{"id":312871,"date":"2020-03-13T06:23:48","date_gmt":"2020-03-13T09:23:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=312871"},"modified":"2020-03-13T06:23:48","modified_gmt":"2020-03-13T09:23:48","slug":"os-bastidores-da-viagem-de-44-dias-que-levou-pedro-alvares-cabral-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-bastidores-da-viagem-de-44-dias-que-levou-pedro-alvares-cabral-ao-brasil\/","title":{"rendered":"Os bastidores da viagem de 44 dias que levou Pedro \u00c1lvares Cabral ao Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Andr\u00e9 Bernardo<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/EE3D\/production\/_111198906_bbcbrasil_desembarquedecabralemportoseguro_oscarpereiradasilva.jpg\" alt=\"Pintura do desembarque de Cabral em Porto Seguro\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Frota de Cabral tinha nove naus, tr\u00eas caravelas e uma pequena embarca\u00e7\u00e3o com mantimentos<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 520 anos, o navegador portugu\u00eas e sua tripula\u00e7\u00e3o enfrentaram tormentas, calmarias e doen\u00e7as. Dos 1,5 mil homens que zarparam de Portugal, apenas 500 conseguiram voltar, s\u00e3os e salvos, para casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A praia das l\u00e1grimas para os que v\u00e3o. A terra do prazer para os que voltam&#8221;. \u00c9 assim que os portugueses costumam se referir ao Porto do Restelo, em Lisboa, de onde partiram as expedi\u00e7\u00f5es de Vasco da Gama, em 1497, e de Pedro \u00c1lvares Cabral, em 1500.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prevista para acontecer em um domingo, 8 de mar\u00e7o, a partida da armada de Cabral, um fidalgo de origem nobre de apenas 33 anos, foi adiada, por causa do mau tempo, para o dia seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vale lembrar que &#8216;fidalgo&#8217; quer dizer &#8216;filho de algo&#8217;, ou seja, &#8216;filho de algu\u00e9m&#8217;. E Cabral era filho de uma fam\u00edlia que, desde 1385, mantinha v\u00ednculos estreitos com a Coroa. Al\u00e9m do mais, casou-se com uma mulher riqu\u00edssima, Isabel Gouveia, neta de reis&#8221;, afirma o jornalista e escritor Eduardo Bueno, autor de\u00a0<i>Brasil: Terra \u00e0 Vista! &#8211; A Aventura Ilustrada do Descobrimento<\/i>\u00a0(2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frota de Cabral era formada por nove naus, tr\u00eas caravelas e uma naveta de mantimentos. Al\u00e9m do formato das velas, o que diferenciava uma embarca\u00e7\u00e3o da outra era o tamanho: enquanto as caravelas mediam 22 metros de comprimento e transportavam at\u00e9 80 homens, as naus podiam chegar a 35 metros e tinham capacidade para 150 tripulantes.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" style=\"text-align: justify;\" data-variation=\"default-0\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A frota era composta por uma variedade de profissionais: havia o capit\u00e3o e, abaixo dele, o piloto, respons\u00e1vel pela navega\u00e7\u00e3o, o mestre e contramestre, que lideravam os marinheiros, e o condest\u00e1vel, que comandavam a artilharia&#8221;, explica Ant\u00f4nio Carlos Juc\u00e1, diretor do Instituto de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1636D\/production\/_111198909_bbcbrasil_anau_ilustracaodefernandogonda_divulgacao.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o da nau de Fernando Gonda\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo bom e o vento favor\u00e1vel, Cabral e sua tripula\u00e7\u00e3o zarparam de Lisboa, rumo a Calicute, na \u00cdndia, no dia 9 de mar\u00e7o de 1500. Curiosamente, o homem a quem o ent\u00e3o rei de Portugal, Dom Manuel I (1469-1521), o Venturoso, confiara a maior, a mais cara e a mais poderosa armada portuguesa nunca tinha comandado uma esquadra antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se houve imprevistos? Bem, ocorreu um enorme imprevisto, sim: a chegada ao Brasil&#8221;, afirma Paulo Pinto, da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A armada tinha como destino a \u00cdndia e tocou a costa brasileira por acidente. \u00c9 poss\u00edvel que Portugal j\u00e1 suspeitasse da exist\u00eancia de terras naquela regi\u00e3o, mas a verdade \u00e9 que Cabral e seus homens foram apanhados de surpresa. A chegada ao Brasil foi, portanto, um acidente de percurso de uma jornada que tinha objetivos estrat\u00e9gicos bem definidos. A \u00cdndia era a prioridade n\u00famero um da coroa de Portugal.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Mar Tenebroso&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com apenas oito dias de viagem, a frota enfrentou sua primeira tormenta. T\u00e3o forte que, pr\u00f3ximo ao arquip\u00e9lago de Cabo Verde, a nau comandada por Vasco de Ata\u00edde, que transportava 150 homens, sumiu do mapa. A cada tr\u00eas navios que partiam de Portugal, um era &#8220;engolido pelo mar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e0 toa, o Atl\u00e2ntico era conhecido como &#8220;Mar Tenebroso&#8221;. &#8220;Al\u00e9m de perder um de seus barcos, Cabral teve de enfrentar, no primeiro trecho da viagem, 20 dias de calmaria&#8221;, relata Jos\u00e9 Carlos Vilardaga, professor de Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando isso acontecia, o barco ficava quase totalmente parado no meio do oceano. Isso aumentava o t\u00e9dio e o calor a bordo.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12EC7\/production\/_111211577_e11673d4-3ed9-48f6-8df0-2ba4931537b2.jpg\" alt=\"O Descobrimento do Brasil, de Aur\u00e9lio de Figueiredo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ao todo, os 13 navios transportavam 1,5 mil homens, entre m\u00e9dicos, botic\u00e1rios, religiosos, calafates e at\u00e9 condenados \u00e0 morte que aceitavam trocar sua pena pelo ex\u00edlio<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao todo, os 13 navios transportavam 1,5 mil homens, entre m\u00e9dicos, botic\u00e1rios, religiosos, calafates e at\u00e9 degredados, isto \u00e9, condenados \u00e0 morte que aceitavam trocar sua pena capital pelo ex\u00edlio em terras desconhecidas. Na maioria das vezes, eram os primeiros a desembarcar. Se fossem atacados por selvagens, n\u00e3o fariam muita falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do total de 1,5 mil homens, apenas 500 conseguiram voltar, s\u00e3os e salvos, para casa. O restante morreu no mar, v\u00edtima de naufr\u00e1gios ou de doen\u00e7as, como o escorbuto, que provocava sangramento nas gengivas. Em algumas expedi\u00e7\u00f5es, a propor\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos para marinheiros era de um para tr\u00eas mil. Viajar era t\u00e3o arriscado que, antes de zarpar, muitos marujos j\u00e1 deixavam seus testamentos assinados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a de mulheres a bordo n\u00e3o era permitida. J\u00e1 crian\u00e7as e adolescentes podiam embarcar. A maioria, de nove a 15 anos, era alistada pelos pais que, em troca, embolsavam o soldo dos filhos. Durante a viagem, desempenhavam as fun\u00e7\u00f5es de grumetes e de pajens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A vida dos &#8216;mi\u00fados&#8217; a bordo era um inferno. Muitas vezes, eles sofriam abusos sexuais&#8221;, relata Bueno em\u00a0<i>Brasil: Terra \u00e0 Vista!<\/i>.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O Cabo do Tormentas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tripula\u00e7\u00e3o, em linhas gerais, podia ser dividida em marinheiros, soldados e religiosos. Os marinheiros executavam as tarefas n\u00e1uticas, como i\u00e7ar velas, baixar \u00e2ncoras ou manejar instrumentos, como o astrol\u00e1bio, usado para medir a altura do Sol ao meio-dia e das demais estrelas \u00e0 noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dos mais tarimbados navegadores da \u00e9poca, como Bartolomeu Dias (1450-1500), participaram da aventura. Doze anos antes, ele ficou famoso por ter sido o primeiro a contornar o cabo da Boa Esperan\u00e7a, ao sul da \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por uma tr\u00e1gica ironia, na madrugada do dia 23 de maio, uma tormenta desabou sobre a frota de Cabral e afundou quatro dos 13 navios. Quatrocentos homens, incluindo Dias, foram &#8220;engolidos pelo mar&#8221;. Onde estavam? Pr\u00f3ximos ao cabo da Boa Esperan\u00e7a, chamado de Cabo das Tormentas antes da viagem bem-sucedida do pr\u00f3prio Dias.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/93A8\/production\/_111200873_bbcbrasil_pedroalvarescabral_bibliotecadaacademiadecienciasdelisboa.jpg\" alt=\"Pedro Alvares Cabral\" width=\"1200\" height=\"1529\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Estima-se que, na \u00e9poca do descobrimento, havia entre 500 mil e um milh\u00e3o de ind\u00edgenas habitando o litoral brasileiro<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 os soldados, a maioria sem forma\u00e7\u00e3o militar, eram os respons\u00e1veis pela artilharia e muni\u00e7\u00e3o. As embarca\u00e7\u00f5es portuguesas, ali\u00e1s, foram as primeiras a singrar os mares com artilharia pesada a bordo. As nove naus que compunham a frota de Cabral eram equipadas com pesados canh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os religiosos \u2014 em sua maioria, frades franciscanos \u2014 eram incumbidos de rezar missas e ouvir confiss\u00f5es. Seu superior era Dom Henrique Soares de Coimbra (1465-1532). Foi ele que, no dia 26 de abril, na praia de Coroa Vermelha, no litoral da Bahia, celebrou a primeira missa no Brasil, assistida de perto pela tripula\u00e7\u00e3o e, ao longe, por cerca de 200 ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Devido \u00e0 escassez de \u00e1gua e comida, as condi\u00e7\u00f5es de vida a bordo eram muito ruins. A mortalidade, em geral, girava em torno de 2% a 3% da tripula\u00e7\u00e3o, mas podia ultrapassar os 10% do total. Assim, os doentes eram logo aconselhados a se confessar e a receber a extrema-un\u00e7\u00e3o&#8221;, relata Ant\u00f4nio Carlos Juc\u00e1 de Sampaio, diretor do Instituto de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Banquete de ratos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tripulantes n\u00e3o desfrutavam de qualquer conforto. Pelo contr\u00e1rio. Como os por\u00f5es dos navios eram usados para estocar os ton\u00e9is com \u00e1gua, mantimentos e muni\u00e7\u00e3o, os marinheiros dormiam no conv\u00e9s, ao relento, em colch\u00f5es de palha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Naquela \u00e9poca, tomar banho era raro at\u00e9 em terra firme, quanto mais em viagens oce\u00e2nicas. A marujada urinava no mar e defecava em baldes. As condi\u00e7\u00f5es eram insalubres&#8221;, esclarece Ronaldo Vainfas, professor de Hist\u00f3ria Moderna na Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/155D7\/production\/_111211578_5c868e50-5f42-4cd3-b15d-06b0a483836f.jpg\" alt=\"Pedro Alvares Cabral2\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Durante toda a viagem, os marinheiros dormiam no conv\u00e9s, ao relento, em colch\u00f5es de palha<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Talvez o melhor depoimento sobre a insalubridade das viagens atl\u00e2nticas para o Brasil esteja na obra do franc\u00eas Jean de L\u00e9ry (1534-1611): quando os biscoitos acabavam ou estragavam, os marujos comiam ratos. Havia at\u00e9 uma cota\u00e7\u00e3o para o pre\u00e7o do rato nos navios.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os momentos de lazer eram poucos. &#8220;Enquanto uns improvisavam rodas de cantoria, outros preferiam jogar cartas&#8221;, exemplifica Vilardaga. O card\u00e1pio dos marujos consistia em \u00e1gua (1,5 litros por dia) e biscoito (600 gramas di\u00e1rios). J\u00e1 os capit\u00e3es da frota, todos de origem nobre, tinham direito a vinho (1,5 litro por dia) e a carne e peixe (15 kg por m\u00eas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Apesar de estarem no mesmo barco, o acesso \u00e0 comida, basicamente biscoitos, carne em banha e peixes salgados, e \u00e1gua pot\u00e1vel, armazenada em ton\u00e9is de madeira e racionada para durar toda a viagem, acontecia conforme o status social. Ou seja, seus lugares nas hierarquias da sociedade da \u00e9poca tendiam a ser replicados a bordo&#8221;, explica Aldair Rodrigues, professor do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das mordomias, os capit\u00e3es ganhavam um \u00f3timo sal\u00e1rio. S\u00f3 Cabral, o capit\u00e3o-mor, embolsou 10 mil cruzados \u2014 algo em torno de 35 quilos em ouro. Quem n\u00e3o obedecia \u00e0s ordens de seus superiores ou descumpria as regras da embarca\u00e7\u00e3o n\u00e3o era jogado aos tubar\u00f5es, mas mandado, de castigo, para o por\u00e3o. Infestado de ratos e baratas, o lugar era, para dizer o m\u00ednimo, uma imund\u00edcie.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Terra \u00e0 vista!&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao todo, a jornada durou 44 dias. No dia 21 de abril, os marinheiros come\u00e7aram a avistar os primeiros &#8220;sarga\u00e7os&#8221; (um tapete flutuante de algas marinhas) nas \u00e1guas e &#8220;fura-bruxos&#8221; (um bando de p\u00e1ssaros semelhantes a gaivotas) nos c\u00e9us. No dia seguinte, a uns 60 quil\u00f4metros da costa, algu\u00e9m gritou: &#8220;Terra \u00e0 vista!&#8221;. Era o entardecer do dia 22 de abril de 1500.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17CE7\/production\/_111211579_cd16b389-2d6f-43ac-8834-5ab8c28b229a.jpg\" alt=\"Pedro \u00c1lvares Cabral\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">A jornada de Cabral ao Brasil durou 44 dias<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de ancorar sua nau a 35 quil\u00f4metros da costa, em frente a um monte batizado de Pascoal, o capit\u00e3o Nicolau Coelho (1460-1504) foi o escolhido para fazer o reconhecimento do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bordo de um escaler, embarca\u00e7\u00e3o pequena, de proa fina e popa larga, movida a remo, ele presenteou os nativos com um gorro vermelho, uma carapu\u00e7a de linho e um chap\u00e9u preto. Em troca, ganhou um cocar de plumas e um colar de contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estima-se que, na \u00e9poca da chegada dos portugueses, havia entre 500 mil e um milh\u00e3o de ind\u00edgenas habitando o litoral brasileiro. &#8220;Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as vergonhas&#8221;, descreveu Pero Vaz de Caminha (1450-1500), um dos sete escriv\u00e3es da frota, na famosa carta do &#8220;achamento do Brasil&#8221;. &#8220;Traziam nas m\u00e3os arcos e setas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de seguir para as \u00cdndias, Cabral e seus homens passaram dez dias no para\u00edso. No dia 2 de maio, partiram rumo a Calicute, deixando para tr\u00e1s dois degredados. Quando os navios desapareceram no horizonte, ca\u00edram no choro e foram consolados pelos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ex\u00edlio dos chor\u00f5es, por\u00e9m, durou pouco: em dezembro de 1501, foram recolhidos pela primeira expedi\u00e7\u00e3o enviada por Dom Manuel I para explorar a mais nova col\u00f4nia portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os degredados n\u00e3o foram os \u00fanicos a permanecer no Brasil. Na calada da noite, dois grumetes, cansados dos maus-tratos a bordo, roubaram um escaler e fugiram para a praia. Nunca mais se ouviu falar deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A naveta de mantimentos, comandada por Gaspar de Lemos, foi mandada de volta a Portugal. Sua miss\u00e3o era comunicar ao rei o &#8220;achamento&#8221; da nova terra. At\u00e9 ganhar o nome de Brasil, o territ\u00f3rio foi chamado de Ilha de Vera Cruz por Pedro \u00c1lvares Cabral e de Terra de Santa Cruz pelo rei Dom Manuel I.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O &#8216;achamento&#8217; do Brasil<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda parte da viagem durou pouco mais de cinco meses. No dia 13 de setembro de 1500, a frota de Cabral, reduzida a seis navios, chegou ao seu destino: Calicute. Na \u00cdndia, a esquadra sofreu novas baixas. Pero Vaz de Caminha, o autor da famosa &#8220;certid\u00e3o de nascimento&#8221; do Brasil, foi morto, no dia 16 de dezembro, em um ataque de mercadores \u00e1rabes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta a Portugal, o que restou da esquadra atracou no Porto do Restelo, no dia 21 de julho de 1501.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Apesar de ter sofrido perdas, a miss\u00e3o foi um sucesso. Depois de seu regresso, Cabral recebeu v\u00e1rias honrarias, mas n\u00e3o voltou a ser nomeado para o comando de qualquer expedi\u00e7\u00e3o relevante. Isto tem dado origem a algumas interroga\u00e7\u00f5es. Historiadores falam que o rei teria ficado insatisfeito com os seus servi\u00e7os, mas s\u00e3o apenas especula\u00e7\u00f5es&#8221;, pondera Pinto, da Universidade Nova de Lisboa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por pouco, o Brasil n\u00e3o fora encontrado por outros navegadores: um portugu\u00eas, Duarte Pacheco Pereira (1560-1533), e dois espanh\u00f3is, Vicente Pinz\u00f3n (1462-1514) e Diego de Lepe (1460-1515).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comandando uma frota de oito navios, Duarte Pacheco Pereira teria explorado o litoral brasileiro, na altura do Maranh\u00e3o, em dezembro de 1498. &#8220;Embora ele d\u00ea a entender isso em seu livro\u00a0<i>Esmeraldo de Situ Orbis<\/i>, n\u00e3o h\u00e1 nenhum documento que comprove essa tese&#8221;, garante Bueno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa raz\u00e3o, a suposta presen\u00e7a de Pereira rondando o litoral brasileiro em 1498, que muitos historiadores descartam a hip\u00f3tese de que Cabral tenha descoberto o Brasil por acaso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O consenso \u00e9 de que Portugal sabia da exist\u00eancia de terras no Atl\u00e2ntico. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o teria pressionado o papa Alexandre VI para modificar a bula\u00a0<i>Inter Coetera<\/i>, de 1493, que deixava os portugueses de fora do Novo Mundo descoberto por Colombo em 1492&#8243;, observa Vainfas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas o fato \u00e9 que a viagem de Cabral ia mesmo para a \u00cdndia. Uma tempestade desviou a rota e eles deram em Porto Seguro. Uma coisa \u00e9 saber que havia terras ali. Outra \u00e9 montar uma expedi\u00e7\u00e3o com o prop\u00f3sito de aportar no sul da Bahia. Por isso, o historiador portugu\u00eas Joaquim Romero de Magalh\u00e3es (1942-2018) prefere chamar a viagem de &#8216;achamento&#8217; e n\u00e3o de &#8216;descobrimento&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto a Vicente Pinz\u00f3n, o explorador espanhol teria atingido o Cabo de Santo Agostinho, no litoral de Pernambuco, no dia 26 de janeiro de 1500 \u2014 tr\u00eas meses antes da chegada de Cabral a Porto Seguro, na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Experiente, integrou a frota que, sob o comando de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo (1451-1506), descobriu a Am\u00e9rica, em 1492. Poucas semanas depois, em fevereiro de 1500, o primo de Pinz\u00f3n, Diego de Lepe, tamb\u00e9m navegou por \u00e1guas brasileiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Espanha s\u00f3 n\u00e3o reivindicou a descoberta do Brasil por causa do Tratado de Tordesilhas. Mesmo assim, o rei Fernando II de Arag\u00e3o condecorou Vicente Pinz\u00f3n e Diego de Lepe pela fa\u00e7anha de eles terem &#8220;descoberto&#8221; o Brasil.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Espanha s\u00f3 n\u00e3o reivindicou a descoberta do Brasil por causa do Tratado de Tordesilhas. 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