{"id":315658,"date":"2020-04-11T07:07:48","date_gmt":"2020-04-11T10:07:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=315658"},"modified":"2020-04-12T10:03:53","modified_gmt":"2020-04-12T13:03:53","slug":"pandemias-do-passado-velhas-quarentenas-e-novos-ensinamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/pandemias-do-passado-velhas-quarentenas-e-novos-ensinamentos\/","title":{"rendered":"Pandemias do passado, velhas quarentenas e novos ensinamentos"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">Ana Mar\u00eda Carrillo Farga, historiadora da Medicina, revisita antigos cont\u00e1gios mundiais e como os pa\u00edses se organizaram para combat\u00ea-los e us\u00e1-los a seu favor<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art | \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/zxasXC1qpQjY0n2gZXEJsGAdDm8=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/S2W3LGEY45B5HOU6IMRDYBPSEQ.jpg\" alt=\"Enfermeiras da Cruz Vermelha transportam v\u00edtima da gripe de 1918 em Sant Louis (Missouri).\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Enfermeiras da Cruz Vermelha transportam v\u00edtima da gripe de 1918 em Sant Louis (Missouri).<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">ST. LOUIS POST-DISPATCH \/ TNS VIA GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex justify_space_between relative\">\n<div class=\"flex container_row social-icons horizontal \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Carmen Mor\u00e1n Bre\u00f1a\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/carmen-moran-brena\/\">CARMEN MOR\u00c1N BRE\u00d1A<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">\u00a0<\/section>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As doen\u00e7as existem desde que o mundo \u00e9 mundo, mas as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/epidemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">epidemias<\/a>, como a que vivemos atualmente, ou algo parecido, ocorrem em popula\u00e7\u00f5es que passam certo tempo sob circunst\u00e2ncias anormais, por exemplo, sob o desgaste de uma guerra, quando os campos deixam de ser cultivados e a fome se espalha. Mas e agora, por que as andan\u00e7as do coronav\u00edrus\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-04-08\/wuhan-da-adeus-ao-seu-bloqueio-mas-confinamento-ainda-segue-parcialmente.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">em uma cidade do Oriente<\/a>\u00a0ocasionou tamanha letalidade mundo afora? Quando foram inventadas as quarentenas? Os Governos se aproveitam das pandemias? Quais s\u00e3o os bodes expiat\u00f3rios? O medo \u00e9 manipulado? Ana Mar\u00eda Carrillo Farga \u00e9 historiadora da Medicina, especialista em pandemias e professora do departamento de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (UNAM). Conversar com ela \u00e9 como participar de um jogo de perguntas e respostas sobre a hist\u00f3ria da ci\u00eancia.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Os dias no deserto<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Quem acha que vivemos algo excepcional atualmente deveria saber que as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/cuarentena\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">quarentenas<\/a>\u00a0existem desde a \u00e9poca dos Estados venezianos do s\u00e9culo XIV. Na \u00e9poca se desconhecia o per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as (e muitas outras coisas de car\u00e1ter cient\u00edfico e sanit\u00e1rio), de modo que se estabeleceu um isolamento arbitr\u00e1rio de 40 dias, um n\u00famero b\u00edblico, de fato, os que Jesus Cristo passou na sua travessia espiritual pelo deserto. A peste era o dem\u00f4nio da \u00e9poca. As quarentenas n\u00e3o s\u00f3 isolavam ao doente do saud\u00e1vel como tamb\u00e9m impediam o desembarque de navios que chegassem ao porto, e mesmo assim a popula\u00e7\u00e3o se contagiava misteriosamente\u2026 S\u00f3 no final do s\u00e9culo XIX, com o desenvolvimento da bacteriologia (os v\u00edrus ainda eram pequenos demais para serem detectados com a tecnologia dispon\u00edvel), o campo do conhecimento saltou da B\u00edblia para a ci\u00eancia.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia da globaliza\u00e7\u00e3o: duas teorias<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Marinheiros e exploradores estenderam os limites do mundo e levaram o com\u00e9rcio al\u00e9m dos estreitos horizontes ent\u00e3o vislumbrados. As epidemias naquele tempo eram uma ferramenta de conquista \u2015por exemplo, a var\u00edola no processo de coloniza\u00e7\u00e3o da Mesoam\u00e9rica. E tiveram um papel determinante na dr\u00e1stica queda da popula\u00e7\u00e3o ocorrida nos s\u00e9culos XVI e XVII. Mas quando n\u00e3o foram \u00fateis, buscou-se uma forma de combat\u00ea-las. No final do s\u00e9culo XVIII havia duas posi\u00e7\u00f5es a respeito, duas escolas: uns acreditavam na teoria do cont\u00e1gio entre pessoas e defendiam o isolamento (chamado com raz\u00e3o de sequestro). Estes eram os conservadores, os que n\u00e3o queriam mexer em nada, s\u00f3 controlar. Os espanh\u00f3is eram destes, para proteger o com\u00e9rcio das suas col\u00f4nias.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No outro grupo estavam os que defendiam a teoria miasm\u00e1tica, os ingleses entre eles. Acreditavam que os corpos em decomposi\u00e7\u00e3o, o lixo e as \u00e1guas residuais emanavam efl\u00favios que adoeciam a popula\u00e7\u00e3o ao serem inalados. Estes se inclinavam pelo saneamento das cidades e pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es trabalhistas e dom\u00e9sticas como medidas mais eficazes para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/salud-publica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">sa\u00fade p\u00fablica<\/a>. Ambos tinham parte da raz\u00e3o; os segundos, se n\u00e3o na causa, pelo menos a respeito das consequ\u00eancias de viver em cidades insalubres. Mas algo continuava escapando ao entendimento: se a tripula\u00e7\u00e3o de um navio permanece isolada e n\u00e3o h\u00e1 contato entre pessoas nem circunst\u00e2ncias ambientais, por que a popula\u00e7\u00e3o em terra acabava se contagiando? Faltava um terceiro elemento: os vetores, geralmente insetos, mosquitos, pulgas\u2026<\/p>\n<div id=\"\" class=\"a_i | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Uma estrat\u00e9gia internacional<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A sa\u00fade come\u00e7ou oficialmente a ser um assunto de todos em 1851, na primeira reuni\u00e3o internacional sobre ela realizada em Paris, ainda com uma apar\u00eancia muito europeia. Em 1881 o evento ocorreu em Washington. \u201cAs primeiras conven\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias buscavam proteger os pa\u00edses e regi\u00f5es da chegada de epidemias, mas tratando de interferir o m\u00ednimo poss\u00edvel no livre com\u00e9rcio e no tr\u00e2nsito de pessoas\u201d, diz Ana Mar\u00eda Carrillo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A pauta daqueles encontros tinha outros objetivos secund\u00e1rios, como impulsionar a cria\u00e7\u00e3o de organismos de sa\u00fade nos Governos de cada pa\u00eds ou insistir em que, em caso de pandemia, o conveniente era informar com transpar\u00eancia \u00e0 comunidade internacional, assim como a pertin\u00eancia do saneamento de portos e cidades. Preocupavam especialmente naqueles anos o c\u00f3lera e a peste, que causavam estragos desde meados do s\u00e9culo XIX e que foram o estopim destas c\u00fapulas sanit\u00e1rias. Depois seria a febre amarela.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As duas Guerras Mundiais deixaram seus respectivos avan\u00e7os neste campo. Depois da Primeira, criou-se a Liga das Na\u00e7\u00f5es, com sua respectiva \u00e1rea sanit\u00e1ria, e em 1948 surgiu a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/oms-organizacion-mundial-salud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)<\/a>. M\u00e9xico, Estados Unidos, Guatemala, Costa Rica e Uruguai j\u00e1 tinham fundado em 1902 a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPAS) que, com o tempo, se tornaria uma filial da OMS. Todos estes organismos procuram respostas coordenadas em tempos de pandemia. Em 1969 foi redigido um primeiro regulamento sanit\u00e1rio internacional que insistia na n\u00e3o interrup\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito de pessoas de forma radical. \u201c\u00c9 semelhante ao que faz o M\u00e9xico hoje em dia. Aquele documento dizia que parar o com\u00e9rcio n\u00e3o det\u00e9m as epidemias\u201d, afirma Carrillo.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">O peso do com\u00e9rcio<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O equil\u00edbrio entre a prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e a estabilidade econ\u00f4mica,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2020-04-08\/interior-de-sao-paulo-relaxa-quarentena-e-acelera-contagios-13-polos-podem-espalhar-coronavirus-em-efeito-cascata.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">buscado de forma t\u00e3o desesperada<\/a>\u00a0por muitos pa\u00edses atualmente, tem s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o. Naquelas reuni\u00f5es internacionais de sanitaristas e higienistas do s\u00e9culo XIX tinham muito peso as interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e empresariais, a diplomacia comercial. \u201cOs comerciantes sempre tratavam de ocultar as epidemias, e os Governos tamb\u00e9m preferiam evitar certo p\u00e2nico, assim que os alarmes chegavam tarde para o controle efetivo da doen\u00e7a, que se espalhava cada vez mais. Foi preciso convenc\u00ea-los de que a transpar\u00eancia ajudava o controle e, portanto, a economia.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O com\u00e9rcio j\u00e1 estava globalizado, e a Am\u00e9rica Latina e o Caribe se incorporavam a esse neg\u00f3cio internacional quando se atravessava a segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial. O M\u00e9xico, por sua vez, come\u00e7a um interc\u00e2mbio de mercadorias muito desigual, mas intenso, com os Estados Unidos. Como nos tempos da conquista espanhola, as epidemias tamb\u00e9m se transformaram nesse per\u00edodo em uma ferramenta, neste caso de controle comercial, para fechar fronteiras e estigmatizar certos pa\u00edses. \u201cO Texas mantinha o M\u00e9xico sob quarentena permanente para atrapalhar o com\u00e9rcio, enquanto os Estados Unidos olhavam para o outro lado argumentando que cada um de seus Estados era soberano\u201d, conta a professora da UNAM.<\/p>\n<figure class=\"a_i | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/ofgFwHZhiBnYTkes5Wz1JiHImKs=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/CF2UJLAC3VE6FCPGUOUDG2VMOI.jpg\" alt=\"Um grupo de volunt\u00e1rias da Cruz Vermelha durante a gripe espanhola em 1918.\" \/><figcaption class=\"a_i_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Um grupo de volunt\u00e1rias da Cruz Vermelha durante a gripe espanhola em 1918.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">O v\u00edrus como estilingue<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica cl\u00e1ssica da OMS condena que pa\u00edses sejam estigmatizados por serem identificados como a origem de uma pandemia. Recrimina, assim, denomina\u00e7\u00f5es como c\u00f3lera asi\u00e1tica, v\u00edrus chin\u00eas, gripe mexicana,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-03-16\/em-1918-gripe-espanhola-espalhou-morte-e-panico-e-gerou-a-semente-do-sus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">gripe espanhola<\/a>\u2026 H\u00e1 duas boas raz\u00f5es para isso. A primeira \u00e9 que os v\u00edrus n\u00e3o s\u00e3o de ningu\u00e9m, pois \u201c\u00e9 dif\u00edcil determinar onde come\u00e7a uma pandemia e possivelmente onde acaba\u201d. Em segundo lugar, apontar um povo como o causador da desgra\u00e7a n\u00e3o contribui para sua erradica\u00e7\u00e3o, porque \u201cse algu\u00e9m se sente marcado ou perseguido se esconder\u00e1, certo? E isso impede um melhor controle e um freio na transmiss\u00e3o da doen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Mas os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/derechos-humanos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">direitos humanos<\/a>\u00a0n\u00e3o costumam estar em primeiro lugar na pauta, e poucos resistiram a utilizar as pandemias em benef\u00edcio pr\u00f3prio. O M\u00e9xico, por exemplo, tem uma triste historia de discrimina\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o chinesa em seu territ\u00f3rio, que n\u00e3o s\u00f3 contribuiu para a constru\u00e7\u00e3o de ferrovias e outras obras p\u00fablicas como tamb\u00e9m se integrou plenamente e se transformou em uma comunidade pr\u00f3spera dentro do pa\u00eds. Eis a\u00ed o pecado. \u201cSempre foram acusados de transmitir doen\u00e7as. Inclusive a cor da sua pele acabou sendo associada \u00e0 febre amarela, quando [o nome da doen\u00e7a] s\u00f3 tinha a ver com a icter\u00edcia que causa\u201d. Tamb\u00e9m se atribu\u00eda a eles a peste que o M\u00e9xico sofreu em 1092\/1903, quando esse grupo \u00e9tnico se mostrou imune.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o nome atribu\u00eddo \u00e0 mort\u00edfera gripe espanhola escondia certos interesses. \u201cTratava-se de evitar que o p\u00e2nico se espalhasse entre as tropas [na Primeira Guerra Mundial], assim era muito mais simples circunscrev\u00ea-la \u00e0 Espanha, ausente na luta\u201d. Sempre houve bodes expiat\u00f3rios \u2015os gays no caso do HIV, ou as prostitutas em tempos de s\u00edfilis. O H1N1 que circulou pelo M\u00e9xico em 2009 foi fatal para o com\u00e9rcio da carne su\u00edna no pa\u00eds, que precisou de exibi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas dos pol\u00edticos comendo tacos para esconjurar os temores.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Manipular o medo<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Esta pandemia que o mundo atravessa atualmente viaja de avi\u00e3o, o que se reflete num primeiro cont\u00e1gio entre pessoas ricas e uma segunda fase de cont\u00e1gio local que cedo ou tarde afetar\u00e1 em maior medida os mais pobres, como todas. \u201cNem sempre as pandemias t\u00eam sua origem nas classes superiores para passar depois \u00e0s mais desfavorecidas. Houve um tempo em que chegavam de ferrovia ou de navio com o deslocamento da classe oper\u00e1ria, os migrantes\u201d. Por suas condi\u00e7\u00f5es de vida e profissionais, os pobres sempre acabam sofrendo mais cont\u00e1gios e ficam em pior situa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 cura. E isso os torna bodes expiat\u00f3rios como os que vimos anteriormente, porque a origem e a propaga\u00e7\u00e3o da epidemia acabam sendo atribu\u00eddas a ele. Isto tamb\u00e9m se deve a interesses. Ana Mar\u00eda Carrillo cita o exemplo do M\u00e9xico. \u201cNo final do s\u00e9culo XIX ocorreu a chamada peste cinza, transmitida por um piolho, e, embora houvesse infectados de todas as classes, manipulou-se o medo contra os pobres, que certamente foram mais afetados. Conseguiu-se expuls\u00e1-los do centro de v\u00e1rias cidades e se estabeleceram col\u00f4nias [bairros] de ricos, como as hoje famosas e acomodadas col\u00f4nias Condesa e Roma, na Cidade do M\u00e9xico, enquanto as classes baixas foram deslocadas para a periferia.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As pandemias s\u00e3o muito eficazes tamb\u00e9m para direcionar ou controlar o com\u00e9rcio. A professora Carrillo v\u00ea com receio a \u201cinsist\u00eancia atual em criminalizar os chineses\u201d, que circulou n\u00e3o s\u00f3 nas redes sociais com humor mais ou menos \u00e1cido, mas tamb\u00e9m pela boca de l\u00edderes pol\u00edticos como Donald Trump, em cujos discursos n\u00e3o deixava de citar\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-01-21\/novo-virus-chines-tem-contaminacao-entre-humanos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o \u201cv\u00edrus chin\u00eas\u201d.<\/a>\u00a0A insist\u00eancia com a China, opina a professora, teria neste caso a ver \u201ccom a expans\u00e3o do com\u00e9rcio nesse pa\u00eds, muito poderoso nos \u00faltimos anos. N\u00e3o me atrevo a apontar a origem da pandemia, mas vejo press\u00f5es comerciais na denomina\u00e7\u00e3o que lhe foi dada. Historicamente, as pandemias foram usadas para frear com\u00e9rcios florescentes. Os Estados Unidos j\u00e1 tinham feito isso com a febre amarela, por exemplo\u201d.<\/p>\n<figure class=\"a_i | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/pg6cZUShPlb6L4wvth8J3u20p5U=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/SYG6X3SYXBGCLGPBO25IF74PYE.aspx\" alt=\"Trabalhadores de sa\u00fade chineses da prov\u00edncia de Shandong participam de uma cerim\u00f4nia antes de deixar Wuhan.\" \/><figcaption class=\"a_i_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Trabalhadores de sa\u00fade chineses da prov\u00edncia de Shandong participam de uma cerim\u00f4nia antes de deixar Wuhan.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">ROMAN PILIPEY \/ EFE<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Ensinamentos para o futuro<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Dizia-se no princ\u00edpio deste artigo que as epidemias surgem quando uma sociedade est\u00e1 passando por um mau momento \u2015fome, guerras, fragilidade ou tudo junto. Mas o que est\u00e1 acontecendo agora para que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/covid-19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Covid-19<\/a>\u00a0esteja ceifando uma popula\u00e7\u00e3o aparentemente s\u00e3 e em perfeito desenvolvimento? A professora Carrillo se soma aos que opinam que \u201co neoliberalismo pol\u00edtico\u201d teve muito a ver com a transmiss\u00e3o e expans\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cPor um lado, as sociedades est\u00e3o mais empobrecidas devido \u00e0s crises econ\u00f4micas recentes, e isso \u00e9 um caldo de cultivo para os cont\u00e1gios, como diz\u00edamos. Em segundo lugar, os sistemas sanit\u00e1rios p\u00fablicos sofreram com estas pol\u00edticas durante muito tempo, foram privatizados, tiveram recursos cortados.\u201d S\u00e3o fatores que n\u00e3o deixam de ser recordados nos pa\u00edses europeus e que alimentam a disputa pol\u00edtica nas \u00faltimas semanas. Al\u00e9m disso, leva-se em conta que haver\u00e1 os mesmos cont\u00e1gios em quase todos os pa\u00edses, e o que estes fazem ent\u00e3o \u00e9 tratar de que seus hospitais, t\u00e3o carentes de recursos, n\u00e3o fiquem sobrecarregados.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Carrillo Farga cita em terceiro lugar as comorbidades que se destacam como um fator de risco acrescentado na letalidade do v\u00edrus. Todas essas doen\u00e7as que agravam o risco de morrer de Covid-19 est\u00e3o relacionadas com um mundo onde as classes pobres, sobretudo, foram perdendo a dieta tradicional para se integrar ao mercado das calorias vazias, dos refrigerantes borbulhantes no caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e jantar. Obesidade, diabetes e hipertens\u00e3o ser\u00e3o a gota d\u2019\u00e1gua para muitos destes doentes que sucumbiram a necessidades geradas antes que o produto lhes fosse oferecido. \u201cAcho que esta pandemia resultar\u00e1 em uma melhora dos sistemas sanit\u00e1rios p\u00fablicos. O ensinamento que deixar\u00e1 ser\u00e1 que \u00e9 preciso refor\u00e7ar os Estados nos recursos e servi\u00e7os para a sa\u00fade p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Mar\u00eda Carrillo Farga, historiadora da Medicina, revisita antigos cont\u00e1gios mundiais e como os pa\u00edses se organizaram para combat\u00ea-los e us\u00e1-los a seu favor<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":315659,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-315658","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/gripe-espanhola-ambulancia.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=315658"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315658\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/315659"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=315658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=315658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=315658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}