{"id":304959,"date":"2019-12-16T11:22:08","date_gmt":"2019-12-16T14:22:08","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=304959"},"modified":"2019-12-16T11:22:08","modified_gmt":"2019-12-16T14:22:08","slug":"hattie-mcdaniel-a-cruel-historia-de-uma-atriz-que-ganhou-um-oscar-e-desafiou-a-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/hattie-mcdaniel-a-cruel-historia-de-uma-atriz-que-ganhou-um-oscar-e-desafiou-a-sociedade\/","title":{"rendered":"Hattie McDaniel: a cruel hist\u00f3ria de uma atriz que ganhou um Oscar e desafiou a sociedade"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">80 anos ap\u00f3s a estreia de \u2018E O Vento Levou\u2019, recordamos o relato mais chocante e triste em torno do cl\u00e1ssico: o da int\u00e9rprete afro-americana, l\u00e9sbica e corajosa<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/QTOATbzW_ELj8JURxNYCFzTS1lc=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/CU6CDRSWJHVNXP7GDJYVEGVR5U.jpg\" alt=\"Hattie McDaniel com Vivien Leigh, que deu vida a Scarlett O\u2019Hara. A personagem da empregada Mammy era a \u00fanica que se atrevia a desafiar a voluntariosa Scarlett.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Hattie McDaniel com Vivien Leigh, que deu vida a Scarlett O\u2019Hara. A personagem da empregada Mammy era a \u00fanica que se atrevia a desafiar a voluntariosa Scarlett.<\/figcaption><\/figure>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de ICON\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/icon\/a\/\">ICON<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ela protagonizou um dos filmes mais famosos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cine\" data-link-track-dtm=\"\">hist\u00f3ria do cinema<\/a>,<em>\u00a0E o Vento Levou<\/em>, mas foi proibida de comparecer \u00e0 estreia; transformou-se na primeira atriz negra a ganhar um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/premios_oscar\" data-link-track-dtm=\"\">Oscar<\/a>, mas n\u00e3o p\u00f4de se sentar na mesma mesa que seus colegas de elenco; foi relegada a pap\u00e9is de empregada pelos brancos e rejeitada pelos negros, que n\u00e3o entendiam sua ades\u00e3o ao estere\u00f3tipo com o qual Hollywood havia reduzido sua ra\u00e7a. Morreu sem um tost\u00e3o, e seu Oscar foi levado pelo vento, mas ela sempre foi fiel a si pr\u00f3pria. E sua melhor frase n\u00e3o foi escrita por nenhum roteirista, mas por ela mesma: \u201cPrefiro interpretar uma criada por 700 d\u00f3lares a ser uma por 7.\u201d Chamava-se Hattie McDaniel, e suas luzes e sombras estar\u00e3o para sempre unidas \u00e0 hist\u00f3ria do cinema.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>No testamento, ela pediu duas coisas: ser enterrada no cemit\u00e9rio Hollywood Forever e que seu Oscar fosse entregue \u00e0 Universidade Howard. Ap\u00f3s sua morte, recebeu sua en\u00e9sima bofetada: o cemit\u00e9rio n\u00e3o aceitava negros, por mais famosos que fossem<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Hattie McDaniel (Kansas, EUA, 1893; Los Angeles, EUA, 1952) era a ca\u00e7ula dos 13 filhos de um casal de escravos libertos que havia chegado ao Kansas fugindo da extrema pobreza. Mais afeita ao ritmo gospel interpretado por sua m\u00e3e na igreja que aos livros, ela n\u00e3o demorou a subir nos palcos para contribuir com a paup\u00e9rrima economia familiar. N\u00e3o sabia ao certo qual seria o seu futuro, mas tinha certeza de que n\u00e3o queria seguir o caminho da servid\u00e3o ao qual pareciam condenadas as mulheres negras. Preferiu formar, com dois de seus irm\u00e3os, um grupo de vaudeville no qual sua veia c\u00f4mica logo se destacou. \u201cEla foi radical em muitos aspectos\u201d, escreveu sua bi\u00f3grafa Jill Watts em Hattie McDaniel: Black Ambition, White Hollywood (ambi\u00e7\u00e3o negra, Hollywood branca). \u201cAtuava com a cara pintada de branco, algo que nenhuma mulher fazia na \u00e9poca\u201d, resumiu Watts.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Quando o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/depresion_economica\" data-link-track-dtm=\"\">crash da Bolsa de 1929<\/a>\u00a0arrasou com tudo, tamb\u00e9m acabou com o espet\u00e1culo de Hattie \u2013 e ela foi ent\u00e3o para Milwaukee. \u201cCheguei l\u00e1 destru\u00edda\u201d, escreveu em 1947 em The Hollywood Reporter. \u201cAlgu\u00e9m me disse que no hotel Suburban Inn de Sam Pick procuravam uma assistente para o banheiro feminino. Sa\u00ed correndo e consegui o trabalho. Uma noite, quando todos os artistas haviam ido embora, o gerente pediu que algum volunt\u00e1rio subisse no palco. Pedi uma can\u00e7\u00e3o aos m\u00fasicos e comecei a cantar. N\u00e3o voltei a trabalhar nos banheiros. Durante dois anos, protagonizei o espet\u00e1culo do lugar.\u201d<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/YCaxOSVQrWmXqG0Qr2tvhSCXd_w=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/XNZN7BYSVU7GMZUUFC3M5UIMPM.jpg\" alt=\"Hattie McDaniel, numa cena de \u2018E O Vento Levou\u2019, filme que a transformou na primeira afro-americana a ganhar um Oscar.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Hattie McDaniel, numa cena de \u2018E O Vento Levou\u2019, filme que a transformou na primeira afro-americana a ganhar um Oscar.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Destacar-se no mundo do entretenimento no in\u00edcio dos anos trinta e acabar em Hollywood era uma sequ\u00eancia l\u00f3gica \u2013 e esse foi seu caminho. Mas a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hollywood\" data-link-track-dtm=\"\">Hollywood\u00a0<\/a>que McDaniel encontrou n\u00e3o era um mar de rosas para os negros. O c\u00f3digo Hays \u2013 um sistema de autorregula\u00e7\u00e3o dos est\u00fadios para restabelecer a boa imagem de Hollywood ap\u00f3s a enxurrada de esc\u00e2ndalos dos anos vinte \u2013 proibia os romances entre brancos e negros e n\u00e3o permitia que estes tivessem acesso a pap\u00e9is violentos.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>Doze anos ap\u00f3s a ind\u00fastria ter criado um pr\u00eamio para conferir a si pr\u00f3pria, uma mulher negra subiu no palco pela primeira vez \u2013 e n\u00e3o era para limp\u00e1-lo<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Os atores negros ocupavam pap\u00e9is irrelevantes, e com frequ\u00eancia sem cr\u00e9ditos: eram motoristas, gar\u00e7ons, figurantes e especialmente empregados. Hattie havia fugido do servi\u00e7o na vida real, mas n\u00e3o podia faz\u00ea-lo na telona. N\u00e3o demorou a se destacar. Em 1934, o diretor John Ford prestou aten\u00e7\u00e3o nela e fomentou seu estilo atrevido e sarc\u00e1stico. A atriz apareceu em dezenas de filmes com algumas das estrelas mais populares de Hollywood. E, dando tudo de si em cada minuto que aparecia, tornou-se um dos rostos mais familiares dos Estados Unidos. Estava realizando um sonho pouco prov\u00e1vel para a filha de um escravo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O produtor de\u00a0<em>E O Vento Levou<\/em>, David O. Selznick, deu a McDaniel o papel de Mammy, embora ela n\u00e3o encarnasse os \u201cvalores\u201d que se esperavam de uma abnegada criada: era sarc\u00e1stica, altiva e a \u00fanica que se atrevia a colocar limites \u00e0 indom\u00e1vel Scarlett (interpretada por Vivien Leigh). Mas estava inserida dentro desse clich\u00ea de empregada que n\u00e3o tem vida \u00e0 margem de seu amo.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/ckGJXTKw_jMzYjW-5_aN1SDClRU=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/AWS53AGFTVFTDORQCTOUPKEK2A.jpg\" alt=\"A atriz Hattie McDaniel, com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante que recebeu em 1940. Na \u00e9poca, os int\u00e9rpretes secund\u00e1rios n\u00e3o recebiam estatueta, mas uma placa.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">A atriz Hattie McDaniel, com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante que recebeu em 1940. Na \u00e9poca, os int\u00e9rpretes secund\u00e1rios n\u00e3o recebiam estatueta, mas uma placa.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 15 de dezembro de 1939, cerca de 300.000 pessoas compareceram \u00e0 estreia do filme no teatro Loew&#8217;s Grand Theatre, em Atlanta. Durante tr\u00eas dias, a cidade se enfeitou para festejar o maior acontecimento de sua hist\u00f3ria. Limusines desfilaram na rua principal, recep\u00e7\u00f5es atra\u00edram convidados, milhares de bandeiras confederadas agitaram-se e houve um baile \u00e0 fantasia. Hattie McDaniel n\u00e3o foi convidada. A lei Jim Crow, que impunha\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/11\/01\/internacional\/1478010009_616978.html\" data-link-track-dtm=\"\">a segrega\u00e7\u00e3o dos negros nos espa\u00e7os p\u00fablicos<\/a>, continuava vigente no Sul. Ainda faltavam 16 anos para que, a poucos quil\u00f4metros dali, Rosa Parks se negasse a ceder seu assento num \u00f4nibus.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Apesar do desd\u00e9m com que foi tratada, McDaniel fez seu papel \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o dentro e fora das telas. \u201cAdorei Mammy\u201d, declarou, ao falar com a imprensa sobre a personagem. \u201cAcho que a entendi porque minha pr\u00f3pria av\u00f3 trabalhava numa planta\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito diferente de Tara.\u201d<\/p>\n<aside class=\"quote quote_pull | pull_right_tablet  font_secondary italic\">\n<blockquote class=\"flex container_column \">\n<div>\u201cUma noite, quando todos os artistas haviam ido embora, o gerente pediu que algum volunt\u00e1rio subisse no palco. Pedi uma can\u00e7\u00e3o aos m\u00fasicos e comecei a cantar. N\u00e3o voltei a trabalhar nos banheiros. Durante dois anos, protagonizei o espet\u00e1culo do lugar.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<\/aside>\n<div class=\"raw_html\" style=\"text-align: justify;\">\n<div>\n<p class=\"autor_cita\">Hattie McDaniel, em \u2018The Hollywood Reporter\u2019 em 1947<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A opini\u00e3o da comunidade negra se dividiu no momento do lan\u00e7amento, e o filme foi chamado por alguns de \u201carma de terror contra a Am\u00e9rica negra\u201d e um insulto ao p\u00fablico negro. Houve manifesta\u00e7\u00f5es em diversas cidades. Nem todos atacaram a interpreta\u00e7\u00e3o de McDaniel: a cr\u00edtica a colocou \u00e0 altura de Vivien Leigh, e o Los Angeles Times disse que seu trabalho era \u201cdigno dos pr\u00eamios da Academia\u201d, como relata o livro Backwards and in Heels: The Past, Present And Future Of Women Working In Film, de Alicia Malone.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 29 de fevereiro de 1940, quando Fay Bainter leu seu nome na noite do Oscar, 12 anos depois da cria\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio, uma mulher negra subiu no palco pela primeira vez \u2013 e n\u00e3o era para limp\u00e1-lo. A filha de dois antigos escravos, exibindo um vestido turquesa e com gard\u00eanias brancas no penteado, pronunciou um discurso com a voz entrecortada: \u201cAcademia de Artes e Ci\u00eancias Cinematogr\u00e1ficas, membros da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica e convidados de honra: este \u00e9 um dos momentos mais felizes de minha vida, e quero agradecer cada um de voc\u00eas que me selecionaram a um dos seus pr\u00eamios por sua gentileza. Isso me fez sentir muito, muito humilde; e sempre o erguerei como um farol para qualquer coisa que eu possa fazer no futuro. Espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para a minha ra\u00e7a e para a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica. Meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 pleno demais para lhes dizer como me sinto, e posso dizer obrigada e que Deus os aben\u00e7oe.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ela era a \u00fanica mulher negra da sala e a primeira afro-americana a comparecer aos pr\u00eamios da Academia como convidada, n\u00e3o como empregada. Selznick tivera que pedir autoriza\u00e7\u00e3o especial para que ela estivesse no teatro, numa pequena mesa ao fundo, distante das estrelas. Nem sequer p\u00f4de posar com os demais membros da equipe do filme: a Calif\u00f3rnia tamb\u00e9m era um Estado segregado.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A magnitude de seu triunfo levaria anos para ser revelada. Durante quase um quarto de s\u00e9culo, at\u00e9 o ator Sidney Poitier receber a estatueta por Uma Voz nas Sombras, nenhum outro int\u00e9rprete negro ganharia o pr\u00eamio. E, 80 anos depois, apenas sete atrizes negras receberam a distin\u00e7\u00e3o: Whoopi Goldberg, Halle Berry,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/10\/cultura\/1536566425_485679.html\" data-link-track-dtm=\"\">Viola Davis<\/a>, Lupita, Jennifer Hudson, Octavia Spencer y Mo\u2019nique. Justamente esta \u00faltima subiu no palco com um aspecto inspirado no de McDaniel e a mencionou em seu discurso: \u201cQuero agradecer Hattie McDaniel por suportar tudo o que teve que suportar para que eu n\u00e3o tivesse de faz\u00ea-lo.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A atriz remava contra a corrente n\u00e3o apenas na ind\u00fastria; sua vida afetiva tamb\u00e9m era incomum. Apesar de seus quatro casamentos fugazes, os coment\u00e1rios da meca do cinema a inclu\u00edram nos chamados \u201cc\u00edrculos de costura\u201d, uma maneira de chamar as l\u00e9sbicas de Hollywood e onde figuravam lendas como Joan Crawford, Greta Garbo, Myrna Loy, Barbara Stanwyck e Marlene Dietrich. Segundo o bi\u00f3grafo Kenneth Anger, Hattie foi amante da atriz Tallulah Bankhead, c\u00e9lebre por passar pela cama de metade das atrizes de Hollywood e por ter sido uma das favoritas para interpretar Scarlett. Nada disso vazou para o grande p\u00fablico. A ind\u00fastria gerava muito dinheiro, e ningu\u00e9m estava disposto a permitir que suas estrelas desafiassem a moralidade que imperava. Publicit\u00e1rios e produtores juntaram gays e l\u00e9sbicas formando casais t\u00e3o cr\u00edveis para os espectadores quanto ris\u00edveis intramuros.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O sucesso de\u00a0<em>E O Vento Levou tornou<\/em>\u00a0McDaniel tremendamente popular, mas tamb\u00e9m a deixou marcada. Ap\u00f3s a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/segunda_guerra_mundial\" data-link-track-dtm=\"\">Segunda Guerra Mundial<\/a>, come\u00e7ou-se a respirar novos ares, mas ela continuou aferrada aos pap\u00e9is de criada e fez parte do elenco do hoje muito criticado<em>\u00a0A Can\u00e7\u00e3o do Sul<\/em>, uma mancha que a Disney continua tentando apagar da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No final da carreira, McDaniel voltou para o r\u00e1dio e teve um desses pequenos triunfos que de novo seus colegas n\u00e3o quiseram ver: fez o papel de Beulah, outra vez uma criada estereotipada, mas tirou o papel de um homem branco. Era a primeira vez que uma mulher afro-americana protagonizava um programa de r\u00e1dio e ganhava com ele mil d\u00f3lares por semana. Foi um sucesso ef\u00eamero: pouco depois de assinar o contrato, detectaram um tumor em seu peito. Morreu em 26 de outubro de 1952, aos 57 anos.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/klL9cuUJuliwk9aefluI1bGmRaU=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/2B63MUPBNCYT5UM6P2AQUC6EMQ.jpg\" alt=\"Hattie McDaniel, com Clark Gable, que foi quem recomendou ao produtor David O. Selznick que desse o papel de Mammy \u00e0 atriz.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Hattie McDaniel, com Clark Gable, que foi quem recomendou ao produtor David O. Selznick que desse o papel de Mammy \u00e0 atriz.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No testamento, ela pediu duas coisas: ser enterrada no cemit\u00e9rio Hollywood Forever e que seu Oscar fosse entregue \u00e0 Universidade Howard. Ap\u00f3s sua morte, recebeu a en\u00e9sima bofetada: o cemit\u00e9rio n\u00e3o aceitava negros, por mais famosos que fossem. Seu corpo foi enterrado no campo de Angelus-Rosedale. Muitos astros que haviam trabalhado com ela enviaram flores, mas somente James Cagney foi at\u00e9 l\u00e1 pessoalmente.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Hoje, ningu\u00e9m sabe o que aconteceu com seu pr\u00eamio da Academia. Alguns afirmam que foi jogado no rio Potomac durante as revoltas ocorridas ap\u00f3s o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968. Outros, sem tanto apelo \u00e9pico, dizem que seu Oscar est\u00e1 simplesmente perdido em algum por\u00e3o, j\u00e1 que, devido \u00e0 sua forma de placa, \u00e9 mais dif\u00edcil de identificar. Paradoxalmente, \u00e9 o objeto mais valioso que ela tinha ao falecer: ap\u00f3s uma vida inteira trabalhando, n\u00e3o lhe restava um centavo no bolso. Havia destinado grande parte de sua pequena fortuna para ajudar seus companheiros menos afortunados.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final da carreira, McDaniel voltou para o r\u00e1dio e teve um desses pequenos triunfos que de novo seus colegas n\u00e3o quiseram ver: fez o papel de Beulah, outra vez uma criada estereotipada, mas tirou o papel de um homem branco. 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