{"id":311887,"date":"2020-03-03T11:28:54","date_gmt":"2020-03-03T14:28:54","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=311887"},"modified":"2020-03-03T11:28:54","modified_gmt":"2020-03-03T14:28:54","slug":"quem-eram-as-ganhadeiras-mulheres-escravizadas-e-libertas-homenageadas-por-vencedora-do-carnaval-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quem-eram-as-ganhadeiras-mulheres-escravizadas-e-libertas-homenageadas-por-vencedora-do-carnaval-do-rio\/","title":{"rendered":"Quem eram as ganhadeiras, mulheres escravizadas e libertas homenageadas por vencedora do Carnaval do Rio"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Luiza Franco<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/85B4\/production\/_111082243_ee72fa0a-2ccf-49b2-83bc-16c2f46ca476.jpg\" alt=\"Lavadeiras\" width=\"1215\" height=\"925\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">&#8220;\u00d4 lava a roupa lavadeira do Abaet\u00e9\/ Na sombra da aroeira\/ At\u00e9 quando Deus quiser\/ Na sombra da aroeira\/ Deixa o tempo passar\/ Na sombra do angelim\/ Espera a roupa quarar&#8221;, dizem os versos da can\u00e7\u00e3o &#8220;Com a Alma Lavada&#8221;, do grupo baiano Ganhadeiras de Itapu\u00e3.<\/p>\n<p>Assim cantavam as ganhadeiras na lagoa do Abaet\u00e9, no bairro de Itapu\u00e3, em Salvador. A hist\u00f3ria dessas mulheres escravizadas e libertas, que prestavam diversos servi\u00e7os nas cidades brasileiras, e de suas descendentes foi contada no desfile da Viradouro, que venceu o Carnaval do Rio neste ano.<\/p>\n<p>A escola desenvolveu a narrativa a partir das m\u00fasicas do grupo baiano e mostrou na avenida um pouco do cotidiano dessas mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;Era um dia maravilhoso que a gente passava, as companheiras cantavam de l\u00e1 (de um lado da lagoa), a gente respondia de c\u00e1&#8221;, diz Maria, uma das Ganhadeiras, num especial da TVE Bahia dispon\u00edvel na internet.<\/p>\n<p>As m\u00fasicas que o grupo canta hoje foram ensinadas por suas ancestrais e passadas a outras gera\u00e7\u00f5es at\u00e9 o grupo Ganhadeiras de Itapu\u00e3 ser criado formalmente, e as can\u00e7\u00f5es, gravadas.<\/p>\n<p>Usando como base algumas das fontes que a dupla de carnavalescos Marcus Ferreira e Tarc\u00edsio Zanon adotaram em sua pesquisa, a BBC News Brasil conta quem eram as chamadas &#8220;escravas de ganho&#8221; e as libertas que trabalhavam com elas na Salvador dos s\u00e9culos 18 e 19, como viviam, o que faziam e como algumas de suas herdeiras acabaram formando um grupo musical.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5EA4\/production\/_111082242_riotur.jpg\" alt=\"Ala das baianas da Viradouro veio representando as ganhadeiras quituteiras, que vendiam iguarias, quitutes e doces t\u00edpicos\" width=\"2047\" height=\"1365\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ala das baianas da Viradouro veio representando as ganhadeiras quituteiras, que vendiam iguarias, quitutes e doces t\u00edpicos<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Escravizadas e libertas ganhadeiras<\/h2>\n<p>No Brasil escravista, surgiu no cen\u00e1rio urbano a figura dos escravizados de ganho, que prestavam servi\u00e7os na cidade. Eles davam a maior parte do dinheiro que ganhavam para seus senhores, mas ficavam com uma parcela \u2014 um pouco do lucro ou o excedente das vendas.<\/p>\n<p>Podiam guardar esses recursos para usar como quisessem \u2014 e at\u00e9 comprar sua alforria. No entanto, historiadores dizem que isso n\u00e3o era comum, pois as alforrias custavam caro e dependiam da concord\u00e2ncia dos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em sua tese de mestrado, intitulada A Mulher Negra da Bahia do S\u00e9culo 19, a pesquisadora Cec\u00edlia Moreira Soares diz que o trabalho das mulheres escravizadas de ganho gerava bastante dinheiro para os propriet\u00e1rios, que podiam viver no \u00f3cio. Citando viajantes europeus que registraram o que viam na Salvador do s\u00e9culo 19, ela diz que os senhores recuperavam em tr\u00eas anos o valor pago por esses escravos.<\/p>\n<p>&#8220;E os viajantes criticavam a gan\u00e2ncia dos senhores, que tornava &#8216;trist\u00edssima a condi\u00e7\u00e3o dos que eram obrigados a ganhar diariamente uma certa quantia'&#8221;, escreve a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar disso, o tipo de rela\u00e7\u00e3o certamente interessava \u00e0s escravas, se n\u00e3o do ponto de vista econ\u00f4mico, porque viver longe do senhor tornava-as mais livres de seu controle. Al\u00e9m disso, o ganho era uma das principais portas para a conquista da alforria.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16C2C\/production\/_111082239_3163d38b-a1f0-4e85-b0e8-a6cd53a4211f.jpg\" alt=\"Censo de mulheres libertas de Freguesia de Santana, feito em 1849 e citado na tese de mestrado da pesquisadora Cecilia Soares\" width=\"763\" height=\"851\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Censo de mulheres libertas de Freguesia de Santana, feito em 1849 e citado na tese de mestrado da pesquisadora Cecilia Soares<\/figure>\n<p>Entre as ganhadeiras, diz Soares, havia tamb\u00e9m &#8220;mulheres negras livres e libertas que lutavam para garantir o seu sustento e o de seus filhos&#8221;.<\/p>\n<p>No desfile da Viradouro estava representada uma mulher que os carnavalescos dizem ser uma das primeiras ganhadeiras de Itapu\u00e3 a conquistar a alforria, Preta Maria.<\/p>\n<p>&#8220;A l\u00edder genu\u00edna passou a vender nas ruas junto com suas camar\u00e1s (irm\u00e3s de alma). Negra liberta, por isso de p\u00e9s cal\u00e7ados, Preta Maria ajudou muitos escravos a conquistar a liberdade por meio do sistema de ganho&#8221;, diz o texto que descreve o desfile entregue aos jurados.<\/p>\n<p>As atividades das libertas e escravizadas eram as mesmas: lavar roupas, trabalhar como amas-de leite, vender quitutes, peixes, tecidos, objetos.<\/p>\n<p>O grupo das Ganhadeiras de Itapu\u00e3 canta sobre isso em As Ganhadeiras: &#8220;As ganhadeiras nascidas na praia de Itapu\u00e3\/ Vendendo peixinhos baratos, pescados pela manh\u00e3\/ Quem quer comprar os peixinhos, eu trago aqui pra escolher\/ Deus lhe ajude a pescar pra voc\u00ea vender&#8221;, cantam elas.<\/p>\n<p>Os peixes e outras mercadorias eram vendidas nas ruas por essas mulheres, que circulavam com tabuleiros e cestas &#8220;habilmente equilibradas sobre as cabe\u00e7as&#8221;, como descreve Soares, ou em feiras e mercados em ruas de com\u00e9rcio. Tamb\u00e9m vendiam tecidos e bugigangas, mas isso era menos comum.<\/p>\n<p>Essas atividades n\u00e3o eram t\u00e3o estranhas a mulheres vindas da \u00c1frica, diz a pesquisadora, &#8220;pois em muitas sociedades africanas delegava-se \u00e0s mulheres as tarefas de subsist\u00eancia dom\u00e9stica e circula\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros de primeira necessidade&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/ACC4\/production\/_111082244_b3cf7803-a4ca-4144-8c1a-f7c5c405bacd.jpg\" alt=\"Carro aleg\u00f3rico mostrando aguadeiros\" width=\"1247\" height=\"816\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>No in\u00edcio do s\u00e9culo 19, a maioria dos moradores de Salvador dependia dos escravizados aguadeiros, que levavam \u00e1gua das fontes \u00e0s casas<\/figure>\n<p>&#8220;Muitas ganhadeiras africanas eram provenientes da costa Ocidental da \u00c1frica, onde o pequeno com\u00e9rcio era tarefa essencialmente feminina, garantindo \u00e0s mulheres pap\u00e9is econ\u00f4micos importantes.&#8221;<\/p>\n<p>E eram boas no que faziam: &#8220;J\u00e1 no final do s\u00e9culo 18, Vilhena (Luis dos Santos Vilhena, autor de A Bahia no S\u00e9culo 18) notou que elas praticamente monopolizavam a distribui\u00e7\u00e3o de peixes, carnes, verduras e at\u00e9 produtos de contrabando&#8221;, escreve Soares.<\/p>\n<p>As lavadeiras, \u00e0s quais se referem muitas das m\u00fasicas das Ganhadeiras de Itapu\u00e3, faziam seu trabalho num clima descontra\u00eddo, descreviam viajantes. &#8220;Os encontros peri\u00f3dicos entre essas pessoas criavam e solidificavam la\u00e7os de amizade e solidariedade, ajudando na constru\u00e7\u00e3o de um universo social relativamente aut\u00f4nomo da negra dentro da escravid\u00e3o&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Mariinha, presidente do grupo das Ganhadeiras, conta que cresceu numa casa de ganhadeiros. &#8220;Quando nasci, meu pai j\u00e1 vendia peixe, era um ganhador, minha m\u00e3e lavava roupa no Abaet\u00e9, era ganhadeira. Era um modo de viver&#8221;, diz ela em document\u00e1rio feito por uma aluna da Universidade Federal da Bahia em 2015.<\/p>\n<p>Ela diz que os homens eram pescadores e as mulheres vendiam o produto. &#8220;Ajudavam os pescadores a puxar rede, chegavam em casa com a gamela, tratavam o peixe, assavam, enrolavam na folha de banana e levavam para vender nas feiras&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>Nas cidades, os homens escravizados ganhadores eram sapateiros, barbeiros, carregadores.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17532\/production\/_111083559_d522e01b-551c-4526-a703-373f5633708f.jpg\" alt=\"Pintura de Jean-Baptiste Debret mostra escravos de ganho trabalhando nas ruas do Rio de Janeiro\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Servi\u00e7os de barbeiros, cabelereiros, vendedoras &#8211; retratados nesse pintura de Jean-Baptiste Debret &#8211; eram formas de juntar dinheiro para a alforria<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Cantando samba de mar aberto<\/h2>\n<p>A origem do grupo musical est\u00e1 em encontros de moradores do bairro que come\u00e7aram a acontecer em dois terreiros conhecidos da regi\u00e3o, de Dona Cabocla e Dona Mariinha. &#8220;N\u00f3s quer\u00edamos juntar todos que se conheciam para fazer uma lembran\u00e7a de Itapu\u00e3 antiga. A\u00ed uns lembravam de uma hist\u00f3ria, contavam, uma cantava um samba. A gente queria alegria, era o que a gente estava procurando&#8221;, descreve Mariinha no document\u00e1rio da Universidade Federal da Bahia.<\/p>\n<p>Depois virou uma banda, cujo nome homenageia as escravizadas de ganho. O grupo tem de crian\u00e7as a idosos e mistura os cantos de lavadeiras com a experi\u00eancia de m\u00fasicos jovens.<\/p>\n<p>Tocam o que chamam de &#8220;samba de mar aberto&#8221;, termo criado por Amadeu Alves, diretor musical das Ganhadeiras, que descreve o estilo como uma mistura de ciranda, cantigas, maracatu e outras influ\u00eancias que os m\u00fasicos tiveram.<\/p>\n<p>&#8220;O canto vem desde a inf\u00e2ncia, de meu pai e minha m\u00e3e. Onde eu nasci tem uma festa em agosto que era de 15 dias de samba. E lavando roupa. Quanto mais eu cantava mais a roupa escorregava na minha m\u00e3o&#8221;, diz Maria de Xind\u00f3, cantora e matriarca do grupo, num v\u00eddeo gravado pela escola de samba.<\/p>\n<p>&#8220;Minha m\u00e3e dizia quando n\u00e3o acha o que ca\u00e7a, pega no que acha. Eu n\u00e3o achei emprego, fui lavar de ganho. Lavava para nove fam\u00edlias, dez com a de casa. Criei minhas filhas assim. N\u00e3o lavo mais porque as filhas n\u00e3o deixam. Hoje a escrava branca \u00e9 a m\u00e1quina de lavar. Agora vivo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das Ganhadeiras de Itapu\u00e3&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Servi\u00e7os de barbeiros, cabelereiros, vendedoras &#8211; retratados nesse pintura de Jean-Baptiste Debret &#8211; eram formas de juntar dinheiro para a alforria<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":311888,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-311887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/escravos.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=311887"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311887\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/311888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=311887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=311887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=311887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}