{"id":311893,"date":"2020-03-03T12:06:10","date_gmt":"2020-03-03T15:06:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=311893"},"modified":"2020-03-03T12:06:10","modified_gmt":"2020-03-03T15:06:10","slug":"da-escravidao-a-autonomia-em-50-anos-a-historia-de-renascimento-dos-indios-yawanawa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/da-escravidao-a-autonomia-em-50-anos-a-historia-de-renascimento-dos-indios-yawanawa\/","title":{"rendered":"Da escravid\u00e3o \u00e0 autonomia em 50 anos: a hist\u00f3ria de renascimento dos \u00edndios yawanaw\u00e1"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Jo\u00e3o Fellet\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/8967\/production\/_109557153_secom_acre_sv27072015-22.jpg\" alt=\"\u00cdndios Yawanaw\u00e1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Ind\u00edgenas tamb\u00e9m se tornaram fornecedores de empresas brasileiras e estrangeiras<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 menos de meio s\u00e9culo, ind\u00edgenas do povo Yawanaw\u00e1 viviam praticamente escravizados em seringais do Acre. Homens trabalhavam alcoolizados, jovens fugiam das aldeias, velhos e crian\u00e7as morriam de mal\u00e1ria, tuberculose e sarampo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pressionados por mission\u00e1rios evang\u00e9licos, muitos abandonaram tradi\u00e7\u00f5es e a l\u00edngua materna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje os Yawanawa s\u00e3o conhecidos por parcerias que mant\u00eam com grandes marcas, por sua presen\u00e7a em f\u00f3runs internacionais e por festivais xam\u00e2nicos em que recebem centenas de visitantes brasileiros e estrangeiros \u2014 muitos deles interessados em consumir ayahuasca, bebida sagrada para o grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dessa transforma\u00e7\u00e3o, conseguiram a demarca\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio, reinventaram costumes e expulsaram seringueiros e mission\u00e1rios. A trajet\u00f3ria os tornou uma refer\u00eancia para povos ind\u00edgenas vizinhos, que acabaram por seguir v\u00e1rios de seus passos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando cheguei para liderar o meu povo, em 2001, os Yawanaw\u00e1 estavam com a autoestima muito baixa&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil Tashka Yawanaw\u00e1, cacique da aldeia Mutum e um dos respons\u00e1veis pelo que chama de &#8220;renascimento cultural e espiritual&#8221; do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 46 anos, Tashka nasceu quando os seringueiros ainda ocupavam o territ\u00f3rio yawanaw\u00e1, uma trecho de Floresta Amaz\u00f4nica cortado pelo rio Greg\u00f3rio, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com o Peru.<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"teads-ui-components-credits\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os forasteiros chegaram \u00e0 regi\u00e3o h\u00e1 cerca de um s\u00e9culo, durante o Ciclo da Borracha. At\u00e9 ent\u00e3o sem contato regular com o mundo exterior, os Yawanaw\u00e1 foram recrutados para extrair l\u00e1tex das seringueiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muitas pessoas come\u00e7aram a cortar seringa para trocar por sal, a\u00e7\u00facar, g\u00eaneros de primeira necessidade. Depois os Yawanaw\u00e1 come\u00e7aram a perceber que os patr\u00f5es queriam sempre mais produ\u00e7\u00e3o&#8221;, conta Tashka.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/125A7\/production\/_109557157_secom_acre_sv27072015-38.jpg\" alt=\"\u00cdndios Yawanaw\u00e1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ainda nos anos 1980, \u00edndios Yawanaw\u00e1 informaram-se sobre seus direitos e voltaram \u00e0s aldeias para por fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o que sofriam \u00e0 \u00e9poca<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, os ind\u00edgenas foram abandonando as ro\u00e7as e passaram a depender cada vez mais dos donos dos seringais, que cobravam pre\u00e7os exorbitantes por roupas e alimentos. Capangas armados fiscalizavam os locais de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles acabaram se tornando escravos por d\u00edvidas, sujeitos ao alcoolismo, \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o e \u00e0s doen\u00e7as trazidas pelos seringueiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os patr\u00f5es seringalistas os apertavam de um lado, mission\u00e1rios evang\u00e9licos americanos da News Tribes Mission (Novas Tribos do Brasil) os cercavam do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00edder da aldeia Nova Esperan\u00e7a, Biraci J\u00fanior Yawanaw\u00e1 diz \u00e0 BBC News Brasil que os patr\u00f5es e os mission\u00e1rios trabalhavam numa esp\u00e9cie de parceria e estimulavam um &#8220;sistema individualista&#8221; entre os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um nos explorava fisicamente, e o outro nos explorava espiritualmente, impondo sua religi\u00e3o, nos impedindo de usar nossas medicinas e de fazer cerim\u00f4nias, porque era &#8216;coisa do dem\u00f4nio'&#8221;, ele diz.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio come\u00e7ou a mudar quando, nos anos 1980, jovens yawanaw\u00e1 enviados \u00e0 cidade para estudar \u2014 entre os quais o pai de Biraci J\u00fanior, o cacique Biraci Brasil \u2014 entraram em contato com o incipiente movimento ind\u00edgena acreano e com ONGs que o assessoravam, como a Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00cdndio do Acre. Informaram-se sobre seus direitos e voltaram \u00e0s aldeias para por fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mobiliza\u00e7\u00e3o levou \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Rio Greg\u00f3rio, em 1983. Na \u00e9poca com 983 mil hectares, o equivalente a um ter\u00e7o do Estado de Alagoas, ela foi a primeira terra ind\u00edgena demarcada do Acre. Em 2007, o territ\u00f3rio dobrou de tamanho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a terra assegurada, os ind\u00edgenas invadiram os barrac\u00f5es dos seringueiros para expuls\u00e1-los. Depois, foram atr\u00e1s dos mission\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela altura, conta Biraci J\u00fanior, os Yawanaw\u00e1 estavam t\u00e3o habituados \u00e0 presen\u00e7a dos religiosos que alguns protestaram, argumentando que os mission\u00e1rios haviam constru\u00eddo escolas e distribu\u00edam rem\u00e9dios \u00e0s comunidades. Coube a Biraci Brasil convenc\u00ea-los de que tudo ficaria bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele explicou que n\u00f3s viv\u00edamos antes dos mission\u00e1rios, t\u00ednhamos nossas medicinas, nossas plantas. Dizia que t\u00ednhamos que acreditar no poder delas, e a partir da\u00ed come\u00e7ou o trabalho de perguntar aos mais velhos, aos paj\u00e9s, que estavam h\u00e1 tanto tempo adormecidos, para faz\u00ea-los puxar da lembran\u00e7a o conhecimento, as rezas de cura, os cantos cerimoniais, e reavivar toda a espiritualidade&#8221;, diz o ind\u00edgena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que os Yawanaw\u00e1 expulsaram os mission\u00e1rios, outras comunidades nativas acreanas fizeram o mesmo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D787\/production\/_109557155_secom_acre_sv27072015-35.jpg\" alt=\"\u00cdndios Yawanaw\u00e1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Trajet\u00f3ria dos \u00edndios Yawanaw\u00e1 se tornou refer\u00eancia para povos vizinhos<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Retomada da ayahuasca<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse movimento de resgate tamb\u00e9m participaram sertanistas \u2014 servidores da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) que trabalhavam junto \u00e0s comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No artigo &#8220;Os outros da festa: um sobrevoo por festivais yawanaw\u00e1 e huni kuin&#8221;, publicado em 2018 pela revista Horizontes Antropol\u00f3gicos, a doutoranda em Antropologia na USP Aline Ferreira Oliveira descreve como ind\u00edgenas acreanos retomaram o consumo da ayahuasca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bebida, feita com duas plantas amaz\u00f4nicas, tem propriedades psicod\u00e9licas e havia sido proibida por mision\u00e1rios que viviam entre entre os nativos grupos. Nos anos 1990, ind\u00edgenas que viviam nas cidades pr\u00f3ximas \u00e0s aldeias, como Rio Branco, Tarauac\u00e1 e Cruzeiro do Sul, foram reapresentados a ela em encontros com sertanistas e adeptos de doutrinas associadas \u00e0 ayahuasca, das quais a mais conhecida \u00e9 o Santo Daime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Santo Daime foi fundado por um seringueiro negro, o migrante maranhense Raimundo Irineu Serra (1890-1971). Ap\u00f3s conhecer a bebida por interm\u00e9dio de ind\u00edgenas acreanos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, Irineu formulou uma corrente religiosa que mescla elementos crist\u00e3os, africanos, nordestinos e amer\u00edndios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oliveira diz que os encontros em que os ind\u00edgenas retomaram o contato com o ch\u00e1 tinham clima festivo e instrumentos musicais, duas caracter\u00edsticas das religi\u00f5es daimistas que acabaram absorvidas pelos ind\u00edgenas em sua reapropria\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia. Hoje muitos grupos ind\u00edgenas romperam os la\u00e7os com essas religi\u00f5es e passaram a seguir ritos pr\u00f3prios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 bebida, \u00e0 qual atribuem propriedades de cura e o poder de conectar os mundos f\u00edsico e espiritual.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Trabalhos mais animados<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os l\u00edderes Yawanaw\u00e1 dizem que a absor\u00e7\u00e3o de elementos externos teve papel central na consolida\u00e7\u00e3o de seus rituais ligados \u00e0 ayahuasca, bebida que eles chamam de &#8220;uni&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Biraci J\u00fanior afirma que, no passado, os trabalhos xam\u00e2nicos do povo eram restritos aos homens mais velhos. &#8220;Era uma coisa muito focada na medicina (tradicional), com cantos fortes de cura, e aquilo se tornou mon\u00f3tono para a juventude, era muito sem gra\u00e7a&#8221;, ele diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme os rituais incorporaram instrumentos antes inexistentes entre o povo, como o viol\u00e3o, o tambor e o marac\u00e1, &#8220;os trabalhos foram ficando mais animados, e com isso a juventude se despertou em querer aprender a l\u00edngua, em querer cantar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje Biraci J\u00fanior diz que v\u00e1rios adolescentes Yawanaw\u00e1 falam fluentemente a l\u00edngua nativa e est\u00e3o se preparando para se tornar paj\u00e9s (l\u00edderes espirituais) \u2014 cen\u00e1rio impens\u00e1vel h\u00e1 algumas d\u00e9cadas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/173C7\/production\/_109557159_secom_acre_sv27072015-3.jpg\" alt=\"\u00cdndios Yawanaw\u00e1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Rituais xam\u00e2nicos t\u00eam ajudado a atrair turistas para as aldeias, atividade que se tornou a principal fonte de receitas da comunidade<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Turismo xam\u00e2nico<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A anima\u00e7\u00e3o dos rituais tamb\u00e9m tem ajudado a atrair turistas para as aldeias, atividade que se tornou a principal fonte de receitas da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio dos anos 2000, os Yawanaw\u00e1 passaram a abrir seus festivais xam\u00e2nicos para o p\u00fablico externo, no que foram seguidos por outros grupos ind\u00edgenas acreanos. Hoje o povo realiza dois grandes eventos anuais, o Mariri e o Yaw\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os visitantes v\u00e3o \u00e0s aldeias para uma semana de &#8220;canto, dan\u00e7a, cura, arte, express\u00e3o art\u00edstica, manifesta\u00e7\u00e3o cultural e espiritual, num ato de agradecimentos aos esp\u00edritos da floresta pelos bens que ela oferece&#8221;, segundo a descri\u00e7\u00e3o no site da ag\u00eancia Grupos de Viagem, que organiza expedi\u00e7\u00f5es a comunidades ind\u00edgenas de v\u00e1rios pa\u00edses das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas cerim\u00f4nias, eles t\u00eam acesso \u00e0 ayahuasca e a outros rem\u00e9dios tradicionais, como o rap\u00e9 (tabaco mo\u00eddo com cinza de \u00e1rvores, assoprado pelas narinas), a sepa (resina usada em defuma\u00e7\u00f5es para purificar o corpo) e a sananga (col\u00edrio para limpar a vis\u00e3o feito com ra\u00edzes). O consumo de \u00e1lcool e drogas il\u00edcitas \u00e9 proibido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Biraci J\u00fanior diz que, em sua maior edi\u00e7\u00e3o, o festival Yaw\u00e1 reuniu 600 visitantes de 19 pa\u00edses na aldeia Nova Esperan\u00e7a. Cada um tem de desembolar R$ 2 mil pela experi\u00eancia \u2014 dos quais, segundo o l\u00edder, R$ 1.400 cobrem custos com comida, transporte e servi\u00e7os para os visitantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fluxo de gente foi grande demais para a aldeia, que hoje tem 380 habitantes. Desde ent\u00e3o, os organizadores t\u00eam limitado o n\u00famero de participantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem todos os visitantes se adaptam \u00e0s condi\u00e7\u00f5es na aldeia. Tashka Yawanaw\u00e1 cita o caso de uma senhora que n\u00e3o conseguia defecar nas fossas usadas pela comunidade. &#8220;Tive que mandar buscar um assento de privada em Tarauac\u00e1&#8221;, ele diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro caso envolveu um casal franc\u00eas que viajou \u00e0 aldeia em lua de mel. &#8220;Eles n\u00e3o conseguiam transar na rede e ca\u00edam no ch\u00e3o o tempo todo&#8221;, conta, aos risos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Melhorias das aldeias<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tashka diz que hoje a atividade economicamente mais vantajosa para a comunidade s\u00e3o viv\u00eancias que agregam entre 20 e 40 visitantes nas aldeias por at\u00e9 tr\u00eas semanas. H\u00e1 v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es por ano, e cada uma gera at\u00e9 R$ 150 mil em receitas, segundo ele. O grupo tamb\u00e9m realiza rituais e viv\u00eancias em cidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os l\u00edderes dizem que o dinheiro do turismo \u00e9 investido em melhorias f\u00edsicas para a comunidade, como novas constru\u00e7\u00f5es e po\u00e7os d&#8217;\u00e1gua, e em sistemas de cria\u00e7\u00e3o de porcos, galinhas e peixes. Os gastos s\u00e3o decididos em assembleia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Biraci J\u00fanior, antes dos festivais, os Yawanaw\u00e1 se deslocavam \u00e0 cidade em pequenas canoas em viagens que levavam at\u00e9 cinco dias. &#8220;Hoje temos a possibilidade de comprar barcos com motor e levamos oito horas&#8221;, diz.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Contato com ind\u00edgenas nos EUA<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos instrumentos musicais, os festivais Yawanaw\u00e1 incorporaram outros elementos que o grupo conheceu em andan\u00e7as fora das aldeias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tashka Yawanaw\u00e1 diz que os eventos foram inspirados em celebra\u00e7\u00f5es realizadas por outros povos nativos das Am\u00e9ricas, como o &#8220;pow-wow&#8221;, cerim\u00f4nia em que ind\u00edgenas norte-americanos recebem visitantes para cantar, dan\u00e7ar e celebrar a cultura local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele participou da festa durante um interc\u00e2mbio de estudos na Calif\u00f3rnia, seguido por uma longa expedi\u00e7\u00e3o do Canad\u00e1 ao Chile, quando conheceu dezenas de comunidades nativas. Em sua \u00faltima viagem ao exterior, em setembro, acompanhou a Marcha pelo Clima em Nova York junto da ativista sueca Greta Thunberg.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Parcerias com empresas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira experi\u00eancia internacional do l\u00edder foi financiada pela Aveda, empresa americana de cosm\u00e9ticos que h\u00e1 27 anos compra sementes de urucum dos Yawanaw\u00e1, usando-as em produtos para cabelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo tamb\u00e9m j\u00e1 teve uma parceria com o designer Marcelo Rosenbaum, com quem desenvolveram uma linha de lumin\u00e1rias apresentada no Sal\u00e3o Internacional do M\u00f3vel do Mil\u00e3o, em 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2015, a grife Cavalera levou os ind\u00edgenas \u00e0 S\u00e3o Paulo Fashion Week, exibindo roupas com estampas inspiradas na arte do grupo. E, em 2018, foi a vez de a grife Farm lan\u00e7ar uma cole\u00e7\u00e3o de colares, brincos e bolsas com mi\u00e7angas trabalhadas por mulheres Yawanaw\u00e1.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/33DB\/production\/_109557231_secom_acre_sv27072015-6.jpg\" alt=\"\u00cdndios Yawanaw\u00e1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;Hoje os Yawanaw\u00e1 est\u00e3o nessa t\u00e3o sonhada jornada da nossa autonomia&#8221;<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">As parcerias com empresas possibilitaram que v\u00e1rios membros do grupo fossem enviados a universidades brasileiras e estrangeiras. Segundo Biraci J\u00fanior, hoje o povo tem 18 membros com ensino superior. H\u00e1 duas m\u00e9dicas, uma cirurgi\u00e3 dentista, al\u00e9m de graduados em Matem\u00e1tica, Biologia e Letras, entre outras carreiras. O pr\u00f3prio Biraci J\u00fanior estudou Administra\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola no Hava\u00ed (EUA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O l\u00edder diz que, quando enviam um jovem \u00e0 cidade para estudar, os Yawanaw\u00e1 esperam que ele retorne e use os ensinamentos para o bem da comunidade, sem sobrepujar o conhecimento tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, quase todos os que se formaram voltaram e hoje d\u00e3o aulas nas escolas ind\u00edgenas, o que motiva os jovens a permanecer nas aldeias. As m\u00e9dicas atendem os pacientes em parceria com os paj\u00e9s, aproveitando o conhecimento sobre rem\u00e9dios naturais.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Conquista de autonomia<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase 40 anos ap\u00f3s se livrarem dos mission\u00e1rios e dos seringalistas, os Yawanaw\u00e1 celebram as transforma\u00e7\u00f5es em suas vidas. Antes sob o risco de desaparecer, eles agora somam cerca de 1.300 integrantes, dos quais 324 vivem no Peru e 132, na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Hoje os Yawanaw\u00e1 est\u00e3o nessa t\u00e3o sonhada jornada da nossa autonomia&#8221;, diz Tashka. Ele reconhece que, para chegar onde chegaram, contaram com o apoio de ONGs, sertanistas e parcerias que lhes permitiram capacitar seus integrantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, por\u00e9m, diz que o grupo n\u00e3o depende de ningu\u00e9m \u2014 nem de institui\u00e7\u00f5es privadas, nem de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. &#8220;Se a Funai acabar, seria o fim do mundo para muitos povos. Para n\u00f3s, n\u00e3o faria a m\u00ednima diferen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso, por\u00e9m, n\u00e3o o impede de se preocupar com a situa\u00e7\u00e3o dos outros grupos e de criticar o presidente Jair Bolsonaro. &#8220;Nenhum outro governo desrespeitou tanto os povos ind\u00edgenas com o atual&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tashka condena a promessa de Bolsonaro de que n\u00e3o demarcaria novas terras ind\u00edgenas e a posi\u00e7\u00e3o de que os \u00edndios devem ser inseridos na sociedade para que deixem de ser &#8220;miser\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma pessoa dessas n\u00e3o consegue ver a beleza, a arte, a ci\u00eancia, a medicina que os povos ind\u00edgenas carregam com eles. S\u00f3 consegue ver pobreza&#8221;, diz o l\u00edder.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desse movimento de resgate tamb\u00e9m participaram sertanistas \u2014 servidores da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) que trabalhavam junto \u00e0s comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":311894,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-311893","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/indios-na-ponte.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=311893"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311893\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/311894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=311893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=311893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=311893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}