{"id":314519,"date":"2020-03-30T10:44:37","date_gmt":"2020-03-30T13:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=314519"},"modified":"2020-03-30T10:44:37","modified_gmt":"2020-03-30T13:44:37","slug":"escolas-fechadas-hospitais-lotados-eventos-cancelados-o-brasil-da-meningite-de-1974","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/escolas-fechadas-hospitais-lotados-eventos-cancelados-o-brasil-da-meningite-de-1974\/","title":{"rendered":"Escolas fechadas, hospitais lotados, eventos cancelados: o Brasil da meningite de 1974"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"byline__name\">Andr\u00e9 Bernardo<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/782A\/production\/_104026703_f1bbd447-4e08-4f69-bdc3-0aa7c4a24594.jpg\" alt=\"Ditadura militar\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Brasil durante ditadura militar, quando houve a mais grave epidemia de meningite de sua hist\u00f3ria<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Aulas suspensas e eventos esportivos transferidos, algumas das consequ\u00eancias da atual pandemia do novo coronav\u00edrus, j\u00e1 marcaram a hist\u00f3ria recente do Brasil, por conta de outra doen\u00e7a: a meningite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, durante o per\u00edodo da ditadura militar, o Brasil enfrentava a pior epidemia contra a meningite de sua hist\u00f3ria. O pa\u00eds j\u00e1 tivera dois surtos da doen\u00e7a &#8211; um em 1923 e outro em 1945 -, mas, nenhum deles t\u00e3o grave ou letal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque o Brasil foi v\u00edtima n\u00e3o de um, mas de dois subtipos de meningite meningoc\u00f3cica: do tipo C, que teve in\u00edcio em abril de 1971, e do tipo A, em maio de 1974.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para evitar o cont\u00e1gio, o governo tomou medidas dr\u00e1sticas: decretou a suspens\u00e3o das aulas e suspendeu eventos esportivos. Os Jogos Pan-Americanos de 1975, que estavam marcados para acontecer em S\u00e3o Paulo, tiveram que ser transferidos para a Cidade do M\u00e9xico. Hospitais, como o Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas, ficaram superlotados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A que viria a ser a maior epidemia de meningite da hist\u00f3ria do Brasil teve in\u00edcio em 1971, no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo. Logo, a popula\u00e7\u00e3o mais carente come\u00e7ou a se queixar de sintomas cl\u00e1ssicos, como dor de cabe\u00e7a, febre alta e rigidez na nuca. Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagn\u00f3stico ou tratamento.<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"teads-ui-components-credits\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em novembro daquele ano, o que parecia ser um surto restrito a uma determinada localidade logo se alastrou e, aos poucos, ganhou propor\u00e7\u00f5es epid\u00eamicas. Dali, n\u00e3o parou mais.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/99EE\/production\/_105860493_gettyimages-155136466.jpg\" alt=\"Placa com cultura de bact\u00e9rias\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Meningites causadas por bact\u00e9rias, como a meningoc\u00f3cica, est\u00e3o entre as formas mais grave da doe\u00e7a<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu \u00e1pice. A propor\u00e7\u00e3o era de 200 casos por 100 mil habitantes. Algo semelhante s\u00f3 se via no &#8220;Cintur\u00e3o Africano da Meningite&#8221;, \u00e1rea que hoje compreende 26 pa\u00edses e se estende do Senegal at\u00e9 a Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das regi\u00f5es mais carentes, a epidemia migrou para os bairros mais nobres. At\u00e9 julho daquele ano, um \u00fanico hospital em S\u00e3o Paulo atendia pacientes com meningite. O Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas tinha 300 leitos dispon\u00edveis, mas chegou a internar 1,2 mil pacientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o houve quarentena porque o per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o da meningite \u00e9 muito curto&#8221;, explica a epidemiologista Rita Barradas Barata, doutora em Medicina Preventiva pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e professora da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Santa Casa. Na \u00e9poca, Rita trabalhava como aluna do internato em medicina no Em\u00edlio Ribas. &#8220;O atendimento foi al\u00e9m de sua capacidade m\u00e1xima. Trabalh\u00e1vamos muitas horas por dia&#8221;, recorda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De agosto em diante, outras 26 unidades passaram a fazer parte de uma rede de atendimento a pacientes com sintomas de meningite. &#8220;Depois de um ou dois dias recebendo tratamento injet\u00e1vel, os casos mais leves eram transferidos para outras unidades, onde recebiam a medica\u00e7\u00e3o oral. J\u00e1 os pacientes mais graves permaneciam no Em\u00edlio Ribas&#8221;, complementa a m\u00e9dica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Atentados, passeatas e epidemias eram assuntos vetados na imprensa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 ent\u00e3o, uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o, quase nula, sabia da exist\u00eancia da epidemia. O governo procurou escond\u00ea-la ao m\u00e1ximo, segundo explica quem acompanhou o caso de perto.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/511A\/production\/_104026702_996fe054-742a-430e-bd32-89f92a02a6e8.jpg\" alt=\"Policial na ditadura\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A ditadura procurou esconder ao m\u00e1ximo epidemia de meningite<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Assim que surgiu, foi tratada como uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional, e os meios de comunica\u00e7\u00e3o proibidos de falar sobre a doen\u00e7a&#8221;, afirma a jornalista Catarina Schneider, mestre em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autora da tese A Constru\u00e7\u00e3o Discursiva dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo sobre a Epidemia de Meningite na Ditadura Militar Brasileira (1971-1975). &#8220;Essa tentativa de silenciamento impediu que a\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e adequadas fossem tomadas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os anos da ditadura, alguns temas foram proibidos de serem divulgados &#8211; atrav\u00e9s de not\u00edcias, entrevistas ou coment\u00e1rios &#8211; em jornais e revistas, r\u00e1dios e TVs. A epidemia de meningite que castigou o Brasil na primeira metade da d\u00e9cada de 1970 foi um deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob o pretexto de n\u00e3o causar p\u00e2nico na popula\u00e7\u00e3o, a censura proibiu toda e qualquer reportagem que julgasse &#8220;alarmista&#8221; ou &#8220;tendenciosa&#8221;, sobre a mol\u00e9stia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1971, quando foram registrados os primeiros casos, o epidemiologista Jos\u00e9 C\u00e1ssio de Moraes, doutor em Sa\u00fade P\u00fablica pela USP e professor da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Santa Casa, integrava uma comiss\u00e3o de m\u00e9dicos de diferentes \u00e1reas, como epidemiologistas, infectologistas e sanitaristas. Juntos, detectaram um surto da doen\u00e7a e procuraram alertar as autoridades. N\u00e3o conseguiram. Em tempos de &#8216;milagre econ\u00f4mico&#8217;, o governo se recusou a admitir a exist\u00eancia de uma epidemia. &#8220;Os militares proibiram a divulga\u00e7\u00e3o de dados. Pensavam que conseguiriam deter a epidemia por decreto. Se eu n\u00e3o divulgo, \u00e9 como se n\u00e3o existisse. N\u00e3o sabiam que o v\u00edrus era analfabeto e n\u00e3o sabia ler Di\u00e1rio Oficial&#8221;, ironiza o m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dali por diante, m\u00e9dicos de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas foram proibidos de conceder entrevistas \u00e0 imprensa. O jeito era dar declara\u00e7\u00f5es em &#8220;off&#8221; para jornalistas de confian\u00e7a, como Dem\u00f3crito Moura, do Jornal da Tarde. Mesmo assim, as poucas mat\u00e9rias publicadas, alertando a popula\u00e7\u00e3o dos riscos da meningite, eram desmentidas pelas autoridades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ao governo n\u00e3o interessava a divulga\u00e7\u00e3o de not\u00edcias negativas. Negar a exist\u00eancia da epidemia foi um erro porque facilitou sua propaga\u00e7\u00e3o e atrasou a ado\u00e7\u00e3o de medidas necess\u00e1rias ao seu combate. Numa situa\u00e7\u00e3o dessas, quanto mais rapidamente essas medidas forem adotadas, menores ser\u00e3o as perdas de vidas e os danos \u00e0 economia&#8221;, afirma o historiador Carlos Fidelis Ponte, mestre em Sa\u00fade P\u00fablica pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10D1A\/production\/_97009886_vacinafiocruz.jpg\" alt=\"Vacina\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Em 1975, o Brasil deu in\u00edcio \u00e0 Campanha Nacional de Vacina\u00e7\u00e3o Contra a Meningite Meningoc\u00f3cica<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Medo<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, quando a verdade veio \u00e0 tona, pelo menos sete Estados totalizavam 67 mil casos &#8211; 40 mil deles s\u00f3 em S\u00e3o Paulo. A popula\u00e7\u00e3o, quando soube da epidemia, entrou em p\u00e2nico. Com medo da propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, as pessoas evitavam passar na frente do Em\u00edlio Ribas. De dentro de carros e \u00f4nibus, fechavam suas janelas. Na falta de rem\u00e9dios e de vacinas, recorriam a panaceias milagrosas, como a c\u00e2nfora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia rede social, mas j\u00e1 existiam &#8216;fake news&#8217;. A boataria atrapalhou bastante&#8221;, recorda Jos\u00e9 C\u00e1ssio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo suspendeu as aulas e mandou os estudantes de volta para casa. Quando era registrado algum caso nas depend\u00eancias das escolas, as autoridades sanit\u00e1rias passavam formol nas mesas e carteiras. Em algumas cidades, as escolas p\u00fablicas foram transformadas em hospitais de campanha para atender os doentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos hospitais, a epidemia sobrecarregou especialistas em doen\u00e7as infecciosas. M\u00e9dicos de outras \u00e1reas, para evitar a contamina\u00e7\u00e3o, usavam capacetes, \u00f3culos e botas. Outros, ao contr\u00e1rio, atendiam pacientes sem qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o. Um terceiro grupo preferiu mudar para o interior, com suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das primeiras medidas foi prescrever sulfa. Na esperan\u00e7a de deter o avan\u00e7o da epidemia, a popula\u00e7\u00e3o passou a tomar o antibi\u00f3tico por conta pr\u00f3pria. &#8220;O estoque acabou rapidamente e a bact\u00e9ria ficou resistente&#8221;, recorda Jos\u00e9 C\u00e1ssio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os dias, a comiss\u00e3o m\u00e9dica da qual o m\u00e9dico fazia parte procurava atualizar os n\u00fameros e divulg\u00e1-los no quadro de avisos do Pal\u00e1cio da Sa\u00fade, onde funcionava a Secretaria de Sa\u00fade do Estado de S\u00e3o Paulo. Os setoristas da \u00e1rea at\u00e9 tinham acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o podiam divulg\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os n\u00fameros de casos e de \u00f3bitos s\u00e3o contradit\u00f3rios. O estudo A Doen\u00e7a Meningoc\u00f3cica em S\u00e3o Paulo no S\u00e9culo XX: Caracter\u00edsticas Epidemiol\u00f3gicas, de autoria de Jos\u00e9 C\u00e1ssio de Moraes e Rita Barradas Barata, calcula que, no per\u00edodo epid\u00eamico, que durou de 1971 a 1976, foram registrados 19,9 mil casos da doen\u00e7a e 1,6 mil \u00f3bitos. J\u00e1 a edi\u00e7\u00e3o de 30 de dezembro de 1974 do jornal O Globo divulgou que, s\u00f3 naquele ano, a epidemia deixou um saldo de 111 mortos no Rio Grande do Sul, 304 no Rio de Janeiro e 2,5 mil em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Minist\u00e9rio censurado<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em mar\u00e7o de 1974, o general Ernesto Geisel assumiu a Presid\u00eancia no lugar do general M\u00e9dici. Para ministro da Sa\u00fade, ele nomeou o m\u00e9dico sanitarista Paulo de Almeida Machado.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DD76\/production\/_111449665_ernestogeisel.jpg\" alt=\"Ernesto Geisel\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Em mar\u00e7o de 1974, o general Ernesto Geisel assumiu a Presid\u00eancia no lugar do general M\u00e9dici; textos da imprensa eram censurados<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele ano, a jornalista Eliane Cantanh\u00eade, ent\u00e3o na revista Veja, conseguiu uma exclusiva com o ministro, em Bras\u00edlia. Pela primeira vez, uma autoridade admitia publicamente que o Brasil vivia uma epidemia. Mais que isso. Ele alertou sobre os riscos da meningite e ensinou medidas de higiene \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta \u00e0 reda\u00e7\u00e3o, Cantanh\u00eade come\u00e7ou a bater a mat\u00e9ria e a envi\u00e1-la, via telex, para a sede da Veja, em S\u00e3o Paulo. Dali a pouco, ficou sabendo que a entrevista tinha sido censurada. Motivo? &#8220;N\u00e3o havia vacina para todo mundo&#8221;, explica Eliane. &#8220;As pessoas n\u00e3o sabiam o que era meningite. Muitas delas morriam e, por falta de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sabiam do qu\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 26 de julho de 1974, o jornalista Cl\u00f3vis Rossi tamb\u00e9m teve um de seus textos censurados. No espa\u00e7o reservado ao artigo A Epidemia do Sil\u00eancio, a dire\u00e7\u00e3o da Folha de S. Paulo se viu obrigada a publicar um trecho do poema Os Lus\u00edadas, de Lu\u00eds de Cam\u00f5es. &#8220;Desde que, h\u00e1 dois anos, come\u00e7aram a aumentar em ritmo alarmante os casos de meningite em S\u00e3o Paulo, as autoridades cuidaram de ocultar fatos, negar informa\u00e7\u00f5es e reduzir os n\u00fameros a propor\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com a realidade&#8221;, alertou Rossi no artigo censurado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele mesmo ano, o governo brasileiro assinou um acordo com o Instituto Pasteur M\u00e9rieux e importou em torno de 80 milh\u00f5es de doses da vacina contra meningite. &#8220;O laborat\u00f3rio franc\u00eas precisou construir uma nova f\u00e1brica porque a que existia n\u00e3o comportava uma produ\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande&#8221;, relata o historiador Carlos Fidelis. &#8220;Foi a partir dessa emerg\u00eancia que se criou, na Fiocruz, a f\u00e1brica de f\u00e1rmacos, a Farmanguinhos, e a de vacinas, a Bio-Manguinhos&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Vacina\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1975, o Brasil deu in\u00edcio \u00e0 Campanha Nacional de Vacina\u00e7\u00e3o Contra a Meningite Meningoc\u00f3cica (Camem). Foi quando, para estimular a ida em massa da popula\u00e7\u00e3o aos postos de sa\u00fade, o governo passou a divulgar os n\u00fameros da doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A letalidade da meningite \u00e9 de 10%, mas, no auge da epidemia, caiu para 2%&#8221;, afirma Rita Barradas Barata. &#8220;O diagn\u00f3stico era feito de maneira precoce e o tratamento com antibi\u00f3tico reduzia o risco de morte&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em apenas quatro dias, foram aplicadas 9 milh\u00f5es de doses na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Logo, estenderam a campanha para outros munic\u00edpios e estados. A imuniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o era feita com seringa e agulha e, sim, com uma &#8220;pistola&#8221; injetora de vacina. &#8220;Conseguimos uma cobertura vacinal de quase 90% da popula\u00e7\u00e3o&#8221;, orgulha-se Jos\u00e9 C\u00e1ssio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de superlotar hospitais e de fechar escolas, a epidemia de meningite teria causado outros &#8220;estragos&#8221;. Um deles \u00e9 a transfer\u00eancia dos Jogos Pan-Americanos de 1975, da cidade de S\u00e3o Paulo para a do M\u00e9xico. Bem, pelo menos essa \u00e9 a vers\u00e3o oficial. A extraoficial \u00e9 contada pelo advogado Alberto Murray Neto. &#8220;Em 1975, o n\u00famero de casos j\u00e1 tinha reduzido e o que se dizia \u00e9 que a epidemia estava controlada. Em tese, a meningite n\u00e3o seria um impeditivo para os Jogos&#8221;, revela Alberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu av\u00f4, Sylvio de Magalh\u00e3es Padilha, era o ent\u00e3o presidente do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Brasileiro (COB) e vice do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional (COI). Durante reuni\u00e3o em Bras\u00edlia, foi avisado pelo ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Ney Braga, que n\u00e3o teria recursos do governo federal para os Jogos. Em suma: o Pan deveria ser cancelado, a tr\u00eas meses de sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Meu av\u00f4 cancelou os Jogos, sem esconder que a quest\u00e3o crucial era o corte de verbas&#8221;, relata Alberto. Os Jogos Pan-Americanos de 1975 deixaram para a cidade o vel\u00f3dromo, a raia ol\u00edmpica e o Centro de Pr\u00e1ticas Esportivas da USP (CEPEUSP)&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption body-width\"><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 Bernardo Brasil durante ditadura militar, quando houve a mais grave epidemia de meningite de sua hist\u00f3ria Aulas suspensas e eventos esportivos transferidos, algumas das consequ\u00eancias da atual pandemia do novo coronav\u00edrus, j\u00e1 marcaram a hist\u00f3ria recente do Brasil, por conta de outra doen\u00e7a: a meningite. 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