m estava explorando fus\u00f5es de g\u00eaneros com o inovador Public Image Ltd. Mick Jones analisa da seguinte forma, em declara\u00e7\u00f5es citadas pela revista Long Live Vinyl: \u201cO punk estava ficando mais e mais estreito, como se estivesse concentrado em um canto. Pensamos que pod\u00edamos fazer qualquer tipo de m\u00fasica\u201d. Era a hora do p\u00f3s-punk.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/_QowjtGp2tEXQIkAjHokYvAaNek=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/YT6HCZMB6CIB466QP7QAM3V4WI.jpg\" alt=\"Joe Strummer trocando a camiseta com algu\u00e9m do p\u00fablico em um show do The Clash em 1977.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Joe Strummer trocando a camiseta com algu\u00e9m do p\u00fablico em um show do The Clash em 1977.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Por outro lado, tamb\u00e9m havia algo de ponto culminante. N\u00e3o por acaso, o The Clash vinha de uma turn\u00ea pelos Estados Unidos na qual tinha escolhido como companheiros de palco artistas t\u00e3o aparentemente distantes de seu som como Bo Diddley (pioneiro do rock and roll cl\u00e1ssico), a lenda da m\u00fasica negra Screamin\u2019 Jay Hawkins (que se apresentava dentro de um caix\u00e3o) e a mais lis\u00e9rgica banda rockabilly da hist\u00f3ria, The Cramps.<\/p>\n<p class=\"\">Seu interesse tampouco era passageiro. Pelo menos Joe Strummer, com sua banda anterior, a protopunk The 101ers, j\u00e1 tinha se atrevido a fazer vers\u00f5es ao vivo de composi\u00e7\u00f5es t\u00e3o heterodoxas como o cl\u00e1ssico popular negro Junco Partner, Out of Time (The Rolling Stones) e Gloria (Van Morrison). De fato, em uma das p\u00e1ginas do livro The Clash (2008, Global Rythm Press), que re\u00fane textos assinados por todos os membros da forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, Strummer admitiu ter se esfor\u00e7ado para \u201cdesaprender\u201d o que sabia sobre rock cl\u00e1ssico quando explodiu o movimento punk: \u201cFoi como voltar ao in\u00edcio, ao ano zero. Parte do punk consistia em voc\u00ea se desprender de tudo que conhecia antes. [&#8230;] T\u00ednhamos de nos desfazer de nossa maneira de tocar em uma tentativa febril de criar algo novo\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Para explicitar em London Calling a nova alian\u00e7a entre a tradi\u00e7\u00e3o americana e os mesmos punks que, apenas dois anos antes, tinham composto uma m\u00fasica como I\u2019m So Bored With the USA (\u201cestou t\u00e3o entediado com os EUA\u201d), foi escolhida uma foto do baixista Paul Simonon destro\u00e7ando seu instrumento, em uma capa desenhada com a est\u00e9tica, as cores e a tipografia do disco estreia de Elvis Presley.<\/p>\n<p class=\"\">Com ecos de \u00f3pera rock, London Calling n\u00e3o \u00e9, evidentemente, um \u00e1lbum que apresente uma hist\u00f3ria definida, mas sem d\u00favida funciona como obra unit\u00e1ria, porque tem um tema principal. Esse tema, como n\u00e3o podia deixar de ser em seu contexto social, \u00e9 a derrota, e os protagonistas das can\u00e7\u00f5es s\u00e3o os derrotados.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>O discurso de \u2018London Calling\u2019 continua t\u00e3o vivo como no primeiro dia. O partido de Margaret Thatcher conseguiu esta semana, com Boris Johnson \u00e0 frente, seu melhor resultado eleitoral desde os tempos de&#8230; Margaret Thatcher<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\">Pelas letras (majoritariamente de Strummer, mas tamb\u00e9m com contribui\u00e7\u00f5es not\u00e1veis de Mick Jones, como \u00e9 o caso de Train in Vain, e Paul Simonon, respons\u00e1vel pela emblem\u00e1tica The Guns of Brixton) circulam figuras marginais, bandidos e her\u00f3is de rua: desde o Jimmy Jazz que \u00e9 procurado pela pol\u00edcia e de quem ningu\u00e9m d\u00e1 nenhuma pista, at\u00e9 os rude boys (Rudie Can\u2019t Fail), como eram denominados os guetos de jovens de origem jamaicana que viviam no Reino Unido e que frequentemente eram v\u00edtimas de xenofobia e persegui\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p class=\"\">A pr\u00f3pria faixa que abre o disco e lhe d\u00e1 t\u00edtulo, London Calling, \u00e9 uma refer\u00eancia aos boletins radiof\u00f4nicos (\u201cLondres transmitindo\u2026\u201d) feitos durante os bombardeios alem\u00e3es \u00e0 capital brit\u00e2nica em 1940 e 1941, e se enquadra em um clima de razo\u00e1vel p\u00e2nico nuclear depois do acidente na usina de Three Mile Island, na Pensilv\u00e2nia, no in\u00edcio de 1979. Nesse cen\u00e1rio apocal\u00edptico, a letra tamb\u00e9m cita a brutalidade das for\u00e7as de seguran\u00e7a e at\u00e9 mesmo o risco de transbordamento do rio T\u00e2misa, que amea\u00e7ava inundar o centro de Londres. No verso \u201cphony beatlemania has bitten the dust\u201d (\u201ca falsa beatlemania comeu poeira\u201d), Strummer parece apresentar o primeiro dardo envenenado da obra: a met\u00e1fora do fracasso de uma gera\u00e7\u00e3o que acreditou ser capaz de sonhar com um mundo distinto, mas estava tendo de se resignar a contemplar sua guinada autorit\u00e1ria. A subcultura dos rude boys acabaria se popularizando com o ska, sua maneira particular de dan\u00e7\u00e1-lo e sua releitura das velhas roupas de g\u00e2ngster.<\/p>\n<p class=\"\">No punk, no entanto, a derrota est\u00e1 sempre associada \u00e0 resist\u00eancia, por mais f\u00fatil que esta seja. As classes populares que tentam avan\u00e7ar contra todas as probabilidades protagonizam a emocionante e en\u00e9rgico I\u2019m Not Down, a hist\u00f3ria de algu\u00e9m que a vida golpeou de todas as formas, mas continua de p\u00e9; ou, principalmente, a melanc\u00f3lica Lost in the Supermarket, uma delicada composi\u00e7\u00e3o em que Strummer, como revelou em uma grava\u00e7\u00e3o divulgada no document\u00e1rio comemorativo Making of London Calling: The Last Testament (2004), procurou descrever a inf\u00e2ncia de seu colega de banda Mick Jones, que cresceu em um andar t\u00e9rreo da periferia de Londres com sua m\u00e3e e sua av\u00f3. Jones cantou a m\u00fasica a pedido de Strummer, que a definia como \u201cuma hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Mick Jones n\u00e3o foi a \u00fanica pessoa pr\u00f3xima que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para Joe Strummer: o vocalista tamb\u00e9m teve tempo de dedicar uma can\u00e7\u00e3o ao seu produtor, Guy Stevens: The Right Profile, talvez a faixa mais extravagante do \u00e1lbum, e aparentemente um tema que zomba dos conhecidos problemas de Montgomery Clift com o \u00e1lcool. Stevens n\u00e3o s\u00f3 enfrentava problemas igualmente graves (de fato, a CBS preferia n\u00e3o contar com ele, mas acabou cedendo por sua amizade com Paul Simonon), como tinha uma disciplina de trabalho exc\u00eantrica: h\u00e1 fotos das sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o onde ele \u00e9 visto jogando cadeiras para, em teoria, criar uma atmosfera suficientemente tensa que desse \u00e0s m\u00fasicas a for\u00e7a de que precisavam. Johnny Green, um dos assistentes da banda, descrevia o poder de Stevens da seguinte forma: \u201cSeu mundo estava queimando e ele queria ati\u00e7ar as chamas\u201d.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top pull_right width_half\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/7KNQWP9Tu4WW_FsBHlEBIKS6Ygo=\/600x450\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/MYEFOZBH4GATXYVWSO4LFU3MJE.jpg\" alt=\"Capa do disco \u2018London Calling\u2019, com a foto de Paul Simonon batendo seu baixo no ch\u00e3o.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Capa do disco \u2018London Calling\u2019, com a foto de Paul Simonon batendo seu baixo no ch\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Guy Stevens morreu apenas dois anos depois da grava\u00e7\u00e3o de London Calling, por uma overdose de medicamentos. O The Clash lan\u00e7ou em 1982 uma can\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 sua mem\u00f3ria, Midnight to Stevens.<\/p>\n<p class=\"\">Mas o que transforma o \u00e1lbum em uma obra-prima talvez seja o n\u00edtido di\u00e1logo existente entre suas mensagens pol\u00edticas e o som de suas can\u00e7\u00f5es. London Calling tem uma voca\u00e7\u00e3o aglutinadora e internacionalista, algo que se reflete igualmente na assimila\u00e7\u00e3o de culturas musicais heterog\u00eaneas e no recurso a tem\u00e1ticas como a de Spanish Bombs, que traz o testemunho rom\u00e2ntico dos brigadistas estrangeiros que viajaram para a Espanha para defender a democracia e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/guerra_civil_espanola\" data-link-track-dtm=\"\">Rep\u00fablica na Guerra Civil<\/a>. Escrita em um registro pr\u00f3ximo ao de observa\u00e7\u00e3o, a can\u00e7\u00e3o entrela\u00e7a passagens do conflito, como o assassinato do poeta\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/federico_garcia_lorca\" data-link-track-dtm=\"\">Federico Garc\u00eda Lorca<\/a>\u00a0nas m\u00e3os dos franquistas, com o amor condenado ao fracasso entre uma mulher e um miliciano estrangeiro que se despede arranhando um desajeitado castelhano: \u201cYo te quiero y finito, yo te acuerda, oh, mi coras\u00f3n\u201d \u2212na tentativa de dizer que a ama infinitamente.<\/p>\n<p class=\"\">Algo parecido ocorre no hino Clampdown, dedicado aos jovens rebeldes que lutam contra a ordem estabelecida, que inclui uma refer\u00eancia aos movimentos socialistas emergentes naquele momento na Am\u00e9rica Latina: a men\u00e7\u00e3o em espanhol aos \u201cpresidentes\u201d malvados que procuram restringir direitos civis.<\/p>\n<p class=\"\">London Calling foi inclu\u00eddo entre os dez melhores \u00e1lbuns do mundo inteiro (em sexto lugar) nas duas vota\u00e7\u00f5es organizadas pela revista americana Rolling Stone em 2003 e 2012, das quais participaram cerca de 300 artistas, jornalistas e profissionais da ind\u00fastria. Segundo o agregador sueco de informa\u00e7\u00f5es Acclaimed Music, o maior banco de dados de cr\u00edticas musicais, \u00e9 tamb\u00e9m o oitavo disco mais bem avaliado de todos os tempos e o primeiro de uma banda de punk-rock. Vendeu dois milh\u00f5es de c\u00f3pias.<\/p>\n<p class=\"\">London Calling tamb\u00e9m rendeu ao The Clash o respeito de muitos que haviam desprezado o grupo, como o cr\u00edtico Charles Shaar Murray, da New Musical Express, que n\u00e3o teve rem\u00e9dio a n\u00e3o ser desdizer as palavras que tinha pronunciado tr\u00eas anos antes sobre o grupo: \u201cS\u00e3o uma banda de garagem e deveriam voltar para ela o quanto antes, preferivelmente com a porta fechada e os motores ligados\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Sua tardia data de lan\u00e7amento tamb\u00e9m motivou pol\u00eamicas bibliogr\u00e1ficas: por ter sido editado em 14 de dezembro de 1979, deixou obsoletas muitas listas dos melhores \u00e1lbuns dos anos 70 que estavam sendo divulgadas, precipitadamente, pela cr\u00edtica musical. J\u00e1 ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o como a Rolling Stone o nomearam diretamente como melhor \u00e1lbum da d\u00e9cada seguinte, tomando como refer\u00eancia seu lan\u00e7amento nos Estados Unidos, que ocorreu em janeiro de 1980. Note-se que, segundo o Dicion\u00e1rio Pan-Hisp\u00e2nico de D\u00favidas, uma d\u00e9cada come\u00e7a com um ano terminado em 1 e termina com outro terminado em 0, de modo que em 1980 o disco continuava sendo, tecnicamente, dos anos 1970.<\/p>\n<p class=\"\">Beatrice Behlen, curadora da exposi\u00e7\u00e3o comemorativa sobre London Calling que o Museu de Londres abriga atualmente at\u00e9 abril de 2020, diz ao EL PA\u00cdS a respeito do disco: \u201cMuitas coisas continuam a se destacar, desde a amplitude dos estilos musicais que conflu\u00edram em seu som at\u00e9 a forma como as letras refletiram uma s\u00e9rie de temas da hist\u00f3ria da cidade que t\u00eam resson\u00e2ncia hoje, al\u00e9m da estreita rela\u00e7\u00e3o entre a banda e seus colaboradores\u201d \u2212uma refer\u00eancia \u00e0s partidas de futebol que o grupo jogava contra os t\u00e9cnicos do est\u00fadio nos intervalos das grava\u00e7\u00f5es, para relaxar. Entre os objetos da exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a estar a bola usada nesses jogos, mas sim o desventurado baixo de Paul Simonon que aparece na c\u00e9lebre capa.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/hIhIIigJgI-Q-ZsDum-7Oar-MGk=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/GNI2IB4OS37EFG7IWBGDRIMMUE.jpg\" alt=\"Joe Strummer, Paul Simonon e Mick Jones em um show do The Clash em Londres em 1979.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Joe Strummer, Paul Simonon e Mick Jones em um show do The Clash em Londres em 1979.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">O The Clash conseguiu manter um grande n\u00edvel de vendas nos trabalhos seguintes: embora Sandinista! (1980) n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado as mesmas cifras ao longo do tempo, na \u00e9poca vendeu t\u00e3o bem quanto London Calling, e em 1982 Combat Rock (que trazia cl\u00e1ssicos instant\u00e2neos da banda como Should I Stay or Should I Go e Rock the Casbah) foi um sucesso ainda maior.<\/p>\n<p class=\"\">Depois desse \u00faltimo disco, o bateria Topper Headon foi expulso da banda por Strummer devido ao seu v\u00edcio em hero\u00edna, sendo seguido meses depois por Mick Jones. Os m\u00fasicos conseguiram retomar a amizade e em 2002 o guitarrista concordou em voltar a interpretar em um show v\u00e1rios temas do The Clash com o grupo de Strummer, The Mescaleros. N\u00e3o houve tempo para nada mais: em dezembro daquele ano, Joe Strummer morreu repentinamente em consequ\u00eancia de uma doen\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o diagnosticada.<\/p>\n<p class=\"\">O discurso de London Calling, no entanto, continua t\u00e3o vivo como no primeiro dia. J\u00e1 n\u00e3o temos o p\u00e2nico nuclear daquela \u00e9poca, mas sim a crise clim\u00e1tica. O partido de Margaret Thatcher conseguiu esta semana,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/12\/14\/internacional\/1576337535_665787.html\" data-link-track-dtm=\"\">com Boris Johnson \u00e0 frente,<\/a>\u00a0seu melhor resultado eleitoral desde os tempos de&#8230; Margaret Thatcher. E os imigrantes voltam a estar no centro do alvo no Reino Unido.<\/p>\n<p class=\"\">Durante anos, o The Clash representou a alternativa social e comprometida diante do niilismo destrutivo e orgulhosamente superficial dos Sex Pistols. No entanto, 40 anos depois, parece pertinente perguntar: e se realmente n\u00e3o havia futuro?<\/p>\n<\/section>\n<div class=\"trust_project\">\n<div class=\"content | flex container_column_mobile justify_space_between\">\n<div class=\"claim | flex align_items_center justify_center\" style=\"text-align: justify;\">Adere a<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00e1lbum cl\u00e1ssico da banda punk brit\u00e2nica se mant\u00e9m no imagin\u00e1rio coletivo n\u00e3o s\u00f3 por ser um dos mais bem avaliados de todos os tempos, mas tamb\u00e9m porque suas letras voltam a ser de uma raivosa atualidade depois da vit\u00f3ria de Boris Johnson<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":304821,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-304820","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/banda-de-curno.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=304820"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304820\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/304821"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=304820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=304820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=304820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}