{"id":306040,"date":"2019-12-28T16:10:42","date_gmt":"2019-12-28T19:10:42","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=306040"},"modified":"2019-12-28T16:10:42","modified_gmt":"2019-12-28T19:10:42","slug":"os-filhos-abandonados-da-onu-no-haiti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-filhos-abandonados-da-onu-no-haiti\/","title":{"rendered":"Os filhos abandonados da ONU no Haiti"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \">As hist\u00f3rias de 265 crian\u00e7as haitianas que seus pais, Capacetes Azuis (dentre eles brasileiros), deixaram para tr\u00e1s ap\u00f3s manterem rela\u00e7\u00f5es com suas m\u00e3es, muitas vezes em troca de comida<\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\">SABINE LEE E SUSAN BARTELS<\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/UVWmw9Xwgz3JsYEQiO5cKriS6sk=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/ZGFG74NMEY73EF4L4SL3HBMLK4.jpg\" alt=\"Crian\u00e7a na favela de Cit\u00e9 Soleil em Porto Pr\u00edncipe. Agosto de 2013.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Crian\u00e7a na favela de Cit\u00e9 Soleil em Porto Pr\u00edncipe. Agosto de 2013.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">NEKTARIOS MARKOGIANNIS (UN PHOTO)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Marie* tinha 14 anos e frequentava uma escola crist\u00e3 quando conheceu Miguel, um soldado brasileiro enviado ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/haiti\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Haiti<\/a>\u00a0como parte das for\u00e7as de paz da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/onu_organizacion_naciones_unidas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ONU<\/a>, um contingente conhecido como Capacetes Azuis. Logo eles iniciaram um relacionamento. Quando lhe contou que estava gr\u00e1vida, Miguel lhe prometeu que a ajudaria com a crian\u00e7a, mas voltou ao Brasil. Marie tentou se comunicar com ele atrav\u00e9s do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/facebook\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Facebook<\/a>, mas o militar nunca respondeu.<\/p>\n<p class=\"\">Ao saber da gravidez, o pai de Marie a expulsou de casa e ela foi morar com sua irm\u00e3. Atualmente, seu filho tem quatro anos e Marie continua \u00e0 espera de receber algum tipo de ajuda por parte do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ejercito_brasileno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ex\u00e9rcito brasileiro<\/a>, de alguma ONG, das Na\u00e7\u00f5es Unidas ou do Estado haitiano. Marie faz o que pode para que nada falte ao pequeno, mas n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de escolariz\u00e1-lo. Trabalha por um sal\u00e1rio de 25 gourdes (1,09 real) por hora, o que mal cobre as necessidades alimentares de ambos. Para pagar a moradia e as mensalidades escolares ela precisa de ajuda.<\/p>\n<p class=\"\">Infelizmente, a hist\u00f3ria de Marie n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. Em meados de 2017, nossa equipe de investiga\u00e7\u00e3o realizou uma pesquisa com aproximadamente 2.500 haitianos sobre as experi\u00eancias de mulheres e meninas de comunidades onde as miss\u00f5es de estabiliza\u00e7\u00e3o atuavam. Entre todos os entrevistados, 265 ofereceram depoimentos sobre gesta\u00e7\u00f5es decorrentes de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/12\/internacional\/1518454290_091888.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">relacionamentos com o pessoal militar da ONU<\/a>. Esse contingente, pouco mais de 10% do total, mencionou as hist\u00f3rias destas crian\u00e7as, dignas de nota, como se fossem uma realidade cotidiana. Do total de hist\u00f3rias, 28,3% envolvem soldados do Uruguai, e 21,9% do Brasil.<\/p>\n<p class=\"\">As narrativas revelam como meninas de apenas 11 anos eram\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/violaciones\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">estupradas<\/a>\u00a0e engravidadas pelos Capacetes Azuis, sendo depois \u201cabandonadas na mais absoluta mis\u00e9ria\u201d, conforme relatou um dos entrevistados. Tiveram que manter sozinhas os filhos que foram fruto desses relacionamentos porque os pais eram repatriados assim que a gravidez era conhecida. Como Marie, in\u00fameras mulheres ficaram desamparadas a cargo de seus filhos, em condi\u00e7\u00f5es de extrema\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pobreza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pobreza<\/a>\u00a0e desigualdade, a maioria sem receber nenhum tipo de ajuda.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Uma miss\u00e3o envolvida em pol\u00eamica<\/h4>\n<p class=\"\">A Miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Estabiliza\u00e7\u00e3o no Haiti (MINUSTAH), a opera\u00e7\u00e3o mais extensa desenvolvida pela organiza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds caribenho (2004-2017), foi concebida originalmente com o objetivo de colaborar com institui\u00e7\u00f5es locais em um contexto de instabilidade pol\u00edtica dominada pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/crimen_organizado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">crime organizado<\/a>. O mandato foi prolongado devido \u00e0s cat\u00e1strofes naturais: em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/terremoto_haiti_2010\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">2010, o Haiti sofreu um terremoto<\/a>, e em 2016 padeceu os arrasadores efeitos do furac\u00e3o Matthew, acontecimentos que aumentaram a inseguran\u00e7a da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds. Depois de 13 anos de miss\u00e3o, a MINUSTAH chegou ao fim em outubro de 2017, dando lugar \u00e0 mais modesta Miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Apoio \u00e0 Justi\u00e7a no Haiti (MINUJUSTH).<\/p>\n<p class=\"\">A MINUSTAH foi uma das miss\u00f5es mais pol\u00eamicas da ONU. Foi o foco de inumer\u00e1veis acusa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/abusos_sexuales\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">abusos sexuais<\/a>: n\u00e3o s\u00e3o poucos os militares e funcion\u00e1rios que foram relacionados com viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos que incluem explora\u00e7\u00e3o sexual, estupros e inclusive homic\u00eddios. (Ao longo desta reportagem, empregaremos indistintamente os termos\u00a0<i>pessoal<\/i>,\u00a0<i>Capacetes Azuis<\/i>\u00a0e\u00a0<i>pacificadores<\/i>\u00a0para nos referirmos a membros estrangeiros, tanto militares quanto civis, associados \u00e0 MINUSTAH.)<\/p>\n<p class=\"\">No que diz respeito \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, n\u00e3o existe nenhuma d\u00favida (de fato, a ONU reconheceu oficialmente) sobre a introdu\u00e7\u00e3o acidental do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/colera\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">c\u00f3lera<\/a>\u00a0no Haiti por parte dos Capacetes Azuis. Mais de 800.000 habitantes do pa\u00eds precisaram de atendimento m\u00e9dico, e pelo menos 10.000 morreram por causa da doen\u00e7a.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/P_PxwZ8FJEwt5BvxMo9B8CYuLlk=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/7B4GGPTMKKLNYGPQDARD327JKU.jpg\" alt=\"Delmas 32, comunidade em Porto Pr\u00edncipe, Hait\u00ed.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Delmas 32, comunidade em Porto Pr\u00edncipe, Hait\u00ed.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">DOMINIC CHAVEZ (WORLD BANK)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Numerosos meios de comunica\u00e7\u00e3o j\u00e1 revelaram que membros do pessoal da ONU ofereciam alimentos e pequenas quantidades de dinheiro a garotas menores de idade em troca de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/relaciones_sexuales\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">rela\u00e7\u00f5es sexuais<\/a>. Al\u00e9m disso, apontou-se a rela\u00e7\u00e3o entre a MINUSTAH e um grupo secreto que realizou abusos sexuais de todo tipo com aparente impunidade: supostamente, pelo menos 134 Capacetes Azuis procedentes do Sri Lanka exploraram sexualmente nove meninas entre 2004 e 2007. Depois que esses fatos vieram \u00e0 tona gra\u00e7as ao\u00a0<a href=\"https:\/\/apnews.com\/e6ebc331460345c5abd4f57d77f535c1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">trabalho da Associated Press<\/a>, em 2017, a MINUSTAH se tornou um paradigma da falta de contund\u00eancia perante acusa\u00e7\u00f5es de abusos sexuais. Como consequ\u00eancia daquela reportagem, 114 Capacetes Azuis foram obrigados a voltar ao Sri Lanka, mas nenhum foi processado ou julgado depois da repatria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">Estudos exaustivos evidenciam que crian\u00e7as concebidas em situa\u00e7\u00f5es de guerra costumam crescer no seio de fam\u00edlias monoparentais que sofrem condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas extremamente prec\u00e1rias provocadas pelo conflito. As circunst\u00e2ncias de que o pai estrangeiro esteja ausente e que o nascimento da crian\u00e7a ocorra fora do casamento geralmente desembocam em situa\u00e7\u00f5es de estigma e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">Ainda n\u00e3o dispomos de muitos dados sobre as consequ\u00eancias de ser uma crian\u00e7a mesti\u00e7a, filha de pai militar estrangeiro, e menos ainda conhecemos as experi\u00eancias pessoais dos chamados filhos da MINUSTAH, crian\u00e7as haitianas cujos pais s\u00e3o Capacetes Azuis. Esta \u00e9, justamente, uma das raz\u00f5es pelas quais decidimos atrair o foco para as hist\u00f3rias das pessoas afetadas pelas miss\u00f5es executadas pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Nosso estudo<\/h4>\n<p class=\"\">As hist\u00f3rias que esmiu\u00e7amos partem das respostas dos participantes \u00e0s nossas perguntas: quer\u00edamos que nos contassem como \u00e9 ser uma mulher ou uma menina em uma comunidade transformada no cen\u00e1rio de uma miss\u00e3o de estabiliza\u00e7\u00e3o. Gravamos seus depoimentos em \u00e1udio. Neles, as pessoas entrevistadas relataram suas experi\u00eancias mediante um question\u00e1rio pr\u00e9-definido, o que nos permitiu compreender com maior precis\u00e3o as circunst\u00e2ncias e consequ\u00eancias de suas intera\u00e7\u00f5es com os Capacetes Azuis.<\/p>\n<p class=\"\">Os participantes tinham total liberdade para compartilhar qualquer hist\u00f3ria sobre qualquer pessoa. Cabe destacar que em nenhum momento se insistiu para que falassem sobre abusos sexuais ou explora\u00e7\u00e3o. Os encarregados de registrar as declara\u00e7\u00f5es no ver\u00e3o boreal de 2017 foram colaboradores haitianos treinados para isso, e os lugares escolhidos foram comunidades pr\u00f3ximas a 10 bases da ONU.<\/p>\n<p class=\"\">Perguntou-se a aproximadamente 2.500 haitianos a respeito das experi\u00eancias das mulheres e meninas que vivem em comunidades que receberam miss\u00f5es de paz. Foram colhidos diversos testemunhos, tanto positivos quanto negativos, mas 265 das hist\u00f3rias (10%) versavam sobre crian\u00e7as cuja paternidade correspondia aos Capacetes Azuis. Isto \u00e9 especialmente not\u00e1vel, j\u00e1 que o objetivo prim\u00e1rio das perguntas do estudo n\u00e3o era indagar sobre as rela\u00e7\u00f5es sexuais entre as mulheres locais e o pessoal militar, nem girava em torno das crian\u00e7as concebidas a partir dessas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\">O que a espontaneidade dessas respostas sugere n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que os abusos sexuais e a explora\u00e7\u00e3o por parte dos Capacetes Azuis n\u00e3o eram fatos isolados. Um entrevistado de Port-Salut afirmou: \u201cMuitas garotas t\u00eam filhos dos MINUSTAH\u201d. Declara\u00e7\u00e3o referendada por outro homem de Saint-Marc, que nos contou que a MINUSTAH \u201cdeixou muitas crian\u00e7as sem pais\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Alguns dos relatos foram compartilhados em primeira pessoa por mulheres que tinham parido filhos resultantes de rela\u00e7\u00f5es com pessoal da ONU, enquanto outras revela\u00e7\u00f5es eram apresentadas por membros de suas fam\u00edlias, amigos ou vizinhos. At\u00e9 onde nosso conhecimento alcan\u00e7a, estas hist\u00f3rias constituem a primeira investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica que pretende dar voz \u00e0s fam\u00edlias afetadas pela explora\u00e7\u00e3o e os abusos sexuais perpetrados pelos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cascos_azules\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Capacetes Azuis<\/a>\u00a0da ONU.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Sexo por um prato de comida<\/h4>\n<p class=\"\">V\u00e1rios dos encontros entre mulheres e meninas haitianas e o pessoal militar da ONU foram descritos como viol\u00eancia sexual. Um homem de Cit\u00e9 Soleil recordava que \u201ctodos os dias escutava mulheres se queixarem da viol\u00eancia sexual que os MINUSTAH exerciam contra elas. Al\u00e9m disso, eram contagiadas com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">AIDS<\/a>, e algumas delas engravidaram\u201d.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/T4D-vVMuAv2FhN2E6Q_eKJ71AO8=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/R4WCHXZFSGDNIDWHQWFONWP454.jpg\" alt=\"A praia de Calico ficou famosa por ser ponto de prostitui\u00e7\u00e3o.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">A praia de Calico ficou famosa por ser ponto de prostitui\u00e7\u00e3o.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">CHANTEL COLE<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">N\u00e3o s\u00f3 escutamos hist\u00f3rias de abusos sexuais contra mulheres e meninas, mas tamb\u00e9m sobre homens e meninos que sofreram maus tratos semelhantes por parte dos MINUSTAH. No entanto, as agress\u00f5es sexuais eram a nota discordante, pois as rela\u00e7\u00f5es escondiam um problema muito habitual nestes contextos, embora com menos repercuss\u00e3o midi\u00e1tica que os estupros: a troca de bens ou dinheiro por sexo com pessoal da ONU.<\/p>\n<p class=\"\">Um homem casado de Cit\u00e9 Soleil descreveu um padr\u00e3o comum pelo qual as mulheres recebiam pequenas quantias em dinheiro em troca de sexo: \u201cVinham, dormiam com elas, se aliviavam, deixavam-lhes com a crian\u00e7a no bra\u00e7os e lhes davam 500 gourdes [pouco mais de 20 reais]\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Em outros casos, os membros da MINUSTAH davam comida \u00e0s mulheres, o que indica as condi\u00e7\u00f5es de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/28\/economia\/1574944397_211018.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">extrema pobreza<\/a>\u00a0que propiciavam esses encontros sexuais. Um homem de Port-Salut assim relatou: \u201cFaziam sexo com as garotas j\u00e1 nem por dinheiro, e sim em troca de alimentos, de um prato de comida\u201d.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">A evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es<\/h4>\n<p class=\"\">Outra linha de investiga\u00e7\u00e3o que recebeu pouqu\u00edssima aten\u00e7\u00e3o em relat\u00f3rios anteriores \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sexuais consensuais entre membros da MINUSTAH e as mulheres do Haiti. \u00c0s vezes, n\u00e3o passavam de rela\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas que derivavam em gesta\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o caso que relata um homem de Port-Salut:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cMinha irm\u00e3 sa\u00eda com um soldado da MINUSTAH, e toda minha fam\u00edlia sabia, minha m\u00e3e e todo mundo. Mas depois ficou gr\u00e1vida e, desde ent\u00e3o, a vida da minha irm\u00e3 \u00e9 um desastre.\u201d<\/p>\n<p class=\"\">Outros relacionamentos se caracterizavam pelo carinho e o compromisso, como o desta mulher:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cVivia em Cit\u00e9 Soleil e tinha uma rela\u00e7\u00e3o com um MINUSTAH em que reinava o amor. Afinal, fiquei gr\u00e1vida dele.\u201d<\/p>\n<p class=\"\">Ao longo da investiga\u00e7\u00e3o, descobrimos que manter rela\u00e7\u00f5es com militares brancos e ter filhos de pele branca era, \u00e0s vezes, algo desejado. Uma mulher de L\u00e9og\u00e2ne revelou que existiam \u201crumores\u201d a respeito de garotas que mantinham rela\u00e7\u00f5es com os MINUSTAH e ficavam gr\u00e1vidas porque \u201cqueriam ter crian\u00e7as lindas\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Independentemente da natureza do relacionamento \u2013 consensual ou transacional \u2013, foi poss\u00edvel apreciar certos padr\u00f5es espec\u00edficos no que se refere aos lugares e \u00e0 maneira como ocorriam. Por exemplo, era habitual que os encontros acontecessem na praia ou em um hotel, conforme detalha uma mulher de Cit\u00e9 Soleil sobre uma amiga: \u201cCostumavam ir \u00e0 praia e depois a um hotel, o homem branco pagava e faziam sexo\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Tamb\u00e9m \u00e9 motivo de grande preocupa\u00e7\u00e3o que muitas das m\u00e3es que pariram e criam crian\u00e7as resultantes de suas rela\u00e7\u00f5es com os Capacetes Azuis fossem adolescentes e, portanto, n\u00e3o tivessem ainda a idade m\u00ednima para dar seu consentimento \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sexuais. Uma mulher de Cit\u00e9 Soleil nos contou: \u201cPor aqui se veem garotas de 12 e 13 anos que os MINUSTAH engravidaram e abandonaram na pobreza com as crian\u00e7as aos seus cuidados. Falamos de pessoas cuja vida j\u00e1 era estressante e desgra\u00e7ada por si s\u00f3\u201d.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Desamparo<\/h4>\n<p class=\"\">A maioria dos relatos mostra que, ao saberem das gesta\u00e7\u00f5es, os pacificadores da MINUSTAH eram repatriados pela ONU aos seus pa\u00edses de origem. Uma mulher de Port-Salut nos contou que \u201cuma de minhas irm\u00e3s teve um filho com um MINUSTAH. Teve porque o conheceu e se apaixonou por ele. O soldado cuidava dela, mas o repatriaram e a\u00ed ele deixou de lhe mandar coisas\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Um homem de Hinche relatou uma experi\u00eancia parecida que teve uma garota que conhecia: \u201cEngravidou de um MINUSTAH. (\u2026) A\u00ed o transferiram, deixou seu posto e nunca o voltaram a ver\u201d.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/rfWjOi1qDN0kEQmhYEhdV70Gszk=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/H3U5ZG2JBYFDW4DDVY4NNDERKE.jpg\" alt=\"Poucas m\u00e3es conseguem arcar com os custos para que seus \u2018beb\u00eas de paz\u2019 frequentem escolas como esta de Kolminy.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Poucas m\u00e3es conseguem arcar com os custos para que seus \u2018beb\u00eas de paz\u2019 frequentem escolas como esta de Kolminy.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">MICHELLE D. MILLIMAN (SHUTTERSTOCK.COM)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Depois da partida dos Capacetes Azuis que tinham sido ou seriam pais, muitas mulheres jovens se viram sozinhas com o dever de criar um filho em condi\u00e7\u00f5es de pobreza extrema. Algumas tiveram sorte e contaram com a ajuda de suas fam\u00edlias, mas eram exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\">Em praticamente todos os casos, o acesso \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/educacion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">educa\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0estava fora do alcance da m\u00e3e ou da fam\u00edlia, conforme lamenta uma mulher de Port-Salut:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cComecei a conversar com ele, ele me disse que me amava e eu aceitei sair com ele. Tr\u00eas meses depois estava gr\u00e1vida, mas em setembro o mandaram de volta ao seu pa\u00eds. O menino est\u00e1 crescendo e minha fam\u00edlia est\u00e1 me ajudando com o que pode. Tenho que voltar a escolariz\u00e1-lo \u2013 \u00e9 que o expulsaram porque eu n\u00e3o tinha como pagar as mensalidades\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Um homem de Cap-Ha\u00eftien comentava:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cOs soldados destro\u00e7aram o futuro destas garotas ao deix\u00e1-las gr\u00e1vidas para depois abandon\u00e1-las. Este comportamento pode gerar consequ\u00eancias negativas para a sociedade e o pa\u00eds em geral, j\u00e1 que estas jovens poderiam ter se tornado advogadas, m\u00e9dicas ou alguma outra coisa que pudesse ter servido de ajuda ao Haiti no dia de amanh\u00e3. Agora, podemos ver muitas vagando pelas ruas ou pela feira com um cesto na cabe\u00e7a e vendendo laranjas, piment\u00f5es e outras coisas para poder criar os filhos que tiveram com os soldados da MINUSTAH\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Em alguns casos extremos, embora poucos, os membros da comunidade relataram que as mulheres e meninas desamparadas n\u00e3o tiveram outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o se envolverem em mais rela\u00e7\u00f5es sexuais com Capacetes Azuis para alimentarem filhos nascidos dos encontros pr\u00e9vios com os MINUSTAH. Um homem de Porto Pr\u00edncipe compartilhava um exemplo:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cEle a deixou largada na pobreza porque quando fazia sexo com ela era em troca de muito pouco dinheiro. Agora que a miss\u00e3o est\u00e1 acabando, ele vai embora e ela se afunda na mis\u00e9ria, e se v\u00ea obrigada a repetir o mesmo processo para dar de comer ao seu filho, percebe?\u201d<\/p>\n<p class=\"\">As hist\u00f3rias que reunimos estavam repletas de pedidos de ajuda dirigidos \u00e0 MINUSTAH e \u00e0s autoridades haitianas. Um homem de Port-Salut deixou clara sua reivindica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cEu gostaria de pedir aos encarregados da MINUSTAH que assumissem as responsabilidades no que diz respeito aos filhos dos membros da miss\u00e3o. Fazemos o que podemos, mas n\u00e3o s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es para criar uma crian\u00e7a.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Poder e explora\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p class=\"\">Nossa investiga\u00e7\u00e3o deixa claro o que grande parte da literatura acad\u00eamica d\u00e1 a entender sobre as economias de pa\u00edses onde h\u00e1 miss\u00f5es estabilizadoras: a pobreza \u00e9 um fator subjacente importante para a explora\u00e7\u00e3o e os abusos sexuais consumados pelas for\u00e7as pacificadoras.<\/p>\n<p class=\"\">Em numerosos casos, a diferen\u00e7a de poder existente entre os Capacetes Azuis estrangeiros e as popula\u00e7\u00f5es locais permite aos primeiros explorar mulheres e meninas que fazem parte das segundas, seja de maneira consciente ou inconsciente.<\/p>\n<p class=\"\">O predom\u00ednio das rela\u00e7\u00f5es sexuais com um componente comercial nos dados reunidos evidencia a envergadura das desigualdades estruturais, materializado no acesso do pessoal da ONU a recursos que a popula\u00e7\u00e3o local necessita ou deseja, por isso os Capacetes Azuis se encontram em uma posi\u00e7\u00e3o vantajosa para intercambiar esse objeto de desejo por sexo.<\/p>\n<p class=\"\">Embora grande parte das hist\u00f3rias mencionadas nos par\u00e1grafos anteriores tenham sido colhidas em Port-Salut e Cit\u00e9 Soleil, os relatos n\u00e3o diferiam muito entre os diferentes pontos do Haiti \u2013 sem falar que o fen\u00f4meno descrito n\u00e3o ocorreu unicamente neste pa\u00eds caribenho. De fato, o trabalho que realizamos previamente na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/republica_democratica_del_congo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo<\/a>\u00a0nos mostra uma situa\u00e7\u00e3o similar.<\/p>\n<p class=\"\">Dentro de sua pol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero, a ONU reconhece a exist\u00eancia de desigualdades socioecon\u00f4micas e de poder com o potencial para propiciar \u201crela\u00e7\u00f5es \u00edntimas\u201d entre os pacificadores e as mulheres locais em um marco de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">Basicamente, a ONU pro\u00edbe praticamente todas as rela\u00e7\u00f5es sexuais entre o pessoal das miss\u00f5es e as mulheres dos lugares onde ocorrem as opera\u00e7\u00f5es. A informa\u00e7\u00e3o reunida por nossa equipe, al\u00e9m de mostrar que tal proibi\u00e7\u00e3o absoluta \u00e9 ineficaz, indica que \u00e9 necess\u00e1rio focar o assunto da forma\u00e7\u00e3o personalizada dos membros da ONU, com o prop\u00f3sito de acabar de uma vez por todas com a impunidade que ainda hoje cerca a conduta inapropriada dos Capacetes Azuis.<\/p>\n<p class=\"\">Outro elemento fundamental radica na necessidade de dispor de um maior n\u00famero de mecanismos efetivos que permitam \u00e0s v\u00edtimas de explora\u00e7\u00f5es e abusos sexuais e a seus filhos (nascidos tanto de rela\u00e7\u00f5es consensuais como de estupros) o acesso \u00e0s ajudas. A aplica\u00e7\u00e3o de medidas nesse sentido poderia p\u00f4r fim \u00e0 negativa espiral socioecon\u00f4mica que mant\u00e9m as v\u00edtimas (especialmente as crian\u00e7as) retidas em circunst\u00e2ncias de urgentes estreitezas econ\u00f4micas s\u00f3 servem para perpetuar o ciclo da pobreza.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Apoio \u00e0s crian\u00e7as<\/h4>\n<p class=\"\">Em janeiro de 2018, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ijdh.org\/tag\/bureau-des-avocats-internationaux-bai\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Bureau des Avocats Internationaux<\/a>\u00a0(BAI) haitiano apresentou v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es de reconhecimento de paternidade perante a Justi\u00e7a desse pa\u00eds, representando 10 supostos filhos de Capacetes Azuis. A inten\u00e7\u00e3o do BAI era pressionar a ONU a instituir uma ajuda econ\u00f4mica aos menores.<\/p>\n<p class=\"\">Um ano depois, o BAI dirigiu uma carta aberta \u00e0 Defensora das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos das V\u00edtimas, Jane Connors, em que deixava patente sua frustra\u00e7\u00e3o ao constatar a falta de sensibilidade e inten\u00e7\u00e3o de cooperar por parte da ONU, desinteresse que tornou \u201cpraticamente imposs\u00edvel\u201d que seus clientes obtivessem justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"\">Depois de certificar a negativa da ONU em facilitar os resultados das an\u00e1lises de DNA dos exames de paternidade, apesar de receber ordens expl\u00edcitas por parte de um tribunal do Haiti, a carta conclui observando que a ONU mandava \u201cuma mensagem alarmante\u201d, devido \u00e0 \u201ctotal aus\u00eancia de respeito\u201d ao sistema judicial haitiano e o Estado de direito.<\/p>\n<p class=\"\">A ina\u00e7\u00e3o da ONU faz sugiram inc\u00f3gnitas de todo tipo sobre a ret\u00f3rica da organiza\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 defesa da dignidade e os direitos das pessoas afetadas pela explora\u00e7\u00e3o e os abusos sexuais perpetrados pelos Capacetes Azuis.<\/p>\n<p class=\"\">Al\u00e9m disso, p\u00f5e em d\u00favida a efetividade das interven\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelo Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Defesa dos Direitos das V\u00edtimas, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 advogar pelos direitos das v\u00edtimas e envolver a ONU na luta contra a explora\u00e7\u00e3o e os abusos sexuais ao servi\u00e7o de suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Recomenda\u00e7\u00f5es<\/h4>\n<p class=\"\">Os descobrimentos a que nossa investiga\u00e7\u00e3o nos conduziu nos permitem elaborar tr\u00eas recomenda\u00e7\u00f5es fundamentais.<\/p>\n<p class=\"\">1) A forma\u00e7\u00e3o do pessoal da ONU deve incluir um compartimento de conscientiza\u00e7\u00e3o cultural que reforce o entendimento dos efeitos que as diferen\u00e7as de poder podem causar nas fr\u00e1geis economias dos pa\u00edses submetidos ao processo de estabiliza\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, a instru\u00e7\u00e3o deve insistir no desejo percebido de ter um filho com um pacificador, assim como n\u00e3o deve esquecer as consequ\u00eancias socioecon\u00f4micas que as mulheres em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade sofrem ap\u00f3s serem abandonadas tendo que cuidar de um filho concebido com pessoal da ONU.<\/p>\n<p class=\"\">2) A ONU deve cessar a repatria\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos implicados em casos de explora\u00e7\u00e3o ou abusos sexuais, j\u00e1 que isso acarreta consequ\u00eancias duplamente negativas. Em primeiro lugar, impede que o suposto agressor seja julgado de maneira eficaz num processo que permita dirimir se sua conduta foi inapropriada. Em segundo lugar, afasta-o de qualquer jurisdi\u00e7\u00e3o dentro da qual a v\u00edtima \u2013 seja a m\u00e3e ou a crian\u00e7a \u2013 tenha a oportunidade de obter o apoio econ\u00f4mico necess\u00e1rio para garantir que o concebido cres\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es apropriadas.<\/p>\n<p class=\"\">3) A recente nomea\u00e7\u00e3o da Defensora dos Direitos das V\u00edtimas das pessoas afetadas pela explora\u00e7\u00e3o e os abusos sexuais deve ser acompanhada de uma s\u00e9rie de medidas que permitam cortar pela raiz algumas das injusti\u00e7as em n\u00edvel estrutural. Ao mesmo tempo, deve agir em representa\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas e funcionar como um alto-falante dentro da ONU e em colabora\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses que s\u00e3o alvo da estabiliza\u00e7\u00e3o e com os pa\u00edses que colaboram enviando suas tropas.<\/p>\n<p class=\"\">Muitas das pessoas que participaram das entrevistas expressaram sentimentos similares a respeito da necessidade de reconhecimento e ajuda \u00e0s crian\u00e7as haitianas filhas de Capacetes Azuis. Um homem declarou: \u201cConhe\u00e7o muitas mulheres e mo\u00e7as que t\u00eam crian\u00e7as dos MINUSTAH sob seus cuidados. Eu gostaria que [a ONU] assumisse suas responsabilidades, que tomasse a iniciativa e se reunisse com elas para ajud\u00e1-las com seus filhos\u201d.<\/p>\n<p class=\"\"><i>(*) Nome alterado para proteger o anonimato da pessoa em quest\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation. Leia aqui a vers\u00e3o em ingl\u00eas.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i><b>Sabine Lee<\/b><\/i><i>\u00a0\u00e9 professora de Hist\u00f3ria Moderna na Universidade de Birmingham e recebe recursos da AHRC, UE, SSHRC.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i><b>Susan Bartels\u00a0<\/b><\/i><i>\u00e9 cientista cl\u00ednica na Universidade Queen&#8217;s, Ont\u00e1rio, e recebe financiamento da SSHRC, Elrha, Universidades do Canad\u00e1 e do Grupo Iniciativa de Investiga\u00e7\u00e3o sobre a Viol\u00eancia Sexual, do Banco Mundial.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>A associa\u00e7\u00e3o com o pai estrangeiro ausente e o nascimento da crian\u00e7a fora do casamento costumam resultar em estigma e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEle a deixou largada na pobreza porque quando fazia sexo com ela era em troca de muito pouco dinheiro. 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