{"id":310351,"date":"2020-02-14T08:12:39","date_gmt":"2020-02-14T11:12:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=310351"},"modified":"2020-02-14T08:12:39","modified_gmt":"2020-02-14T11:12:39","slug":"descobri-que-a-minha-gravidez-era-um-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/descobri-que-a-minha-gravidez-era-um-cancer\/","title":{"rendered":"&#8216;Descobri que a minha gravidez era um c\u00e2ncer&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Vin\u00edcius Lemos<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1198C\/production\/_110867027_hiromi3.jpg\" alt=\"Hiromi Miyata\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Hiromi Miyata, de 20 anos, pensou que realizaria sonho de ser m\u00e3e, mas logo descobriu que o que crescia em seu \u00fatero era um c\u00e2ncer<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">A jovem Hiromi Miyata se casou aos 19 anos, em maio de 2018. Meses depois, recebeu uma not\u00edcia que aguardava desde que oficializou a uni\u00e3o: estava gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>A gesta\u00e7\u00e3o era motivo de alegria para ela, para o ent\u00e3o marido e para os parentes. &#8220;Foi um momento de emo\u00e7\u00e3o, porque desde antes de me casar j\u00e1 planejava como seria o meu beb\u00ea&#8221;, diz Hiromi, que mora em Mundo Novo (MS).<\/p>\n<p>Com pouco mais de um m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o, ela teve enjoos frequentes e sangramentos constantes. Quando completou dois meses de gravidez, o m\u00e9dico informou que ela teria sofrido um aborto.<\/p>\n<p>Semanas depois, a jovem descobriu que nunca esteve gr\u00e1vida. Isso porque, pouco ap\u00f3s o \u00f3vulo dela ser fecundado, em vez do surgimento de um feto, um tumor come\u00e7ou a crescer em sua placenta (que se desenvolve no \u00fatero a partir da fertiliza\u00e7\u00e3o) e se tornou uma neoplasia trofobl\u00e1stica gestacional \u2014 um c\u00e2ncer de placenta.<\/p>\n<p>A massa que se desenvolveu no \u00fatero da jovem \u00e9 conhecida como mola hidatiforme invasiva, uma esp\u00e9cie de tumor que cresce na placenta e costuma ser confundido, a princ\u00edpio, com uma gesta\u00e7\u00e3o \u2014 pois tamb\u00e9m eleva os n\u00edveis de beta HCG, o horm\u00f4nio da gravidez.<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\">\n<div class=\"teads-ui-components-credits\"><\/div>\n<\/div>\n<p>&#8220;O meu \u00fatero nutriu a massa desse c\u00e2ncer como se fosse um beb\u00ea. Por isso produzi muito beta HCG e meus exames deram positivo para a gesta\u00e7\u00e3o. O meu corpo entendeu que eu estava gr\u00e1vida e agiu assim&#8221;, diz Hiromi \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Estudos apontam que essa mola pode surgir a partir do crescimento de um \u00f3vulo fertilizado de modo anormal ou em casos de crescimento excessivo da placenta, durante o desenvolvimento dela.<\/p>\n<p>Pesquisas apontam que a doen\u00e7a \u00e9 considerada pouco frequente, por\u00e9m, n\u00e3o existem estat\u00edsticas oficiais. H\u00e1 estudos que dizem que as doen\u00e7as trofobl\u00e1sticas representam menos de 1% dos c\u00e2nceres do sistema reprodutor feminino.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/167AC\/production\/_110867029_hiromi01.jpg\" alt=\"Hiromi e Ricardo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Hiromi ao lado do ex-marido, Ricardo Gatti, logo ap\u00f3s exames apontarem a gravidez<\/figure>\n<p>Quando Hiromi recebeu o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a, o c\u00e2ncer estava em est\u00e1gio avan\u00e7ado. Os planos de ter um filho deram lugar \u00e0 luta pela vida.<\/p>\n<p>&#8220;Do momento em que descobri que nunca estive gr\u00e1vida at\u00e9 o fim do tratamento contra o c\u00e2ncer, vivi um grande misto de emo\u00e7\u00f5es. Precisei ser muito forte para lidar com tudo isso&#8221;, declara.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Os sintomas<\/h2>\n<p>Depois do casamento, Hiromi come\u00e7ou a sentir sintomas de uma gesta\u00e7\u00e3o. &#8220;Tive muitos enjoos, a minha barriga e os meus seios come\u00e7aram a crescer e logo pensei que pudesse estar gr\u00e1vida&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ela fez exame de gravidez e deu positivo. &#8220;Fiquei muito feliz com o resultado. Era o que planej\u00e1vamos para aquele momento&#8221;, diz. Ela, que hoje tem 20 anos, afirma que sempre quis ser m\u00e3e cedo.<\/p>\n<p>Hiromi foi ao hospital e fez um ultrassom que atestou que ela estava gr\u00e1vida de, aproximadamente, um m\u00eas. &#8220;O m\u00e9dico me disse que era uma gesta\u00e7\u00e3o inicial, ent\u00e3o eu n\u00e3o conseguiria ver direito o feto porque era muito mi\u00fado. No exame, consegui ver um pontinho no meu \u00fatero, que pensei que fosse o meu filho.&#8221;<\/p>\n<p>Ela ganhou diversos presentes de familiares para comemorar a chegada do beb\u00ea. &#8220;Foi um momento muito especial&#8221;, diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5A24\/production\/_110867032_hiromi4.jpg\" alt=\"Hiromi Miyata\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Antes do c\u00e2ncer, jovem era apegada ao cabelo e tinha os fios at\u00e9 a cintura<\/figure>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de Hiromi com a gesta\u00e7\u00e3o surgiu quando come\u00e7aram os sangramentos frequentes. &#8220;Tomei rem\u00e9dios para tentar segurar o beb\u00ea, mas nada parecia adiantar&#8221;, diz. O m\u00e9dico afirmou que eles deveriam esperar algumas semanas para que pudessem avaliar a situa\u00e7\u00e3o do feto.<\/p>\n<p>&#8220;Quando completei oito semanas de gravidez, fiz um ultrassom que mostrou que n\u00e3o havia batimentos card\u00edacos no feto. O m\u00e9dico me disse que eu tinha perdido o beb\u00ea&#8221;, relata a jovem. A not\u00edcia da perda abalou a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;Foi muito decepcionante descobrir que n\u00e3o ser\u00edamos pais, porque a gente esperava muito ter um filho&#8221;, diz o agricultor Ricardo Gatti, de 19 anos, que na \u00e9poca era o marido da jovem.<\/p>\n<p>A oncologista Junia Thirzah Gehrke, respons\u00e1vel por acompanhar o caso de Hiromi, afirma que uma doen\u00e7a na placenta pode ser interpretada como gesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 a quinta ou sexta semana da suposta gravidez. &#8220;O ideal \u00e9 que a mulher fa\u00e7a o pr\u00e9-natal completo, para que os m\u00e9dicos possam dar um diagn\u00f3stico corretamente o quanto antes&#8221;, explica.<\/p>\n<p>&#8220;Mas \u00e9 importante dizer que essas doen\u00e7as s\u00e3o raras. O mais comum \u00e9 que a mulher engravide e tenha uma gesta\u00e7\u00e3o normal, sem esse tipo de problema grave&#8221;, acrescenta a especialista.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ser informada de que teria perdido o filho, Hiromi fez uma curetagem \u2014 procedimento de limpeza do \u00fatero. Os sintomas da gesta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, permaneceram.<\/p>\n<p>&#8220;Era como se o beb\u00ea ainda estivesse no meu \u00fatero, mesmo ap\u00f3s ter sido retirado&#8221;, diz Hiromi. Ela continuou com enjoos e sangramentos frequentes \u2014 e a barriga continuou crescendo como a de uma gestante.<\/p>\n<p>Ela fez exames, que apontaram a presen\u00e7a do c\u00e2ncer. O que havia sido eliminado na primeira curetagem, na verdade, eram as primeiras partes da mola, que continuou crescendo mesmo ap\u00f3s o procedimento.<\/p>\n<p>&#8220;Precisei fazer outras duas curetagens, mas, ainda assim, a massa continuava crescendo e meus n\u00edveis de beta HCG permaneciam altos, como se eu estivesse gestante&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Passei por mais exames e descobri que essa mola se transformou em um c\u00e2ncer&#8221;, relembra Hiromi.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A doen\u00e7a<\/h2>\n<p>A descoberta do c\u00e2ncer abalou profundamente Hiromi. &#8220;Quando recebi o diagn\u00f3stico, gritei, chorei e esperneei. Achei que fosse castigo, mas logo fui buscando for\u00e7as para enfrentar essa situa\u00e7\u00e3o&#8221;, revela.<\/p>\n<p>Ela conta que recebeu apoio do ent\u00e3o marido e da fam\u00edlia, principalmente da m\u00e3e.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A844\/production\/_110867034_hiromi5.jpg\" alt=\"Hiromi Miyata raspando o cabelo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Durante tratamento contra o c\u00e2ncer, jovem teve de raspar o cabelo<\/figure>\n<p>Em dezembro de 2018, a jovem deu in\u00edcio ao tratamento contra a doen\u00e7a. No in\u00edcio de 2019, os exames apontaram uma met\u00e1stase no pulm\u00e3o e que a mola n\u00e3o parava de crescer. O tratamento, que a princ\u00edpio envolveria um protocolo menos invasivo de quimioterapia, foi intensificado.<\/p>\n<p>Por oito meses, ela passou por diversas sess\u00f5es de quimioterapia em um hospital p\u00fablico de Dourados (MS), a cerca de 240 quil\u00f4metros da cidade em que mora. No per\u00edodo, ficou extremamente fraca e perdeu todos os pelos do corpo.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha um cabelo muito longo e decidi deix\u00e1-lo curtinho assim que eu descobri a doen\u00e7a, porque sabia que ficaria careca. Acho que esse momento foi mais dif\u00edcil do que quando raspei o cabelo, durante a quimioterapia, porque quando comecei o tratamento j\u00e1 estava preparada para ficar careca&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Em setembro passado, ela encerrou os tratamentos. A jovem passou por novos exames que apontaram que o c\u00e2ncer sumiu. &#8220;Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho mais a mola em meu \u00fatero&#8221;, comemora.<\/p>\n<p>&#8220;O tratamento da Hiromi foi um sucesso. Ela teve uma remiss\u00e3o completa da doen\u00e7a. Ela n\u00e3o tem mais o c\u00e2ncer ativo&#8221;, explica a oncologista que acompanhou a jovem.<\/p>\n<p>Mas Gehrke pondera que ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer acompanhamento frequente por, aproximadamente, cinco anos. &#8220;\u00c9 um per\u00edodo necess\u00e1rio para avaliar se a doen\u00e7a n\u00e3o ir\u00e1 voltar. A gente ainda n\u00e3o pode falar em cura. Mas estamos otimistas. O acompanhamento agora \u00e9 importante para que possamos identificar qualquer problema logo no in\u00edcio&#8221;, explica a m\u00e9dica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ap\u00f3s a quimioterapia<\/h2>\n<p>Hiromi comenta que o fim do tratamento foi um dos momentos mais importantes da vida dela. &#8220;Nunca pensei que essa doen\u00e7a fosse me derrubar. Sempre acreditei na cura&#8221;, pontua.<\/p>\n<p>Desde o fim da quimioterapia, a jovem decidiu recome\u00e7ar a vida. No fim do ano passado, terminou o casamento de um ano e meio. &#8220;Decidimos terminar. Mas \u00e9 necess\u00e1rio dizer que ele foi uma pessoa muito importante, principalmente porque esteve ao meu lado durante toda a minha luta contra a doen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FA4C\/production\/_110867046_hiromi06.jpg\" alt=\"Hiromi Miyata\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ap\u00f3s doen\u00e7a, ela afirma que quer recome\u00e7ar a vida e fazer faculdade de biologia<\/figure>\n<p>Ela revela que ainda sonha ser m\u00e3e, mesmo sem ter certeza se conseguir\u00e1 gerar uma crian\u00e7a em seu \u00fatero \u2014 em muitos casos de neoplasia trofobl\u00e1stica gestacional \u00e9 comum que as mulheres tenham muita dificuldade para engravidar ou at\u00e9 tenham de retirar o \u00fatero, para evitar novos problemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho que esperar, ao menos, dois anos para tentar uma gesta\u00e7\u00e3o, pois antes disso h\u00e1 50% de chances de eu desenvolver um novo c\u00e2ncer caso eu tente engravidar. No momento, ainda tenho muito medo&#8221;, diz a jovem. Ela n\u00e3o descarta adotar uma crian\u00e7a futuramente. &#8220;Mas ainda sonho muito com a minha gravidez&#8221;, afirma Hiromi.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de querer um filho, ela, que terminou o ensino m\u00e9dio pouco antes do casamento, quer fazer faculdade de biologia. &#8220;Gosto muito dessa \u00e1rea e sempre sonhei em fazer esse curso&#8221;, diz a jovem, que planeja se tornar professora.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Tenho que esperar, ao menos, dois anos para tentar uma gesta\u00e7\u00e3o, pois antes disso h\u00e1 50% de chances de eu desenvolver um novo c\u00e2ncer caso eu tente engravidar. No momento, ainda tenho muito medo&#8221;, diz a jovem. 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