{"id":314283,"date":"2020-03-27T14:50:12","date_gmt":"2020-03-27T17:50:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=314283"},"modified":"2020-03-27T14:50:12","modified_gmt":"2020-03-27T17:50:12","slug":"como-o-brasil-foi-afetado-pela-pandemia-de-h1n1-a-1a-do-seculo-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-o-brasil-foi-afetado-pela-pandemia-de-h1n1-a-1a-do-seculo-21\/","title":{"rendered":"Como o Brasil foi afetado pela pandemia de H1N1, a 1\u00aa do s\u00e9culo 21?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><strong><span class=\"byline__name\">Rafael Barifouse<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1083A\/production\/_111424676_a1c4a57a-822e-421c-9545-cee84c6357bc.jpg\" alt=\"Paciente \u00e9 atendido em 2009 no DF\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Entre 2009 e 2010, houve 53.797 casos de gripe su\u00edna confirmados no Brasil<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">O novo\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/clmq8rgyyvjt\">coronav\u00edrus<\/a>, descoberto em dezembro na China, se disseminou para mais de 160 pa\u00edses em pouco menos de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>O n\u00famero de pessoas infectadas j\u00e1 passa de 370 mil, de acordo com os dados mais recentes da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), e mais de 16 mil morreram nesta pandemia.<\/p>\n<p>A r\u00e1pida escalada do n\u00famero de casos e de v\u00edtimas observada no mundo tamb\u00e9m vem ocorrendo no Brasil, onde o primeiro caso foi confirmado em 26 de fevereiro. Em menos de um m\u00eas, foram registradas mais de 2,4 mil infec\u00e7\u00f5es e 57 mortes.<\/p>\n<p>Isso vem causando medo e muita incerteza quanto ao que vir\u00e1 a seguir, mas esta n\u00e3o \u00e9 a primeira pandemia na nossa hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p>H\u00e1 11 anos, foi descoberto no M\u00e9xico um novo v\u00edrus influenza que causa uma doen\u00e7a que viria a ser conhecida como gripe su\u00edna. Ele se espalhou em quest\u00e3o de meses para mais de uma centena de pa\u00edses, entre eles o Brasil, e provocou a primeira pandemia no s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>O desenrolar daqueles eventos pode n\u00e3o s\u00f3 ajudar a entender o que podemos esperar nos pr\u00f3ximos meses, mas tamb\u00e9m compreender a real dimens\u00e3o do que estamos vivendo.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Pandemia come\u00e7ou em porcos no M\u00e9xico<\/h2>\n<p>Os registros hist\u00f3ricos apontam que, desde o s\u00e9culo 16, o mundo passou por ao menos tr\u00eas pandemias provocadas por v\u00edrus influenza a cada cem anos.<\/p>\n<p>A maior delas foi a de gripe espanhola, com mais de 50 milh\u00f5es de mortes no mundo entre 1918 e 1920. A \u00faltima do s\u00e9culo 20 havia sido a da gripe de Hong Kong, em 1968, com 1 milh\u00e3o de v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>O mundo estava h\u00e1 quatro d\u00e9cadas sem enfrentar uma pandemia quando, em mar\u00e7o de 2009, o governo mexicano foi informado do aumento do n\u00famero de jovens adultos que sofriam de uma doen\u00e7a respirat\u00f3ria aguda. Em pouco tempo, casos foram tamb\u00e9m registrados nos Estados Unidos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BA1A\/production\/_111424674_afd5c52f-0b2d-4b65-88ba-a0dd210039c6.jpg\" alt=\"Pacientes sendo atendidos durante pandemia de gripe espanhola\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A maior pandemia da hist\u00f3ria recente foi a de gripe espanhola, com mais de 20 milh\u00f5es de mortes no mundo entre 1918 e 1920<\/figure>\n<p>No m\u00eas seguinte, um novo subtipo do v\u00edrus influenza H1N1 foi identificado em amostras de pacientes coletadas nos dois pa\u00edses. Tratava-se de uma variedade in\u00e9dita, surgida em animais e capaz de infectar humanos.<\/p>\n<p>Os v\u00edrus influenza do grupo A, do qual o subtipo de H1N1 identificado em 2009 faz parte, sofrem muta\u00e7\u00f5es frequentes e produzem novas cepas contra as quais n\u00e3o temos imunidade.<\/p>\n<p>Os coronav\u00edrus j\u00e1 demonstraram ter essa capacidade. Esta fam\u00edlia de v\u00edrus \u00e9 conhecida desde aos anos 1960 e circula em animais, principalmente morcegos.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, sabia-se que seis coronav\u00edrus eram capazes de sofrer muta\u00e7\u00f5es, saltar a barreira entre esp\u00e9cies e infectar pessoas \u2014 o novo coronav\u00edrus, batizado oficialmente como Sars-Cov-2, \u00e9 o s\u00e9timo.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, n\u00e3o se sabe exatamente qual animal foi o ponto de partida para a atual pandemia, mas, em 2009, porcos cumpriram essa fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes animais t\u00eam receptores para v\u00edrus que infectam su\u00ednos, aves e humanos e s\u00e3o os hospedeiros ideais para que, em seu processo de multiplica\u00e7\u00e3o, essas variedades passem por uma recombina\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e produzam um novo v\u00edrus que afeta humanos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">H1N1 se disseminou rapidamente pelo mundo<\/h2>\n<p>Para ser capaz de causar uma pandemia, como \u00e9 chamada uma epidemia em escala global, um v\u00edrus precisa tamb\u00e9m conseguir se replicar em seres humanos, ser facilmente transmitido entre indiv\u00edduos da nossa esp\u00e9cie e causar uma doen\u00e7a grave.<\/p>\n<p>Foi o que ocorreu com o novo subtipo de H1N1, que, quatro meses depois de ser descoberto, havia se disseminado pelo planeta em grande velocidade, por meio do sistema a\u00e9reo global, como ocorreu na pandemia atual, e chegado a mais de 120 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em 11 de junho, a OMS declarou que o mundo enfrentava uma pandemia de gripe su\u00edna. Seu fim s\u00f3 seria anunciado pela ag\u00eancia 14 meses depois.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17982\/production\/_111424669_b31324f4-7233-497d-a7e6-dbaf19967742.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus H1N1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Novo subtipo do H1N1 se originou em porcos no M\u00e9xico<\/figure>\n<p>Estudos cient\u00edficos estimam hoje que de 11% a 24% da popula\u00e7\u00e3o global na \u00e9poca \u2014 entre 700 milh\u00f5es e 1,7 bilh\u00e3o de pessoas \u2014 tenha contra\u00eddo o novo v\u00edrus.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, a OMS apontou que cerca de 18 mil pessoas morreram por causa da gripe su\u00edna, mas, em um estudo posterior, reviu esse total para 200 mil.<\/p>\n<p>O Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as dos Estados Unidos (CDC, na sigla em ingl\u00eas) calcula que esse n\u00famero pode ter chegado a 545,4 mil no primeiro ano de circula\u00e7\u00e3o do novo subtipo de H1N1.<\/p>\n<p>A OMS apontou em seu \u00faltimo relat\u00f3rio emitido durante aquela pandemia que 214 pa\u00edses e territ\u00f3rios registraram casos da gripe su\u00edna.<\/p>\n<p>Com o Brasil, n\u00e3o foi diferente \u2014 e, como afirma o secret\u00e1rio de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade, Wanderson de Oliveira, em um estudo realizado junto com outros cientistas brasileiros e publicado em 2009, o pa\u00eds foi &#8220;seriamente afetado&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Reconhecimento da transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria foi tardio<\/h2>\n<p>A OMS reconheceu rapidamente, no final de abril daquele ano, que o novo subtipo de H1N1 havia gerado uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica de interesse internacional.<\/p>\n<p>Isso levou o Brasil a criar um sistema de vigil\u00e2ncia para casos de gripe su\u00edna. Seu alvo eram pessoas que apresentavam os sintomas da doen\u00e7a e haviam viajado ao exterior ou entrado em contato com pessoas com estas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>Os sinais da gripe su\u00edna s\u00e3o bem semelhantes aos da covid-19, a doen\u00e7a provocada pelo novo coronav\u00edrus, entre eles febre, tosse, dificuldade de respirar, al\u00e9m de dor de cabe\u00e7a e na garganta, mal estar, dores no corpo e calafrios.<\/p>\n<p>Os primeiros casos entre brasileiros foram confirmados no in\u00edcio de maio, em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, principalmente entre pessoas que haviam viajado aos Estados Unidos, \u00e0 Argentina e ao Chile.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, era testado no Brasil para o novo H1N1 quem apresentava sintomas leves e graves, mas os exames passaram depois a ser aplicados apenas em quem tinha sintomas mais graves.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a ocorreu quando a transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria foi confirmada pelo governo federal, em meados de julho, um m\u00eas depois de a OMS ter declarado uma pandemia.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria \u00e9 identificada quando um v\u00edrus passa a circular livremente entre a popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel identificar como uma pessoa se infectou. Estudos apontam que a confirma\u00e7\u00e3o desse tipo de transmiss\u00e3o no Brasil foi feita com atraso em 2009.<\/p>\n<p>Uma pesquisa realizada por cientistas do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) destaca que, quando isso ocorreu, j\u00e1 havia casos de mortes por gripe su\u00edna que n\u00e3o estavam relacionados a viajantes.<\/p>\n<p>Outro trabalho de cientistas brasileiros, publicado no Caderno de Sa\u00fade P\u00fablica em 2012, aponta que esse tipo de dissemina\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocorria havia um m\u00eas antes de ser reconhecida oficialmente.<\/p>\n<p>Isso &#8220;n\u00e3o gerou danos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o&#8221;, dizem os autores, &#8220;mas pode ter sobrecarregado as equipes envolvidas na resposta \u00e0 epidemia j\u00e1 que elas ainda estavam dedicando esfor\u00e7os \u00e0 busca e localiza\u00e7\u00e3o de casos em uma situa\u00e7\u00e3o em que infec\u00e7\u00f5es j\u00e1 ocorriam em larga escala&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Brasil teve mais de 53 mil casos<\/h2>\n<p>O total de casos cresceu exponencialmente no Brasil e atingiu seu pico na primeira semana de agosto, tr\u00eas meses depois do primeiro caso confirmado no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O n\u00famero de novas infec\u00e7\u00f5es passou ent\u00e3o a cair continuamente, mas se manteve em n\u00edveis significativos at\u00e9 o final de 2009 \u2014 e houve novos casos ao longo do ano seguinte.<\/p>\n<p>O estudo do Instituto de Medicina Tropical da USP, feito com base nos dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, aponta que, em 2009 e 2010, foram notificados 105.054 casos no Brasil, dos quais 53.797 (51,2%) foram confirmados como sendo do novo subtipo de H1N1. Deste total de casos confirmados, 98,2% ocorreram em 2009.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16A46\/production\/_111424729_8e3e11e4-2162-4316-8259-edb71e51f0db.jpg\" alt=\"Mulheres brasileiras durante pandemia de H1N1 no Brasil em 2009\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Pandemia de gripe su\u00edna ficou caracterizada por ter um n\u00famero mais significativo de pacientes crian\u00e7as, adolescentes e jovens adultos<\/figure>\n<p>Mas, como afirma um estudo liderado pelo m\u00e9dico Antonio Nassar Junior e publicado na Revista Brasileira de Terapia Intensiva em 2010, o n\u00famero de casos foi provavelmente muito maior do que apontam os dados oficiais.<\/p>\n<p>A pesquisa destaca que, como passaram a ser testados apenas os pacientes em estado grave a partir de dado momento, muitas pessoas com sintomas leves podem n\u00e3o ter sido diagnosticadas.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade j\u00e1 informou que o mesmo ocorre agora e estima que 86% dos casos de covid-19 deixam de ser identificados, no Brasil e em outros pa\u00edses.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Paran\u00e1 foi o Estado mais afetado no Brasil<\/h2>\n<p>Foram registrados casos em todos os Estados e no Distrito Federal, mas, as regi\u00f5es Sul e Sudeste concentraram mais de 90% do total \u2014 na atual pandemia, o Sudeste concentra 57,9% dos casos confirmados no pa\u00eds e o Nordeste vem em segundo, com 15,8% dos casos.<\/p>\n<p>Conforme destaca o estudo liderado pelo secret\u00e1rio Wanderson de Oliveira, as maiores taxas de incid\u00eancia na popula\u00e7\u00e3o ocorreram &#8220;em cidades nas fronteiras com Argentina, Uruguai e Paraguai e nos Estados de clima temperado, onde o inverno \u00e9 mais intenso&#8221;.<\/p>\n<p>O Paran\u00e1 foi o Estado brasileiro mais impactado na pandemia de gripe su\u00edna, enquanto, desta vez, S\u00e3o Paulo tem o maior n\u00famero de casos de covid-19 at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>O primeiro caso foi identificado no Paran\u00e1 em junho de 2009. Ao fim do ano, concentrava 58,6% de todas as infec\u00e7\u00f5es no Brasil \u2014 S\u00e3o Paulo foi o segundo Estado em termos absolutos, com 15,1% do total de casos confirmados naquele ano.<\/p>\n<p>O Paran\u00e1 tamb\u00e9m foi o Estado que teve em 2009 a maior propor\u00e7\u00e3o de casos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, com 301,3 casos a cada 100 mil habitantes, mais de dez vezes a m\u00e9dia nacional, de 28 casos a cada 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>De acordo com este crit\u00e9rio, os outros Estados mais afetados pela gripe su\u00edna no Brasil foram Santa Catarina (36\/100 mil habitantes), Rio Grande do Sul (27,4\/100 mil habitantes), Rio de Janeiro (20,1\/100 mil habitantes) e S\u00e3o Paulo (19,7\/100 mil habitantes).<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o mudou em 2010, quando passou a haver uma incid\u00eancia maior de casos nos Estados mais ao norte do pa\u00eds.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Gripe su\u00edna foi mais comum entre pessoas mais jovens<\/h2>\n<p>Diferentemente da gripe sazonal, que costuma acometer mais idosos, a pandemia gripe su\u00edna ficou caracterizada por ter um n\u00famero mais significativo de pacientes crian\u00e7as, adolescentes e jovens adultos.<\/p>\n<p>A idade m\u00e9dia entre os casos confirmados no Brasil em 2009 foi de 24 anos, segundo a pesquisa do Instituto de Medicina Tropical da USP.<\/p>\n<p>A faixa et\u00e1ria de 0 a 29 anos respondeu por 62,5% dos casos em 2009, enquanto aqueles com mais de 60 anos representaram apenas 4,8%.<\/p>\n<p>Os idosos tamb\u00e9m tiveram o menor n\u00famero de casos a cada 100 mil habitantes. As maiores taxas foram registradas entre crian\u00e7as com menos de 1 ano, crian\u00e7as entre 1 e 4 anos e adultos entre 20 e 29 anos.<\/p>\n<p>Globalmente, estima-se que 80% das mortes relacionadas ao novo subtipo de H1N1 no mundo ocorreram em pessoas com menos de 65 anos de idade, de acordo com o CDC.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 bem diferente do que ocorre com as epidemias de gripe sazonais, em que em pessoas com 65 anos ou mais s\u00e3o cerca de 70 a 90% das v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sempre costumava cuidar de idosos com gripe, e, de repente, apareceu um novo v\u00edrus que causava doen\u00e7a grave em pessoas que a gente n\u00e3o esperava. Isso chamou muita aten\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o infectologista Benedito da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da USP.<\/p>\n<p>Acredita-se que a menor preval\u00eancia da gripe su\u00edna entre idosos tenha sido relacionada a outras pandemias, diz a m\u00e9dica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do servi\u00e7o de infectologia do Instituto Em\u00edlio Ribas.<\/p>\n<p>&#8220;Esse v\u00edrus provavelmente n\u00e3o atingiu os idosos porque eles adquiriram alguma imunidade durante as crises da gripe asi\u00e1tica, em 1957, e da gripe de Hong Kong, em 1968. Seus corpos tinham alguma lembran\u00e7a daqueles v\u00edrus pand\u00eamicos&#8221;, diz Ribeiro.<\/p>\n<p>O n\u00famero de gr\u00e1vidas internadas por causa da gripe su\u00edna tamb\u00e9m foi bem significativo no Brasil e no restante do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Muito provavelmente porque o sistema imunol\u00f3gico da gestante fica reduzido para que seu corpo n\u00e3o rejeite o feto, e ter imunidade comprometida \u00e9 um fator de risco para o H1N1, porque permite que o v\u00edrus se multiplique mais rapidamente&#8221;, diz Fonseca.<\/p>\n<p>Cientistas tamb\u00e9m apontam que uma maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade das gestantes durante o per\u00edodo da gravidez por ter contribu\u00eddo para uma maior detec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus entre elas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">H1N1 era menos transmiss\u00edvel que novo coronav\u00edrus<\/h2>\n<p>Assim como o novo coronav\u00edrus, o novo subtipo de H1N1 era transmitido por meio da tosse e de espirros, no contato direto com uma pessoa infectada ou ao entrar em contato com secre\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias que carregavam o v\u00edrus.<\/p>\n<p>Mas aquele v\u00edrus era menos transmiss\u00edvel do que o que enfrentamos hoje. A OMS aponta que uma pessoa com H1N1 era capaz de infectar de 1,2 a 1,6 pessoas. Um estudo divulgado pelo CDC aponta que essa taxa \u00e9 de 2,79 para o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Por ser altamente transmiss\u00edvel, est\u00e3o sendo tomadas agora algumas medidas dr\u00e1sticas para impedir a infec\u00e7\u00e3o contra o novo coronav\u00edrus que n\u00e3o haviam sido aplicadas antes, como recomendar que as pessoas fiquem em casa e colocar cidades ou um pa\u00eds inteiro em quarentena. Isso n\u00e3o feito com o H1N1&#8221;, afirma Fonseca.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6BFA\/production\/_111424672_df3501cc-8227-45f1-a3af-b027fda89be0.jpg\" alt=\"Vacina contra gripe su\u00edna\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Naquela pandemia, foi poss\u00edvel desenvolver vacina relativamente r\u00e1pido<\/figure>\n<p>Ap\u00f3s ser infectada pelo H1N1, uma pessoa apresentava sintomas depois de tr\u00eas a sete dias \u2014 esse per\u00edodo pode chegar a 14 dias com o Sars-Cov-2 \u2014, e a grande maioria dos casos n\u00e3o apresentava complica\u00e7\u00f5es e evolu\u00eda para a cura, assim como tem ocorrido agora.<\/p>\n<p>Assim como com o novo coronav\u00edrus, ter doen\u00e7as cr\u00f4nicas, como hipertens\u00e3o, diabetes, problemas respirat\u00f3rios, card\u00edacos e neurol\u00f3gicos e obesidade, \u00e9 um fator de risco que aumentava as chances de ter uma forma grave da gripe su\u00edna e de morrer por causa dela. A presen\u00e7a deste tipo de condi\u00e7\u00e3o foi observada em 79% entre casos hospitalizados no Brasil em 2009.<\/p>\n<p>Apesar de serem menos vulner\u00e1veis ao v\u00edrus, as pessoas com mais de 60 anos tinham uma maior chance de ter quadro grave de gripe su\u00edna, por terem um sistema imunol\u00f3gico mais fraco. O mesmo ocorria com crian\u00e7as com menos de 2 anos, que ainda n\u00e3o t\u00eam um sistema imune totalmente desenvolvido.<\/p>\n<p>No Brasil, entre os 53.797 casos confirmados do novo H1N1 em 2009, houve 2.098 mortes, o que aponta para uma taxa de letalidade foi de 3,9%, de acordo com o estudo da USP.<\/p>\n<p>Mas esse \u00edndice foi provavelmente superestimado, porque muitos casos leves deixaram de ser contabilizados nas estat\u00edsticas. Um estudo realizado pela Universidade de Washington e publicado em 2013 indica que este \u00edndice foi de 0,02%.<\/p>\n<p>Especialistas afirma que o mesmo pode estar acontecendo nesta pandemia, porque muitos pa\u00edses dizem n\u00e3o ter testes suficientes para diagnosticar todos os casos e os aplicam somente aos mais graves.<\/p>\n<p>Diante de um n\u00famero significativo de pacientes assintom\u00e1ticos ou com sintomas leves de covid-19 que n\u00e3o estariam sendo detectados pelos sistemas de vigil\u00e2ncia, a taxa de letalidade do novo coronav\u00edrus, de 3,4% de acordo com a OMS, estaria bem acima da realidade.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Medicamento e vacina<\/h2>\n<p>Um fator fundamental para o baixo \u00edndice de mortes em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de pessoas infectadas durante a pandemia de H1N1 foi o fato de haver na \u00e9poca medicamentos antivirais capazes de combater aquele v\u00edrus.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, n\u00e3o h\u00e1 uma droga que seja comprovadamente capaz de fazer o mesmo com os pacientes infectados pelo novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Outro elemento que contribuiu para controlar a dissemina\u00e7\u00e3o do novo subtipo de H1N1 foi o desenvolvimento de uma vacina ainda em 2009.<\/p>\n<p>Isso foi poss\u00edvel porque j\u00e1 havia uma vacina contra outros v\u00edrus influenza, e foi uma quest\u00e3o de adaptar o que existia para criar uma vers\u00e3o capaz de conferir imunidade contra aquela variedade do H1N1.<\/p>\n<p>No entanto, como aponta o CDC, esta vacina s\u00f3 se tornou amplamente dispon\u00edvel a partir de novembro daquele ano, quando o n\u00famero de novos casos havia ca\u00eddo drasticamente em todo o mundo.<\/p>\n<p>A vacina teve um papel mais importante no controle da pandemia a partir de 2010, o que permitiu \u00e0 OMS declarar seu fim em agosto daquele ano.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m na prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a novas vers\u00f5es desse subtipo de H1N1 desde ent\u00e3o \u2014 a vacina que est\u00e1 sendo oferecida no Brasil neste ano, por exemplo, confere imunidade contra ele.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que a vacina n\u00e3o seja totalmente eficaz \u2014 ela protege em 70% das aplica\u00e7\u00f5es \u2014, se voc\u00ea consegue uma boa cobertura da popula\u00e7\u00e3o, especialmente nos grupos de risco, consegue diminuir a chance das pessoas se infectarem&#8221;, afirma Fonseca.<\/p>\n<p>A pesquisa de uma vacina contra o Sars-Cov-2 vem avan\u00e7ando rapidamente, e h\u00e1 mais de 20 vers\u00f5es em desenvolvimento. Mas ainda \u00e9 preciso garantir que funcionam e s\u00e3o seguras.<\/p>\n<p>Mesmo que alguma delas se prove eficaz, ser\u00e1 preciso encontrar formas de produzi-la em massa. Com isso, as previs\u00f5es mais realistas apontam que uma vacina para o Sars-Cov-2 n\u00e3o estar\u00e1 pronta para ser aplicada na popula\u00e7\u00e3o ao menos at\u00e9 meados do pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Pandemia deixou li\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>Fonseca diz que um dos grandes legados da pandemia de H1N1 foi o aprendizado de como lidar com epidemias de gripe nos tempos atuais.<\/p>\n<p>O infectologista diz que isso permitiu conter a dissemina\u00e7\u00e3o de outros v\u00edrus influenza que geraram epidemias localizadas na \u00c1sia, mas n\u00e3o se espalharam pelo mundo.<\/p>\n<p>&#8220;O grande problema do que aconteceu agora \u00e9 que este \u00e9 v\u00edrus diferente e totalmente novo que ningu\u00e9m sabe muito bem como conter nem conhecemos todas as formas como ele pode ser transmitido&#8221;, afirma Fonseca.<\/p>\n<p>Por esse motivo, aprender com o que est\u00e1 ocorrendo agora ser\u00e1 fundamental para lidar com as pr\u00f3ximas pandemias que provavelmente vir\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos cada vez mais sujeitos a isso porque estamos invadindo a natureza e entrando em contato com animais que hospedam v\u00edrus desconhecidos, e as pessoas se deslocam mais pelo mundo e muito mais r\u00e1pido&#8221;, afirma Fonseca.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, hoje, o perigo de pandemias \u00e9 iminente.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maior pandemia da hist\u00f3ria recente foi a de gripe espanhola, com mais de 20 milh\u00f5es de mortes no mundo entre 1918 e 1920<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, um novo subtipo do v\u00edrus<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":314284,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-314283","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/gripe-espanhola-boa1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=314283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314283\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/314284"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=314283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=314283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=314283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}