{"id":313549,"date":"2020-03-20T11:26:20","date_gmt":"2020-03-20T14:26:20","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=313549"},"modified":"2020-03-20T11:26:20","modified_gmt":"2020-03-20T14:26:20","slug":"ignaz-semmelweis-o-medico-internado-em-manicomio-por-insistir-na-importancia-de-se-lavarem-as-maos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ignaz-semmelweis-o-medico-internado-em-manicomio-por-insistir-na-importancia-de-se-lavarem-as-maos\/","title":{"rendered":"Ignaz Semmelweis, o m\u00e9dico internado em manic\u00f4mio por insistir na import\u00e2ncia de se lavarem as m\u00e3os"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"mini-info-list-wrap\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/379A\/production\/_108843241_hospital.jpg\" alt=\"Gravura mostra o hospital St. George, em Londres\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Hospitais, como o St. Georges em Londres, eram conhecidos como &#8216;casas da morte&#8217;<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Em 1825, os parentes de um paciente que estava se recuperando de uma fratura no Hospital St. George, em Londres, viram o familiar deitado em len\u00e7\u00f3is molhados e sujos, cheios de fungos e vermes.<\/p>\n<p>Segundo o relato, nem o homem aflito, nem os outros com quem dividia o espa\u00e7o, se queixaram das condi\u00e7\u00f5es do local, comuns aos hospitais da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Tudo cheirava a urina, v\u00f4mito e outros fluidos corporais. O odor era t\u00e3o intenso que a equipe, \u00e0s vezes, caminhava com len\u00e7os pressionados contra o nariz.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos, entretanto, tamb\u00e9m n\u00e3o tinham aroma de rosas. Esses profissionais raramente lavavam as m\u00e3os ou seus instrumentos de trabalho \u2013 exalavam o que era chamado, de forma elogiosa, de &#8220;fedor tradicional do hospital&#8221;.<\/p>\n<p>As salas de cirurgia eram t\u00e3o sujas quanto os cirurgi\u00f5es que trabalhavam nelas. Conforme o relato, no meio da sala, havia uma mesa de madeira manchada com tra\u00e7os que revelavam os corpos que haviam passado por ali, enquanto o ch\u00e3o estava coberto de serragem para absorver o sangue que escorria.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5EAA\/production\/_108843242_cuadro-1.jpg\" alt=\"Quadro &quot;A Cl\u00ednica Gross&quot;, de Thomas Eakins\" width=\"976\" height=\"1207\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;A Cl\u00ednica Gross&#8221; foi pintada pelo americano Thomas Eakins em 1875, pouco antes da ado\u00e7\u00e3o de um ambiente cir\u00fargico higi\u00eanico, e \u00e9 por isso que \u00e9 frequentemente contrastada com a pintura posterior de Eakins, &#8220;A Cl\u00ednica Agnew&#8221; (1889), que voc\u00ea ver\u00e1 abaixo neste artigo<\/figure>\n<p>E havia algu\u00e9m que tinha sal\u00e1rio maior do que o dos m\u00e9dicos: o &#8220;ca\u00e7ador de insetos&#8221;. Seu trabalho era livrar os colch\u00f5es dos piolhos.<\/p>\n<p>Os hospitais eram um terreno f\u00e9rtil para a infec\u00e7\u00e3o. Muitos doentes e moribundos eram alojados em salas com pouca.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, era mais seguro ser tratado em casa do que em um hospital, onde as taxas de mortalidade eram de tr\u00eas a cinco vezes maiores do que em ambientes dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como resultado dessa mis\u00e9ria, eles eram conhecidos como &#8220;Casas da Morte&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Por favor lavar as m\u00e3os<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/ACCA\/production\/_108843244_gettyimages-486775835.jpg\" alt=\"Retrato de Ignaz Semmelweis\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Embora Semmelweis conclu\u00edsse que os m\u00e9dicos devem lavar as m\u00e3os entre os procedimentos por meio de uma an\u00e1lise estat\u00edstica vigorosa, ele n\u00e3o conseguia explicar o porqu\u00ea: nada se sabia sobre os germes<\/figure>\n<p>No meio daquele mundo que ainda n\u00e3o entendia os germes, um homem tentou aplicar m\u00e9todos cient\u00edficos para impedir a propaga\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ele se chamava Ignaz Semmelweis.<\/p>\n<p>Este m\u00e9dico h\u00fangaro tentou implementar um sistema de lavagem das m\u00e3os em hospitais de Viena na d\u00e9cada de 1840 para reduzir as taxas de mortalidade nas maternidades.<\/p>\n<p>Foi uma tentativa digna, mas fracassada. Semmelweis acabou sendo demonizado por seus colegas.<\/p>\n<p>Depois, no entanto, ele ficou conhecido como o &#8220;Salvador das M\u00e3es&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D3DA\/production\/_108843245_cuadro-2.jpg\" alt=\"Pintura &quot;A Cl\u00ednica Agnew&quot; (1889), de Thomas Eakins\" width=\"976\" height=\"670\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Essa pintura \u00f3leo \u00e9 &#8220;A Cl\u00ednica Agnew&#8221; (1889), tamb\u00e9m de Thomas Eakins, representa uma sala de opera\u00e7\u00f5es mais limpa, com participantes de jalecos brancos. Mais tarde, medidas higi\u00eanicas seriam maiores, at\u00e9 chegarmos \u00e0s salas de opera\u00e7\u00f5es que conhecemos hoje<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Um mundo sem germes<\/h2>\n<p>Semmelweis trabalhava no Hospital Geral de Viena, onde a morte perseguia os doentes t\u00e3o regularmente quanto em qualquer outro hospital da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Antes do triunfo da teoria dos germes, na segunda metade do s\u00e9culo 19, a ideia de que as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es \u200b\u200bdos hospitais desempenhavam um papel importante na dissemina\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00f5es e de doen\u00e7as n\u00e3o passava pela cabe\u00e7a de muitos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>&#8220;Para n\u00f3s, \u00e9 dif\u00edcil imaginar um mundo em que as pessoas n\u00e3o sabiam da exist\u00eancia de germes ou bact\u00e9rias&#8221;, diz Barron H. Lerner, da Faculdade de Medicina Langone da Universidade de Nova York.<\/p>\n<p>&#8220;Em meados do s\u00e9culo 19, acreditava-se que as doen\u00e7as se espalhavam por meio das nuvens de um vapor venenoso, no qual part\u00edculas de mat\u00e9ria em decomposi\u00e7\u00e3o chamadas &#8216;miasmas&#8217; eram jogadas no ar&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Desequil\u00edbrio<\/h2>\n<p>Entre as pessoas em maior risco estavam as mulheres gr\u00e1vidas, particularmente as que sofreram com problemas durante o parto, pois as feridas abertas eram o habitat ideal para bact\u00e9rias que m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es carregavam de um lado para o outro.<\/p>\n<p>A primeira coisa que Semmelweis notou foi uma discrep\u00e2ncia interessante entre o atendimento em duas salas obst\u00e9tricas do Hospital Geral de Viena, cujas instala\u00e7\u00f5es eram id\u00eanticas.<\/p>\n<p>Uma delas era ocupada por estudantes de medicina do sexo masculino, enquanto a outra estava sob os cuidados de parteiras.<\/p>\n<p>A sala atendida por estudantes de medicina tinha uma taxa de mortalidade de mulheres tr\u00eas vezes maior do que o local supervisionado pelas parteiras.<\/p>\n<p>Anteriormente, funcion\u00e1rios do hospital j\u00e1 haviam percebido o desequil\u00edbrio, mas atribuiram a discrep\u00e2ncia aos estudantes homens, que seriam mais severos no trato com as pacientes do que as parteiras. Acreditava-se que esse fator comprometia a vitalidade das m\u00e3es, tornando-as mais suscet\u00edveis ao desenvolvimento da febre puerperal.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Semmelweis n\u00e3o se convencia com essa explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/121FA\/production\/_108843247_germen.jpg\" alt=\"Imagem microsc\u00f3pica da bact\u00e9ria Streptococcus pyogenes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Esta era a causa das altas taxas de mortalidade, que naquela \u00e9poca n\u00e3o podia ser vista: a bact\u00e9ria Streptococcus pyogenes<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O padre ou a sujeira<\/h2>\n<p>Pouco depois, o m\u00e9dico percebeu que toda vez que uma mulher morria de febre, um padre caminhava lentamente pela sala m\u00e9dica com um assistente tocando uma campainha.<\/p>\n<p>Inicialmente, Semmelweis acreditou que esse ritual aterrorizava tanto as mulheres ap\u00f3s o parto que elas acabavam por desenvolver a febre, morrendo em seguida. Depois de pedir para o padre deixar a campainha de lado, ele descobriu, frustrado, que a mudan\u00e7a n\u00e3o teve qualquer efeito.<\/p>\n<p>Em 1847, ele teve uma pista precisa depois de analisar um exame\u00a0<i>post mortem<\/i>\u00a0do corpo de um de seus colegas, que havia morrido ap\u00f3s cortar a m\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1490A\/production\/_108843248_examen.jpg\" alt=\"Desenho de Jacques-Pierre Maygrier, de 1840, que mostra um m\u00e9dico usando as m\u00e3os para fazer um parto\" width=\"976\" height=\"1157\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Os m\u00e9dicos, como podem ser vistos neste desenho de Jacques-Pierre Maygrier, de 1840, usavam as m\u00e3os ao fazer os partos, mas geralmente n\u00e3o eram t\u00e3o limpas quanto nesta ilustra\u00e7\u00e3o<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Uma leve ferida mortal<\/h2>\n<p>Naquela \u00e9poca, cortar cad\u00e1veres envolvia riscos f\u00edsicos, muitos deles fatais.<\/p>\n<p>Qualquer ferida ou fissura na pele causada pela faca de dissec\u00e7\u00e3o, por menor que fosse, era um perigo sempre presente, mesmo para pessoas mais experientes \u2013 como aconteceu com o tio de Charles Darwin (que tinha o mesmo nome do sobrinho), morto em 1778 ap\u00f3s sofrer uma les\u00e3o ao dissecar uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Enquanto seu colega estava morrendo, Semmelweis observou que seus sintomas eram muito semelhantes aos das mulheres com febre puerperal.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que os m\u00e9dicos que trabalham na sala de aut\u00f3psia levavam &#8220;part\u00edculas cadav\u00e9ricas&#8221; para as salas de parto?<\/p>\n<p>Afinal, Semmelweis observou que muitos dos jovens sa\u00edram diretamente de uma aut\u00f3psia para cuidar de mulheres gr\u00e1vidas.<\/p>\n<p>Como luvas ou outras formas de equipamento de prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram usadas na sala de necr\u00f3psia, n\u00e3o era incomum ver estudantes de medicina com peda\u00e7os de carne, tripas ou c\u00e9rebros presos \u00e0s roupas ap\u00f3s o t\u00e9rmino das aulas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, percebeu Semmelweis, que a grande diferen\u00e7a entre a sala dos m\u00e9dicos e a das parteiras era que os m\u00e9dicos realizavam aut\u00f3psias, e as parteiras, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria essa a chave do mist\u00e9rio que explicava a diferen\u00e7a na taxa de mortalidade?<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1701A\/production\/_108843249_lavandose.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra o m\u00e9dico Ignaz Semmelweis lavando as m\u00e3os com \u00e1gua com cloro antes de uma opera\u00e7\u00e3o\" width=\"976\" height=\"507\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ignaz Semmelweis lavando as m\u00e3os com \u00e1gua com cloro antes de uma opera\u00e7\u00e3o<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Demolir e reconstruir&#8217;<\/h2>\n<p>Antes de entender bem a quest\u00e3o dos germes, era dif\u00edcil encontrar um rem\u00e9dio para a sujeira em hospitais.<\/p>\n<p>O obstetra James Y. Simpson (1811-1870), o primeiro m\u00e9dico a demonstrar as propriedades anest\u00e9sicas do clorof\u00f3rmio em humanos, argumentou que, se a contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pudesse ser controlada, os hospitais deveriam ser periodicamente destru\u00eddos e reconstru\u00eddos.<\/p>\n<p>O cirurgi\u00e3o John Eric Erichsen (1818-1896), autor de um livro sobre cirurgia no s\u00e9culo 19, concordou: &#8220;Uma vez que um hospital se torna incuravelmente afetado pela piemia (infec\u00e7\u00e3o purulenta), \u00e9 imposs\u00edvel desinfet\u00e1-lo por quaisquer meios higi\u00eanicos conhecidos, como tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel desinfetar um queijo velho dos vermes que foram gerados nele&#8221;, escreveu ele.<\/p>\n<p>Para a dupla, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o era a mesma: a demoli\u00e7\u00e3o do hospital.<\/p>\n<p>Semmelweiss, por\u00e9m, acreditava que havia medidas menos dr\u00e1sticas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Tr\u00eas palavras simples<\/h2>\n<p>Depois de concluir que a febre puerperal foi causada pelo &#8220;material infeccioso&#8221; de um cad\u00e1ver, ele instalou uma bacia cheia de solu\u00e7\u00e3o de cal e cloro no hospital e come\u00e7ou a salvar a vida das mulheres com tr\u00eas palavras simples: &#8220;lave as m\u00e3os&#8221;.<\/p>\n<p>Aqueles que passaram da sala de aut\u00f3psia para as salas de parto tiveram que usar a solu\u00e7\u00e3o antiss\u00e9ptica antes de atender pacientes vivos.<\/p>\n<p>As taxas de mortalidade na sala de estudantes de medicina despencaram. Em abril de 1847, o \u00edndice era de 18,3% dos pacientes. Um m\u00eas depois do in\u00edcio da lavagem das m\u00e3os ser institu\u00edda, em maio do mesmo ano, as taxas ca\u00edram para pouco mais de 2%.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ganhos<\/h2>\n<p>O experimento continuou: os resultados de Semmelweis foram muito convincentes, seus dados foram coletados e certamente salvaram a vida de muitas m\u00e3es durante o per\u00edodo.<\/p>\n<p>No entanto, ele n\u00e3o conseguiu convencer todos os colegas dos m\u00e9ritos de sua teoria de que os incidentes de febre puerperal estavam relacionados \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o causada pelo contato com cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Aqueles dispostos a testar seus m\u00e9todos frequentemente o faziam de maneira inadequada, produzindo resultados desanimadores.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea deve ter em mente que o que ele estava dizendo \u2013 embora n\u00e3o com essas palavras \u2013 era que estudantes de medicina estavam matando mulheres, e isso era muito dif\u00edcil de aceitar&#8221;, explica Lerner.<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rias resenhas negativas de um livro que ele publicou sobre o assunto, Semmelweis criticou seus algozes e chegou a rotular m\u00e9dicos que n\u00e3o lavavam as m\u00e3os de &#8220;assassinos&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/523E\/production\/_108845012_el-placa.jpg\" alt=\"Placa em honra a Ignaz Semmelweis\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Somente ap\u00f3s sua morte, ele conseguiu o reconhecimento pelos seus feitos<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O futuro que ele n\u00e3o chegou a ver<\/h2>\n<p>Quando seu contrato n\u00e3o foi renovado no hospital de Viena, Semmelweis retornou \u00e0 Hungria, sua terra natal, onde assumiu o cargo de m\u00e9dico honor\u00e1rio, cadeira de pouco prest\u00edgio e n\u00e3o remunerada na enfermaria obst\u00e9trica do pequeno Hospital Szent R\u00f3kus, em Budapeste.<\/p>\n<p>No local e tamb\u00e9m na maternidade da Universidade de Budapeste, onde mais tarde ele deu aulas, a propaga\u00e7\u00e3o da febre puerperal era desenfreada, at\u00e9 que Semmelweis praticamente a eliminou.<\/p>\n<p>Mas nem a cr\u00edtica contra sua teoria nem a raiva de Semmelweis contra a falta de boa vontade de seus colegas em adotar seus m\u00e9todos de lavar as m\u00e3os diminu\u00edram.<\/p>\n<p>Seu comportamento se tornou irregular. A partir de 1861, ele come\u00e7ou a sofrer de depress\u00e3o severa. E sempre voltava \u00e0 quest\u00e3o da febre puerperal.<\/p>\n<p>Um dia, um colega o levou para um asilo de doentes mentais em Viena, sob o pretexto de que eles visitariam um novo instituto m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Quando Semmelweis percebeu o que estava acontecendo e tentou sair, os guardas o espancaram severamente, vestiram-lhe uma camisa de for\u00e7a e o colocaram em uma cela escura.<\/p>\n<p>Duas semanas depois, ele morreu devido a um ferimento na m\u00e3o direita que gangrenou. Semmelweis tinha apenas 47 anos.<\/p>\n<p>Infelizmente, ele n\u00e3o teve papel nas mudan\u00e7as que seriam realizadas pelos pioneiros antes da teoria dos germes, como Louis Pasteur, Joseph Lister e Robert Koch.<\/p>\n<p>Uma das \u00faltimas coisas que Semmelweis escreveu \u00e9 perturbadora:<\/p>\n<p><i>&#8220;Quando revejo o passado, s\u00f3 posso dissipar a tristeza que me invade imaginando o futuro feliz em que a infec\u00e7\u00e3o ser\u00e1 banida&#8230; A convic\u00e7\u00e3o de que esse momento deve chegar inevitavelmente mais cedo ou mais tarde alegrar\u00e1 o momento de minha morte&#8221;<\/i>.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption body-width\"><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os hospitais eram um terreno f\u00e9rtil para a infec\u00e7\u00e3o. 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