{"id":312320,"date":"2020-03-07T18:31:28","date_gmt":"2020-03-07T21:31:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=312320"},"modified":"2020-03-07T18:33:06","modified_gmt":"2020-03-07T21:33:06","slug":"abigail-de-andrade-a-pintora-premiada-quando-as-mulheres-eram-proibidas-na-escola-de-belas-artes-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/abigail-de-andrade-a-pintora-premiada-quando-as-mulheres-eram-proibidas-na-escola-de-belas-artes-no-brasil\/","title":{"rendered":"Abigail de Andrade: A pintora premiada quando as mulheres eram proibidas na Escola de Belas Artes no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"byline__name\">Camilla Veras Mota <\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/45BF\/production\/_111155871_abigail.jpg\" alt=\"Abigail de Andrade em seu ateli\u00ea\" width=\"938\" height=\"1280\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Abigail em foto que inspirou &#8216;Um Canto do Meu Ateli\u00ea&#8217;: morte precoce encurtou carreira promissora da pintora<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Entre agosto e novembro de 1884, um quadrinho exposto por 100 dias no pr\u00e9dio da antiga Academia Imperial de Belas Artes, no centro do Rio de Janeiro, retratava uma cena incomum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um mulher, de costas, sentada em frente a um cavalete que sustentava uma tela, conversava com uma mulher mais velha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodeada por quadros e esculturas, a profissional da arte era o tema de\u00a0<i>Um Canto do Meu Ateli\u00ea<\/i>. Mais que isso, era um autorretrato da autora, Abigail de Andrade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, as mulheres n\u00e3o podiam estudar na Academia Imperial de Belas Artes. S\u00f3 homens eram admitidos na institui\u00e7\u00e3o mais prestigiosa para o ensino da arte no pa\u00eds, fundada por Dom Jo\u00e3o 6\u00ba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Por conta dessa situa\u00e7\u00e3o institucional, os cr\u00edticos consideravam as mulheres sempre &#8216;amadoras&#8217;, porque elas n\u00e3o podiam se profissionalizar na institui\u00e7\u00e3o&#8221;, destaca a pesquisadora Ana Paula Simioni Cavalcanti, que estudou a artista em sua tese de doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo era usado por cr\u00edticos importantes como Luiz Gonzaga Duque Estrada e refletia a ideia de que o grande papel das mulheres estava circunscrito \u00e0 esfera dom\u00e9stica e que qualquer coisa fora desses limites, inclusive a pintura e a escultura, era secund\u00e1rio, um\u00a0<i>hobby<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi como &#8220;amadora&#8221; que a jovem, ent\u00e3o com 20 anos, foi premiada na Exposi\u00e7\u00e3o Geral de 1884.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As exposi\u00e7\u00f5es de belas artes eram grandes eventos sociais no Segundo Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Realizadas desde 1840, elas surgiram a partir de duas mostras organizadas em 1829 e 1830 pelo pintor franc\u00eas Jean Baptiste Debret, membro da miss\u00e3o art\u00edstica francesa que chegara ao Brasil em 1816 e professor da Academia Imperial de Belas Artes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram 26 ao todo, com a participa\u00e7\u00e3o de 516 artistas. A \u00faltima, em 1884.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois dos cinco trabalhos que Abigail apresentou naquele ano levaram a medalha de ouro de 1\u00ba grau:\u00a0<i>O Cesto de Compras<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Um Canto do Meu Ateli\u00ea<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela era a primeira vez que o j\u00fari especializado dava o mais alto reconhecimento da mostra a uma mulher.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5CF4\/production\/_111169732_abigailacenadopao.jpg\" alt=\"A Hora do P\u00e3o (1888), de Abigail de Andrade\" width=\"564\" height=\"819\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">A Hora do P\u00e3o (1888): uma das \u00faltimas obras da pintora retrata a periferia do Rio de Janeiro<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Um s\u00e9culo &#8216;esquecida&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria da artista, apesar de intensa, seria curta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela morreu cinco anos depois, em Paris, v\u00edtima de tuberculose, semanas ap\u00f3s dar \u00e0 luz o segundo filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por quase um s\u00e9culo \u2014 por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es que incluem sua pol\u00eamica biografia \u2014, o nome de Abigail de Andrade foi sendo gradualmente apagado da hist\u00f3ria da arte brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que, em 1989, um livro chamado\u00a0<i>150 anos de Pintura no Brasil<\/i>\u00a0resgata a vida e a obra da artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho era do pesquisador Donato Mello Junior, feito com base no acervo do megacolecionador S\u00e9rgio Fadel, que era dono de alguns quadros assinados por Abigail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro ganhou uma exposi\u00e7\u00e3o, que amplificou a &#8220;redescoberta tardia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Abigail, uma artista vision\u00e1ria sobre cuja obra pouco se sabe, exibia j\u00e1 naquela \u00e9poca uma t\u00e9cnica pr\u00e9-modernista similar ao que de mais consistente surgia ent\u00e3o nas artes pl\u00e1sticas europeias&#8221;, dizia uma nota no jornal O Globo em 23 de junho daquele ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi por meio dessa not\u00edcia que a muse\u00f3loga e restauradora de arte M\u00edriam Andr\u00e9a de Oliveira soube da exist\u00eancia da pintora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 anos ela procurava uma artista daquele per\u00edodo \u2014 o tema de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado era as mulheres na arte no Segundo Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu j\u00e1 estava quase no final, (quase) para entregar o trabalho, e n\u00e3o achava quadro nenhum&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;J\u00e1 discutia com minha orientadora porque n\u00e3o apareciam quadros de mulheres, porque tinha ficado apagado na hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que um colecionador para quem ela trabalhava comentou sobre a nota no jornal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fui na mostra e fiquei enlouquecida com a est\u00e9tica da obra dela.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Da elite do caf\u00e9 ao romance com um abolicionista<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abigail de Andrade nasceu no interior do Rio de Janeiro, na cidade de Vassouras, em 1864.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sup\u00f5e-se que sua fam\u00edlia fosse abastada e estivesse ligada \u00e0 lavoura de caf\u00e9, j\u00e1 que aquela regi\u00e3o concentrou a maior produ\u00e7\u00e3o cafeeira do mundo entre 1850 e 1900.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Do ponto de vista social, ela (a cultura do caf\u00e9) gerou uma nova aristocracia, os bar\u00f5es do Vale do Para\u00edba&#8221;, diz M\u00edriam Andr\u00e9a na disserta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconstituir o pouco que se sabe sobre a biografia da pintora n\u00e3o foi f\u00e1cil. A pesquisadora viajou a Vassouras, mas n\u00e3o encontrou registros sobre a fam\u00edlia na cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As informa\u00e7\u00f5es vieram de especialistas como Donato Mello Junior, autor de\u00a0<i>150 Anos de Pintura no Brasil<\/i>, e do muse\u00f3logo Arnaldo Machado, que a presenteou com uma das poucas fotos que existem de Abigail de Andrade \u2014 e que inspirou\u00a0<i>Um Canto do Meu Ateli\u00ea<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se sabe de onde veio o interesse da jovem pelas artes e nem o que a levou a deixar a casa dos pais e resolver morar com uma tia na capital para estudar no Liceu de Artes e Of\u00edcios.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/39CC\/production\/_111169741_rrcirca1905.jpg\" alt=\"Rio de Janeiro por volta de 1905\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A artista viveu no Rio de Janeiro at\u00e9 1888, quando, sob grande press\u00e3o social, mudou-se para Paris<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a pesquisadora Ana Paula Cavalcanti Simioni, a mudan\u00e7a \u00e9 um dos indicativos de que na jovem existia &#8220;um desejo efetivo de se tornar uma profissional da arte no campo da pintura \u2014 o que n\u00e3o era uma coisa imposs\u00edvel no Brasil, mas era muito rara&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ainda mais supondo que ela era de elite. O Liceu de Artes e Of\u00edcios n\u00e3o era um lugar de forma\u00e7\u00e3o para as elites.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome de Abigail de Andrade aparece em uma exposi\u00e7\u00e3o organizada pelo liceu em 1882.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ano antes, a escola passara a aceitar mulheres entre os alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abertura de vagas para o sexo feminino 25 anos depois da funda\u00e7\u00e3o da escola, entretanto, n\u00e3o foi exatamente um projeto de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia era qualificar as mulheres pobres para que elas pudessem contribuir para o or\u00e7amento dom\u00e9stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A aceita\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o profissional das mulheres n\u00e3o era uma quest\u00e3o de g\u00eanero, n\u00e3o havia uma valoriza\u00e7\u00e3o da intelectualiza\u00e7\u00e3o em si. O que tais discursos afirmavam era a necessidade de colaborar para que a mulher pobre obtivesse recursos&#8221;, diz a pesquisadora no livro\u00a0<i>Profiss\u00e3o Artista &#8211; Pintoras e Escultoras Acad\u00eamicas Brasileiras<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a forma\u00e7\u00e3o no liceu era &#8220;ecl\u00e9tica&#8221;, incluindo temas como &#8220;chapelaria&#8221; e &#8220;prendas do lar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grade dispunha de poucos cursos mais t\u00e9cnicos ligados \u00e0s chamadas &#8220;artes superiores&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudantes de desenho pouco aprendiam sobre anatomia, por exemplo \u2014 disciplina contemplada, por sua vez, no curso da Academia Imperial de Belas Artes, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o aceitava matr\u00edculas de mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na an\u00e1lise formal que faz da obra de Abigail, M\u00edriam Andr\u00e9a destaca a &#8220;informa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de anatomia&#8221; muitas vezes presente nas figuras humanas pintadas pela artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela tamb\u00e9m n\u00e3o tinha acesso a isso, n\u00e3o podia fazer aula de modelos vivos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, provavelmente em busca de uma forma\u00e7\u00e3o complementar, Abigail decidiu ter aulas tamb\u00e9m em um ateli\u00ea particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus mestres eram o fot\u00f3grafo Insley Pacheco e o desenhista e pintor Angelo Agostini.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;At\u00e9 onde eu sei foi a \u00fanica aluna que eles tiveram&#8221;, diz Ana Paula.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16E64\/production\/_111169739_revistaillustrada1883.jpg\" alt=\"Exemplar da Revista Illustrada de 1883\" width=\"1884\" height=\"2661\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Fundada por Agostini, a Revista Illustrada era uma publica\u00e7\u00e3o sat\u00edrica, pol\u00edtica, abolicionista e republicana<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dupla era conhecida pela prefer\u00eancia por temas do cotidiano, o chamado realismo social, que come\u00e7ava a ser valorizado na \u00e9poca como s\u00edmbolo da pintura moderna \u2014 em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pintura hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tem\u00e1ticas &#8220;menores&#8221; tamb\u00e9m estiveram no centro da obra de Abigail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pintou cenas do dia a dia do campo em obras como\u00a0<i>Estendendo a Roupa<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Paisagem<\/i>, que retrata um cen\u00e1rio buc\u00f3lico empobrecido, em que um homem divide o espa\u00e7o em uma rua esburacada de terra com vacas e galinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A hora do p\u00e3o<\/i>, por sua vez, registra uma cena do cotidiano de um bairro pobre do Rio de Janeiro: a hora em que o vendedor ambulante de p\u00e3o chegava \u00e0 rua e gritava para a clientela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retratar as periferias da capital era algo que fugia dos padr\u00f5es recorrentes no per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Datado de 1888, aquele foi um de seus \u00faltimos quadros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco tempo depois, Abigail deu \u00e0 luz sua primeira filha, Angelina Agostini, fruto de um romance clandestino \u2014 em uma \u00e9poca em que n\u00e3o havia div\u00f3rcio no Brasil \u2014 que teve com seu professor, Angelo Agostini.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D224\/production\/_111169735_angelinaagostini.jpg\" alt=\"Angelina Agostini, filha de Abigail de Andrade\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A filha de Abigail de Andrade, Angelina Agostini, tamb\u00e9m se tornaria pintora<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob grande press\u00e3o social, ambos se mudam \u00e0s pressas para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele era um homem muito mais velho, casado, com filhos, e era uma figura p\u00fablica muito importante, o editor da Revista Illustrada, abolicionista convicto, republicano&#8221;, destaca Ana Paula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Abigail foi muito intimidada&#8221;, acrescenta a muse\u00f3loga M\u00edriam Andr\u00e9a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi no navio rumo \u00e0 Europa, em 1888, que a jovem provavelmente contraiu tuberculose, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Paris, Abigail ainda pintou algumas telas. E chegou a participar, ao lado da pernambucana Alice Santiago, da Exposi\u00e7\u00e3o Universal de 1889.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das estruturas criadas especialmente para a feira, a &#8220;porta de entrada&#8221; para o Champ de Mars, acabou se tornando o maior s\u00edmbolo da cidade: a torre Eiffel.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F934\/production\/_111169736_070202-096.jpg\" alt=\"Cartaz divulga a Exposi\u00e7\u00e3o Universal em Paris\" width=\"1196\" height=\"1600\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Cartaz divulga a Exposi\u00e7\u00e3o Universal em Paris: Abigail participa da feira com a pernambucana Alice Santiago<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pintora morreria pouco depois, meses ap\u00f3s dar \u00e0 luz o segundo filho. Desolado, \u00c2ngelo Agostini volta para o Rio de Janeiro com a filha Angelina \u2014 que mais tarde tamb\u00e9m tornaria pintora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai entrega a menina \u00e0 meia-irm\u00e3, Laura Alvim, que a criou como filha.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">As raz\u00f5es para o &#8216;esquecimento&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Ana Paula, pelo menos quatro raz\u00f5es explicam porque o nome de Abigail foi sendo esquecido com o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de ela ter morrido precocemente e, por isso, ter deixado poucos trabalhos, todas as telas das quais se tem conhecimento est\u00e3o nas m\u00e3os de colecionadores particulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda o fato de que, por muito tempo, a arte produzida no s\u00e9culo 19 no Brasil foi pouco pesquisada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente passou boa parte do s\u00e9culo 20 sob o triunfo do modernismo e, depois, do concretismo e do neoconcretismo. Ent\u00e3o, \u00e9 como se tudo o que fosse feito o s\u00e9culo 19 fosse desinteressante&#8221;, explica a cientista social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, h\u00e1 ainda o fato de a pintora ter sido considerada pela cr\u00edtica especializada da \u00e9poca como &#8220;amadora&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi muito dif\u00edcil para mim convencer os pesquisadores (que hoje se dedicam a estudar) do s\u00e9culo 19 de que o Gonzaga Duque n\u00e3o estava sempre certo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de o cr\u00edtico ser considerado &#8220;o nosso Baudelaire&#8221; pela academia, segundo ela, cada vez mais se aceita a vis\u00e3o de que muito do que ele escreveu refletia em parte as concep\u00e7\u00f5es de \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma vis\u00e3o de que ele n\u00e3o era um homem infal\u00edvel, era um homem do seu tempo.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8404\/production\/_111169733_abigailatelie.jpg\" alt=\"'Interior de Ateli\u00ea' (1889)\" width=\"723\" height=\"901\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;Interior de Ateli\u00ea&#8217; (1889) retrata um pouco da vida do casal em Paris: na imagem, \u00c2ngelo pinta enquanto Abigail l\u00ea<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O direito das mulheres \u00e0 educa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano da morte de Abigail, o Brasil se tornou uma rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1893, a Academia Imperial de Belas Artes, rebatizada como Academia Nacional de Belas Artes, passou a aceitar matr\u00edculas de mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aquilo n\u00e3o significava uma democratiza\u00e7\u00e3o completa do ensino para ambos os g\u00eaneros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conta Ana Paula em\u00a0<i>Profiss\u00e3o Artista &#8211; Pintoras e Escultoras Acad\u00eamicas Brasileiras<\/i>, o curr\u00edculo &#8220;diferenciado&#8221; ao qual as meninas eram submetidas no ensino secund\u00e1rio dificultava a prepara\u00e7\u00e3o para as provas cada vez mais rigorosas que selecionavam os estudantes da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, muitos curr\u00edculos ainda enfatizavam as aulas de &#8220;prendas do lar&#8221; para as meninas em detrimento dos conte\u00fados cient\u00edficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O direito das mulheres pela educa\u00e7\u00e3o, escreve a pesquisadora, foi conquistado de forma paulatina, sem um movimento organizado que levantasse essas bandeiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3rias como as de Abigail eram casos isolados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi o oposto do que aconteceu em pa\u00edses como a Fran\u00e7a e a Inglaterra, por exemplo, onde grupos de mulheres lutaram pelo direito de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior \u2014 inclusive nas escolas de arte \u2014 e, posteriormente, ao voto.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquela \u00e9poca, muitos curr\u00edculos ainda enfatizavam as aulas de &#8220;prendas do lar&#8221; para as meninas em detrimento dos conte\u00fados cient\u00edficos.<\/p>\n<p>O direito das mulheres pela educa\u00e7\u00e3o, escreve a pesquis<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":312322,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-312320","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/abigail.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=312320"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312320\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/312322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=312320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=312320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=312320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}