{"id":311167,"date":"2020-02-23T17:10:43","date_gmt":"2020-02-23T20:10:43","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=311167"},"modified":"2020-02-24T15:14:01","modified_gmt":"2020-02-24T18:14:01","slug":"da-janela-do-sobrado-a-donas-da-folia-como-as-mulheres-driblaram-o-machismo-na-historia-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/da-janela-do-sobrado-a-donas-da-folia-como-as-mulheres-driblaram-o-machismo-na-historia-do-carnaval\/","title":{"rendered":"Da janela do sobrado a donas da folia: como as mulheres driblaram o machismo na hist\u00f3ria do Carnaval"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Rafael Barifouse<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/FE20\/production\/_110965056_carnaval1_v.jpg\" alt=\"Desfile de corso na avenida Beira Mar, no Rio, em 1922\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>A tradi\u00e7\u00e3o dos &#8216;corsos&#8217; carnavalescos come\u00e7ou no Rio de Janeiro e se espalhou para outras cidades do pa\u00eds<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Em 2014, depois que viralizou no Facebook a foto em que um homem segurava um cartaz com a frase &#8220;eu n\u00e3o mere\u00e7o mulher rodada&#8221;, Renata Rodrigues e D\u00e9bora Thom\u00e9 decidiram criar um evento na rede social para protestar com humor contra o machismo do post. O sucesso da ideia, que atraiu centenas de participantes, as levou a fundar &#8220;o primeiro bloco feminista&#8221; do Carnaval do Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Carnaval \u00e9 um espa\u00e7o muito machista. Quando chegamos, tinha muita mulher segurando estandarte de bloco, mas quase nenhuma tocando ou na produ\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Renata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, Renata, D\u00e9bora e mais duas amigas s\u00e3o respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o do Mulheres Rodadas, que se prepara neste ano para seu sexto desfile com uma banda formada por 11 mulheres e apenas um homem. N\u00e3o h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o para a participa\u00e7\u00e3o masculina entre os instrumentistas, mas a lideran\u00e7a \u00e9 feminina.&#8221;Os homens j\u00e1 t\u00eam esse espa\u00e7o nos outros blocos. Aqui, fazemos como a gente acha melhor.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o recente na hist\u00f3ria centen\u00e1ria do Carnaval, uma festa na qual, no in\u00edcio, mulheres &#8220;de fam\u00edlia&#8221; n\u00e3o deveriam participar \u2014 e, mesmo quando isso mudou, coube a elas um papel secund\u00e1rio e por vezes invis\u00edvel aos olhos da maioria, em uma folia dominada por homens.<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque, mesmo que o Carnaval seja visto muitas vezes como uma chance de algu\u00e9m ser o que desejar e de subverter os pap\u00e9is sociais que exerce no resto do ano, a ideia n\u00e3o passa de um mito, dizem pesquisadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Apesar de se dizer que o Carnaval subverte mecanismos de controle social, ele reflete a vida \u2014 e a maneira como os sexos se veem \u2014 nos outros 365 dias do ano. A mulher \u00e9 subjugada no emprego e na fam\u00edlia e tamb\u00e9m \u00e9 subjugada no momento de festa&#8221;, diz Olga von Simson, professora do Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de Carnaval em Branco e Negro (Edusp).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Entrudos, bailes e corsos<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/161C9\/production\/_110996509_e971bbcf-683c-4785-b79d-4a633755ff1d.jpg\" alt=\"Desfile do Mulheres Rodadas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O bloco feminista Mulheres Rodadas foi criado por duas amigas ap\u00f3s um post machista viralizar nas redes sociais<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A origem do Carnaval brasileiro remonta aos entrudos, tradi\u00e7\u00e3o trazida pelos portugueses na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o em que as pessoas sa\u00edam \u00e0s ruas nos dias que antecediam a Quaresma para travar batalhas com baldes, seringas e bisnagas d&#8217;\u00e1gua, al\u00e9m de lim\u00f5es e laranjas-de-cheiro, bolas feitas de cera com \u00e1gua perfumada dentro. Esse costume logo se espalhou do Rio de Janeiro para outras cidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas poucas mulheres participavam, porque, durante todo per\u00edodo colonial, a rua era um espa\u00e7o masculino. O papel da mulher era ficar em casa&#8221;, diz Luiz Felipe Ferreira, criador do Centro de Refer\u00eancia do Carnaval e professor do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pesquisador explica que era mais comum as mulheres participarem do chamado entrudo familiar, que ocorria dentro das resid\u00eancias. &#8220;Essas festas tamb\u00e9m eram uma forma de contato social e uma chance das mocinhas assumirem a iniciativa nas rela\u00e7\u00f5es amorosas, ao jogar um lim\u00e3o-de-cheiro no rapaz em que elas estavam interessadas&#8221;, afirma Ferreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse tipo de festa reinou sozinha at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo de 19. A partir de ent\u00e3o, as antigas tradi\u00e7\u00f5es ligadas aos portugueses foram aos poucos dando lugar ou se misturando com novos costumes importados da Europa. Entre eles, um Carnaval mais sofisticado e elegante, com bailes a fantasia e desfiles de carros aleg\u00f3ricos, organizados pelos homens que estavam \u00e0 frente de sociedades carnavalescas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos bailes, as mulheres podiam assistir \u00e0 festa dos camarotes, mas n\u00e3o pular Carnaval no sal\u00e3o. Tamb\u00e9m era das janelas dos sobrados que elas viam os carros aleg\u00f3ricos desfilarem pelas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A participa\u00e7\u00e3o feminina, entretanto, n\u00e3o era totalmente vetada nos cortejos. &#8220;As prostitutas polonesas e francesas das casas mais ricas e sofisticadas desfilavam luxuosamente despidas nos carros. Foram elas, inclusive, que ensinaram aos homens como se fazia um Carnaval, porque muitos deles nunca tinham ido \u00e0 Europa&#8221;, diz Von Simson.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cientista social conta que n\u00e3o demorou para que mulheres cariocas, insatisfeitas por n\u00e3o poderem participar do Carnaval, procurassem o escritor Jos\u00e9 de Alencar em busca de uma solu\u00e7\u00e3o. Ele prop\u00f4s, ent\u00e3o, que fossem feitos bailes em que elas &#8220;pudessem tomar parte e n\u00e3o ser meras espectadoras&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os arquivos da Biblioteca Nacional apontam ainda que, em 1907, surgiu no Rio um novo tipo de celebra\u00e7\u00e3o que seria adotada em outras cidades brasileiras. Nos &#8220;corsos&#8221;, as fam\u00edlias mais ricas da cidade desfilavam em luxuosos carros abertos pela antiga Avenida Central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa partiu das filhas do ent\u00e3o presidente Afonso Pena e foi copiada pelos outros donos de autom\u00f3veis na \u00e9poca. Os ocupantes jogavam confete, serpentina e lan\u00e7a-perfume em quem estava nos outros carros ao longo do trajeto, enquanto as classes populares assistiam a tudo do ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mesmo assim, as mulheres participavam dos bailes e desfiles como acompanhantes do pai ou do marido, em um papel secund\u00e1rio de filha ou mulher&#8221;, diz Ferreira.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">As matriarcas do Carnaval<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B000\/production\/_110965054_carnaval3_vale.jpg\" alt=\"Grupo de foli\u00f5es no Carnaval de rua do Rio, em 1914\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Com os blocos e cord\u00f5es, come\u00e7ou a se afrouxar o controle sobre a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na folia<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O controle sobre a participa\u00e7\u00e3o da mulher no Carnaval come\u00e7ou a se afrouxar com o surgimento dos cord\u00f5es, blocos e ranchos carnavalescos, na segunda metade do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Organizados por grupos de amigos e fam\u00edlias das camadas sociais menos abastadas, os cord\u00f5es e blocos desfilavam a p\u00e9 pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a feminina foi de in\u00edcio bastante restrita ou mesmo nula nestes cortejos, porque eles eram proibidos pela pol\u00edcia. Foi somente mais tarde, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, com o fim da repress\u00e3o, que as mulheres come\u00e7aram a participar em maior n\u00famero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 nos ranchos, que faziam desfiles mais organizados e traziam elementos at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9ditos, como enredo e instrumentos de sopro e cordas, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres foi mais precoce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elas cumpriam pap\u00e9is fundamentais nestes festejos, confeccionando as fantasias e adere\u00e7os e organizando eventos para arrecadar o dinheiro necess\u00e1rio para bancar o cortejo \u2014 mas n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Carnaval como conhecemos hoje existe em grande parte gra\u00e7as \u00e0s &#8220;tias&#8221;, mulheres baianas que abriam suas casas para a reuni\u00e3o dos sambistas ao longo do ano e ofereciam assim um espa\u00e7o seguro para que eles se reunissem sem serem perseguidos pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As tias s\u00e3o o epicentro dessa cultura do Carnaval. Suas casas eram espa\u00e7os de sociabiliza\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o&#8221;, diz a jornalista B\u00e1rbara Pereira, doutora em hist\u00f3ria social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das mais famosas entre essas matriarcas do samba \u00e9 Hil\u00e1ria Batista de Almeida, a Tia Ciata. Mas havia muitas outras, diz Pereira, que entraram para os registros hist\u00f3ricos apenas como apoiadoras de seus maridos ou simplesmente foram esquecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muitos dos relatos que temos hoje sobre o in\u00edcio do Carnaval foram feitos por homens, e quase n\u00e3o h\u00e1 registros da participa\u00e7\u00e3o das mulheres, porque estes homens n\u00e3o as enxergavam. Elas foram invisibilizadas&#8221;, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">As mulheres v\u00e3o para a avenida<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0A30\/production\/_110980620_mulheresrodadas1.jpg\" alt=\"Desfile do Mulheres Rodadas\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Desfile do Mulheres Rodadas, no Rio de Janeiro<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Carnaval passaria por uma nova transforma\u00e7\u00e3o entre o final dos anos 1920 e o in\u00edcio dos anos 1930, quando foram fundadas as primeiras escolas de samba \u2014 e, com elas, as mulheres come\u00e7aram a conquistar um espa\u00e7o pr\u00f3prio nos desfiles de Carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O matriarcado na hist\u00f3ria do samba fez que houvesse uma presen\u00e7a feminina significativa desde o in\u00edcio das escolas, com a ala das baianas e a ala das pastoras, que cantavam em coro o samba-enredo junto com o puxador&#8221;, diz o historiador e escritor Luiz Ant\u00f4nio Simas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso abriu caminho para que as mulheres conquistassem com o tempo outros postos nos desfiles das escolas de samba. Simas destaca que a primeira mulher a sair na bateria foi Dagmar da Portela, em 1939.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 os primeiros sambas-enredo assinados por autoras s\u00e3o da d\u00e9cada de 1950. Carmelita Brasil, na Unidos da Ponte, foi a pioneira da composi\u00e7\u00e3o, e, em 1965, Dona Ivone Lara tornou-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo por uma grande escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aos poucos, como repercuss\u00e3o de mudan\u00e7as na estrutura da sociedade brasileira, as mulheres v\u00e3o conquistando espa\u00e7os tamb\u00e9m em um meio bem machista como o do samba&#8221;, diz Simas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a partir dos anos 1930 que as mulheres brasileiras conquistaram direitos pol\u00edticos e de receber sal\u00e1rios iguais. Passaram a n\u00e3o mais ter de pedir autoriza\u00e7\u00e3o aos maridos para trabalhar, ter conta em banco ou viajar sozinhas. E foram reconhecidas legalmente como iguais aos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, na Avenida, elas ganham cada vez mais protagonismo nos desfiles, como passistas, rainhas de bateria e destaques de carros aleg\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses postos s\u00e3o frequentemente vistos apenas como mais uma express\u00e3o do machismo no Carnaval, que trata as mulheres como objetos sexuais. Mas B\u00e1rbara Pereira, que pesquisou as passistas em seu doutorado, diz que n\u00e3o \u00e9 dessa forma que elas pr\u00f3prias se enxergam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essas mulheres t\u00eam orgulho de serem passistas, porque muitas vezes \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o passada de m\u00e3e para filha. E, a partir dos anos 1990, com o aumento da escolaridade feminina, muitas delas n\u00e3o s\u00e3o mulatas-show, mas estudantes e trabalhadoras que sambam porque querem sambar&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, as mulheres est\u00e3o vencendo gradativamente o preconceito nas escolas de samba ao tocar instrumentos considerados &#8220;de homens&#8221;, como surdo, caixa-de-guerra e tarol, e assumirem as fun\u00e7\u00f5es de carnavalescas, diretoras e mestres de bateria, puxadoras e, inclusive, presidentes de agremia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas ainda s\u00e3o poucas nestas posi\u00e7\u00f5es, porque persiste a ideia de que h\u00e1 nas escolas lugar de mulher e de homem, especialmente nos postos de poder, como a diretoria, e de mais prest\u00edgio, como a composi\u00e7\u00e3o&#8221;, diz historiadora Mar\u00edlia Belmonte, que pesquisa a velha guarda e a ala das baianas de seis escolas de samba de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">As mulheres conquistam espa\u00e7o no Carnaval de rua<\/h2>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/61E0\/production\/_110965052_mulheresroddadas4.jpg\" alt=\"Desfile do Mulheres Rodadas\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">Desfile do Mulheres Rodadas, no Rio de Janeiro<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Belmonte diz que um movimento semelhante come\u00e7ou a ocorrer tamb\u00e9m com os blocos de rua, em meio a um debate recente e mais amplo sobre o papel das mulheres na sociedade atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isso gera uma maior conscientiza\u00e7\u00e3o entre as mulheres e faz com que elas questionem o machismo e busquem ter maior representa\u00e7\u00e3o no Carnaval, ocupando espa\u00e7os antes reservados aos homens e criando seus pr\u00f3prios blocos, onde conseguem se expressar sem serem cerceadas nem sofrer ass\u00e9dio&#8221;, diz a historiadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, j\u00e1 existe mais de uma dezena de blocos pelo pa\u00eds que s\u00e3o organizados por mulheres ou at\u00e9 mesmo exclusivamente femininos, como Il\u00fa Ob\u00e1 de Min, Mulheres de Chico, N\u00e3o \u00e9 N\u00e3o, Pagu, Filhas da Lua, Toco-xona e Siga Bem, Caminhoneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renata Rodrigues, do Mulheres Rodadas, diz que o Carnaval de rua mudou nos seis anos em que seu bloco feminista desfila no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Existe hoje uma discuss\u00e3o muito mais ampla sobre o ass\u00e9dio e uma consci\u00eancia maior de que n\u00e3o \u00e9 porque a mulher est\u00e1 pulando Carnaval que ela pode ser assediada ou violentada. Isso aconteceu porque as mulheres que apareceram no Carnaval colocaram esse assunto em pauta&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, isso fez da folia um espa\u00e7o mais seguro para as mulheres e no qual elas se sentem mais confort\u00e1veis para exibir o corpo conforme quiserem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00f3s vemos hoje muito mais mulheres com o corpo \u00e0 mostra. Com o maior n\u00famero de mulheres, elas se sentem protegidas e capazes de dizer &#8216;o corpo \u00e9 meu, n\u00e3o quero que me toque&#8217;. \u00c9 um corpo que n\u00e3o est\u00e1 ali para ser consumido. \u00c9 um corpo pol\u00edtico, que carrega uma mensagem de liberdade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m h\u00e1 mais mulheres participando ativamente do Carnaval, tocando instrumentos, montando suas bandas e fanfarras e criando seus pr\u00f3prios projetos. &#8220;Temos muito orgulho de ter ajudado nesta transforma\u00e7\u00e3o junto com outros coletivos de mulheres.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mulheres Rodadas realiza oficinas ao longo do ano para ensinar mais mulheres a tocar instrumentos. O desejo de suas criadoras agora \u00e9 passar a oferecer tamb\u00e9m cursos para que elas ocupem postos de comando em toda a cadeia do Carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ainda somos franca minoria na gest\u00e3o. Queremos ter cada vez mais mulheres em posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, mas \u00e9 justamente neste espa\u00e7o que \u00e9 mais dif\u00edcil conseguir avan\u00e7ar.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o recente na hist\u00f3ria centen\u00e1ria do Carnaval, uma festa na qual, no in\u00edcio, mulheres &#8220;de fam\u00edlia&#8221; n\u00e3o deveriam participar \u2014 e, mesmo quando isso mudou, coube a elas um papel secund\u00e1rio e por vezes invis\u00edvel aos olhos da maioria, em uma folia dominada por homens.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":311168,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-311167","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/carnaval-antigo-do-rio.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311167","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=311167"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311167\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/311168"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=311167"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=311167"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=311167"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}