{"id":319048,"date":"2020-05-16T11:47:17","date_gmt":"2020-05-16T14:47:17","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=319048"},"modified":"2020-05-16T11:47:17","modified_gmt":"2020-05-16T14:47:17","slug":"de-herege-a-icone-contemporaneo-ha-100-anos-a-igreja-canonizava-joana-darc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/de-herege-a-icone-contemporaneo-ha-100-anos-a-igreja-canonizava-joana-darc\/","title":{"rendered":"De herege a \u00edcone contempor\u00e2neo: h\u00e1 100 anos, a Igreja canonizava Joana d&#8217;Arc"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"byline__name\">Edison Veiga<\/span><span class=\"byline__title\">De Bled\u00a0<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/91C6\/production\/_112281373_14.jpg\" alt=\"Vitral com retrato de Joana D'Arc\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><span class=\"story-image-copyright\">DOROTH\u00c9E QUENNESSON<\/span><\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Foram necess\u00e1rios 489 anos. Em 16 de maio de 1920, quase cinco s\u00e9culos ap\u00f3s ser queimada viva pela Inquisi\u00e7\u00e3o, a guerreira francesa Joana d&#8217;Arc (1412-1431) teve seu nome inscrito no &#8216;Martirol\u00f3gio Romano&#8217;, o cat\u00e1logo dos santos reconhecidos pela Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No documento que oficializou a canoniza\u00e7\u00e3o, o ent\u00e3o papa Bento 15 (1854-1922) lembrou que a guerreira &#8220;despertou a admira\u00e7\u00e3o de todos&#8221; no momento de sua execu\u00e7\u00e3o, &#8220;a ponto de at\u00e9 seus inimigos ficarem muito assustados e o pr\u00f3prio carrasco ter declarado que Joana havia sido condenada \u00e0 morte de forma in\u00edqua, e que ele temia muito por si mesmo pois havia queimado uma mulher santa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E imediatamente os prod\u00edgios ocorreram. De fato, muitos dos presentes viram o nome de Jesus escrito dentro da chama do fogo na qual ela foi queimada&#8221;, escreveu o pont\u00edfice, relatando ainda que uma pomba teria sido vista &#8220;voando nas chamas&#8221; e o cora\u00e7\u00e3o da executada &#8220;permaneceu ileso e cheio de sangue, o que o pr\u00f3prio carrasco confirmou&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bula papal prossegue atestando que &#8220;Deus, vingador da inoc\u00eancia e da justi\u00e7a&#8221;, imp\u00f4s puni\u00e7\u00f5es &#8220;aos \u00edmpios&#8221;: os brit\u00e2nicos acabaram &#8220;expulsos da cidade de Paris, depois da Normandia, Aquit\u00e2nia e de toda a Fran\u00e7a&#8221;, &#8220;todos os respons\u00e1veis pelo mart\u00edrio de Joana morreram de uma morte muito ruim&#8221;.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filha de camponeses, Joana d&#8217;Arc lutou para salvar a Fran\u00e7a da invas\u00e3o inglesa no epis\u00f3dio conhecido como Guerra dos 100 Anos \u2014 disputa que durou de 1337 a 1453. Ela dizia ser guiada por vozes de mensageiros de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A batalha entre Fran\u00e7a e Inglaterra ocorreu em seguida \u00e0 morte do rei Carlos IV (1294-1328) \u2014 que n\u00e3o deixou herdeiro. Pelo parentesco, a monarquia inglesa passou a reivindicar o trono franc\u00eas. Foi declarada a guerra.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Das batalhas \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida no vilarejo de Domr\u00e9my, Joana, muito religiosa, come\u00e7ou a ouvir vozes por volta dos 13 anos de idade. Ela acreditava ser interlocutora de S\u00e3o Miguel Arcanjo, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas vozes lhe conferiram algumas miss\u00f5es, entre as quais expulsar os invasores ingleses de Paris e libertar os franceses do cerco imposto em Orleans. O monarca Carlos VII (1403-1461) ainda n\u00e3o havia sido coroado rei quando a recebeu, em Chinon.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DFE6\/production\/_112281375_1.jpg\" alt=\"Retrato do papa Bento 15\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O papa Bento 15 foi quem canonizou Joana D&#8217;Arc<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali, ele deu a ela uma espada, um estandarte e o aval de que a jovem se juntasse aos soldados franceses \u2014 embora n\u00e3o nomeada oficialmente cavaleira. Joana vestiu-se como um guerreiro homem e foi a campo de batalha, lutando contra ingleses em v\u00e1rios pontos da Fran\u00e7a. Sua fama come\u00e7ou a se espalhar. Em 1429 ela esteve em Reims, acompanhando a coroa\u00e7\u00e3o de Carlos VII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a fama trouxe tamb\u00e9m os inimigos. Joana passou a ser vista como uma aberra\u00e7\u00e3o: uma mulher guerreira, que dizia ouvir vozes divinas. E se vestia como homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele tempo, o Tribunal do Santo Of\u00edcio da Igreja Cat\u00f3lica, conhecido como Santa Inquisi\u00e7\u00e3o, atuava com firmeza, sempre seguindo o prop\u00f3sito de combater aquilo que era considerado heresia. Joana foi enquadrada, acusada de feiti\u00e7aria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O papel hist\u00f3rico dela foi estar em um lugar onde as mulheres n\u00e3o costumam estar. Isto \u00e9 um fato, independentemente do feminismo&#8221;, avalia \u00e0 BBC News Brasil a historiadora Ma\u00edra Rosin, pesquisadora na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A figura de Joana mostra uma rela\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica com as pessoas consideradas hereges. Assim, ela marca um ponto da hist\u00f3ria \u2014 quando pessoas eram queimadas na fogueira. Isso \u00e9 muito significativo. Mas o papel importante dela \u00e9 isso: uma presen\u00e7a em um lugar inusitado.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cerca de cem acusadores participaram de seu julgamento e os interrogat\u00f3rios duraram quatro semanas. Acabou condenada por duas raz\u00f5es: para o j\u00fari, usar roupas masculinas era inadmiss\u00edvel para uma mulher e, bem, as tais vozes n\u00e3o seriam coisa de Deus, mas sim do pr\u00f3prio dem\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi um processo cheio de pol\u00eamicas. &#8220;Joana era uma camponesa pouco letrada e n\u00e3o deixou escritos a n\u00e3o ser algumas poucas cartas. No entanto, seu processo tinha v\u00e1rias p\u00e1ginas escritas que continham querelas pol\u00edticas carregadas de dubiedades&#8221;, comenta \u00e0 BBC News Brasil a te\u00f3loga Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e pesquisadora visitante na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Joana d&#8217;Arc lutou para salvar a Fran\u00e7a da domina\u00e7\u00e3o inglesa, mas n\u00e3o era nada claro que n\u00e3o tivesse havido tamb\u00e9m uma implica\u00e7\u00e3o de autoridades civis e religiosas francesas em seu processo e condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15F3E\/production\/_112281998_3.jpg\" alt=\"Cena do filme Joan of Arc\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Joana d&#8217;Arc virou refer\u00eancia retratada in\u00fameras vezes na cultura, incluindo o cinema<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O julgamento que a levou \u00e0 fogueira \u00e9 repleto de iniquidades e mentiras&#8221;, afirma \u00e0 BBC News Brasil o fil\u00f3sofo e te\u00f3logo Fernando Altemeyer Junior, chefe do departamento de Ci\u00eancias Sociais da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Joana d&#039;Arc (Filme\/Drama) -1999- (Completo\/Dublado)\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Rf0N1O56CnM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O processo buscava destruir a reputa\u00e7\u00e3o de Joana para invalidar a posse de Carlos VII como rei da Fran\u00e7a. Afinal, se uma bruxa o fez rei, ele n\u00e3o pode ser reconhecido como rei \u2014 eis a tese inglesa que usou Joana como pretexto ideol\u00f3gico. N\u00e3o foi um processo leg\u00edtimo e com garantias legais. J\u00e1 havia a senten\u00e7a de morte antes das oitivas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 30 de maio de 1431, Joana se confessou, recebeu a eucaristia e, vestida de branco, foi conduzida at\u00e9 a Pra\u00e7a do Velho Mercado de Rouen, na regi\u00e3o da Normandia. Aos 19 anos, ela foi queimada viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que n\u00e3o acabassem atraindo venera\u00e7\u00e3o, suas cinzas foram lan\u00e7adas no Rio Sena. &#8220;N\u00e3o havia interesse em destacar a figura de Joana, pois ressaltar a dos soberanos que governaram ap\u00f3s a vit\u00f3ria que a ela se deve. Esses soberanos realizaram uma obra unificadora que culminou na constru\u00e7\u00e3o de um Estado s\u00f3lido, potente, no qual reconhecemos a Fran\u00e7a de hoje&#8221;, completa Bingemer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Al\u00e9m disso, me parece que houve igualmente uma oculta\u00e7\u00e3o da biografia bastante extraordin\u00e1ria da jovem pelo fato puro e simples de ela ser mulher. Era muito dif\u00edcil que, em uma cultura patriarcal como era a ocidental se reconhecesse a parte devida em uma vit\u00f3ria militar a uma representante do sexo feminino&#8221;, prossegue a te\u00f3loga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A figura de Joana, certamente enriquecida pelo imagin\u00e1rio que em torna a ela se formou, ia na contram\u00e3o ao estere\u00f3tipo feminino vigente no Ocidente. Sua invisibiliza\u00e7\u00e3o acompanha de certa maneira a invisibiliza\u00e7\u00e3o que a mulher sofre de maneira geral em meio \u00e0 cultura e \u00e0 sociedade ocidental.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No firmamento da hist\u00f3ria Joana d&#8217;Arc foi uma estrela massiva. Sua luz brilha mais do que qualquer outra figura de seu tempo e espa\u00e7o. Sua hist\u00f3ria \u00e9 singular e, ao mesmo tempo, universal em seu alcance&#8221;, aponta a historiadora brit\u00e2nica Helen Castor no livro &#8220;Joan of Arc: A History&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Reabilita\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/001C\/production\/_112282000_15.jpg\" alt=\"Est\u00e1tua de Joana D'Arc.\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Depois de se tornar santa, Joana D&#8217;Arc acabou sendo declarada uma das padroeiras da Fran\u00e7a<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme lembra a historiadora Rosin, a Igreja tradicionalmente recuperou v\u00e1rios personagens outrora renegados. Joana d&#8217;Arc integra essa lista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela lutou por Deus, era uma mulher extremamente cat\u00f3lica. Lutou por Deus e pela Fran\u00e7a, ent\u00e3o tem muito disso, de se tornar um \u00edcone hist\u00f3rico&#8221;, comenta. &#8220;E o fato de ela ser santa trouxe mais refer\u00eancias para ela do que teria se isso n\u00e3o tivesse acontecido. As pessoas adoram \u00edcones, amam \u00eddolos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rumo da Guerra dos Cem Anos virou quatro anos ap\u00f3s a morte de Joana d&#8217;Arc. Em 1953, veio a vit\u00f3ria francesa. O rei Carlos VII quis a revis\u00e3o do caso da jovem guerreira queimada viva \u2014 no fundo, n\u00e3o queria estar historicamente ligado a algu\u00e9m condenada por heresia. Coube ao papa Calisto III (1378-1458) a anula\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma da condena\u00e7\u00e3o de Joana d&#8217;Arc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa reviravolta no cerne do Vaticano contribuiu para aumentar sua fama. A canoniza\u00e7\u00e3o veio apenas no s\u00e9culo 20. Bento 15, o papa que reconheceu sua santidade, foi um pont\u00edfice de poucos santos: apenas tr\u00eas \u2014 a guerreira, um frade e uma freira, em seus sete anos \u00e0 frente da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas foi um papa muito europeu, muito voltado para a unidade da Europa. Assim, pode ter havido interesse em canoniz\u00e1-la, j\u00e1 que era uma imagem, um \u00edcone, um s\u00edmbolo, de um pa\u00eds que desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa [em 1789] estava muito secularizado&#8221;, contextualiza \u00e0 BBC News Brasil o vaticanista Filipe Domingues, doutor pela Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana de Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de se tornar santa, h\u00e1 100 anos, Joana acabou sendo declarada uma das padroeiras da Fran\u00e7a. &#8220;Antes da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a Fran\u00e7a era ultra-cat\u00f3lica. Portanto, ter um \u00edcone nacional como santa passou a ser quest\u00e3o de interesse [por parte da Igreja]&#8221;, diz Domingues.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A canoniza\u00e7\u00e3o esteve envolta nas considera\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias de recuperar sua influ\u00eancia na Fran\u00e7a&#8221;, concorda Altemeyer. &#8220;O papa que a canoniza diz claramente no documento que a Fran\u00e7a de novo se tornou &#8216;a filha mais velha da Igreja&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua import\u00e2ncia foi apropriada tamb\u00e9m pelos nacionalistas, que viam em sua biografia uma luta pela integridade do pa\u00eds. N\u00e3o demorou para que, em meados do s\u00e9culo 20, Joana d&#8217;Arc se tornasse idolatrada pela direita francesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2017, o pol\u00edtico franc\u00eas Jean Marie Le Pen, ex-presidente do partido nacionalista mais \u00e0 direita no espectro pol\u00edtico de l\u00e1, comparou a filha, a tamb\u00e9m pol\u00edtica Marine Le Pen \u2014 sua sucessora no partido \u2014, a Joana d&#8217;Arc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sua personalidade, hist\u00f3ria e morte serviram a distintos interesses pol\u00edticos em seu tempo e continuam a servir nos s\u00e9culos seguintes&#8221;, pontua Altemeyer. &#8220;Sua figura se transformou em uma legenda m\u00edtica fortemente usada pela direita francesa para fortalecer o nacionalismo. Ainda hoje \u00e9 usada, descaradamente, pela ultradireita francesa, em gestos e a\u00e7\u00f5es teatrais de Marine Le Pen.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A te\u00f3loga Bingemer problematiza a canoniza\u00e7\u00e3o de Joana justamente no fato de ela ter sido uma guerreira. &#8220;[Sob a perspectiva contempor\u00e2nea,] o problema que me aparece dif\u00edcil em seu processo de santidade \u00e9 o uso da viol\u00eancia. Joana pegou em armas, lutou com armas, sempre invocando o nome de Jesus Cristo, que pregou um evangelho de absoluta n\u00e3o viol\u00eancia&#8221;, pontua. &#8220;Isso \u00e9 uma incongru\u00eancia. E, por isso, ela pode ser cooptada pela extrema-direita, que n\u00e3o tem o menor pudor de aproximar f\u00e9 crist\u00e3 e uso da viol\u00eancia, desde que seja para legitimar suas pautas, bem entendido.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Temos de fazer uma an\u00e1lise n\u00e3o anacr\u00f4nica dessas coisas. Mas, realmente, uma santa que pegou em armas e as usou, mesmo em prol de uma causa leg\u00edtima, n\u00e3o admira que apresente alguma dubiedade a um olhar mais avan\u00e7ado e progressista crist\u00e3o hoje. E at\u00e9 mesmo n\u00e3o crist\u00e3o&#8221;, complementa. &#8220;Bata um olhar \u00e9tico que veja o bem da humanidade e do mundo na isen\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Por isso \u00e9 uma santa pol\u00eamica.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">\u00cdcone<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Joan of Arc: A History&#8221;, Castor apresenta a francesa como um &#8220;\u00edcone caleidosc\u00f3pico&#8221;, considerando que ela se tornou &#8220;hero\u00edna para nacionalistas, monarquistas, liberais, socialistas, a direita, a esquerda, cat\u00f3licos, protestantes, tradicionalistas, feministas&#8221;. E sua vida, &#8220;assunto recorrente&#8221;, em &#8220;pintura, literatura, m\u00fasica e cinema&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O processo de recontar sua hist\u00f3ria e transform\u00e1-la em mito come\u00e7ou a partir do momento em que ela apareceu ao p\u00fablico&#8221;, pontua a historiadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas em Paris h\u00e1 12 monumentos p\u00fablicos em sua homenagem, de esculturas em pra\u00e7as a est\u00e1tuas sacras, como a que adorna a fachada da catedral de Sacr\u00e9-C\u0153ur, em Montmartre. &#8220;Se do s\u00e9culo 16 ao 19 sua figura esteve no anonimato social e eclesial, nos \u00faltimos 100 anos as artes e o cinema forjaram muitas Joanas distantes da \u00fanica e verdadeira morta em Rouen&#8221;, comenta Altemeyer. &#8220;Cada escritor criou sua Joana.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as obras realmente abundam. De &#8220;A Vida de Joana d&#8217;Arc&#8221;, do brasileiro \u00c9rico Ver\u00edssimo (1905-1975), a &#8220;Joana d&#8217;Arc&#8221;, de Mark Twain (1835-1910), passando pela pe\u00e7a teatral &#8220;Santa Joana&#8221;, de Bernard Shaw (1856-1950), h\u00e1 centenas de livros retratando a jovem guerreira francesa. No cinema, tamb\u00e9m s\u00e3o in\u00fameras as obras. Entre as mais conhecidas est\u00e3o as cl\u00e1ssicas &#8220;Jeanne d&#8217;Arc&#8221;, de 1899, feita por Georges M\u00e9li\u00e8s (1861-1938), &#8220;Joana d&#8217;Arc&#8221; dirigido por Victor Fleming (1889-1949) em 1948 e a relativamente recente &#8220;Joana d&#8217;Arc&#8221; dirigida por Luc Besson, em 1999.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4E3C\/production\/_112282002_13.jpg\" alt=\"Monumento em homenagem a Joana D'Arc em Paris\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Joana d&#8217;Arc foi queimada viva quando tinha 19 anos<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundadora do projeto Plano de Menina, que trabalha o empoderamento de adolescentes em periferias de grandes cidades brasileiras, a jornalista Viviane Duarte reconhece o forte simbolismo de Joana d&#8217;Arc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela foi canonizada como santa, mas eu a vejo como guerreira: foi uma mulher que rompeu padr\u00f5es e n\u00e3o teve medo de ser quem ela acreditava ser&#8221;, diz Duarte, \u00e0 BBC News Brasil. &#8220;Ela sempre se colocava \u00e0 frente. Nos dias de hoje, pensando na mulher brasileira, \u00e9 uma grande inspira\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria de Joana d&#8217;Arc. \u00c9 preciso olhar para as mulheres da hist\u00f3ria, nossas ancestrais, para a for\u00e7a delas mesmo em um tempo em que as mulheres eram invisibilizadas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historiadora Rosin tem outra opini\u00e3o. &#8220;N\u00e3o acho que ela seja um \u00edcone do feminismo. Na verdade, ela nunca foi uma feminista, j\u00e1 que sua luta n\u00e3o foi pelas mulheres&#8221;, afirma. &#8220;Mas \u00e9 claro que foi uma figura interessante.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Altemeyer acredita que ainda seja necess\u00e1rio reabilitar por completo a &#8220;figura controversa de Joana d&#8217;Arc&#8221;, considerando &#8220;seu contexto vital e seu papel rebelde diante da pr\u00f3pria Igreja&#8221;. &#8220;Se ouvirmos as acusa\u00e7\u00f5es feitas contra ela pelo bispo e suas respostas, o paradoxo diante do poder clerical permanece&#8221;, comenta. &#8220;Ela permanece incomodando.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joana d&#8217;Arc foi queimada viva quando tinha 19 anos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":319049,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-319048","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/joana-darque.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=319048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319048\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/319049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=319048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=319048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=319048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}