{"id":312367,"date":"2020-03-08T12:00:39","date_gmt":"2020-03-08T15:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=312367"},"modified":"2020-03-08T12:00:39","modified_gmt":"2020-03-08T15:00:39","slug":"mulheres-ditam-trajetorias-em-nome-de-equidade-e-autoafirmacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mulheres-ditam-trajetorias-em-nome-de-equidade-e-autoafirmacao\/","title":{"rendered":"Mulheres ditam trajet\u00f3rias em nome de equidade e autoafirma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<header class=\"c-article__header\">\n<div class=\"c-article__inner\">\n<div class=\"c-article__group\">\n<h1 class=\"c-article__heading\"><\/h1>\n<div class=\"c-article__info\">Por Theyse Viana<\/div>\n<h2 class=\"c-article__subheading\">Aprender a ler em plena &#8220;quarta idade&#8221;; mudar de nome e adequar g\u00eanero na segunda d\u00e9cada de vida; pautar exist\u00eancia na luta pelo direito \u00e0 cidade &#8211; cearenses mostram que decidir ser o que quiserem transcende o tempo<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"c-article__group\">\n<div class=\"c-tools c-tools--editorial c-tools--editorial-article c-tools--editorial-metro\">\n<div class=\"c-tools__item\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"l-content l-content--sidebar\">\n<div class=\"l-column\">\n<div class=\"c-article__main\">\n<div class=\"c-article__photo-featured\">\n<figure class=\"media media--wide\">\n<div class=\"media__box\">\n<div class=\"media__container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-312368 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-620x349.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-620x349.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-300x169.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-768x432.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia-640x360.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ana-flavia.jpg 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"media__caption\">Ana Fl\u00e1via Sampaio, 24 anos, coloca como marcos de vida seu processo de aceita\u00e7\u00e3o como mulher trans e a retifica\u00e7\u00e3o dos documentos<span class=\"media__credit\">Foto: Fabiane de Paula<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"c-article-tools c-article-tools--aside\">\n<div class=\"c-article-tools__actions\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"c-article-content\">\n<p>Foi o machismo que aprisionou Maria do Socorro, durante 83 anos, na cela do analfabetismo. Foi a transfobia que talhou a identidade de Ana Fl\u00e1via por duas d\u00e9cadas. Foi a desigualdade socioespacial de Fortaleza que exp\u00f4s Lany Maria, desde sempre, \u00e0s faltas que sufocam a periferia. Aprender a ler, ent\u00e3o, foi liberdade; reconhecer a si, autoafirma\u00e7\u00e3o; assumir a luta por equidade, parte do DNA. Quebrar estruturas que subjugam e oprimem foi &#8211; e \u00e9 &#8211; ser mulher.<\/p>\n<p>Viver sob o g\u00eanero feminino \u00e9 ter de aprender, cedo ou depois (nunca \u00e9 tarde), a se livrar de m\u00faltiplas amarras. Com o tempo se aprende que ser mulher \u00e9 possuir n\u00e3o s\u00f3 o pr\u00f3prio corpo, mas a mente, a alma. O tempo. E administr\u00e1-los como quiser.<\/p>\n<p>Maria do Socorro Oliveira, 87, escolheu cobrir-se com a farda da rede municipal de ensino aos 83 anos. Decidiu gastar as noites de segunda a sexta-feira, &#8220;sem falta!&#8221;, aprendendo a juntar as letras para compor os cap\u00edtulos finais de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os iniciais foram ditados pelas figuras masculinas que a cercearam: primeiro o pai, depois o marido. &#8220;Meu pai? A gente tinha era que trabalhar no ro\u00e7ado e tratando de animal, l\u00e1 na Serra da Meruoca, pra ajudar ele. Quando vim pra c\u00e1, foi pra trabalhar nas casas. N\u00e3o podia estudar. No dia de me casar, s\u00f3 faltei morrer de vergonha: porque meu marido sabia ler e escrever, e eu fui botar o dedo&#8221;, relembra, se referindo \u00e0 assinatura por meio de impress\u00e3o digital &#8211; que selou n\u00e3o s\u00f3 o matrim\u00f4nio, mas uma renova\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a que a restringia do letramento.<\/p>\n<figure class=\"media media--responsive\">\n<div class=\"media__container\"><img decoding=\"async\" class=\"media__lazy-fallback\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/polopoly_fs\/1.2219752.1583676604!\/image\/image.jpg_gen\/derivatives\/originalImage\/image.jpg\" alt=\"Maria do Socorro\" \/><\/div>\n<div class=\"media__container\">Maria do Socorro, 83 anos, viveu sob o machismo durante a vida e s\u00f3 h\u00e1 quatro anos p\u00f4de estudar<span class=\"media__credit\">Foto: Fabiane de Paula<\/span><\/div>\n<\/figure>\n<p>Ao matricular os filhos na Escola Municipal Jos\u00e9 de Alencar, no bairro Jardim Iracema, dona Maria recebeu o convite para ingressar em uma das turmas da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA) &#8211; mas s\u00f3 p\u00f4de aceitar muito tempo depois. &#8220;Meu marido dizia &#8216;n\u00e3o, Maria, tem que ficar \u00e9 aqui mais as crian\u00e7as, cuidar do com\u00e9rcio aqui fora&#8217;. Fiquei triste, mas n\u00e3o falei mais. S\u00f3 que quando ele faleceu, eu vim.&#8221; Em 2020, ela completa quatro anos como estudante da institui\u00e7\u00e3o, com o mesmo brilho nos olhos do primeiro dia em que vestiu a farda e saiu com os livros embaixo do bra\u00e7o, rumo \u00e0s aulas.<\/p>\n<p>&#8220;Me senti muito feliz. Que alegria \u00e9 a gente n\u00e3o saber fazer o nome da gente, e depois j\u00e1 conseguir ver as letras, dizer os nomes&#8221;, empolga-se Maria &#8211; cuja &#8220;for\u00e7a de vontade&#8221;, como ela mesma diz, dribla todos os dias a perda de mem\u00f3ria causada por um traumatismo craniano que sofreu. &#8220;Eu quase n\u00e3o vinha mais estudar, ficava triste porque n\u00e3o me lembrava mais das coisas. Mas os pr\u00f3prios alunos tudim me d\u00e1 valor. Eu n\u00e3o tenho vergonha de jeito nenhum, n\u00e3o t\u00f4 estudando porque quero trabalho nem dinheiro. T\u00f4 estudando porque tenho vontade. Meu maior sonho \u00e9 de aprender&#8221;, diz, com a sabedoria da experi\u00eancia e uma curiosidade que transcende o tempo.<\/p>\n<h3 class=\"c-article__intertitle\"><strong>MILIT\u00c2NCIA<\/strong><\/h3>\n<p>Al\u00e9m do tempo, ali\u00e1s, s\u00e3o as viv\u00eancias e as lutas que libertam as mulheres. &#8220;Sou Lany, tenho 20 anos, sou uma mulher negra, l\u00e9sbica e bolsista no Centro de Defesa da Vida Herbert de Sousa, no eixo de direito \u00e0 cidade. E sou do Bom Jardim.&#8221; O territ\u00f3rio assim, carregado na biografia, diz muito sobre quem nasceu convivendo com a falta &#8211; de escola com estrutura e merenda dignas, de seguran\u00e7a p\u00fablica, de acesso a direitos b\u00e1sicos como o ir e vir &#8211; e cresceu determinada a mud\u00e1-la.<\/p>\n<p>Desde 2016, ent\u00e3o, quando integrou a ocupa\u00e7\u00e3o do Centro de Aten\u00e7\u00e3o Integral \u00e0 Crian\u00e7a e ao Adolescente (Caic) Maria Alves Carioca por estudantes, Lany entendeu: corpo e alma eram prometidos \u00e0 luta. &#8220;Trabalhar e crescer profissionalmente dentro do meu pr\u00f3prio bairro, redesenhar a cidade, olhar pro meu territ\u00f3rio com afeto, cuidado, defender o direito das pessoas ao saneamento b\u00e1sico, que n\u00e3o chega aqui, e poder lutar por isso com quem me viu crescer e tem influencia em toda a minha vida \u00e9 muito importante. O que me despertou pra luta foi ver a falta&#8221;, sentencia.<\/p>\n<p>Na busca por acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico, em todas as esferas, esbarrou com a pr\u00f3pria identidade. &#8220;Eu luto pelo direito \u00e0 cidade, e percebo que as mulheres n\u00e3o t\u00eam. A gente n\u00e3o pode sair com a roupa que quer, andar a p\u00e9 sozinha, ir a um bar, ficar numa pra\u00e7a, sem ser incomodada. A cidade n\u00e3o foi feita pra mim enquanto mulher, jovem, negra e LGBT. Ent\u00e3o, pensar nesse lugar e ocup\u00e1-lo como meu \u00e9 um desafio e uma teimosia. E \u00e9 o que me fortalece. A luta me comp\u00f5e, n\u00e3o consigo me ver fora da milit\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media media--responsive\">\n<div class=\"media__container\"><img decoding=\"async\" class=\"media__lazy-fallback\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/polopoly_fs\/1.2219777.1583622439!\/image\/image.jpg_gen\/derivatives\/originalImage\/image.jpg\" alt=\"Lany\" \/><\/div><figcaption class=\"media__caption\">Aos 20 anos, Lany milita por direito de ocupar a cidade sem viol\u00eancia<span class=\"media__credit\">Foto: Fabiane de Paula<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O desejo de uma liberdade plena se estende tamb\u00e9m ao coletivo. &#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre ter uma moradia, uma pra\u00e7a iluminada, um transporte p\u00fablico, mas poder andar de m\u00e3os dadas com minha namorada na rua e a gente n\u00e3o sofrer viol\u00eancia por isso. Ter direito \u00e0 cidade \u00e9 tamb\u00e9m poder ocupar os espa\u00e7os com os nossos corpos. Ter o nosso corpo aceito e n\u00e3o violado&#8221;, alerta Lany.<\/p>\n<h3 class=\"c-article__intertitle\"><strong>DIREITO DE SER<\/strong><\/h3>\n<p>O trabalho-miss\u00e3o da jovem do Bom Jardim reverbera em exist\u00eancias como a de Ana Fl\u00e1via Sampaio, 24, que precisou se impor para se apropriar do pr\u00f3prio tempo de ser. &#8220;Quando eu era crian\u00e7a, ouvia que n\u00e3o era pra fazer xixi de c\u00f3coras, que era errado brincar de boneca com as minhas irm\u00e3s. Eu era impedida de fazer isso, porque menino n\u00e3o podia. Meu processo de aceita\u00e7\u00e3o como uma mulher trans s\u00f3 se iniciou aos 20 anos &#8211; era uma coisa com a qual eu me reconheci a vida toda, mas era muito impedida, controlada pela minha fam\u00edlia&#8221;, desabafa.<\/p>\n<p>Outro marco dessa alforria foi a retifica\u00e7\u00e3o dos documentos \u00e0 identidade de g\u00eanero e ao nome corretos, feita em 2018, ap\u00f3s decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal (STF) que desburocratizou o acesso a esse direito. &#8220;Se eu pudesse, n\u00e3o teria trocado minha documenta\u00e7\u00e3o. Porque me sinto uma mulher, e continuaria sendo a mesma pessoa. Mas tem gente muito preconceituosa, que voc\u00ea tem que esfregar um papel na cara delas para te respeitarem&#8221;, critica.<\/p>\n<p>Apesar de achar que a transi\u00e7\u00e3o &#8220;poderia ter se iniciado mais cedo&#8221;, Ana Fl\u00e1via se sente plena ao vivenciar o 8 de mar\u00e7o &#8211; e todos os outros dias &#8211; exercendo o direito de ser. &#8220;Hoje, como mulher, dona da minha vida, n\u00e3o preciso afirmar essa feminilidade sobre a qual n\u00f3s somos t\u00e3o cobradas. Me vejo com liberdade de poder me expressar com o meu corpo como eu bem quero, sem essa preocupa\u00e7\u00e3o. Eu queria muito deixar registrado que as mulheres s\u00e3o donas do seu tempo e de si mesmas: me sinto muito bem na liberdade que eu tenho&#8221;, finaliza ela.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalho-miss\u00e3o da jovem do Bom Jardim reverbera em exist\u00eancias como a de Ana Fl\u00e1via Sampaio, 24, que precisou se impor para se apropriar do pr\u00f3prio tempo de ser. &#8220;Quando eu era crian\u00e7a, ouvia que n\u00e3o era pra fazer xixi de c\u00f3coras, que era errado brincar<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":312370,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-312367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/velha-rindo.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=312367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312367\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/312370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=312367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=312367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=312367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}