{"id":305778,"date":"2019-12-25T10:24:03","date_gmt":"2019-12-25T13:24:03","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=305778"},"modified":"2019-12-25T10:24:03","modified_gmt":"2019-12-25T13:24:03","slug":"ava-guaranis-travam-batalha-legal-para-permanecer-as-margens-de-itaipu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ava-guaranis-travam-batalha-legal-para-permanecer-as-margens-de-itaipu\/","title":{"rendered":"Av\u00e1-guaranis travam batalha legal para permanecer \u00e0s margens de Itaipu"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \">Os av\u00e1-guarani do rio Paran\u00e1 foram desterrados h\u00e1 40 anos para construir a ent\u00e3o maior hidrel\u00e9trica do mundo. Recuperaram suas terras, mas continuam amea\u00e7ados<\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Santi Carneri\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/santiago_carneri_tamaryn\/a\/\">SANTI CARNERI<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/keCPnDPAyezA4TOggha5V2O6fJ8=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/BXYNWDEQ3ASVOIZ33OOATT3FFA.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as nadam no rio Paran\u00e1. A administra\u00e7\u00e3o de Itaipu proibiu a comunidade de pescar na represa.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Crian\u00e7as nadam no rio Paran\u00e1. A administra\u00e7\u00e3o de Itaipu proibiu a comunidade de pescar na represa.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">MAYELI VILLALBA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Incrustada no imenso e furioso rio Paran\u00e1, ergue-se uma muralha cinza de 196 metros de altura que cont\u00e9m tanto concreto que poderia preencher 210 est\u00e1dios de futebol como o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estadio_maracana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Maracan\u00e3<\/a>. \u00c9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/30\/internacional\/1564512722_936045.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">hidrel\u00e9trica de Itaipu<\/a>, a de maior produ\u00e7\u00e3o que existe, a maior da Am\u00e9rica e a segunda do mundo.<\/p>\n<p class=\"\">Seu lago artificial ocupa 170 quil\u00f4metros de extens\u00e3o em linha reta, e seu nome significa \u201ca pedra onde a \u00e1gua faz barulho\u201d em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/03\/actualidad\/1562148915_640259.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">tupi-guarani, uma das fam\u00edlias lingu\u00edsticas<\/a>\u00a0mais difundidas da Am\u00e9rica do Sul, embora na verdade esse fosse o nome que os povos origin\u00e1rios da regi\u00e3o davam a uma ilha que, como eles, sempre esteve ali.<\/p>\n<p class=\"\">Ou pelo menos at\u00e9 1982, quando a represa necess\u00e1ria \u00e0 opera\u00e7\u00e3o da nova usina inundou a ilha e 1.500 quil\u00f4metros quadrados de florestas ao seu redor, inclu\u00eddas as cataratas de maior volume de \u00e1gua do mundo, chamadas Saltos del Guaira, no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paraguay\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Paraguai<\/a>, e o Salto das Sete Quedas, no Brasil. Eram o dobro de caudalosas que as Cataratas do Ni\u00e1gara, ou 13 vezes mais que as de Victoria, em Z\u00e2mbia. O som da \u00e1gua caindo podia ser ouvido a 30 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, e era um espa\u00e7o sagrado para as culturas ind\u00edgenas da regi\u00e3o.<\/p>\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<p class=\"\">O lugar era tamb\u00e9m uma das maiores atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas do Brasil. Seu afundamento foi como o mito grego da ilha Atl\u00e2ntida, que desapareceu em um s\u00f3 dia, mas neste caso foram necess\u00e1rios 14 para inundar um dos maiores espet\u00e1culos naturais do planeta e um lugar central para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/biodiversidad\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">biodiversidade<\/a>\u00a0do continente e dos povos guaranis que o habitavam desde antes da coloniza\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p class=\"\">O impacto ambiental e a opini\u00e3o dos povos origin\u00e1rios n\u00e3o preocupavam em nada as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ditaduras que na \u00e9poca governavam o Brasil<\/a>\u00a0e o Paraguai. Estes Governos militares foram respons\u00e1veis por dezenas de milhares de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/26\/politica\/1574785901_729738.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">desaparecimentos for\u00e7ados, assassinatos e torturas<\/a>\u00a0a opositores, l\u00edderes sindicais e camponeses, estudantes, artistas, e, obviamente, pelo etnoc\u00eddio dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cFoi um desalojamento, n\u00e3o houve consulta nem consentimento de ningu\u00e9m. Mentiram para n\u00f3s. S\u00f3 queriam que sa\u00edssemos todos\u201d, relata Amada Mart\u00ednez, atual l\u00edder da comunidade av\u00e1-guarani Tekoha Sauce. Mart\u00ednez, de 34 anos, e que viveu no campo e na cidade, conta a odisseia que seus familiares sofreram quando os militares e funcion\u00e1rios paraguaios os pressionaram a irem embora.<\/p>\n<p class=\"\">Pelo menos 38 comunidades dos av\u00e1-guarani do rio Paran\u00e1 estavam inclu\u00eddas entre as mais de 40.000 pessoas desalojadas pela represa. S\u00e3o estimativas por baixo, pois foram intencionalmente reduzidas, segundo um relat\u00f3rio produzido pela Procuradoria Geral do Brasil ap\u00f3s o restabelecimento da democracia.<\/p>\n<p class=\"\">A ditadura do general\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alfredo_stroessner\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Alfredo Stroessner<\/a>\u00a0no Paraguai, a mais prolongada da Am\u00e9rica do Sul (1954-1989), estabeleceu a expropria\u00e7\u00e3o de 165.000 hectares de terras para a cria\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica paraguaio-brasileira. Com esta desculpa, Itaipu expulsou os av\u00e1-guarani, mas n\u00e3o os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ganaderia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pecuaristas<\/a>\u00a0e sojicultores, a maioria brasileiros, que permaneceram em 50.000Ava-guaranis travam batalha legal para permanecer \u00e0s margens de Itaipu hectares de terrenos que deveriam ter sido parte da faixa de florestas. A constru\u00e7\u00e3o desse monstrengo energ\u00e9tico incluiu compensa\u00e7\u00f5es aos Governos estaduais e departamentais de ambos os pa\u00edses. Muitos recursos foram destinados \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, mas alguns n\u00e3o chegaram a bom porto.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/If0dq44ibJST9A9D2g3LtspJWto=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/E4SK2AEP62REUSFTRXICOJ2BZI.jpg\" alt=\"As fam\u00edlias da aldeia Sauce foram informadas de que suas terras seriam inundadas, mas que algum dia poderiam voltar \u2013 algo que quase 40 anos depois ainda n\u00e3o aconteceu. \" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">As fam\u00edlias da aldeia Sauce foram informadas de que suas terras seriam inundadas, mas que algum dia poderiam voltar \u2013 algo que quase 40 anos depois ainda n\u00e3o aconteceu.\u00a0<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">MAYELI VILLALBA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">O mart\u00edrio do povo do rio<\/h4>\n<p class=\"\">\u00c0s fam\u00edlias da aldeia Sauce foram informadas de que suas terras seriam inundadas, mas que algum dia poderiam voltar. Quase 40 anos depois, isso n\u00e3o aconteceu. Ali\u00e1s, seu territ\u00f3rio nem chegou a ser inundado. Mas foram subidos num caminh\u00e3o de gado e levados a terras \u00e1ridas, sem \u00e1gua nem animais, a mais de 30 quil\u00f4metros de seu lugar de origem.<\/p>\n<p class=\"\">Por d\u00e9cadas sobreviveram com muita dificuldade nesse ermo, reivindicando na Justi\u00e7a o direito de voltar algum dia \u00e0 sua terra f\u00e9rtil \u00e0 beira do rio. Contam que padeceram fome e muitas doen\u00e7as, e que muitos morreram disso. Disso, e de tristeza.<\/p>\n<p class=\"\">A cultura milenar deste povo \u00e9 marcada pela \u00e1gua doce, as redes de pesca, os remos e as canoas. Os av\u00e1-guarani do rio Paran\u00e1 sempre tinham vivido de e para esta massa de \u00e1gua, que \u00e9 t\u00e3o larga que parece um mar quando a linha do horizonte oculta a outra margem em muitos trechos. \u201cAt\u00e9 o ano de 1973, nossa \u00fanica estrada era o rio Paran\u00e1\u201d, recorda Julio Mart\u00ednez, pai de Amada, que, na sua juventude, visitava navegando outras comunidades, como Marangatu, Itembeymi, Alika\u2019e e Pira\u2019e, sem importar se ficavam no Paraguai ou no Brasil.<\/p>\n<p class=\"\">Seu outro filho, Crist\u00f3bal Mart\u00ednez, ainda era crian\u00e7a quando, l\u00e1 por 1970, come\u00e7aram a chegar \u00e0 aldeia os rumores de que o Paran\u00e1 seria represado. \u201cEste \u00e9 um lugar tradicional dos av\u00e1 do Paran\u00e1. Quando nos disseram que as \u00e1guas subiriam at\u00e9 aqui, n\u00e3o acreditamos. Sempre t\u00ednhamos vivido do rio\u201d, conta Crist\u00f3bal num\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wcIIkykXd5E&amp;t=298s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">document\u00e1rio lan\u00e7ado recentemente pela diretora paraguaia Leticia Galeano<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\">Ali aparece sentado numa rede pendurada entre duas mangueiras, enquanto um macaco de pelos brancos brinca de correr e pular no seu colo como se fosse um beb\u00ea. Fala em guarani, l\u00edngua milenar que a maioria da popula\u00e7\u00e3o paraguaia utiliza atualmente e que \u00e9 oficial junto com o espanhol.<\/p>\n<p class=\"\">A comunidade Sauce convivia com a mata sem danific\u00e1-la; cultivava hortali\u00e7as e criava porcos e burros nesta terra de abundantes macacos, quatis e on\u00e7as \u2013 jaguaret\u00ea em guarani, que significa cachorro aut\u00eantico, em contraposi\u00e7\u00e3o ao jagu\u00e1, que \u00e9 como chamam o cachorro trazido pelos colonizadores espanh\u00f3is e portugueses. Mas, com a constru\u00e7\u00e3o da represa, tudo mudou. \u201cNossos filhos j\u00e1 n\u00e3o veem esses animais\u201d, lamenta Julio.<\/p>\n<p class=\"\">Por isso, em 2016, fartos de esperar, decidiram retornar a sua terra prometida. As fam\u00edlias da aldeia Tekoha Sauce peregrinaram ent\u00e3o at\u00e9 a reserva natural que rodeia a represa, percorreram a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/opinion\/1573820553_621324.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">floresta<\/a>\u00a0e o rio esquivando os seguran\u00e7as e se instalaram perto do Paran\u00e1, a poucos quil\u00f4metros da hidrel\u00e9trica que abastece aproximadamente 30% dos 200 milh\u00f5es de habitantes do Brasil, al\u00e9m do Paraguai inteiro.<\/p>\n<p class=\"\">Mas o momento durou pouco. Ap\u00f3s alguns meses, um dispositivo policial que inclu\u00eda unidades especiais e fiscais apareceu ali numa madrugada e atou fogo \u00e0s suas casas e ao templo de madeira. A gritos e golpes, foram expulsos de novo.<\/p>\n<p class=\"\">Aguentaram uma tortura de idas e vindas \u00e0s\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/29\/internacional\/1553879369_387868.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de Assun\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0sem encontrar respostas nem apoio. S\u00e3o 65 fam\u00edlias compostas em sua maioria por mulheres, crian\u00e7as e adolescentes, e que sobreviveram quase como indigentes a poucos passos da sua floresta cheia de recursos, sem poder entrar nela e sem poder cultivar sua pr\u00f3pria comida.<\/p>\n<p class=\"\">Como n\u00e3o tinham j\u00e1 nada a perder, voltaram tentar. Em 2018, entraram novamente no seu territ\u00f3rio ancestral e se instalaram \u00e0s portas na reserva natural Limoy, que a Itaipu mant\u00e9m na \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental ao seu redor.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/p8Yf55XjYYMZnosmn1BcW_iSnaI=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/KEL5DSMGIVZDMWZZSCYKJLZX6A.jpg\" alt=\"A comunidade Sauce convivia com a mata sem danific\u00e1-la; cultivava-suas hortali\u00e7as e criava porcos e burros nesta terra de abundantes macacos, quatis e on\u00e7as. Mas tudo mudou com a constru\u00e7\u00e3o da represa.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">A comunidade Sauce convivia com a mata sem danific\u00e1-la; cultivava-suas hortali\u00e7as e criava porcos e burros nesta terra de abundantes macacos, quatis e on\u00e7as. Mas tudo mudou com a constru\u00e7\u00e3o da represa.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">MAYELI VILLALBA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Jurisprud\u00eancia internacional, a favor dos av\u00e1<\/h4>\n<p class=\"\">\u201cAs normas internacionais de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/derechos_humanos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">direitos humanos<\/a>\u00a0e a Constitui\u00e7\u00e3o da atual democracia paraguaia protegem as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Por isso n\u00e3o podem ser desalojadas e tampouco feitas modifica\u00e7\u00f5es em seu territ\u00f3rio sem o consentimento livre e informado da comunidade\u201d, dizem a\u00a0<a href=\"https:\/\/anistia.org.br\/anistia-em-acao\/o-labirinto-caso-marielle-franco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Anistia Internacional<\/a>\u00a0e a plataforma paraguaia Tekoha Sauce Resiste.<\/p>\n<p class=\"\">Estas organiza\u00e7\u00f5es acompanham a reclama\u00e7\u00e3o da comunidade Tekoha Sauce junto \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o pela Autodetermina\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas (FAPI) e a Associa\u00e7\u00e3o de Comunidades Ind\u00edgenas Guaranis do Alto Paran\u00e1 (Acigap), para que o Governo paraguaio medeie a disputa com a hidrel\u00e9trica. Mas a empresa\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/05\/10\/politica\/1557523277_609786.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Itaipu Binacional<\/a>\u00a0os denunciou judicialmente no Paraguai e pede seu desalojamento.<\/p>\n<p class=\"\">A Frente Gua\u00e7u, a terceira maior for\u00e7a pol\u00edtica do Senado paraguaio, levou o caso \u00e0 C\u00e2mara de Senadores para que o investigue. Segundo as provas apresentadas a outros legisladores, enquanto Itaipu pretende que as fam\u00edlias av\u00e1-guarani saiam, cedeu partes da reserva a empres\u00e1rios agroindustriais.<\/p>\n<p class=\"\">Uma investiga\u00e7\u00e3o do jornal paraguaio \u00daltima Hora revelou que na reserva onde os nativos s\u00e3o barrados existe um porto que funciona h\u00e1 20 anos com um embarcadouro de caminh\u00f5es de grande porte, o que exigiu o desmatamento de dois hectares. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria Itaipu admite que na faixa de prote\u00e7\u00e3o natural h\u00e1 24 cess\u00f5es vigentes e outras 26 em tr\u00e2mite, dadas a clubes de pesca, ag\u00eancias de ecoaventura e outros empreendimentos privados que usam embarca\u00e7\u00f5es a motor.<\/p>\n<p class=\"\">A Itaipu respondeu recentemente a estas acusa\u00e7\u00f5es num relat\u00f3rio enviado ao Senado paraguaio. Nele assegura que desde a \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o \u201ccumpriu o acordado com as institui\u00e7\u00f5es governamentais e n\u00e3o governamentais envolvidas, afins \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, e a todas as legisla\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais vigentes \u00e0 \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Sobre a comunidade Sauce, Itaipu diz ter adquirido terras para reassentar os ind\u00edgenas por um valor de 15 milh\u00f5es de d\u00f3lares (cerca de 60 milh\u00f5es de reais, pelo c\u00e2mbio atual), mas os locais que ela indica j\u00e1 eram espa\u00e7os onde viviam outros povos nativos, ou que pertenciam \u00e0 Igreja ou ao Estado, e os t\u00edtulos das terras nunca chegaram a estar em nome da comunidade em quest\u00e3o. Itaipu diz tamb\u00e9m que nos \u00faltimos anos desenvolveu \u201ca\u00e7\u00f5es socioambientais\u201d num valor de 600.000 d\u00f3lares (2,4 milh\u00f5es de reais).<\/p>\n<p class=\"\">O trajeto at\u00e9 Sauce consiste em eternos quil\u00f4metros de estadas de terra roxa e uma paisagem sem fim de campos moribundos. Quase n\u00e3o resta natureza nativa ao redor. A \u00fanica infraestrutura que se v\u00ea s\u00e3o os gigantescos silos de sementes e, \u00e0s vezes, alguma grande mans\u00e3o de campo. O \u00faltimo povoado mais pr\u00f3ximo \u00e9 habitado por brasileiros, ou brasiguaios, com todas as suas placas em portugu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"\">Na Tekoha Sauce vivem com medo dos guardas da empresa binacional. E seu medo tem fundamento. Permanecem em um prec\u00e1rio assentamento localizado numa estrada entre a reserva de Itaipu e uma imensa planta\u00e7\u00e3o mecanizada de soja do empres\u00e1rio Germ\u00e1n Hutz, que usa 80 hectares de terras p\u00fablicas perto da reserva, segundo um estudo realizado pelo perito antrop\u00f3logo Jorge Serv\u00edn, ex-presidente do Instituto Paraguaio do Ind\u00edgena (Indi).<\/p>\n<p class=\"\">Esse relat\u00f3rio afirma que a Itaipu Binacional deveria ressarcir com pelo menos 5.000 hectares a comunidade Tekoha Sauce ou, do contr\u00e1rio, exp\u00f5e-se a uma a\u00e7\u00e3o internacional perante organismos como a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cidh_comision_interamericana_derechos_humanos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos<\/a>\u00a0(CIDH).<\/p>\n<p class=\"\">Em 8 de agosto de 2018, Amada Mart\u00ednez, sua irm\u00e3, seu filho, dois sobrinhos menores de idade e um taxista foram perseguidos e interceptados ao sa\u00edrem de sua comunidade por uma caminhonete com o logotipo da hidrel\u00e9trica de Itaipu Binacional e cinco homens a bordo. Tr\u00eas deles, armados com escopetas e um rev\u00f3lver, desceram do ve\u00edculo encapuzados e com uniforme de guarda-florestal. Enquanto um agente apontava para o rosto de Mart\u00ednez com uma escopeta, outro a amea\u00e7ou dizendo que logo a encontrariam sozinha no caminho, e que era uma \u201cmulher bocuda\u201d, segundo um relat\u00f3rio de Anistia Internacional.<\/p>\n<p class=\"\">Os av\u00e1-guarani t\u00eam l\u00e1 uns poucos animais como c\u00e3es, cabras e galinhas. As crian\u00e7as nadam no rio, mas a Itaipu Binacional proibiu que a comunidade pesque nele. T\u00eam dois po\u00e7os de \u00e1gua, constru\u00eddos por eles mesmos, cozinham a lenha e n\u00e3o t\u00eam energia el\u00e9trica. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil para a comunidade que s\u00f3 pede uma sa\u00edda negociada com o Estado que sempre a ignorou.<\/p>\n<p class=\"\">A Itaipu oferece aos turistas uma visita ao seu museu, chamado justamente Terra Guarani. E, como se fosse uma brincadeira macabra ou uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es, l\u00e1 est\u00e3o, no canto de uma sala, entre vidra\u00e7as e cartelinhas cheias de informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, bonecos de homens e mulheres av\u00e1-guarani vestidos com tanga, como se fossem neandertais e tivessem sido extintos. Como se n\u00e3o fossem pessoas com direitos, como se n\u00e3o estivessem l\u00e1 fora lutando para sobreviver.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crian\u00e7as nadam no rio Paran\u00e1. A administra\u00e7\u00e3o de Itaipu proibiu a comunidade de pescar na represa.MAYELI VILLALBA<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":305779,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-305778","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/indios-na-beira-do-rio.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/305778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=305778"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/305778\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/305779"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=305778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=305778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=305778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}