{"id":305599,"date":"2019-12-23T09:18:09","date_gmt":"2019-12-23T12:18:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=305599"},"modified":"2019-12-23T09:18:09","modified_gmt":"2019-12-23T12:18:09","slug":"reencontro-com-1970-o-ano-do-terror-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/reencontro-com-1970-o-ano-do-terror-em-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Reencontro com 1970, o ano do terror em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\"><em>Jornalista Ant\u00f4nio Pinheiro Salles volta pela primeira vez ao Rio Grande do Sul 49 anos depois de ser preso pela ditadura militar em Porto Alegre, e visita a Ilha do Pres\u00eddio, uma das pris\u00f5es por onde passou ao longo dos nove anos em que esteve sob cust\u00f3dia do regime<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\">NAIRA HOFMEISTER<\/span><abbr title=\"Bras\u00edlia time\"><\/abbr><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/-LBF71sLBApqwTfI2ArhdGl_2yU=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/PIMDKS3JNVEGDHMX5NMTGXZBIA.JPG\" alt=\"Pinheiro Salles na Ilha do Pres\u00eddio: jornalista segura a mand\u00edbula, destro\u00e7ada pelas sess\u00f5es de tortura a que foi submetido.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Pinheiro Salles na Ilha do Pres\u00eddio: jornalista segura a mand\u00edbula, destro\u00e7ada pelas sess\u00f5es de tortura a que foi submetido.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">DIANE VALDEZ<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Do banco do veleiro que se aproxima da Ilha das Pedras Brancas, uma min\u00fascula por\u00e7\u00e3o de terra de 150 metros de comprimento no meio do Lago Gua\u00edba, em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/porto_alegre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Porto Alegre<\/a>, o jornalista Ant\u00f4nio Pinheiro Salles aponta uma guarita que se destaca em cima de uma rocha e comenta: \u201cEu olho para aquela guarita ali e vejo o policial com o fuzil apontado para a gente\u201d. Ent\u00e3o, percorre com os olhos a lateral norte da ilha, \u00e0 procura da segunda guarita, \u00e0 sua direita, onde imagina o outro guarda, tamb\u00e9m com a arma apontada para a\u00a0<i>Tenebrosa<\/i>\u00a0&#8211; apelido dados pelos presos pol\u00edticos \u00e0 balsa que os levava daquele local de cust\u00f3dia para as sess\u00f5es de tortura no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/04\/politica\/1517755246_365307.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Dops<\/a>, na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dia 13 de dezembro de 2019, Pinheiro Salles tem 82 anos e est\u00e1 em Porto Alegre h\u00e1 48 horas, cidade onde exatos 49 anos atr\u00e1s fora levado para os por\u00f5es da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ditadura militar<\/a>, de onde saiu apenas nove anos depois. A deten\u00e7\u00e3o aconteceu no bairro Menino Deus em 1970, \u201co ano do terror em Porto Alegre, quando 11 organiza\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 ditadura foram destru\u00eddas\u201d, assegura Raul Ellwanger, m\u00fasico da capital, ex-preso pol\u00edtico e atual coordenador do\u00a0<a href=\"https:\/\/comitedaverdadeportoalegre.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Comit\u00ea Carlos de R\u00e9 de Verdade e Justi\u00e7a do Rio Grande do Sul<\/a>.<\/p>\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Pinheiro Salles \u00e9 um dos presos pol\u00edticos brasileiros com mais longa estadia na cadeia: n\u00e3o foi beneficiado sequer pela\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/amnistia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Lei de Anistia<\/a>, de agosto de 1979, porque tinha uma condena\u00e7\u00e3o por \u201ccrimes de sangue\u201d durante a ditadura &#8211; apenas 186 brasileiros tiveram penas semelhantes. \u201cPinheirinho \u00e9 um exemplo concreto de que a anistia n\u00e3o foi ampla, geral e irrestrita, como disseram\u201d, anotou em um evento na noite anterior Suzana Lisboa, uma das lideran\u00e7as nacionais entre familiares de mortos e desaparecidos pelo regime militar no Brasil.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Solto ap\u00f3s reforma da Lei de Seguran\u00e7a Nacional, que permitiu a revis\u00e3o de sua pena, nunca mais tinha voltado ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rio_grande_do_sul\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Rio Grande do Sul<\/a>, territ\u00f3rio que conheceu de dentro de cambur\u00f5es, viaturas, e atr\u00e1s das grades. Ao longo dos quatro anos que esteve preso no Estado passou por seis cadeias diferentes, em Porto Alegre, Alegrete e Charqueadas. Em 2013, prestou\u00a0<a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/images\/pdf\/depoimentos\/vitimas_civis\/Antonio_Pinheiro_Salles_-_18.09.2013_-_ct_rp_18.09.2013.pdf\" data-link-track-dtm=\"\">depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/a>, no qual relatou as torturas sofridas em solo ga\u00facho e em S\u00e3o Paulo (esteve tamb\u00e9m no DOI-Codi e na Oban) e registrou os nomes de seus algozes &#8211; entre eles\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/20\/politica\/1461180363_636737.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Carlos Alberto Brilhante Ustra, a quem o presidente Jair Bolsonaro homenageou<\/a>\u00a0com seu voto no processo que cassou o mandato de Dilma Rousseff, em 2016.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o foi f\u00e1cil vir\u201d, admitiu Pinheiro Salles a um grupo de amigos que foram reencontr\u00e1-lo na noite em que sua pris\u00e3o completava 49 anos. Suas lembran\u00e7as do Sul incluem noites passadas no pau de arara, \u201cbofetadas, tapas,\u00a0<i>telefones<\/i>, queimaduras com brasas de cigarro, espancamentos com tira de pneu, uso de alicate, afogamentos\u201d, al\u00e9m de eletrochoques no \u00e2nus e no p\u00eanis, conforme ele registrou diante da CNV.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tortura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">tortura<\/a>\u00a0deixou sequelas vis\u00edveis: ele fala com alguma dificuldade mesmo ap\u00f3s cirurgias que repuseram com platina peda\u00e7os da mand\u00edbula partida pelas pauladas &#8211; dependendo da ocasi\u00e3o precisa falar segurando o queixo, tal a impress\u00e3o de que vai perder o controle da articula\u00e7\u00e3o. Os tend\u00f5es do bra\u00e7o direito foram rompidos pelas cordas do pau de arara, amarradas com muita for\u00e7a nos punhos, e por isso, para beber \u00e1gua, Pinheiro Salles precisa segurar o copo como fazem as crian\u00e7as, utilizando as duas m\u00e3os. \u201cSou surdo do ouvido direito e escuto muito pouco com o esquerdo\u201d, completa.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/XQ9-0ltHAcxJDDEunr4DLkF3Kdc=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/JRBSAWRLNBAPNOB3ESHHFTD7YE.jpeg\" alt=\"Salles em sua antiga cela na Ilha do Pres\u00eddio.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Salles em sua antiga cela na Ilha do Pres\u00eddio.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">FERNANDA VILELA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Mem\u00f3rias de um sargento com as m\u00e3os amarradas<\/h4>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O desembarque na Ilha das Pedras Brancas foi feito com alguma dificuldade, n\u00e3o s\u00f3 pela fragilidade f\u00edsica de Pinheiro Salles, mas tamb\u00e9m porque o local est\u00e1 abandonado, embora seja\u00a0<a href=\"http:\/\/www.iphae.rs.gov.br\/Main.php?do=BensTombadosDetalhesAc&amp;item=56800\" data-link-track-dtm=\"\">tombado pelo Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico do Rio Grande do Sul<\/a>. As ru\u00ednas do edif\u00edcio, que em sua origem foi uma casa de p\u00f3lvora ainda do tempo do Imp\u00e9rio, constru\u00edda entre 1857 e 1860, s\u00e3o saqueadas com frequ\u00eancia e hoje apenas as paredes est\u00e3o em p\u00e9 &#8211; nem as grades das celas resistiram aos gatunos.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Os primeiros passos s\u00e3o dados em meio \u00e0 mata que cresceu entre as rochas. \u201cNaquela \u00e9poca n\u00e3o tinha tanto verde. Acho que podavam as \u00e1rvores para poderem nos vigiar das guaritas\u201d, analisa. Mesmo assim, o jornalista aponta uma esp\u00e9cie de fenda formada na jun\u00e7\u00e3o de duas rochas altas: era o \u00fanico local protegido da vista dos guardas, onde se escondia quando queria namorar -no pres\u00eddio da ilha, ele passou a receber visitas e se apaixonou pela irm\u00e3 de um colega de c\u00e1rcere. \u201cFoi a primeira vez que pude conversar com gente que n\u00e3o estava presa e nem era da repress\u00e3o\u201d, anota. J\u00e1 estava detido havia dois anos.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/fweQ-SbZgZxxnYPeWo8E4uqdDaw=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/KQHEOYVUCJEPZJDIT3AARNDQ2E.jpg\" alt=\"O jornalista, ao retornar \u00e0 Ilha das Pedras Brancas, um dos locais onde esteve preso no RS. \" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">O jornalista, ao retornar \u00e0 Ilha das Pedras Brancas, um dos locais onde esteve preso no RS.\u00a0<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">NAIRA HOFMEISTER<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Perto das condi\u00e7\u00f5es anteriores de deten\u00e7\u00e3o, a ilha era um pequeno para\u00edso: as celas ficavam abertas entre 9h e 16h, era poss\u00edvel tomar sol e caminhar pelo terreno. Ele leva os acompanhantes da excurs\u00e3o &#8211; o filho, Raphael Pinheiro Salles, a nora Fernanda Vilela, a companheira Kelly Gon\u00e7alves e a historiadora Diane Valdez, que est\u00e1 escrevendo sua biografia &#8211; at\u00e9 um cantinho, onde uma rocha bem plana e pr\u00f3xima \u00e0s \u00e1guas faz as vezes de praia: \u201cAqui eu tirava o sapato, molhava os p\u00e9s no rio, ligava o radinho e ficava ouvindo Roberto Carlos\u201d, recorda.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, lembra da ang\u00fastia da primeira noite naquela pris\u00e3o, quando o ru\u00eddo das ondas do Gua\u00edba batendo nas rochas o fez lembrar do sargento Manoel Raimundo Soares: protagonista do famoso \u201ccaso dos m\u00e3os amarradas\u201d, a primeira morte\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/obra-sobre-morto-na-ditadura-proibida-em-porto-alegre-2714977\" data-link-track-dtm=\"\">incontest\u00e1vel sob tortura do regime militar<\/a>, ainda em 1966, o militar ficou preso na ilha durante cinco meses.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ao cruzar a porta em arco, o ambiente escurece: as paredes do s\u00e9culo XIX tem espessura de quase um metro, e s\u00e3o poucas as aberturas para entrada de luz. Pinheiro Salles mostra o local onde dormiu quando chegou, um sal\u00e3o amplo, onde foram colocados colch\u00f5es porque as celas n\u00e3o estavam prontas. Ao lado, tr\u00eas cub\u00edculos com paredes constru\u00eddas at\u00e9 a altura da cintura abrigavam as duchas: um luxo para quem passou quatro meses sem banho no Dops.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No corredor das celas, Pinheiro Salles aponta para a primeira, \u00e0 direita: \u201cAqui ficava o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/07\/politica\/1459982422_440616.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ruy Falc\u00e3o<\/a>, sabe, esse que foi presidente do partido\u201d, diz, em refer\u00eancia ao PT, sigla \u00e0 qual ainda \u00e9 filiado, mas est\u00e1 afastado. Na terceira, \u00e0 esquerda, ele entra e bate na parede: \u201cAqui ficava a minha cama\u201d &#8211; eram dois beliches, e havia ainda uma mesinha. \u201cNo inverno o frio era terr\u00edvel\u201d. Olha para cima, notando que o sol agora entra no espa\u00e7o, por um quadrado aberto no teto: \u201cn\u00e3o tinha nem esse buraco\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em compensa\u00e7\u00e3o, bastava atravessar o corredor e estava na biblioteca do pres\u00eddio, cujas obras passavam pela triagem do Dops antes de serem liberadas. N\u00e3o lembra de nenhum livro especial que leu, mas conta uma anedota, acontecida em outra pris\u00e3o: uma biografia de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/leon_trotski\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Tr\u00f3tski<\/a>\u00a0que entrou \u201cdisfar\u00e7ada\u201d de um grande volume sobre a Hist\u00f3ria de Roma. \u201cA capa, a lombada, e as p\u00e1ginas iniciais eram mesmo sobre Roma. Mas no miolo \u00e9 que ficava o interessante. Esse livro eu guardei comigo, tenho at\u00e9 hoje, carimbado com a autoriza\u00e7\u00e3o da censura\u201d, conta.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Estima-se que mais de 100 presos pol\u00edticos tenham sido encarcerados na Ilha da P\u00f3lvora, mas as autoridades jamais revelaram seus nomes. \u201cEra um pres\u00eddio do Ex\u00e9rcito, administrado pela Pol\u00edcia Civil e vigiado pela Brigada Militar. Conseguir informa\u00e7\u00e3o \u00e9 quase imposs\u00edvel\u201d, atesta Jair Krischke, fundador do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos, que tenta h\u00e1 cinco anos obter a lista completa.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o consegue por vias oficiais, vai \u201cinterrogando\u201d quem se apresenta como ex-detento para sacar da mem\u00f3ria nomes poss\u00edveis. \u00c0 Pinheiro Salles perguntou por pessoas da quais s\u00f3 tinha indica\u00e7\u00f5es imprecisas: \u201cCarlos, o gordo\u201d, \u201cDu\u00edlio, artista pl\u00e1stico do Rio de Janeiro\u201d e \u201cFlavinho\u201d. Como o interrogado repetiu involuntariamente a resposta que deu a seus torturadores -\u201cn\u00e3o sei\u201d- outros prisioneiros presentes \u00e0 reuni\u00e3o ajudaram. Carlos era \u201cum companheiro de Canoas, jazzista\u201d e Flavinho, provavelmente era \u201cFl\u00e1vio Gil Reis\u201d. Se se confirmarem as informa\u00e7\u00f5es, Krischke j\u00e1 ter\u00e1 84 nomes em seu levantamento pessoal.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/V89h5sZK6wCfuzlKzFCc8N0eZNc=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/DKBMAVGYSZDBHFCQRWPQJQWWFY.JPG\" alt=\"Casa da guarda na Ilha do Pres\u00eddio, no RS. \" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Casa da guarda na Ilha do Pres\u00eddio, no RS.\u00a0<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">DIANE VALDEZ<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Professor da mulher do delegado<\/h4>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Se durante a estadia na Ilha do Pres\u00eddio Pinheiro Salles precisava ler apenas o que a censura liberava, no Pres\u00eddio Central, para onde foi levado na sequ\u00eancia, ele contou com uma freira e um delegado para escolher os t\u00edtulos que o interessavam. A primeira criou uma escola para presos comuns do Central, na qual os presos pol\u00edticos atuavam como professores. Al\u00e9m dele, as aulas eram comandadas pelo ex-vereador de Porto Alegre \u00cdndio Vargas (PTB) e pelo advogado Carlos Ara\u00fajo, que foi casado durante 25 anos com a ex-presidenta\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dilma_rousseff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Dilma Rousseff<\/a>\u00a0e faleceu em 2017. \u201cO preso que conseguisse passar no vestibular tinha autoriza\u00e7\u00e3o para frequentar a universidade\u201d, recorda Salles.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Houve algum sucesso no pr\u00e9-vestibular, de tal maneira que um dia o diretor do pres\u00eddio o chamou em sua sala: \u201cA minha mulher quer prestar vestibular. Eu quero que o senhor d\u00ea aulas para ela aqui no meu gabinete, todos os dias\u201d, ordenou ao prisioneiro, que acatou a determina\u00e7\u00e3o de bom grado. Ela tamb\u00e9m foi aprovada e desde ent\u00e3o o militante passou a contar com certa prote\u00e7\u00e3o no Central.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cOs livros que a gente queria, bastava pedir para a freira, que fazia entrar. E, quando havia inspe\u00e7\u00e3o, o diretor ficava sabendo antes, mandava recolher os livros da cela e deixava l\u00e1 no gabinete dele at\u00e9 os militares irem embora. Depois devolvia tudo para a gente\u201d, diz, agradecido.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as a isso, mesmo as noites frias eram menos ruins quando, sob cobertores, o trio estudava filosofia materialista. \u201cO Ara\u00fajo \u00e9 que fazia o ch\u00e1 de cidreira, que aqui no Rio Grande do Sul chama cidr\u00f3\u201d, recordou abra\u00e7ado a \u00cdndio Vargas, a quem dedicou um de seus livros.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A reuni\u00e3o de amigos foi convocada por Vera Daisy Barcellos, presidenta do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul e companheira na milit\u00e2ncia atual &#8211; assim como a colega ga\u00facha, Pinheiro Salles \u00e9 dirigente da\u00a0<a href=\"https:\/\/fenaj.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Jornalistas<\/a>. Desde a primeira vez que ouviu a hist\u00f3ria do ex-preso pol\u00edtico, ela se comoveu, lembrando do tempo em que editava a revista\u00a0<i>Ti\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0(sobre a cultura negra no Rio Grande do Sul), e precisava apresentar todos os textos \u00e0 censura antes de rodar as edi\u00e7\u00f5es. \u201cN\u00e3o era uma viol\u00eancia t\u00e3o grande como a que ele sofreu, mas j\u00e1 era terr\u00edvel\u201d, recorda.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Entre os que aceitaram o convite estavam o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (PT), o \u201cRaul\u00e3o\u201d, como era conhecido, e Carlos Ant\u00f4nio Chagas, a quem todos se referem ainda pelo nome de\u00a0<i>guerra<\/i>, Beto. Foi com Beto que Pinheiro Salles permaneceu por mais de cinco meses no Dops, onde foram torturados na \u201cfossa\u201d, nome dado \u00e0 sala de supl\u00edcios com veda\u00e7\u00e3o ac\u00fastica no atual Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia ga\u00facha. Depois, foram transferidos juntos para um quartel militar em Alegrete, na fronteira com a\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/tag\/c\/d31a99f6b78c9aa002fbcf7885771899\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Argentina<\/a>. O la\u00e7o que criaram nas masmorras da ditadura levou Chagas a ilustrar a amizade com um verso de tango que diz \u201cNo fim da vida tu n\u00e3o ter\u00e1s um peito fraterno para morrer abra\u00e7ado\u201d. \u201cPinheiro Salles foi o peito fraterno que eu tive e a quem poderia ter morrido abra\u00e7ado\u201d, homenageou o amigo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em retribui\u00e7\u00e3o, o jornalista discursou: \u201cSe tempos dif\u00edceis enfrentamos, voc\u00eas sempre iluminaram minha vida, resist\u00eancia e esperan\u00e7a. Nossas m\u00e3os nunca se separaram. Voc\u00eas est\u00e3o guardados permanentemente em minha consci\u00eancia, compromisso e cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalista Ant\u00f4nio Pinheiro Salles volta pela primeira vez ao Rio Grande do Sul 49 anos depois de ser preso pela ditadura militar em Porto Alegre, e visita a Ilha do Pres\u00eddio, uma das pris\u00f5es por onde passou ao longo dos nove anos em que esteve sob cust\u00f3dia do regime<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":305600,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-305599","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/cela-da-ditadura.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/305599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=305599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/305599\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/305600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=305599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=305599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=305599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}