{"id":317605,"date":"2020-05-01T10:04:22","date_gmt":"2020-05-01T13:04:22","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=317605"},"modified":"2020-05-01T10:04:22","modified_gmt":"2020-05-01T13:04:22","slug":"coronavirus-no-maranhao-casos-de-covid-19-se-multiplicam-e-pobreza-dificulta-combate-a-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/coronavirus-no-maranhao-casos-de-covid-19-se-multiplicam-e-pobreza-dificulta-combate-a-doenca\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus no Maranh\u00e3o: casos de covid-19 se multiplicam e pobreza dificulta combate \u00e0 doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><strong><span class=\"byline__name\">Ligia Guimar\u00e3es\u00a0<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/18349\/production\/_112054199_edson1.jpg\" alt=\"Cartaz em papel\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Feirante Edson colocou recado para garantir prote\u00e7\u00e3o a ele e aos clientes na feira de F\u00e1tima<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">O maranhense Edson Pinheiro dos Reis, 51 anos, trabalha todos os dias h\u00e1 mais de 30 anos na feira do bairro de F\u00e1tima, pr\u00f3ximo ao centro de S\u00e3o Lu\u00eds (MA), onde vende carnes no a\u00e7ougue que funciona em uma das 100 bancas no local. Por ali, em tempos mais normais, estima-se que circulam em m\u00e9dia 5 mil pessoas por dia.<\/p>\n<p>Mas, nas \u00faltimas semanas, apesar de amar o trabalho que faz, Edson diz que preferia n\u00e3o ir. Est\u00e1 assustado desde que soube que dois colegas de feira j\u00e1 morreram infectados pela\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/clmq8rgyyvjt\">covid-19<\/a>, doen\u00e7a que j\u00e1 matou mais de 5.901 pessoas no pa\u00eds e 166 s\u00f3 no Maranh\u00e3o. Se n\u00e3o tirasse da feira todo o sustento da sua fam\u00edlia, diz Edson, optaria por ficar isolado em casa, onde vive com a mulher e duas filhas.<\/p>\n<p>Passou a usar m\u00e1scara, luvas e a lavar as m\u00e3os muitas vezes por dia. At\u00e9 colocou uma plaquinha informando que s\u00f3 atende quem estiver de m\u00e1scara. Mas diz que, ainda assim, se sente inseguro. &#8220;Vou porque preciso, mas vou morrendo de medo&#8221;.<\/p>\n<p>Em Coroadinho, polo de comunidades com popula\u00e7\u00e3o estimada entre 59 mil e 100 mil habitantes e considerado uma das maiores favelas do pa\u00eds, a pedagoga Christiane Teixeira Mendes sente o &#8220;cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado&#8221; desde que precisou, h\u00e1 cerca de um m\u00eas, explicar aos alunos da escola e projeto social que ela mesma fundou que n\u00e3o podia mais abra\u00e7\u00e1-los, por tempo indeterminado. No bairro de Coroadinho, j\u00e1 foram confirmados 36 casos de pessoas infectadas pelo novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Morando com a m\u00e3e diab\u00e9tica de 60 anos, o irm\u00e3o asm\u00e1tico, a irm\u00e3 e o cunhado, Christiane, 36 anos, tem se desdobrado para arrecadar e distribuir doa\u00e7\u00f5es de cestas b\u00e1sicas pelo bairro, j\u00e1 que sabe que muitos dos seus alunos dependiam da merenda escolar para se alimentar. &#8220;D\u00f3i n\u00e3o poder abra\u00e7ar meus alunos. Expliquei que estamos passando por um problema muito s\u00e9rio e que a gente s\u00f3 pode bater o cotovelo. Para eles entenderem na cabecinha deles que a tia continua amando eles de cora\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Marcos Adriano Garcia Campos, 25 anos, antecipou de maio para abril sua formatura em medicina pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o para refor\u00e7ar o atendimento durante a pandemia. Desde ent\u00e3o o m\u00e9dico, que cresceu e mora at\u00e9 hoje em Coroadinho, trabalha em dois postos de atendimento na Vila Luiz\u00e3o e outro na Liberdade, bairros da periferia onde j\u00e1 h\u00e1, respectivamente, 105 e 46 casos confirmados de covid-19.<\/p>\n<p>&#8220;Nesses bairros mais vulner\u00e1veis, a quest\u00e3o econ\u00f4mica tem sido muito sentida. \u00c0s vezes a gente prescreve um medicamento e o paciente diz que n\u00e3o tem dinheiro para comprar porque aquele dinheiro vai ser usado para comprar comida, e n\u00e3o rem\u00e9dio&#8221;.<\/p>\n<p>Os relatos acima s\u00e3o exemplos de como, na periferia de S\u00e3o Lu\u00eds e de outras capitais pelo pa\u00eds, a pobreza e as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias em que vive a popula\u00e7\u00e3o t\u00eam atrapalhado bastante as estrat\u00e9gias de combate ao novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>No Maranh\u00e3o, em que vivem 6,8 milh\u00f5es de habitantes, as dificuldades s\u00e3o ainda mais gritantes: \u00e9 o Estado do Brasil com a maior propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o vivendo em situa\u00e7\u00e3o de\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/e21003da-2b5c-443f-9d1f-1ca9d4f88557\">pobreza<\/a>, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>54,1% dos maranhenses vivem com menos de R$ 406 por m\u00eas; al\u00e9m disso, mais de 81% n\u00e3o t\u00eam acesso a saneamento b\u00e1sico adequado, contra a m\u00e9dia nacional de 35,9%. Para 29,2% dos maranhenses, n\u00e3o h\u00e1 abastecimento de \u00e1gua tratada.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F839\/production\/_112054536_chris.jpg\" alt=\"Christiane com m\u00e1scara em frente a laptop em sala\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Christiane suspendeu as aulas do projeto social em Coroadinho, mas arrecada cestas para garantir alimenta\u00e7\u00e3o dos alunos<\/figure>\n<p>Fazer home office tampouco \u00e9 op\u00e7\u00e3o na realidade do Maranh\u00e3o. O Estado tem o maior percentual do pa\u00eds de trabalhadores informais \u2014 s\u00e3o 64,9% dos trabalhadores ocupados, segundo dados de 2018. De acordo com o governo do Estado, s\u00f3 300 mil pessoas t\u00eam plano de sa\u00fade no Maranh\u00e3o, em uma popula\u00e7\u00e3o de quase 7 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Na noite de quinta-feira, a Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o decretou o bloqueio total, ou lockdown, em quatro munic\u00edpios da Regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Lu\u00eds: S\u00e3o Lu\u00eds, S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar, Pa\u00e7o de Lumiar e Raposa. A decis\u00e3o vale pelo prazo de dez dias, a partir do dia 5 de maio, atendendo a uma a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Maranh\u00e3o. Nesse per\u00edodo, ficar\u00e3o suspensas todas as atividades essenciais \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida e da sa\u00fade, com exce\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de alimenta\u00e7\u00e3o, farm\u00e1cias, portos e ind\u00fastrias que trabalham em turnos de 24 horas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Sab\u00edamos que quando chegasse na periferia n\u00e3o ia ter controle&#8217;<\/h2>\n<p>Na \u00faltima semana, desde o dia 23 de abril, o ritmo das mortes no Estado acelerou e passou a crescer em dois d\u00edgitos, registrando mais de dez \u00f3bitos por dia. S\u00f3 na quinta foram 21 mortes.<\/p>\n<p>Acredita-se, no entanto, que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior. Testando apenas os casos graves que demandam interna\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio governo do Estado estima que o n\u00famero de casos seja muito maior do que indicam os dados oficiais.<\/p>\n<p>&#8220;Tem um n\u00famero muito grande de casos subnotificados. A impress\u00e3o que a gente tem \u00e9 de que a cidade inteira est\u00e1 doente. Principalmente nos \u00faltimos 15 dias, quando passamos a ter mais de 150 casos confirmados por dia&#8221;, afirma o secret\u00e1rio de Sa\u00fade do Maranh\u00e3o, Carlos Lula, que relata a grande dificuldade em atender \u00e0 demanda por leitos de UTI, apesar do grande esfor\u00e7o do governo.<\/p>\n<p>&#8220;Por mais que eu abra mais UTIs, eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00e3o de receber 80 novos pacientes por dia. N\u00f3s alugamos um hospital privado inteiro que estava fechado; inauguramos um hospital p\u00fablico que terminamos em um curto espa\u00e7o de tempo. Eu estou alugando mais dois hospitais privados e finalizando a obra de um p\u00fablico&#8221;, conta o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na noite de quinta (30), a secretaria informou que 77,6% dos 161 leitos de UTI da capital e 58,4% dos 351 leitos cl\u00ednicos est\u00e3o ocupados atualmente com casos de covid-19. A ocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegou a 100%, mas o governo corre contra o tempo para abrir novas unidades e evitar que pacientes graves fiquem sem atendimento. Nesse caso, chamado de colapso do sistema hospitalar, o risco \u00e9 de que muitos pacientes morram com falta de ar e dificuldades respirat\u00f3rias, sem acesso a respiradores.<\/p>\n<p>A secretaria informou que, nas estrat\u00e9gias de combate ao novo coronav\u00edrus, realizou a expans\u00e3o de 735 leitos exclusivos \u2014 230 leitos de UTI e 505 leitos cl\u00ednicos \u2014 e ainda seguem em amplia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 prevista, ainda para a pr\u00f3xima semana, a abertura de mais 130 leitos exclusivos na rede estadual de sa\u00fade para a capital, que apresenta uma taxa de ocupa\u00e7\u00e3o hospitalar mais acentuada&#8221;, disse Lula.<\/p>\n<p>Diante da escalada dos casos, o governador Fl\u00e1vio Dino (PCdoB) havia declarado a inten\u00e7\u00e3o de endurecer as regras de circula\u00e7\u00e3o de pessoas na Ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, que inclui os munic\u00edpios de S\u00e3o Lu\u00eds, Pa\u00e7o do Limiar, Raposa e S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Come\u00e7o nas \u00e1reas mais ricas, avan\u00e7o nas mais pobres<\/h2>\n<p>Embora os primeiros casos de coronav\u00edrus do Maranh\u00e3o tenham sido registrados em bairros litor\u00e2neos considerados de elite em S\u00e3o Lu\u00eds, atualmente, dos dez bairros da capital com mais casos de covid-19, quatro s\u00e3o considerados vulner\u00e1veis: t\u00eam baixos \u00edndices de saneamento, baixa renda e altos indicadores de viol\u00eancia. &#8220;E j\u00e1 j\u00e1 eles v\u00e3o estar entre os primeiros, porque eu tenho subnotifica\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>Como vou falar para a pessoa ficar em casa, sabendo que ela mora em um c\u00f4modo com seis ou sete pessoas, dormindo no mesmo colch\u00e3o?&#8230; A gente est\u00e1 sofrendo hoje as consequ\u00eancias de termos falhado enquanto sociedade<\/p>\n<footer>Carlos Lula, secret\u00e1rio de Sa\u00fade do Maranh\u00e3o<\/footer>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>&#8220;A gente sabia que quando chegasse na periferia a gente n\u00e3o ia ter controle sobre a doen\u00e7a. Porque a condi\u00e7\u00e3o de higiene \u00e9 inadequada, a pessoa n\u00e3o vai ficar em casa. N\u00e3o adianta eu pedir para ela ficar em casa, que ela n\u00e3o fica&#8221;, afirma o secret\u00e1rio, que diz que, mesmo medidas de fiscaliza\u00e7\u00e3o policial n\u00e3o t\u00eam surtido o efeito esperado. Nas periferias, o com\u00e9rcio reabre assim que a &#8220;batida&#8221; se afasta.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio defende que, no combate ao coronav\u00edrus no Brasil, \u00e9 preciso ponderar e discutir como lidar com o enorme peso da desigualdade social. &#8220;O discurso do &#8216;fica em casa&#8217;, ele \u00e9 muito simples para a It\u00e1lia, para a Fran\u00e7a, para os Estados Unidos. Mas como eu vou falar para a pessoa ficar em casa aqui, sabendo que ela mora em um c\u00f4modo com seis ou sete pessoas, dormindo no mesmo colch\u00e3o? Que tem um colch\u00e3o para dormir o pai, a m\u00e3e e dois filhos? A gente est\u00e1 sofrendo hoje as consequ\u00eancias de termos falhado enquanto sociedade&#8221;, diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14659\/production\/_112054538_secretario.jpg\" alt=\"Secret\u00e1rio Carlos Lula posa para foto sorrindo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;A impress\u00e3o que a gente tem \u00e9 de que a cidade inteira est\u00e1 doente&#8217;, diz o o secret\u00e1rio de Sa\u00fade do Maranh\u00e3o, Carlos Lula<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">As feiras, foco descontrolado de transmiss\u00e3o<\/h2>\n<p>No dia 5 de abril, quando o Maranh\u00e3o j\u00e1 tinha 37 casos confirmados do novo coronav\u00edrus, imagens compartilhadas por moradores de S\u00e3o Lu\u00eds nas redes sociais mostravam uma multid\u00e3o fazia compras, aglomerada e sem m\u00e1scara, para a Sexta-Feira Santa no Mercado do Peixe, na avenida Beira-Mar.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil ouviu, desde aquela data, relatos de funcion\u00e1rios dos mercados e feiras da cidade que diziam que v\u00e1rios feirantes j\u00e1 apresentavam sintomas da doen\u00e7a, sem parar de trabalhar ou adotar medidas de preven\u00e7\u00e3o, tratando a doen\u00e7a como uma &#8220;virose&#8221; simples. Na imprensa local, reportagens apontam h\u00e1 anos para a precariedade das condi\u00e7\u00f5es de higiene, seguran\u00e7a e infraestrutura em diversos desses mercados e feiras da cidade.<\/p>\n<p>Antonio Augusto Moura da Silva, m\u00e9dico epidemiologista e professor titular do departamento de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (UFMA), diz que, embora os indicadores de pobreza no Maranh\u00e3o sejam menores do que eram h\u00e1 30 anos, a vulnerabilidade social de grande parte da popula\u00e7\u00e3o do Estado pode se sobrepor aos fatores desfavor\u00e1veis ao v\u00edrus, como o clima quente do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do Brasil, um pa\u00eds continental, tropical e muito desigual, ser\u00e1 importante para mostrar \u00e0 ci\u00eancia como o novo coronav\u00edrus avan\u00e7a diante de tais peculiaridades, que n\u00e3o eram t\u00e3o expressivas em pa\u00edses mais ricos da Europa e \u00c1sia, por exemplo, afirma o epidemiologista.<\/p>\n<p>&#8220;O governo federal tem sido muito lento no sentido de amparar essas pessoas mais vulner\u00e1veis. Essa ajuda de R$ 600 est\u00e1 chegando de forma muito pingada. E acho que isso explica porque, nos bairros mais pobres, n\u00e3o \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o queira se isolar, mas ela tem muita dificuldade de fazer isso, porque a necessidade dela de sobreviv\u00eancia \u00e9 muito mais premente&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A gente s\u00f3 vai poder responder essa pergunta, se a pobreza vai ampliar a dissemina\u00e7\u00e3o do novo v\u00edrus, quando a gente vir a epidemia se desdobrar nos pr\u00f3ximos meses. Porque na verdade o Brasil est\u00e1 nas fases iniciais ainda, subindo a montanha, subindo o pico. Realmente \u00e9 muito preocupante&#8221;.<\/p>\n<p>O sanitarista e professor em\u00e9rito da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), Paulo Buss, diz que o foco das estrat\u00e9gias p\u00fablicas para combater a covid-19 em favelas e bairros de alta vulnerabilidade social \u00e9 trabalhar junto com a pr\u00f3pria comunidade, que conhece as prioridades e desafios de cada territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8220;A gente fala de favela no Maranh\u00e3o, no Rio e em S\u00e3o Paulo como se fossem a mesma coisa, mas n\u00e3o s\u00e3o. Que as unidades dos SUS utilizem, para a estrat\u00e9gia, a realidade de cada comunidade, compondo as regras com a ajuda da pr\u00f3pria comunidade, que em geral t\u00eam uma organiza\u00e7\u00e3o social tremenda.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Falta de \u00e1gua e produtos de limpeza<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3DE5\/production\/_112054851_screenshot_20200430-230249_whatsapp.jpg\" alt=\"Dalva agachada no ch\u00e3o produzindo sab\u00e3o\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Dalva, desempregada por causa da pandemia, passou a fazer sab\u00e3o e sabonete em casa para distribuir aos vizinhos carentes de Coroadinho<\/figure>\n<p>A bombeira civil Dalva, 41 anos, tamb\u00e9m mora em Coroadinho, e diz que v\u00ea muitas fam\u00edlias em desespero porque pararam de trabalhar. &#8220;Como eu moro aqui, a gente acaba vendo a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias mais carentes, que come\u00e7a a faltar as coisas para as crian\u00e7as, o clima est\u00e1 pesado. Principalmente aqui na \u00e1rea mais carente de Coroadinho, que \u00e9 uma invas\u00e3o e as casas ainda s\u00e3o feitas de taipas, l\u00e1 est\u00e3o passando muita necessidade. Est\u00e1 faltando principalmente material de higieniza\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Preocupada e solid\u00e1ria, Dalva passou a arrecadar \u00f3leo usado e outros materiais para fazer sab\u00e3o e sabonete para distribuir aos vizinhos com mais necessidade. &#8220;Como eu estou sem trabalhar, voltei a fazer sab\u00e3o e sabonete para ajudar essas fam\u00edlias&#8221;. Na P\u00e1scoa, ela visitou algumas dessas fam\u00edlias mais carentes para distribuir ovos de P\u00e1scoa arrecadados por volunt\u00e1rios da comunidade. Para muitas crian\u00e7as, foi a primeira vez que ganharam o presente.<\/p>\n<p>A bombeira tamb\u00e9m est\u00e1 sem receber sal\u00e1rio, mas diz que, antes da pandemia, havia conseguido juntar algum dinheiro para sobreviver. Morando sozinha e sem pagar aluguel, diz que sua despesa \u00e9 muito pequena, ent\u00e3o sobra para ajudar. &#8220;Sa\u00ed distribuindo para a minha fam\u00edlia e postar nas redes sociais. Da\u00ed a Christiane viu e entrou em contato comigo, perguntando se eu podia ajudar na distribui\u00e7\u00e3o. A gente acabou se ajudando.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Casas lotadas e pouco espa\u00e7o para distanciamento<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7625\/production\/_112054203_feirafatima1.jpg\" alt=\"A\u00e7ougue em feira de f\u00e1tima, com v\u00e1rios clientes circulando, alguns de m\u00e1scara\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Na feira de F\u00e1tima, bairro onde 51 casos j\u00e1 foram confirmados, movimento continuava na semana passada<\/figure>\n<p>O m\u00e9dico Marcos Adriano, que atende na periferia de S\u00e3o Lu\u00eds, diz que o maior desafio no atendimento tem sido o de recomendar o tratamento em casa, com medidas que envolvem, principalmente, higieniza\u00e7\u00e3o das m\u00e3os e distanciamento social.<\/p>\n<p>&#8220;Quando a gente passa, por exemplo, a orienta\u00e7\u00e3o do ficar a uma certa dist\u00e2ncia dos seus familiares, ficar a um ou dois metros, como \u00e9 que voc\u00ea aplica isso em uma casa que tem s\u00f3 dois c\u00f4modos e em que moram sete pessoas, dormem quatro pessoas em uma s\u00f3 cama? Isolamento domiciliar \u00e9 invi\u00e1vel em algumas situa\u00e7\u00f5es, especialmente dessas fam\u00edlias mais carentes&#8221;, diz. Uma das estrat\u00e9gias adotadas, diz o m\u00e9dico, tem sido o de fazer uma busca ativa por pacientes com sintomas por meio dos agentes de sa\u00fade, para avisar \u00e0 equipe m\u00e9dica do bairro e evitar que familiares continuem a infectar os outros na mesma casa.<\/p>\n<p>O mototaxista Eug\u00eanio Lemos, 45 anos, passou mais de cinco dias sentindo febre, fraqueza, dor de garganta e dor nas costelas sem conseguir atendimento no servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade. Foi mais de uma vez mandado de volta para casa sem sequer receber a senha para atendimento.<\/p>\n<p>Quando foi atendido, diz que foi orientado a voltar para casa ap\u00f3s medirem sua press\u00e3o. Dias depois, o diagn\u00f3stico cl\u00ednico e uma tomografia confirmaram que tinha covid-19. Isolado em casa h\u00e1 quase um m\u00eas, ele perdeu a renda das corridas e a fam\u00edlia vive apenas com a renda da aposentadoria da m\u00e3e no bairro planalto Anil I, que j\u00e1 tem mais de 14 casos confirmados. Passa o dia isolado no quarto. &#8220;A parte mais dif\u00edcil foi nos primeiros dias, que senti uma queda de press\u00e3o e uma falta de ar forte. Pensei que n\u00e3o voltaria mais a respirar.&#8221;<\/p>\n<p>A pedagoga Christiane trabalha na Associa\u00e7\u00e3o N\u00facleo de Educa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria de Coroadinho, que hoje inclui uma creche, uma pr\u00e9-escola e cursos profissionalizantes que atendem 250 pessoas. Todo o atendimento do projeto est\u00e1 suspenso, e hoje ela participa do comit\u00ea Coroadinho sem Corona, que coordena a arrecada\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00f5es de doa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de compras de insumos dos comerciantes locais.<\/p>\n<p>Ela explica que o bairro, que faz parte do grupo G-10 das Favelas, re\u00fane cerca de 30 comunidades, entre quilombos e invas\u00f5es, e enfrenta dificuldades variadas. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil trabalhar aqui dentro. Temos muitos morros e encostas, ent\u00e3o temos constru\u00e7\u00f5es com perigo de deslizamento, com perigo de alagamento. Na parte da palafita, (temos)um pessoal que mora bem perto da margem do rio, que transborda. Temos casas sem energia, casas de pau a pique e folhas de jussara. A maioria das partes do bairro n\u00e3o tem \u00e1gua, e algumas t\u00eam em dias alternados&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Christiane diz que manter a higiene das m\u00e3os sem \u00e1gua e em casas lotadas \u00e9 praticamente imposs\u00edvel. &#8220;Eu vejo aqui pela minha casa todos t\u00eam o seu c\u00f4modo, mas ningu\u00e9m tem porta. Eu tenho fam\u00edlia de aluno meu que tem 11, 14, 20 pessoas em uma mesma casa e s\u00e3o dois c\u00f4modos, isso quando n\u00e3o \u00e9 um c\u00f4modo s\u00f3.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Trancar ou n\u00e3o trancar?<\/h2>\n<p>Dois dias antes de a Justi\u00e7a decidir pelo lockdown em S\u00e3o Lu\u00eds, o secret\u00e1rio de Sa\u00fade Carlos Lula disse \u00e0 BBC News Brasil que a medida estava em estudo, mas que seria muito dif\u00edcil de implementar em raz\u00e3o da baixa ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao isolamento social. Cogitava, inclusive, a realiza\u00e7\u00e3o de um censo para apurar, de maneira mais realista, o n\u00famero de infectados no Estado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma realidade dura que a gente n\u00e3o vai combater com pol\u00edcia. Imagina prender o idoso que est\u00e1 vendendo caranguejo no meio da rua, o que vai me adiantar a pol\u00edcia dizer n\u00e3o, vai l\u00e1, fica em casa. O discurso do ficar em casa, se n\u00e3o tiver o m\u00ednimo de ades\u00e3o, n\u00e3o tem efic\u00e1cia&#8221;, lamenta o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu posso decretar o lockdown na cidade. Mas a gente se pergunta: \u00e9 a\u00ed? Quem \u00e9 mesmo que vai cumprir essa medida? N\u00f3s n\u00e3o vamos colocar a pol\u00edcia batendo em todo mundo, fazendo as pessoas voltarem para dentro de casa. N\u00e3o funciona. Ent\u00e3o tem um problema grav\u00edssimo, social, que eu n\u00e3o posso responsabilizar o indiv\u00edduo porque falhei como sociedade. Eu tenho um problema de direito \u00e0 sa\u00fade que n\u00e3o pode ser convertido no dever individual de cumprir regra sanit\u00e1ria nesse momento.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu posso decretar o lockdown na cidade. Mas a gente se pergunta: \u00e9 a\u00ed? Quem \u00e9 mesmo que vai cumprir essa medida? N\u00f3s n\u00e3o vamos colocar a pol\u00edcia batendo em todo mundo, fazendo as pessoas voltarem para dentro de casa. N\u00e3o funciona. 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