{"id":312348,"date":"2020-03-08T10:25:54","date_gmt":"2020-03-08T13:25:54","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=312348"},"modified":"2020-03-08T10:25:54","modified_gmt":"2020-03-08T13:25:54","slug":"mulheres-trans-brigam-para-poder-continuar-na-ativa-nas-forcas-armadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mulheres-trans-brigam-para-poder-continuar-na-ativa-nas-forcas-armadas\/","title":{"rendered":"Mulheres trans brigam para poder continuar na ativa nas For\u00e7as Armadas"},"content":{"rendered":"<div class=\"title-noticia\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"col-esq\">\n<div class=\"noticia-interna\">\n<div class=\"share share-fx\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"cont-share\"><\/div>\n<div class=\"cont-share\"><\/div>\n<\/div>\n<article>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" title=\"Mulheres trans brigam para poder continuar na ativa nas For\u00e7as Armadas\" src=\"https:\/\/www.bnews.com.br\/fotos\/bocao_noticias\/261289\/IMAGEM_NOTICIA_0.jpg\" alt=\"[Mulheres trans brigam para poder continuar na ativa nas For\u00e7as Armadas]\" \/><\/figure>\n<div class=\"desc\"><i class=\"fa fa-clock-o fa-fw\"><\/i><\/p>\n<div class=\"desc-noticia tbl-forkorts-article tbl-forkorts-article-active\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIncapaz definitivamente para o servi\u00e7o militar. N\u00e3o \u00e9 inv\u00e1lido. N\u00e3o est\u00e1 impossibilitado total e permanentemente para qualquer trabalho. Pode prover os meios de subsist\u00eancia. Pode exercer atividades civis. N\u00e3o necessita de hospitaliza\u00e7\u00e3o permanente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram essas poucas e contradit\u00f3rias frases, logo abaixo do diagn\u00f3stico de transexualismo no laudo m\u00e9dico, que acabaram com o sonho da cabo Maria Luiza da Silva de continuar o trabalho que exercia havia 22 anos na FAB (For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje com 59 anos, ela foi a primeira militar do pa\u00eds a fazer a transi\u00e7\u00e3o f\u00edsica do g\u00eanero masculino para o feminino. Tamb\u00e9m foi a primeira a ser aposentada contra sua vontade por isso. Duas d\u00e9cadas se passaram, tempo que ainda n\u00e3o foi suficiente para mudar a realidade de outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu tinha a esperan\u00e7a de que, alguns anos depois, quando surgissem mais pessoas trans, elas n\u00e3o enfrentassem tudo que eu enfrentei. Mas infelizmente elas est\u00e3o sendo amea\u00e7adas de serem retiradas da ativa como eu, o que me entristece muito. A sociedade precisa evoluir\u201d, cobra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Luiza se refere a militares como a segundo-sargento Bruna Benevides, 40, que entrou em processo de reforma compuls\u00f3ria pela Marinha depois de comunicar aos superiores, em 2014, o desejo de vestir uniforme feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 hoje, mesmo ap\u00f3s decis\u00e3o judicial que lhe deu direito de retomar as atividades no setor administrativo, a For\u00e7a n\u00e3o a chamou de volta. \u201cEstou num limbo jur\u00eddico. Estou na ativa, ganhando sal\u00e1rio do poder p\u00fablico e sem poder cumprir expediente\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Uni\u00e3o alega que apenas segue as normas que regem a carreira militar, argumentando que ela prestou concurso para um quadro que s\u00f3 aceita homens, o Corpo de Pra\u00e7as da Armada, portanto n\u00e3o passou pelos mesmos processos seletivos femininos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionado, o Minist\u00e9rio da Defesa n\u00e3o respondeu quantas transexuais trabalham ou foram afastadas das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruna diz conhecer ao menos mais 15 militares que t\u00eam medo de se externar como mulheres: \u201cQuase diariamente recebo mensagens de gente que quer entrar, mas que com certeza vai ser recusada.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto para Maria Luiza quanto para Bruna, a carreira militar foi inicialmente um escape. Para a primeira, da falta de oportunidades no munic\u00edpio de Ceres, a quase 200 km da capital goiana. Para a segunda, da fam\u00edlia evang\u00e9lica que a reprimia em Fortaleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu digo que a Marinha salvou a minha vida, porque se eu n\u00e3o tivesse entrado talvez n\u00e3o estivesse viva hoje. Tenho 40 anos e a expectativa de vida de uma trans \u00e9 de 35 anos\u201d, diz Bruna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas nunca tiveram d\u00favidas de que eram mulheres, mas optaram pelo emprego. \u201cDesde crian\u00e7a transitei nos dois g\u00eaneros, carrinho e boneca. E sempre tive uma fascina\u00e7\u00e3o por tudo que voava\u201d, conta a mec\u00e2nica de avia\u00e7\u00e3o Maria Luiza, que se orgulha de fazer anivers\u00e1rio no mesmo dia que Santos Dumont.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas tamb\u00e9m sofreram por longas d\u00e9cadas sem poder ser quem eram, at\u00e9 chegarem ao limite. Maria Luiza s\u00f3 tomou a decis\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o porque se sentiu respaldada por uma s\u00e9rie de fatos que despontavam no fim da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre eles, a entrada de mulheres na For\u00e7a A\u00e9rea, a aprova\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e a autoriza\u00e7\u00e3o de cirurgias para pessoas transg\u00eanero pelo Conselho Federal de Medicina, em 1997 \u2014a transexualidade s\u00f3 deixou de ser considerada transtorno mental pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade em 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente tem o direito de ser o que \u00e9 e ter a profiss\u00e3o que a gente escolhe. Somos seres humanos como quaisquer outros\u201d, diz ela. A frase que parece \u00f3bvia, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvia para todos. Epis\u00f3dios de discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram poucos no ambiente militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cForam momentos extremamente graves, mas n\u00e3o posso exemplificar\u201d, afirma Maria Luiza com a voz embargada. A militar conta num document\u00e1rio que leva o seu nome, do diretor Marcelo D\u00edaz (2019), j\u00e1 ter sido obrigada a se cobrir com uma manta para circular num hospital do Ex\u00e9rcito. Tamb\u00e9m chora e se cala ao ser perguntada sobre se sofreu abusos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela s\u00f3 conseguiu uma decis\u00e3o judicial definitiva para voltar ao trabalho em 2014. \u00c0quela altura, por\u00e9m, tinha mais de 48 anos, idade m\u00e1xima para atuar como cabo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, recebe uma aposentadoria, mas tenta que a Uni\u00e3o cumpra a determina\u00e7\u00e3o de pagar o equivalente \u00e0s promo\u00e7\u00f5es que poderia ter atingido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela mora em um im\u00f3vel funcional da FAB em Bras\u00edlia, faz servi\u00e7os como motorista profissional e est\u00e1 come\u00e7ando a carreira de pilota em corridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Bruna, \u201cimpedida de trabalhar l\u00e1 dentro, resolveu trabalhar aqui fora\u201d. Hoje \u00e9 refer\u00eancia da luta das pessoas trans no Brasil. Coordena um cursinho pr\u00e9-vestibular e um dossi\u00ea dos assassinatos e viol\u00eancia contra essa popula\u00e7\u00e3o, da Antra (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO Dia da Mulher para n\u00f3s tem um significado diferente. A nossa luta ainda \u00e9 anterior. Diariamente eu tenho que lutar para ser reconhecida como mulher para s\u00f3 depois ter direito a ter direitos. Mas no final todas lutamos contra a viol\u00eancia de g\u00eanero\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exist\u00eancia das duas a todo tempo desconstr\u00f3i os estere\u00f3tipos do que \u00e9 ser uma mulher trans \u2014Maria Luiza \u00e9 cat\u00f3lica, Bruna \u00e9 casada. \u201cEu digo que sou a contradi\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o: militante e militar. Mas quem sabe eu posso causar uma revis\u00e3o desses estatutos que est\u00e3o postos l\u00e1 dentro\u201d, diz a sargento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurado, o Minist\u00e9rio da Defesa afirmou que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o impedem qualquer cidad\u00e3o de trabalhar ou comete discrimina\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o de op\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, cor, religi\u00e3o ou qualquer outro motivo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram essas poucas e contradit\u00f3rias frases, logo abaixo do diagn\u00f3stico de transexualismo no laudo m\u00e9dico, que acabaram com o sonho da cabo Maria Luiza da Silva de continuar o trabalho que exercia havia 22 anos na FAB (For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira).<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":312349,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-312348","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/exercito-sapatao.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=312348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312348\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/312349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=312348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=312348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=312348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}