{"id":319102,"date":"2020-05-17T08:51:18","date_gmt":"2020-05-17T11:51:18","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=319102"},"modified":"2020-05-17T08:51:18","modified_gmt":"2020-05-17T11:51:18","slug":"o-pensamento-sem-corrimao-de-hannah-arendt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-pensamento-sem-corrimao-de-hannah-arendt\/","title":{"rendered":"O &#8220;pensamento sem corrim\u00e3o&#8221; de Hannah Arendt"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"intro\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em tempos de fake news e histerias de massa nas redes sociais, exposi\u00e7\u00e3o em Berlim prop\u00f5e a desobedi\u00eancia da fil\u00f3sofa teuto-americana, uma das maiores pensadoras do s\u00e9culo 20, como ant\u00eddoto.<\/strong><\/p>\n<div id=\"sharing-bar\" class=\"min\" style=\"text-align: justify;\"><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"picBox full\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-pensamento-sem-corrim%C3%A3o-de-hannah-arendt\/a-53416622#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Hannah Arendt \" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/52950134_303.jpeg\" alt=\"Hannah Arendt \" \/><\/a>\u00c9 longa a lista das controv\u00e9rsias que Hannah Arendt desencadeou ou incentivou<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 est\u00e1 ela, pensativa, de queixo apoiado na m\u00e3o, cigarro aceso entre os dedos: Hannah Arendt (1906-1975), j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o jovem, numa fotografia em preto-e-branco tirada de \u00e2ngulo ligeiramente baixo. E, impressa por cima, a enigm\u00e1tica frase: &#8220;Nenhum ser humano tem o direito de obedecer.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse cartaz, com atraso for\u00e7ado pelo coronav\u00edrus, o Museu Hist\u00f3rico Alem\u00e3o (DHM) de Berlim convida a uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a grande pensadora teuto-americana do s\u00e9culo 20. A mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt em 16 cap\u00edtulos acess\u00edveis, com fotos, documentos em \u00e1udio e filme, objetos de seu esp\u00f3lio pessoal e empr\u00e9stimos internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentar, de uma forma nova, pontos de cristaliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do s\u00e9culo 20. E a obra da fil\u00f3sofa de fato se presta muito bem a isso, pois ela escreveu sobre temas centrais da \u00e9poca, como antissemitismo, colonialismo, racismo, nacional-socialismo e stalinismo, com um gosto de julgar notavelmente rigoroso, refletindo tanto prazer quanto ousadia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a banalidade do mal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 longa a lista das controv\u00e9rsias que a intelectual de origem judaica desencadeou ou incentivou. A mais intensa foi, certamente, a sobre seu livro\u00a0<em>Eichmann em Jerusal\u00e9m<\/em>, a qual se espalhou por todo o mundo e tamb\u00e9m toma bastante espa\u00e7o na mostra em Berlim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1961, ela participou como rep\u00f3rter do julgamento do ex-tenente-coronel da SS Adolf Eichmann, que fora respons\u00e1vel pela deporta\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de judeus para campos de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio. A reportagem sobre o processo foi publicada dois anos mais tarde pela revista\u00a0<em>The New Yorker<\/em>\u00a0e, como livro, com o subt\u00edtulo\u00a0<em>Um relato sobre a banalidade do mal<\/em>.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-pensamento-sem-corrim%C3%A3o-de-hannah-arendt\/a-53416622#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Exposi\u00e7\u00e3o sobre Hannah Arendt em Berlim\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/53372617_401.jpg\" alt=\"Exposi\u00e7\u00e3o sobre Hannah Arendt em Berlim\" \/><\/a>Mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt com fotos, documentos em \u00e1udio e filme e objetos de seu esp\u00f3lio pessoal<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1, Arendt descreve o criminoso nazista como um tecnocrata sem convic\u00e7\u00f5es, que se apresentava como mero instrumento de seus superiores. A brutalidade do mal banal consiste em sua falta de reflex\u00e3o e responsabilidade, observava ela, e a obedi\u00eancia &#8220;incondicional&#8221; repetidamente evocada por Eichmann \u00e9, em princ\u00edpio, a express\u00e3o dessa atitude mental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estopim da controv\u00e9rsia em torno do livro de Arendt n\u00e3o foi apenas a quest\u00e3o da &#8220;banalidade&#8221;, j\u00e1 lan\u00e7ada no t\u00edtulo, mas tamb\u00e9m a postura dos &#8220;conselhos judaicos&#8221;. Ser\u00e1 que os participantes dessas institui\u00e7\u00f5es foram culpados de colabora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Deixamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do espectador os veredictos de Hannah Arendt sobre temas do s\u00e9culo 20&#8221;, explica a curadora da exposi\u00e7\u00e3o, Monika Boll. &#8220;N\u00e3o porque acreditemos que ela sempre estivesse certa, de forma alguma. Mas, ao tamb\u00e9m transferir e delegar aos espectadores esse gosto de julgar, queremos que tamb\u00e9m eles formem seu julgamento.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma decis\u00e3o bem no esp\u00edrito de\u00a0Arendt, para quem julgar era uma atividade eminentemente pol\u00edtica. Segundo Boll, para a fil\u00f3sofa, o nazismo n\u00e3o significou apenas o colapso de todos os valores morais, mas tamb\u00e9m o colapso da capacidade de julgar. Porque o julgamento fora cooptado pelo sistema, porque se dizia &#8220;n\u00f3s&#8221;, e n\u00e3o &#8220;eu&#8221;. Dessa maneira, por\u00e9m, tamb\u00e9m a quest\u00e3o da responsabilidade pessoal ficava delegada a inst\u00e2ncias impessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Pensamento sem corrim\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arendt nasceu\u00a0pr\u00f3ximo a Hannover em 1906, filha de judeus laicos, e cresceu nos meios cultos de K\u00f6nigsberg (hoje Kaliningrado, R\u00fassia). Em 1924, come\u00e7ou a estudar Filosofia, tendo Teologia como cadeira secund\u00e1ria, primeiro em Marburg, mais tarde em Freiburg e Heidelberg. Por intermedia\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Martin Heidegger, doutorou-se em 1928 sob a orienta\u00e7\u00e3o de Karl Jaspers.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevia para o jornal\u00a0<em>Frankfurter Allgemeine Zeitung<\/em>\u00a0e se ocupou de Rahel Varnhagen von Ense, uma intelectual judia do Romantismo, cuja hist\u00f3ria era considerada um exemplo de assimila\u00e7\u00e3o cultural bem-sucedida. Arendt, em contrapartida, via com ceticismo a ideia da assimila\u00e7\u00e3o em nome da igualdade de todos os seres humanos, a qual considerava politicamente ing\u00eanua. E ela causou esc\u00e2ndalo com essa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de muitos outros observadores, j\u00e1 em 1931\u00a0Arendt partia do princ\u00edpio de que os nazistas assumiriam o poder. E, ao contr\u00e1rio da maioria dos alem\u00e3es, j\u00e1 em 1933 defendia a opini\u00e3o de que o regime devia ser combatido ativamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele mesmo ano, emigrou para a Fran\u00e7a, trabalhou em organiza\u00e7\u00f5es sionistas e como pesquisadora\u00a0em Paris at\u00e9 fugir em 1941, com o marido e a m\u00e3e, para Nova York, ap\u00f3s passar por Lisboa. E ela se transformou numa apaixonada cidad\u00e3o americana.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-pensamento-sem-corrim%C3%A3o-de-hannah-arendt\/a-53416622#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Exposi\u00e7\u00e3o sobre Hannah Arendt no Museu Hist\u00f3rico de Berlim\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/53372557_401.jpg\" alt=\"Exposi\u00e7\u00e3o sobre Hannah Arendt no Museu Hist\u00f3rico de Berlim\" \/><\/a>Coronav\u00edrus atrasou abertura da exposi\u00e7\u00e3o no Museu Hist\u00f3rico de Berlim<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por toda a vida, permaneceu fiel a si mesma, sem nunca seguir uma determinada escola, tradi\u00e7\u00e3o ou ideologia. Seu pensamento \u00e9 dif\u00edcil de classificar, e por isso t\u00e3o interessante, comenta a curadora Boll: &#8220;Pode-se encontrar repetidamente nesse pensamento tanto componentes liberais como conservadores e de esquerda, de forma que ela \u00e9 bem dif\u00edcil de situar numa ala pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria Hannah Arendt definia essa atitude como &#8220;pensamento sem corrim\u00e3o&#8221;. Al\u00e9m disso, era uma excelente escritora, e tudo isso a torna t\u00e3o viva, &#8220;por isso mesmo d\u00e1 tanto prazer se ocupar dela&#8221;, elogia\u00a0Boll. De fato: quer se trate de suas reportagens sobre a Alemanha do p\u00f3s-guerra, ou suas declara\u00e7\u00f5es sobre a quest\u00e3o dos refugiados, o racismo nos Estados Unidos, o movimento estudantil internacional, ela sempre consegue surpreender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mostra no DHM de Berlim, a vener\u00e1vel fil\u00f3sofa continua estimulando os visitantes a questionarem seus pr\u00f3prios pontos de vista, e provando a import\u00e2ncia de ter uma opini\u00e3o pr\u00f3pria fundamentada. A curadora Boll d\u00e1 uma dimens\u00e3o atual \u00e0 quest\u00e3o: justamente em tempos de fake news e histeria de massa produzida pelas redes sociais, Hannah Arendt \u00e9 um maravilhoso ant\u00eddoto.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de fake news e histerias de massa nas redes sociais, exposi\u00e7\u00e3o em Berlim prop\u00f5e a desobedi\u00eancia da fil\u00f3sofa teuto-americana, uma das maiores pensadoras do s\u00e9culo 20, como ant\u00eddoto.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":319103,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-319102","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/hannah.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=319102"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319102\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/319103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=319102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=319102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=319102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}