{"id":309205,"date":"2020-02-01T12:09:03","date_gmt":"2020-02-01T15:09:03","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=309205"},"modified":"2020-02-01T12:09:03","modified_gmt":"2020-02-01T15:09:03","slug":"por-que-criamos-memorias-do-que-nunca-aconteceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/por-que-criamos-memorias-do-que-nunca-aconteceu\/","title":{"rendered":"Por que criamos mem\u00f3rias do que nunca aconteceu?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Juliana Gragnani\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/15AE9\/production\/_110590888_gettyimages-1048265014.jpg\" alt=\"Montagem de mulher com cabe\u00e7a em quebra-cabe\u00e7as\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Para Martin Conway, diretor de centro de Direito e Mem\u00f3ria da City University no Reino Unido, pessoas mais velhas devem continuar socializando para manter a mente ativa<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o importa que tenhamos mem\u00f3rias falsas, diz o brit\u00e2nico Martin Conway, o importante \u00e9 que elas se encaixem com a ideia que temos sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chamada &#8220;mem\u00f3ria autobiogr\u00e1fica&#8221; \u00e9 o que esse professor de psicologia cognitiva da City University of London, no Reino Unido, e diretor do Centro de Mem\u00f3ria e Direito da mesma universidade vem estudando h\u00e1 40 anos. Na vis\u00e3o dele, todos criamos inadvertidamente recorda\u00e7\u00f5es que n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade, mas que se adequam \u00e0 hist\u00f3ria que constru\u00edmos sobre nossa vida e personalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mem\u00f3rias autobiogr\u00e1ficas, de per\u00edodos mais longos, de meses, anos ou d\u00e9cadas, servem mais para nos ajudar como indiv\u00edduos, para nos definir&#8221;, diz ele em entrevista \u00e0 BBC News Brasil. &#8220;Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 particularmente importante que a mem\u00f3ria seja bastante precisa. O que importa \u00e9 que seja consistente, que se encaixe com a sua vida, com o que voc\u00ea constr\u00f3i sobre voc\u00ea mesmo. E esse processo pode ser inconsciente.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conway tamb\u00e9m \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0s cr\u00edticas que associam novas tecnologias a uma esp\u00e9cie de &#8220;terceiriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria&#8221;. &#8220;Sempre soubemos que nossa cogni\u00e7\u00e3o \u00e9 imperfeita, e sempre buscamos maneiras para suplement\u00e1-la. Pessoalmente, eu acho bom. A tecnologia expande nossa mem\u00f3ria, n\u00e3o o contr\u00e1rio&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele diz que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um m\u00fasculo que pode ser exercitado. &#8220;Aprender um instrumento musical, uma nova l\u00edngua, uma nova \u00e1rea de conhecimento, tudo isso \u00e9 bom. Vai te fazer mais inteligente e esperto. Mas n\u00e3o vai fazer sua mem\u00f3ria melhorar&#8221;, afirma. A melhor coisa para a mem\u00f3ria, diz ele, \u00e9 socializar e conviver com amigos e familiares \u2014 algo que promove aprendizados e que, segundo ele, faz bem para a mem\u00f3ria e para a mente como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia os principais trechos da entrevista da BBC News Brasil com Conway:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O que \u00e9 mem\u00f3ria? \u00c9 correto dizer que \u00e9 a recorda\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia ou de um evento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Martin Conway &#8211;<\/strong>\u00a0\u00c9 uma pergunta dif\u00edcil. N\u00e3o \u00e9 uma recorda\u00e7\u00e3o literal. \u00c9 quase como uma obra de arte baseada em uma foto do passado. E por causa disso a mem\u00f3ria frequentemente cont\u00e9m erros. Podemos defini-la como uma representa\u00e7\u00e3o com uma import\u00e2ncia pessoal grande que tem alguma conex\u00e3o com o passado, mas que n\u00e3o necessariamente representa o passado como uma foto, um v\u00eddeo ou uma recorda\u00e7\u00e3o no di\u00e1rio faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que o Sr. diz que ela frequentemente cont\u00e9m erros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway\u00a0<\/strong>&#8211; \u00c0s vezes, podemos checar o conte\u00fado de mem\u00f3rias contra fatos objetivos, e quando o fazemos, percebemos que muitas vezes nossas mem\u00f3rias cont\u00eam erros. \u00c9 comum que sejam erros sobre detalhes. Tamb\u00e9m podemos nos lembrar de coisas que nunca aconteceram. Todo mundo j\u00e1 passou por isso. Mem\u00f3rias s\u00e3o essas constru\u00e7\u00f5es mentais que s\u00e3o como obras de arte, e \u00e0s vezes obras de arte s\u00e3o fict\u00edcias, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender por que pode conter erros, precisamos entender as diferentes fun\u00e7\u00f5es das mem\u00f3rias. Uma delas \u00e9 recordar o passado imediato. Esse tipo de recorda\u00e7\u00e3o \u00e9 razoavelmente preciso. Outro tipo, que chamamos de mem\u00f3rias autobiogr\u00e1ficas, de per\u00edodos mais longos, de meses, anos ou d\u00e9cadas, servem mais para nos ajudar como indiv\u00edduos, para nos definir. E ent\u00e3o \u00e9 nesse momento que n\u00e3o \u00e9 particularmente importante que a mem\u00f3ria seja bastante precisa. O que importa \u00e9 que seja consistente, que se encaixe com a sua vida, com o que voc\u00ea constr\u00f3i sobre voc\u00ea mesmo. E esse processo pode ser inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Ent\u00e3o as mem\u00f3rias definem a percep\u00e7\u00e3o que temos sobre nossa vida? Ou \u00e9 o contr\u00e1rio: o que constru\u00edmos sobre nossas vidas define nossas lembran\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway\u00a0<\/strong>&#8211; As duas coisas interagem. \u00c9 algo que chamamos de coer\u00eancia. H\u00e1 mem\u00f3rias que chamamos de &#8220;autodefinidoras&#8221;. Elas provavelmente v\u00e3o nos direcionar para certas dire\u00e7\u00f5es e objetivos que buscamos em nossas vidas e vice-versa. Se n\u00e3o interagirem, \u00e9 um problema. Em casos de doen\u00e7as mentais, por exemplo. Voc\u00ea pode se lembrar de algo que n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, n\u00e3o se encaixa na percep\u00e7\u00e3o que voc\u00ea tem sobre si. E da\u00ed voc\u00ea tem que, de alguma forma, viver e integrar isso na sua vida e a percep\u00e7\u00e3o que tem sobre ela.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2651\/production\/_110590890_martin.jpg\" alt=\"Martin Conway, diretor do Centro de Mem\u00f3ria e Direito da City University of London\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;Mem\u00f3ria \u00e9 como uma obra de arte baseada em uma foto do passado&#8217;, diz Martin Conway, diretor do Centro de Mem\u00f3ria e Direito da City University of London<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; As pessoas dizem que a mem\u00f3ria est\u00e1 sempre em constru\u00e7\u00e3o, ou sempre mudando. Isso \u00e9 verdade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>As mem\u00f3rias n\u00e3o podem estar sempre mudando, porque da\u00ed n\u00e3o ter\u00edamos consist\u00eancia. Elas mudam, mas n\u00e3o tanto quanto se imagina. Conhecimento abstrato, conceitual, dados como &#8220;Eu fiz faculdade? Fiz&#8221; \u2014isso n\u00e3o vai mudar. Coisas espec\u00edficas assim n\u00e3o v\u00e3o mudar. S\u00f3 que tem que haver consist\u00eancia, mas tamb\u00e9m uma flexibilidade construtiva. Voc\u00ea n\u00e3o vai se esquecer de ter trabalhado em um lugar espec\u00edfico, mas haver\u00e1 muitos epis\u00f3dios relacionados \u00e0quilo que voc\u00ea poder\u00e1 lembrar com detalhes diferentes. Ou seja, voc\u00ea provavelmente vai se lembrar, na sua vida, de ter trabalhado na BBC, mas vai se lembrar de muitos epis\u00f3dios relacionados a isso com detalhes diferentes. O importante \u00e9 que haja coer\u00eancia com o quadro mental que voc\u00ea vai pintar sobre ter trabalhado na BBC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra vis\u00e3o com a qual n\u00e3o concordo muito \u00e9 a de reconsolida\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma abordagem cient\u00edfica que diz que todas as vezes que voc\u00ea se lembra de uma mem\u00f3ria, voc\u00ea muda ela. Eu acho que isso levaria a um sistema de mem\u00f3ria muito inst\u00e1vel. N\u00f3s somos muito est\u00e1veis, temos a necessidade e desejo de mem\u00f3rias consistentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que criamos mem\u00f3rias de coisas que nunca aconteceram?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>\u00c0s vezes s\u00e3o coisas que n\u00f3s imaginamos que aconteceram. Talvez voc\u00ea tenha imaginado muito e esqueceu que era uma imagina\u00e7\u00e3o, e aquilo volta como uma mem\u00f3ria. Isso acontece muito com mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia. Sua m\u00e3e pode ter lhe dito: &#8220;T\u00ednhamos um grande jardim verde e brinc\u00e1vamos l\u00e1, voc\u00ea estava sempre rindo&#8221;. E mais tarde voc\u00ea pode se lembrar dessa cena, sem se tocar que era uma hist\u00f3ria que sua m\u00e3e lhe contou. Ou ent\u00e3o voc\u00ea pode ter imaginado algo quando crian\u00e7a \u2014 algo que poderia ter acontecido, mas n\u00e3o aconteceu. Voc\u00ea pode lembrar disso como uma mem\u00f3ria. E isso pode ser consistente e coerente com suas cren\u00e7as sobre quem voc\u00ea era e suas atitudes em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, e isso \u00e9 ok.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o acontecem nas mesmas redes neurol\u00f3gicas do nosso c\u00e9rebro. Quando voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 focado ou focada em tarefas, quando voc\u00ea est\u00e1 pensando na vida, no futuro, no passado, essas grandes e complicadas redes neurol\u00f3gicas ficam online. Lembrar e imaginar acontecem na mesma rede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Ent\u00e3o n\u00f3s criamos lembran\u00e7as falsas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que sim. Se \u00e9 intencional ou n\u00e3o, \u00e9 outra quest\u00e3o. Pesquisadores concordam em rela\u00e7\u00e3o a uma coisa: ningu\u00e9m se senta, pensa e cria uma mem\u00f3ria falsa assim. Voc\u00ea pode conversar com algu\u00e9m, imaginar algo que poderia ter acontecido, e gradualmente isso se transforma em algo que voc\u00ea se lembra como real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre mem\u00f3rias a longo prazo e mem\u00f3rias a curto prazo, e por que lembramos de umas e n\u00e3o de outras? \u00c0s vezes nos esquecemos do que comemos no caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>\u00c9 porque o caf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e9 algo entediante! (Risos) Mas vamos falar s\u00e9rio: mem\u00f3rias a curto prazo duram cerca de 30 segundos. Um exemplo \u00e9 algo que voc\u00ea acabou de dizer, as exatas palavras que voc\u00ea disse. Mem\u00f3rias intermedi\u00e1rias, de eventos recentes, o que eu tomei no caf\u00e9 da manh\u00e3, se passeei com o cachorro, s\u00e3o importantes porque nos ajudam a nos localizar no tempo e no espa\u00e7o. Mas, com o tempo, voc\u00ea se lembra menos e menos, como o que voc\u00ea fez ontem, tr\u00eas dias atr\u00e1s, uma semana, um m\u00eas atr\u00e1s. E ent\u00e3o existe uma fun\u00e7\u00e3o de reten\u00e7\u00e3o: voc\u00ea acaba se lembrando mais de eventos de grande relev\u00e2ncia para voc\u00ea, como os relacionados a seus objetivos, preocupa\u00e7\u00f5es e desejos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7471\/production\/_110590892_gettyimages-497388712.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o com engrenagens na cabe\u00e7a\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mem\u00f3rias autobiogr\u00e1ficas n\u00e3o precisam ser precisas, s\u00f3 precisam fazer sentido com o que imaginamos sobre nossas pr\u00f3prias vidas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News &#8211; Brasil &#8211; E mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, existem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o interessante. Muitas pesquisas j\u00e1 foram feitas sobre isso. O c\u00e9rebro est\u00e1 se desenvolvendo nesses per\u00edodos. Estudos mostram que os lobos frontais ainda n\u00e3o est\u00e3o completamente desenvolvidos quando voc\u00ea tem vinte e poucos anos. Minha hip\u00f3tese \u00e9 que lembramos comparativamente pouco dos 5 aos 10 anos, e que passamos a lembrar mais na adolesc\u00eancia. Al\u00e9m disso, h\u00e1 muitas diferen\u00e7as de pessoa para pessoa, por causa do desenvolvimento do c\u00e9rebro, e diferen\u00e7as culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pessoas de culturas asi\u00e1ticas, por exemplo, lembram menos de detalhes de mem\u00f3rias como crian\u00e7as. Isso porque s\u00e3o socializadas a lembrarem mem\u00f3rias que envolvem um coletivo \u2014 lembram-se de falar com a m\u00e3e ou com a av\u00f3, por exemplo, e n\u00e3o tanto de &#8220;eu&#8221;. Nas culturas ocidentais, somos criados para nos lembrar de coisas que nos definem como indiv\u00edduos, como &#8220;eu fiz isso&#8221;, &#8220;eu fiz aquilo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Se n\u00e3o conseguimos nos lembrar de fatos, conseguimos nos lembrar de sentimentos dessa \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>A pergunta que temos que nos fazer \u00e9: \u00e9 poss\u00edvel, em primeiro lugar, lembrar-se de qualquer sentimento? Quando voc\u00ea diz: &#8220;Senti medo, raiva&#8221; ou qualquer coisa do tipo\u2026 Era esse mesmo o caso? Voc\u00ea pode se lembrar de detalhes de um evento e inconscientemente e sem inten\u00e7\u00e3o construir a partir disso mem\u00f3ria de como voc\u00ea se sentiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, as medidas podem mudar. Por exemplo, posso me lembrar de me sentir muito feliz jogando futebol em um campinho quando tinha 7 anos de idade. Mas a felicidade que eu senti aos 7 anos \u00e9 a mesma felicidade que eu sinto hoje? O que voc\u00ea se lembra n\u00e3o corresponde, necessariamente, a como as coisas eram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Existem mem\u00f3rias coletivas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Sim. N\u00e3o t\u00ea-las \u00e9 um problema. Por que que as pessoas \u00e0s vezes n\u00e3o as t\u00eam? \u00c9 uma repress\u00e3o das mem\u00f3rias, que pode ser consequ\u00eancia de um problema na sociedade, em geral. S\u00e3o mem\u00f3rias importante porque provavelmente s\u00e3o mem\u00f3rias de eventos negativos. E eventos negativos transmitem mais informa\u00e7\u00e3o que eventos positivos, s\u00e3o mais informativos sobre o mundo e \u00e0s vezes s\u00e3o sobre coisas que podem ser amea\u00e7adoras. Voc\u00ea se lembra de como as coisas podem dar errado para n\u00e3o repeti-las. Tamb\u00e9m h\u00e1 mem\u00f3rias relacionadas a gera\u00e7\u00f5es. H\u00e1 mem\u00f3rias de que meus outros amigos velhos tamb\u00e9m se lembram, e isso nos conecta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C291\/production\/_110590894_gettyimages-177384604.jpg\" alt=\"Imagens de lembran\u00e7as\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;A felicidade que eu senti aos 7 anos \u00e9 a mesma felicidade que eu sinto hoje?&#8217;, pergunta-se o professor Martin<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; A tecnologia de hoje em dia afeta nossa mem\u00f3ria? Estamos terceirizando nossa mem\u00f3ria para aplicativos e aparelhos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Temos que lembrar que a humanidade sempre suplementou sua cogni\u00e7\u00e3o com a tecnologia. Escrever \u00e9 provavelmente nossa maior tecnologia. Sempre soubemos que nossa cogni\u00e7\u00e3o \u00e9 imperfeita, e sempre buscamos maneiras para suplement\u00e1-la. Pessoalmente, eu acho bom. Eu acho incr\u00edvel. A tecnologia expande nossa mem\u00f3ria, n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Podemos exercitar nossa mem\u00f3ria para tentar melhor\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>N\u00e3o. A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um m\u00fasculo. Aprender um instrumento musical, uma nova l\u00edngua, uma nova \u00e1rea de conhecimento, tudo isso \u00e9 bom. Vai te fazer mais inteligente e esperto. Pode ser bom para sua &#8220;mem\u00f3ria de trabalho&#8221;, que \u00e9 sua habilidade de brevemente manipular informa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o vai fazer sua mem\u00f3ria melhorar. Vai fazer todo o conjunto funcionar bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea desistir e parar de aprender coisas novas, as coisas n\u00e3o ir\u00e3o bem. Uma das coisas que fazem uma diferen\u00e7a enorme \u00e9 o qu\u00e3o bem socializamos com os outros. Fomos evolu\u00eddos para socializar, e quanto mais o fazemos, melhor nosso c\u00e9rebro trabalha. Sair com amigos e familiares e interagir \u00e9 a melhor coisa que voc\u00ea pode fazer pela sua mente e para sua mem\u00f3ria. Socializando, voc\u00ea aprende coisas novas o tempo todo, aprende sobre pessoas, sobre si pr\u00f3prio. Socializar \u00e9 um aprendizado gigante. E pessoas que permanecem dentro de seus grupos sociais sofrem menos decl\u00ednio cognitivo, e isso inclui comprometer menos a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O que o Sr. diria para pessoas mais velhas sobre a mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Permane\u00e7am engajados com seus c\u00edrculos sociais, seus netos, amigos, colegas. \u00c9 a coisa que mais pode fazer a diferen\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a mem\u00f3ria deteriora. Manter todo o sistema mental vivo trar\u00e1 benef\u00edcios. Socializar \u00e9 bom para a mem\u00f3ria, para o pensamento e a imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom para tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O que acontece quando ficamos com Alzheimer? O Sr. acredita que um dia haver\u00e1 uma cura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>As pessoas ficam com placas entre os neur\u00f4nios que entopem os caminhos neurais do c\u00e9rebro. Isso leva ao d\u00e9ficit de mem\u00f3ria. Explicar como isso acontece s\u00e3o conjecturas\u2026 H\u00e1 muitas pesquisas, e uma teoria, acredite se quiser, \u00e9 que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o com a bact\u00e9ria que causa a gengivite. \u00c9 s\u00f3 uma teoria recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Alzheimer, n\u00e3o podemos construir mais mem\u00f3rias. Os pacientes se esquecem de grandes partes de suas vidas. Voc\u00ea, por exemplo, poderia n\u00e3o se lembrar mais de que trabalhou para a BBC. Voc\u00ea perde grandes partes da sua vida que te ajudam a te definir como pessoa. Acredito que encontraremos uma cura, mas o caminho \u00e9 longo, e n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil ou simples.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; A medicina e a ci\u00eancia poder\u00e3o melhorar nossa mem\u00f3ria no futuro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Certamente. Quando entendermos exatamente como o c\u00e9rebro funciona, poderemos manipul\u00e1-lo. O grande problema \u00e9 que temos que pensar como o conhecimento \u00e9 representado no c\u00e9rebro. H\u00e1 neur\u00f4nios que formam nosso c\u00e9rebro, mas tamb\u00e9m h\u00e1 prote\u00ednas. Tem que haver um tipo de c\u00f3digo gen\u00e9tico que represente o conhecimento que pode ser lido e levado \u00e0 consci\u00eancia. A quest\u00e3o \u00e9: como o conhecimento \u00e9 representado? N\u00e3o s\u00e3o genes. \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o que est\u00e1 criando prote\u00ednas, que formam alguns aspectos desse c\u00f3digo que estamos imaginando. Quando entendermos isso, poderemos intervir em prol da nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Nossa mem\u00f3ria tem limites?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Bom, h\u00e1 uma vis\u00e3o que diz que sim, que a mem\u00f3ria tem uma capacidade limitada. Outra vis\u00e3o, que \u00e9 a minha, \u00e9 a de que n\u00e3o \u00e9 nossa mem\u00f3ria que \u00e9 limitada, \u00e9 nossa habilidade para acessar nossas mem\u00f3rias que \u00e9 limitada. As mem\u00f3rias est\u00e3o armezanadas nas conex\u00f5es neurais do nosso c\u00e9rebro, ou nas mol\u00e9culos geradas pelos neur\u00f4nios, e em princ\u00edpio poderiam representar tudo que experimentamos em nossas vidas. A pergunta \u00e9: podemos acess\u00e1-las? A resposta \u00e9 que provavelmente n\u00e3o, pelo menos n\u00e3o conscientemente. \u00c9 o que eu acho, mas a maioria dos outros pesquisadores especialistas em mem\u00f3ria me acharia louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; E quem acredita que a mem\u00f3ria tem limites, acha que acontece o qu\u00ea com nossas recorda\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Que elas s\u00e3o perdidas, esquecidas, sobrescritas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; E por que o Sr. n\u00e3o acha que isso acontece?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conway &#8211;\u00a0<\/strong>Porque acredito que elas nos formam, formam nossa personalidade, nossa intera\u00e7\u00e3o com os outros, os amigos que escolhemos, e que n\u00e3o somos necessariamente conscientes disso.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chamada &#8220;mem\u00f3ria autobiogr\u00e1fica&#8221; \u00e9 o que esse professor de psicologia cognitiva da City University of London, no Reino Unido, e diretor do Centro de Mem\u00f3ria e Direito da mesma universidade vem estudando h\u00e1 40 anos. Na vis\u00e3o dele, todos criamos inadvertidamente recorda\u00e7\u00f5es que n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade, mas que se adequam \u00e0 hist\u00f3ria que constru\u00edmos sobre nossa vida e personalidad<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":309206,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-309205","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/cabeca-doida.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=309205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309205\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/309206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=309205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=309205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=309205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}