{"id":31006,"date":"2013-11-29T08:41:49","date_gmt":"2013-11-29T11:41:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=31006"},"modified":"2013-11-29T08:41:49","modified_gmt":"2013-11-29T11:41:49","slug":"hoje-ser-gay-e-uma-caracteristica-como-a-cor-do-cabelo-da-pele-ou-a-altura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/hoje-ser-gay-e-uma-caracteristica-como-a-cor-do-cabelo-da-pele-ou-a-altura\/","title":{"rendered":"\u201cHoje ser gay \u00e9 uma caracter\u00edstica, como a cor do cabelo, da pele ou a altura\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"ImageProxy (5)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy-511-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" \/><\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea ainda n\u00e3o tenha decorado o nome dele, mas certamente conhece o trabalho do santistaRafael Gomes\u00a0, 29 anos. Formado em cinema, foi respons\u00e1vel h\u00e1 quase 10 anos pelo curta \u201cTapa na Pantera\u201d, protagonizado pela atriz\u00a0Alice Vergueiro\u00a0, verdadeiro fen\u00f4meno na web, com mais de 5 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2010 ele se arriscou no teatro, escreveu e dirigiu a pe\u00e7a \u201cM\u00fasica para Cortar os pulsos\u201d, e fez sucesso tamb\u00e9m com a cr\u00edtica: ganhou o pr\u00eamio de melhor espet\u00e1culo jovem pela APCA (Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte). A pe\u00e7a volta ao cartaz para curta temporada nos \u00a0palcos paulistanos e segue em turn\u00ea pelo estado e depois para Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cM\u00fasica para cortar os pulsos\u201d tem um protagonista gay. Preparando sua nova pe\u00e7a, tamb\u00e9m com tem\u00e1tica LGBT, o diretor conversou com o iGay.<\/p>\n<p>iGay: De onde veio a ideia de \u201cM\u00fasica para Cortar os Pulsos\u201d?<\/p>\n<p>Rafael Gomes\u00a0: Originalmente a ideia era fazer um filme que retratasse situa\u00e7\u00f5es em que a m\u00fasica representasse os sentimentos, que refletisse a p\u00f3s-adolesc\u00eancia, aquele per\u00edodo em que n\u00e3o somos mais adolescentes, mas ainda n\u00e3o somos adultos tamb\u00e9m. Quando um amigo, depois de ler o texto, achou que tudo aquilo deveria ser dito em um palco, fizemos a pe\u00e7a. Ele inclusive virou assistente de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>iGay: Como se deu a sele\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas que comp\u00f5em o espet\u00e1culo, houve a preocupa\u00e7\u00e3o de selecionar can\u00e7\u00f5es que fugissem do lugar-comum gay?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0A sele\u00e7\u00e3o se deu de dentro pra fora, n\u00e3o quer\u00edamos simplesmente agradar, mas sim escolher o que precis\u00e1vamos para retratar aqueles personagens. Por isso fizemos uma trilha variada, que vai de Zez\u00e9 de Camargo e Luciano a The Smiths.<\/p>\n<p>iGay: A hist\u00f3ria \u00e9 centrada em um personagem homossexual apaixonado por um amigo heterossexual, que por sua vez est\u00e1 interessado em uma mulher. Quanto disso vem da sua hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0Na verdade, a pe\u00e7a \u00e9 um emaranhado de vida. Tem parte da minha hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de muitos amigos e conhecidos. Ela n\u00e3o \u00e9 uma obra do arqu\u00e9tipo rom\u00e2ntico de &#8220;Romeu e Julieta&#8221;, mas tem v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es presentes tamb\u00e9m em &#8220;Romeu e Julieta&#8221;. Sempre parti do personagem gay que se apaixona por um menino hetero. A partir da\u00ed veio a personagem feminina, que tem muito emprestado da Mayara Constantino, atriz que interpretou a Isabela at\u00e9 recentemente.<\/p>\n<p>iGay: A hist\u00f3ria no fim das contas \u00e9 um tri\u00e2ngulo amoroso.<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0\u00c9 um tri\u00e2ngulo que n\u00e3o \u00e9 um tri\u00e2ngulo, ou melhor, s\u00e3o v\u00e1rios tri\u00e2ngulos. Temos a rela\u00e7\u00e3o de amizade de Isabela e Ricardo, da paix\u00e3o plat\u00f4nica de Ricardo por Felipe e, por fim, do relacionamento amoroso de Felipe com Isabela, ent\u00e3o temos v\u00e1rios tri\u00e2ngulos, o de amizade, o de relacionamento que n\u00e3o d\u00e1 certo, o de relacionamento que n\u00e3o tem como dar certo, s\u00e3o v\u00e1rios tipos de amor.<\/p>\n<div>\u201cA pe\u00e7a tem v\u00e1rios tri\u00e2ngulos, o de amizade, o do relacionamento que n\u00e3o d\u00e1 certo, o do relacionamento que n\u00e3o tem como dar certo. S\u00e3o v\u00e1rios tipos de amor.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<p>iGay: O relacionamento que n\u00e3o tem como dar certo \u00e9 o do personagem gay com o hetero?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0\u00a0Sim, existe esse pensamento de que todo mundo \u00e9 bissexual. Nem vou entrar no m\u00e9rito Freudiano da coisa, mas sim do cultural: o homem gay tem muito isso de que a heterossexualidade \u00e9 uma barreira transpon\u00edvel, e na maioria das vezes ela n\u00e3o \u00e9, e n\u00e3o tem nada de errado com isso. \u00c9 uma quest\u00e3o de origem. Transpor e invadir essas barreiras \u00e9 uma agress\u00e3o.<\/p>\n<p>iGay: Quando voc\u00ea diz transpor limites est\u00e1 falando sobre gays que tentam \u201cpegar\u201d heteros?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0Sim, exatamente isso, mas digo tamb\u00e9m do lado contr\u00e1rio, o menino hetero que n\u00e3o pode ver duas meninas se beijando na balada que quer entrar ali no meio, que acha que \u00e9 farra. \u00c0s vezes pode ser, mas muitas vezes essas meninas s\u00e3o namoradas, t\u00eam um relacionamento que n\u00e3o envolve ningu\u00e9m al\u00e9m delas. Barreiras existem e quebr\u00e1-las por tes\u00e3o, paix\u00e3o ou at\u00e9 bebedeira \u00e9 uma agress\u00e3o.<\/p>\n<p>iGay: A pe\u00e7a foi selecionada por um programa do SESI para ser apresentada nos teatros das redes. Algumas dessas unidades ficam em escolas, como foi a rea\u00e7\u00e3o desse p\u00fablico, principalmente fora do eixo Rio\/SP?<\/p>\n<p>Rafael:\u00a0A pe\u00e7a \u00e9 jovem, mas n\u00e3o somente adolescente, e sempre funcionou no universo do ensino m\u00e9dio, por exemplo (a partir dos 15 anos). Quando o p\u00fablico \u00e9 mais novo do que isso raramente funciona, n\u00e3o \u00e9 um mundo comum a eles &#8211; n\u00e3o por conta do personagem gay, mas por falta de contexto mesmo. Com um p\u00fablico adolescente no geral ia bem. Em algumas apresenta\u00e7\u00f5es os meninos, principalmente na primeira cena, quando notavam que Ricardo \u00e9 gay, gritavam alguma coisa, mas depois se acostumavam e assistiam tudo. Mas tudo normal, o clima era de excurs\u00e3o escolar, um grupo muito grande de adolescentes reunidos, tem sempre o que quer aparecer, tivemos uma ou outra apresenta\u00e7\u00e3o em que eles n\u00e3o pararam, mas fomos levando.<\/p>\n<p>iGay: E a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico adulto, como foi?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0Admito que fomos munidos, prontos para sofrer algum tipo de repres\u00e1lia, e nos surpreendemos. T\u00ednhamos ali alguns estere\u00f3tipos, o heterossexual mach\u00e3o que estava ali por obriga\u00e7\u00e3o, que acabou chorando. E a senhora que no final, quando nos dispusemos a responder perguntas da plateia, come\u00e7ou a falar de religi\u00e3o e no fim das contas queria contar que achou aquela hist\u00f3ria uma hist\u00f3ria de amor ao pr\u00f3ximo, como pregava sua f\u00e9. Isso foi bem bacana por sinal.<\/p>\n<div>\u201cNa plateia tinha alguns estere\u00f3tipos, o heterossexual mach\u00e3o que estava ali por obriga\u00e7\u00e3o e acabou chorando e a senhora religiosa que no fim das contas achou aquela hist\u00f3ria uma hist\u00f3ria de amor ao pr\u00f3ximo, como prega sua f\u00e9.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<p>iGay: Voc\u00ea contou que a atriz cedeu parte de sua hist\u00f3ria para a personagem. E para o papel do Ricardo, voc\u00ea buscou atores gays para ter identifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0A Mayara \u00e9 minha amiga, temos um casamento art\u00edstico que \u00e9 inclusive retratado um pouco na pe\u00e7a, ela exp\u00f4s o que quis de sua vida no papel. Quando fomos selecionar os atores, era indiferente a sexualidade deles. Sexualidade, \u00e9 algo interno, n\u00e3o uma caracter\u00edstica f\u00edsica aparente. N\u00e3o vi porqu\u00ea escolher um ator gay, inclusive todos os atores que passaram pela pe\u00e7a s\u00e3o heteros.<\/p>\n<p>iGay: O personagem gay da pe\u00e7a foge de todos os estere\u00f3tipos comuns na TV e no teatro, sem nenhum tipo de afeta\u00e7\u00e3o. Isso foi proposital ou houve algum tipo de suaviza\u00e7\u00e3o durante a composi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Rafael:\u00a0N\u00e3o tinha o que suavizar, porque o personagem nunca teve nenhum trejeito, nem cabia naquele papel. Ele \u00e9 gay, est\u00e1 apaixonado por um menino heterossexual e \u00e9 isso que me importa, pra mim era importante sublinhar o romantismo dele, o amor dele, e n\u00e3o a homossexualidade dele. Tivemos a preocupa\u00e7\u00e3o de ter uma pe\u00e7a protagonizada por um gay, mas n\u00e3o necessariamente uma pe\u00e7a gay. N\u00e3o temos dois rapazes sem camisa no p\u00f4ster de divulga\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a e nem no palco. Isso \u00e9 um vit\u00f3ria cultural.<\/p>\n<p>iGay: Como assim?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0Durante muito tempo, as pe\u00e7as e os filmes sobre gays retratavam figuras c\u00f4micas ou o processo de se descobrir ou se assumir gay. Hoje ser gay \u00e9 uma caracter\u00edstica, como a cor do cabelo, da pele ou a altura. A hist\u00f3ria poderia ser composta apenas de homossexuais, ter\u00edamos que mexer, obviamente, porque o mote do amor realmente imposs\u00edvel n\u00e3o seria t\u00e3o forte, n\u00e3o teria a barreira do g\u00eanero, mas seria ainda uma hist\u00f3ria de amores.<\/p>\n<p>iGay: Quais seus pr\u00f3ximos projetos?<\/p>\n<p>Rafael :\u00a0A pe\u00e7a segue por mais algum tempo em turn\u00ea pelo interior de S\u00e3o Paulo e depois Bras\u00edlia, com elenco todo renovado, mas eu j\u00e1 come\u00e7o a me distanciar porque estou com mil outros projetos. O principal \u00e9 a montagem da pe\u00e7a \u201cGotas D\u2019\u00c1gua Sobre Pedras Escaldantes\u201d, do Fassbinder (Rainer Werner Fassbinder), que teve uma vers\u00e3o francesa para o cinema em 2000. O Rainer tem textos com tem\u00e1ticas sexuais e gays muito fortes, que me interessam bastante. Tamb\u00e9m tenho colaborado com a s\u00e9rie \u201cLouco por Elas\u201d, que brinco ser o programa mais gay de todos. Vira e mexe entra um personagem gay. (iG)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez voc\u00ea ainda n\u00e3o tenha decorado o nome dele, mas certamente conhece o trabalho do santistaRafael Gomes\u00a0, 29 anos. Formado em cinema, foi respons\u00e1vel h\u00e1 quase 10 anos pelo curta \u201cTapa na Pantera\u201d, protagonizado pela atriz\u00a0Alice Vergueiro\u00a0, verdadeiro fen\u00f4meno na web, com mais de 5 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. 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