{"id":307408,"date":"2020-01-13T06:11:22","date_gmt":"2020-01-13T09:11:22","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=307408"},"modified":"2020-01-13T06:11:22","modified_gmt":"2020-01-13T09:11:22","slug":"dois-seculos-de-tradicao-sincretismo-e-fe-conheca-a-historia-da-lavagem-do-bonfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/dois-seculos-de-tradicao-sincretismo-e-fe-conheca-a-historia-da-lavagem-do-bonfim\/","title":{"rendered":"Dois s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o, sincretismo e f\u00e9: conhe\u00e7a a hist\u00f3ria da Lavagem do Bonfim"},"content":{"rendered":"<div class=\"title-noticia\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"col-esq\">\n<div class=\"noticia-interna\">\n<div class=\"share share-fx\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"cont-share\"><\/div>\n<div class=\"cont-share\"><\/div>\n<\/div>\n<article>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" title=\"Dois s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o, sincretismo e f\u00e9: conhe\u00e7a a hist\u00f3ria da Lavagem do Bonfim\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/255898\/IMAGEM_NOTICIA_0.jpg\" alt=\"[Dois s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o, sincretismo e f\u00e9: conhe\u00e7a a hist\u00f3ria da Lavagem do Bonfim]\" \/><\/figure>\n<div class=\"desc\"><i class=\"fa fa-clock-o fa-fw\"><\/i><span class=\"fotografo\">Por:\u00a0<b>Yasmin Garrido<\/b><\/span>\u00a0<span class=\"comentatios-q\"><i class=\"fa fa-comments-o fa-fw\"><\/i>\u00a0<span class=\"total_comentario_facebook\" data-comment-url=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/noticias\/principal\/religiao\/255898,dois-seculos-de-tradicao-sincretismo-e-fe-conheca-a-historia-da-lavagem-do-bonfim.html\">0<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"desc-noticia tbl-forkorts-article tbl-forkorts-article-active\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Salve Nosso Senhor do Bonfim. Salve Oxal\u00e1. N\u00e3o existe maneira mais apropriada para se come\u00e7ar este texto sen\u00e3o com a sauda\u00e7\u00e3o que faz parte de mais de dois s\u00e9culos de hist\u00f3ria. No pr\u00f3ximo dia 16 de janeiro, quinta-feira que antecede o segundo domingo posterior ao Dia de Reis, milhares de baianos e turistas sobem a Colina Sagrada com um \u00fanico prop\u00f3sito: saudar e pedir b\u00ean\u00e7\u00e3os a Senhor do Bonfim, representado pela imagem de Jesus crucificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda maior express\u00e3o cultural de Salvador, perdendo apenas para o Carnaval, o louvor a Nosso Senhor do Bonfim remonta os anos de 1745, quando a imagem foi entregue \u00e0 Bas\u00edlica, na Cidade Baixa. Tudo come\u00e7ou com uma promessa feita em meio ao desespero de um naufr\u00e1gio. Se conseguisse salvar a vida, o Capit\u00e3o Teod\u00f3sio Rodrigues de Faria levaria uma imagem do Santo a Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivo, ele cumpriu a promessa e mandou fazer uma imagem de 1,06 metros em cedro, r\u00e9plica id\u00eantica \u00e0 original que fica na cidade portuguesa de Set\u00fabal. E fez mais: pediu autoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 Santa S\u00e9 para construir uma igreja localizada numa colina. Assim teve in\u00edcio a tradi\u00e7\u00e3o brasileira de culto ao Santo cat\u00f3lico, que, para as religi\u00f5es de matriz africana, \u00e9 representado por Oxal\u00e1 (Ketu) ou Lembra (Angola).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sincretismo<\/strong><br \/>\nFalar em sincretismo na Bahia se tornou corriqueiro ou, at\u00e9 mesmo, trivial. \u00c9 preciso ter cuidado para usar a express\u00e3o. O que aconteceu no encontro do Senhor do Bonfim com Oxal\u00e1 n\u00e3o foi a troca de um pelo outro. Um n\u00e3o \u00e9 o outro. Tudo \u00e9 mais complexo. S\u00e3o hist\u00f3rias e cren\u00e7as distintas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cren\u00e7a em Oxal\u00e1 vem das ra\u00edzes africanas, dos escravos que eram trazidos para Salvador e encontraram na Colina Sagrada a representa\u00e7\u00e3o mais semelhante \u00e0 cultura que trouxeram de suas terras. Assim como Senhor do Bonfim, Oxal\u00e1, que \u00e9 filho de Olorum, tem uma montanha &#8211; o Umbigo do Mundo &#8211; como morada. \u00c9 neste momento que acontece o encontro de cren\u00e7as, de santos e \u00e9 quando Senhor do Bonfim se associa a Oxal\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/255898\/mg\/jesus.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>\u201cQuando uma Ialorix\u00e1 diz que Senhor do Bonfim n\u00e3o \u00e9 Oxal\u00e1 ela est\u00e1 demarcando n\u00e3o s\u00f3 no campo religioso, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico, a autonomia do Candombl\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a Igreja Cat\u00f3lica hoje\u201d, explicou a historiadora Wlamyra Albuquerque. Ainda segundo ela, \u201ca lavagem do Bonfim renova a cultura popular baiana, porque continua a ser um espa\u00e7o para reinvent\u00e1-la. N\u00e3o \u00e9 uma festa do passado a se repetir, mas um festejo antigo que recriamos a cada ano\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Festa, lavagem e intoler\u00e2ncia<\/strong><br \/>\nMas, assim como a uni\u00e3o de cren\u00e7as fez da Colina Sagrada o ponto de encontro entre Senhor do Bonfim e Oxal\u00e1, a hist\u00f3ria tamb\u00e9m foi marcada por preconceito e intoler\u00e2ncia religiosa. Com a usurpa\u00e7\u00e3o de elementos da cultura africana, os escravos se viram obrigados a utilizarem outros nomes, dados pelos seus senhores, vestir-se de maneira distinta com a qual estavam acostumados e adaptar suas cren\u00e7as ao catolicismo que reinava em Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a Igreja do Senhor do Bonfim e o culto ao Santo, em 1773 teve in\u00edcio a tradi\u00e7\u00e3o de lavagem das escadarias, quando integrantes de uma irmandade de devotos leigos obrigaram os escravos a limparem os degraus e prepararem o local para a grande festa do Senhor do Bonfim. No entanto, j\u00e1 associado a Oxal\u00e1, o festejo se transformou numa express\u00e3o da cultura africana, do Candombl\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/255898\/mg\/%C3%A1gua.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAo perceber que os escravos estavam cultuando seu Santo, a Arquidiocese de Salvador proibiu, em 1889, a lavagem na parte interna do templo e transferiu o ritual para as escadarias e o adro. Esse \u00e9 o motivo de ainda hoje, ap\u00f3s mais de dois s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o, as portas da Bas\u00edlica permanecerem fechadas e as baianas despejarem \u00e1gua apenas sobre os degraus externos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que come\u00e7ou como uma barreira \u00e0 express\u00e3o da cultura africana se transformou na segunda maior festa da cidade. A celebra\u00e7\u00e3o, que integra o calend\u00e1rio lit\u00fargico e o ciclo de Festas de Largo de Salvador, acontece durante onze dias do m\u00eas de janeiro, tendo in\u00edcio um dia ap\u00f3s o Dia dos Santos Reis, que \u00e9 celebrado em 6 de janeiro, e finalizando no segundo domingo depois da Epifania, no Dia do Senhor do Bonfim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Padre Edson Menezes, p\u00e1roco respons\u00e1vel pelo templo no Bonfim, a partir da proibi\u00e7\u00e3o, foi iniciada a tradi\u00e7\u00e3o da lavagem das escadarias. \u201cAp\u00f3s essa determina\u00e7\u00e3o, os devotos do Candombl\u00e9 come\u00e7aram a tradi\u00e7\u00e3o do cortejo para lavar escadarias\u201d, contou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na prociss\u00e3o, que sai da Igreja de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Praia, no Com\u00e9rcio, fi\u00e9is e filhos de Santo se vestem de branco e acompanham baianas que carregam a \u00e1gua de cheiro e vassouras para lavar as escadarias. \u201cEsse ato passou a ser religioso, de penit\u00eancia, e agrega muitas pessoas. No contexto maior, o sentido da lavagem \u00e9 religioso, independente da cren\u00e7a\u201d, declarou o padre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/255898\/mg\/baiana.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<strong>Fitas coloridas<\/strong><br \/>\nAs famosas fitas do Senhor do Bonfim, que est\u00e3o espalhadas por pulsos de pessoas em todo o mundo, \u00e9, sem d\u00favida, um dos s\u00edmbolos mais conhecidos da festa. De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o religiosa, a fita \u00e9 amarrada ao pulso e, para cada n\u00f3 (geralmente s\u00e3o tr\u00eas), a pessoa deve fazer um pedido, que se realiza quando o amuleto se romper.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fita come\u00e7ou a ser utilizada na festa do Senhor do Bonfim em 1809, em raz\u00e3o da ideia do tesoureiro da devo\u00e7\u00e3o, Manoel Ant\u00f4nio da Silva Servo. A inten\u00e7\u00e3o dele era realizar a venda da fita para auxiliar na arrecada\u00e7\u00e3o de dinheiro para a devo\u00e7\u00e3o. Inicialmente, as fitas receberam o nome de \u201cmedidas\u201d, eram feitas de algod\u00e3o e tinha at\u00e9 50 cent\u00edmetros de comprimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/255898\/mg\/fitas.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCom o tempo, a fitinha colorida virou um amuleto, e sua industrializa\u00e7\u00e3o fez com que o produto utilizado na produ\u00e7\u00e3o mudasse, bem como o tamanho, com 63 cent\u00edmetros, a medida entre a chaga do peito e a m\u00e3o esquerda de Cristo. Atualmente, as fitas tamb\u00e9m representam uma forte rela\u00e7\u00e3o com o di\u00e1logo entre as religi\u00f5es, uma vez que as cores podem ter associa\u00e7\u00f5es com orix\u00e1s oriundos da matriz africana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hino<\/strong><br \/>\nApesar da popularidade dos festejos, muita gente n\u00e3o sabe cantar o hino do Senhor do Bonfim e h\u00e1 at\u00e9 quem sequer saiba da exist\u00eancia da m\u00fasica de autoria de P\u00e9thion de Villar e musicado pelo maestro e compositor Rem\u00edgio Domenech, em 1923. No entanto, apesar deste ser o oficial, existe outro hino que \u00e9 mais conhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed, sim, \u00e9 dif\u00edcil encontrar quem n\u00e3o saiba entoar ao menos um dos versos. O hino c\u00edvico foi criado durante as comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio da Independ\u00eancia da Bahia, por Arthur de Salles e Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Wanderley. S\u00e3o dele os versos: \u201cGl\u00f3ria a Ti neste dia de gl\u00f3ria, gl\u00f3ria a Ti, redentor, que h\u00e1 cem anos nossos pais conduzistes \u00e0 vit\u00f3ria pelos mares e campos baianos&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o para a popularidade do hino c\u00edvico existe. De acordo com o especialista em m\u00fasica religiosa, Pablo Sotuyo, a m\u00fasica \u00e9 mais conhecida, porque faz refer\u00eancia direta \u00e0 vit\u00f3ria do povo na luta pela Independ\u00eancia do Brasil na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7fK7DF8EyDk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nQuem deixou o hino c\u00edvico a Senhor do Bonfim (ainda mais) imortalizado foi o cantor e compositor Caetano Veloso, que gravou, em 1968, a can\u00e7\u00e3o no disco \u201cTropic\u00e1lia ou Panis et Circensis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Patrim\u00f4nio<\/strong><br \/>\nA Bas\u00edlica de Nosso Senhor do Bonfim, localizada na Colina Sagrada, foi tombada pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), em 1938, com registro no Livro de Belas Artes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em 2014, a Festa do Senhor do Bonfim recebeu o t\u00edtulo de patrim\u00f4nio cultural imaterial brasileiro, com reconhecimento pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares e pelo Iphan, consolidando a festa como refer\u00eancia cultural da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os anos, milhares de baianos e turistas percorrem cerca de 8 quil\u00f4metros desde o Com\u00e9rcio at\u00e9 a Colina. H\u00e1 quem prefira esperar o cortejo j\u00e1 no adro, mas a certeza \u00e9 que a festa de Nosso Senhor do Bonfim \u00e9 uma reuni\u00e3o de cren\u00e7as e f\u00e9, al\u00e9m de ter a parte profana, quando, ap\u00f3s as obriga\u00e7\u00f5es, todos se re\u00fanem em festas espalhadas pela cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/255898\/mg\/branco.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>J\u00e1 no domingo seguinte \u00e0 lavagem, os devotos se re\u00fanem na Igreja de Nossa Senhora dos Mares, no bairro do Uruguai, para a prociss\u00e3o dos Tr\u00eas Pedidos, que percorre o largo de Roma em dire\u00e7\u00e3o ao Bonfim. Na chegada \u00e0 Colina, os fi\u00e9is d\u00e3o tr\u00eas voltas em torno da Bas\u00edlica, fazendo tr\u00eas pedidos. Uma prega\u00e7\u00e3o, bem como uma missa solene e a ben\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento encerram os festejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: BNews<\/p>\n<div class=\"tbl-read-more-box\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salve Nosso Senhor do Bonfim. Salve Oxal\u00e1. N\u00e3o existe maneira mais apropriada para se come\u00e7ar este texto sen\u00e3o com a sauda\u00e7\u00e3o que faz parte de mais de dois s\u00e9culos de hist\u00f3ria. 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