{"id":319194,"date":"2020-05-18T08:20:05","date_gmt":"2020-05-18T11:20:05","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=319194"},"modified":"2020-05-18T08:20:05","modified_gmt":"2020-05-18T11:20:05","slug":"como-se-atreveram-a-rodar-estes-12-filmes-que-quebraram-todas-as-regras-nos-anos-30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-se-atreveram-a-rodar-estes-12-filmes-que-quebraram-todas-as-regras-nos-anos-30\/","title":{"rendered":"Como se atreveram a rodar estes 12 filmes que quebraram todas as regras nos anos 30?"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">Abordam tabus sexuais, esc\u00e2ndalos pol\u00edticos, imagens expl\u00edcitas e linguagem inaceit\u00e1vel. E tamb\u00e9m s\u00e3o obras-primas. Toda vez que voc\u00ea ficar escandalizado diante da tela, n\u00e3o se sinta mal: estas doze obras fazem isso desde a d\u00e9cada de 1930<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/h8n6sLvwQM-s01rogJD_WDu1nPs=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/IWSWOIVNAZZJASLFXE32DUZEBY.jpg\" alt=\"Quando hoje algu\u00e9m se escandaliza por algo que viu em um filme, conv\u00e9m lembr\u00e1-lo que h\u00e1 45 anos Pasolini j\u00e1 havia levado ao m\u00e1ximo o que podia ser visto em uma tela de cinema em \u2018Sal\u00f2 ou os 120 Dias de Sodoma\u2019.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Quando hoje algu\u00e9m se escandaliza por algo que viu em um filme, conv\u00e9m lembr\u00e1-lo que h\u00e1 45 anos Pasolini j\u00e1 havia levado ao m\u00e1ximo o que podia ser visto em uma tela de cinema em \u2018Sal\u00f2 ou os 120 Dias de Sodoma\u2019.<\/figcaption><\/figure>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Ianko L\u00f3pez\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/ianko-lopez-ortiz-de-artinano\/\">IANKO L\u00d3PEZ<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/17\/cultura\/1526556837_949496.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Sexo, drogas, viol\u00eancia<\/a>, blasf\u00eamia, sexo outra vez. Estes s\u00e3o os componentes b\u00e1sicos de qualquer esc\u00e2ndalo, como acontece desde que existem registros. Algo que tamb\u00e9m caracteriza o esc\u00e2ndalo \u00e9 que sempre consegue se cercar de um halo de novidade, como se cada vez fosse a primeira e nada tivesse avan\u00e7ado desde a anterior. Mas quem tem mem\u00f3ria sabe que quase tudo j\u00e1 foi dito e que cada novo esc\u00e2ndalo nada mais \u00e9 do que uma atualiza\u00e7\u00e3o dos precedentes. Se olharmos para a hist\u00f3ria do cinema, por exemplo, veremos que existe uma longa tradi\u00e7\u00e3o de representar coisas que ofenderam o p\u00fablico, e diante de muitas delas hoje continuamos exclamando: \u201cMas como fizeram isso!\u201d. Selecionamos alguns casos representativos para ilustrar essa ideia.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/k5v9RM8ONh5yjkKL3LZO-B8oNOA=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/6R5WH6QPX3RJJN2IITH5OGCUIQ.jpg\" alt=\"Uma das controvertidas cenas de \u2018A Idade do Ouro\u2019\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Uma das controvertidas cenas de \u2018A Idade do Ouro\u2019<\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>A Idade do Ouro<\/i>\u00a0(1930), de<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/luis-bunuel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Luis Bu\u00f1uel<\/a><\/h3>\n<p class=\"\">Quando os riqu\u00edssimos e elegantes viscondes de Noailles convidaram seus amigos para lhes mostrar este filme que tinham financiado e demonstrar o quanto eram modernos, o resultado foi que ficaram sem amigos. Tamb\u00e9m sem sua assinatura no Jockey Clube, e por milagre o Papa n\u00e3o os excomungou. Depois tudo piorou porque na estreia oficial houve atos de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/12\/opinion\/1560348817_282472.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">vandalismo da extrema direita<\/a>\u00a0e o filme foi proibido por mais de cinquenta anos, at\u00e9 \u2014aten\u00e7\u00e3o\u2014 1981. E o que acontece ali que despertou tanta confus\u00e3o? De tudo: blasf\u00eamia, sexo em locais p\u00fablicos, sadismo, maus-tratos a deficientes,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/12\/13\/politica\/1544706288_924658.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">infantic\u00eddio<\/a>\u00a0e outras modalidades de assassinato, e tamb\u00e9m vacas passeando em festas da alta sociedade. O argumento \u00e9 dif\u00edcil de descrever, mas inclui uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios em que as institui\u00e7\u00f5es da sociedade burguesa s\u00e3o dinamitadas pela for\u00e7a do amor e do desejo. Uma das poucas linhas de di\u00e1logo do roteiro escrito por Bu\u00f1uel e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/salvador-dali\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Dal\u00ed\u00a0<\/a>d\u00e1 uma ideia bastante aproximada da coisa: \u201cQue felicidade ter assassinado nossos filhos!\u201d. Por tudo isso o filme \u00e9 uma obra-prima absoluta que antecipa e resume o melhor da filmografia posterior de Bu\u00f1uel.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/sjxbdOi04IurXE5kgjhir9BQFyI=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/FAFTFPMMELK3ZK53XVTIHTSQFQ.jpg\" alt=\"Hedy Lamarr em \u2018\u00caxtase\u2019.\n\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Hedy Lamarr em \u2018\u00caxtase\u2019.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>\u00caxtase<\/i>\u00a0(1933), de Gustav Machat\u00fd<\/h3>\n<p class=\"\">Certamente ningu\u00e9m se lembraria desse drama rom\u00e2ntico tcheco hoje se n\u00e3o fosse pelo detalhe de que foi o primeiro filme (n\u00e3o pornogr\u00e1fico) a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/01\/cultura\/1527804047_313894.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">mostrar um orgasmo feminino<\/a>. A protagonista era Hedy Kiesler, uma bel\u00edssima atriz austr\u00edaca de dezoito anos \u00e0 qual ainda faltavam algumas reinven\u00e7\u00f5es para se tornar Hedy Lamarr, deusa de Hollywood e criadora da tecnologia que antecipou o Wi-Fi. Hedy aparecia nua no filme e dizia que ningu\u00e9m a havia avisado quando assinou o contrato. Mas foi a cena do orgasmo a que mais alvoro\u00e7o provocou, apesar do fato de que, quando isso acontece com ela, s\u00f3 se v\u00ea o rosto. Parece que, para alcan\u00e7ar o efeito desejado, o diretor fez com que ela fosse espetada nas n\u00e1degas com um alfinete, um m\u00e9todo que, logicamente, hoje seria considerado inadmiss\u00edvel e renderia ao diretor uma queixa como um caminh\u00e3o de bombeiros. De volta \u00e0queles dias, todas as coisas previs\u00edveis aconteceram: o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ciudad-del-vaticano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Vaticano<\/a>\u00a0<i>vaticaneou<\/i>, o filme n\u00e3o foi exibido na It\u00e1lia, na Alemanha s\u00f3 passou com cortes e nos Estados Unidos foi condenado pela Legi\u00e3o Cat\u00f3lica pela Dec\u00eancia, o que implicou na proibi\u00e7\u00e3o de os fi\u00e9is o assistirem sob a amea\u00e7a de incorrer em pecado mortal. Obviamente, isso serviu apenas para aumentar o sucesso.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/l3gSNeqKRbzNuPT0TCRwjIG0Jho=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/6542HIUASXUXNOVMRJ2SEZ2I74.jpg\" alt=\"Frank Sinatra em \u2018O Homem do Bra\u00e7o de Ouro\u2019\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Frank Sinatra em \u2018O Homem do Bra\u00e7o de Ouro\u2019<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>O Homem do Bra\u00e7o de Ouro<\/i>\u00a0(1955), de Otto Preminger<\/h3>\n<p class=\"\">A luta de um indiv\u00edduo para superar seu\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/22\/internacional\/1500740345_846164.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">v\u00edcio em hero\u00edna<\/a>\u00a0continua nos incomodando hoje, mas em 1955 era quase infilm\u00e1vel. Pois essa \u00e9 a hist\u00f3ria que conta um filme em que o viciado em hero\u00edna \u00e9 interpretado por<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/frank-sinatra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Frank Sinatra<\/a>\u00a0e sua sofrida companheira por Kim Novak, em uma ousada decis\u00e3o de elenco que foi apenas um dos muitos riscos que os produtores assumiram. Para compensar, o nome da droga n\u00e3o \u00e9 pronunciado em momento algum, embora seja evidente at\u00e9 para o espectador mais desinformado. Chama especialmente aten\u00e7\u00e3o a longa cena em que Sinatra atravessa a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/06\/27\/ciencia\/1467041169_218109.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">s\u00edndrome de abstin\u00eancia\u00a0<\/a>com um realismo que era insuport\u00e1vel para muitos na \u00e9poca e ainda hoje provoca arrepios. Como consequ\u00eancia disto, a MPAA, a associa\u00e7\u00e3o que representava os grandes est\u00fadios de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/hollywood\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Hollywood<\/a>, teve de revisar seus pr\u00f3prios c\u00f3digos internos e abrir a torneira para quest\u00f5es relacionadas a drogas e prostitui\u00e7\u00e3o em suas produ\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/xR0CLlt-vJTZ9eBcpmvpzBjHZnM=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/NHCILT5KHILS4LQ6QTYBWYRWXA.jpg\" alt=\"Dirk Bogarde em \u2018V\u00edtima\u2019.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Dirk Bogarde em \u2018V\u00edtima\u2019.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>V\u00edtima<\/i>\u00a0(1961), de Basil Dearden<\/h3>\n<p class=\"\">Em 1961,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/19\/internacional\/1553026147_774690.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">as rela\u00e7\u00f5es homossexuais eram proibidas<\/a>\u00a0no Reino Unido. E quem desrespeitasse a proibi\u00e7\u00e3o tinha de se sujeitar \u00e0 puni\u00e7\u00e3o: \u00e9 bem conhecido o caso do cientista\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/alan-turing\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Alan Turing<\/a>, que sofreu castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica por fazer sexo com outros homens e que se suicidou pouco depois. Portanto, o fato de ter sido lan\u00e7ado um filme em que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/homosexualidad\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">homossexualidade<\/a>\u00a0do protagonista n\u00e3o era vista como uma doen\u00e7a ou um perigo social era um gesto quase revolucion\u00e1rio.\u00a0<i>V\u00edtima<\/i>\u00a0conta as tribula\u00e7\u00f5es de Melvin Farr, um advogado casado que atravessa um inferno quando uma rede de extors\u00e3o de homens homossexuais faz dele uma de suas v\u00edtimas. O filme de Dearden descrevia de maneira muito precisa o clima de medo e vergonha e o perigo a que um gay brit\u00e2nico estava exposto na \u00e9poca. Quando o grafite \u201cFARR IS QUEER\u201d (\u201cFarr \u00e9 bicha\u201d) aparece na tela, a imagem provocava um efeito cat\u00e1rtico no p\u00fablico que talvez hoje seja dif\u00edcil de entender. Felizmente.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/Kb2knJSjag-i12S76x4_NdDX9MI=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/RN7GQUBDNTNJFPO5SJ7GVMYP3M.jpg\" alt=\"Bibi Andersson e Liv Ullmann em 'Persona'.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Bibi Andersson e Liv Ullmann em &#8216;Persona&#8217;.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>Persona<\/i>\u00a0(1966), de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ingmar-bergman\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ingmar Bergman<\/a><\/h3>\n<p class=\"\">O filme que foi um ponto de inflex\u00e3o na carreira de Bergman, mas tamb\u00e9m na hist\u00f3ria do cinema. O argumento \u00e9 simples: a renomada atriz Elisabeth Vogler perdeu a fala como consequ\u00eancia de uma crise nervosa e est\u00e1 confinada em sua casa de campo com uma jovem e ing\u00eanua enfermeira chamada Alma. As duas mulheres iniciar\u00e3o um processo de m\u00fatua transfer\u00eancia de personalidades repleto de ecos vamp\u00edricos e psicanal\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"\">Tudo no filme \u00e9 ousad\u00edssimo, das decis\u00f5es formais at\u00e9 o desenvolvimento da trama. Mas h\u00e1 uma cena que na \u00e9poca deve ter incomodado bastante e que hoje ainda pode levantar uma sobrancelha ou outra. Depois de tomar algumas doses, Alma confessa a Elisabeth que em um ver\u00e3o traiu o namorado fazendo uma orgia ao ar livre com outra garota e dois rapazes, e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/27\/internacional\/1574867102_991692.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">depois de ter engravidado, abortou<\/a>. A crueza de sua linguagem (palavras como \u201cejacular\u201d ou \u201caborto\u201d simplesmente n\u00e3o eram pronunciadas no cinema comercial na \u00e9poca) criava um trauma no espectador, que dessa maneira estabelecia uma empata com o pr\u00f3prio trauma da narradora. \u00c9 claro que na primeira sequ\u00eancia do filme Bergman j\u00e1 havia inserido um plano subliminar de um p\u00eanis em ere\u00e7\u00e3o, outra coisa para a qual as pessoas que ent\u00e3o pagavam um ingresso de cinema n\u00e3o pornogr\u00e1fico n\u00e3o estavam preparadas.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/Uj2SOZgyRCTMYMItYqeLx42nPxk=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/64I626XHFTLXK3SRHP6WZXA43Q.jpg\" alt=\"Lea Massari e Beno\u00eet Ferreux em 'Sopro no cora\u00e7\u00e3o'.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Lea Massari e Beno\u00eet Ferreux em &#8216;Sopro no cora\u00e7\u00e3o&#8217;.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>Sopro no Cora\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0(1971), de Louis Malle<\/h3>\n<p class=\"\">O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/24\/cultura\/1506246776_297516.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">incesto \u00e9 um dos grandes tabus<\/a>\u00a0que ainda restam. Louis Malle dizia que quando come\u00e7ou a escrever este filme autobiogr\u00e1fico sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era que a m\u00e3e e o filho adolescente acabassem se deitando juntos, mas tudo levava a isso, e \u00e9 claro que teve de sucumbir ao ditado de sua pr\u00f3pria narra\u00e7\u00e3o. Ah, o fant\u00e1stico clich\u00ea dos personagens que t\u00eam vida pr\u00f3pria, o qu\u00e3o batido pode chegar a ser. E principalmente o qu\u00e3o ilustrativo \u00e9 aqui sobre certas<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/05\/estilo\/1554462419_320059.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0fantasias pouco confess\u00e1veis do homem heterossexual<\/a>. Talvez o aspecto mais marcante deste caso n\u00e3o seja a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho (que tamb\u00e9m foi pintada, com tons mais sombrios, em\u00a0<i>La Luna<\/i>\u00a0de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/bernardo-bertolucci\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Bertolucci<\/a>\u00a0e\u00a0<i>Minha M\u00e3e<\/i>\u00a0de Christophe Honor\u00e9), mas a leveza com que \u00e9 retratada. A m\u00e3e, cheia de sabedoria, apesar de sua juventude \u2014e, principalmente, apesar de ter acabado de cometer o que pode ser considerada uma grave imprud\u00eancia\u2014, tenta aliviar a consci\u00eancia do filho dizendo a ele que n\u00e3o deve ter remorso pelo encontro sexual que acabam de compartilhar. Ele n\u00e3o deixa que o conselho entre por um ouvido e saia pelo outro, e faz o que se espera dele: se deita com outra mulher, porque a mancha de uma amora se remove com outra verde.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/jGe-aTxF8VwEJkG5xJFwG68bdpM=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/BQST6ONVNQLSJYDQRG7C5WRNYY.jpg\" alt=\"P\u00f4ster comemorativo do 25\u00ba anivers\u00e1rio de \u2018Pink Flamingos\u2019, que destaca como a cr\u00edtica recebeu o filme.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">P\u00f4ster comemorativo do 25\u00ba anivers\u00e1rio de \u2018Pink Flamingos\u2019, que destaca como a cr\u00edtica recebeu o filme.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>Pink Flamingos<\/i>\u00a0(1972), de John Waters<\/h3>\n<p class=\"\">A dupla\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/john-waters\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">John Waters<\/a>\u00a0(diretor) e Divine (int\u00e9rprete) proporcionou alguns dos momentos mais cintilantes, descarados e francamente grosseiros do cinema norte-americano (e existe concorr\u00eancia). A pr\u00f3pria Divine, personagem p\u00fablico do ator e cantor Harris Glenn Milstead (Baltimore, 1945-Los Angeles, 1988), era uma provoca\u00e7\u00e3o ambulante. Com seu excesso de peso indisfar\u00e7\u00e1vel e sua indument\u00e1ria com uma peruca assentada sobre um cr\u00e2nio calvo, maquiagem de palha\u00e7a e voz em falsete, foi batizada de \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/23\/politica\/1561241637_540510.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">a\u00a0<i>drag queen<\/i>\u00a0do s\u00e9culo<\/a>\u201d pela revista\u00a0<i>People<\/i>. E para honrar semelhante t\u00edtulo de nobreza, demonstrou a coragem de mil cavaleiros medievais. Dos nove filmes que interpretou sob as ordens (\u00e9 uma figura de linguagem) de seu descobridor entre 1966 e 1988, o ponto culminante \u00e9 possivelmente\u00a0<i>Pink Flamingos<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\">Divine encarna uma mulher considerada oficialmente a pessoa mais imunda do mundo, causando inveja em vizinhos que decidem competir com ela em deprava\u00e7\u00e3o. Come\u00e7a ent\u00e3o uma escalada de consequ\u00eancias imprevis\u00edveis. Exibicionismo, venda de hero\u00edna a menores,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/maltrato-animal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">maus-tratos a animais<\/a>\u00a0e v\u00e1rios atos sexuais n\u00e3o muito dentro das normas v\u00e3o nos preparando para o grande final, no qual, de maneira clara, Divine pega um punhado de excrementos de cachorro rec\u00e9m-expelidos e os leva \u00e0 boca entre sorrisos e n\u00e1useas. Sua pr\u00f3pria m\u00e3e, que esteve na rodagem do filme em algum momento, disse ter ficado surpresa pelo filho ter suportado as \u201clament\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es\u201d do set, dados seus gostos caros em roupas, m\u00f3veis e comida. \u00c9 prov\u00e1vel que depois de assistir ao filme sua estranheza tenha sido ainda maior.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/CWmp3FXgic0TuaSMAdjcvjz3zdI=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/O3U4HF6P5EI2MBTKDAVY4A75X4.jpg\" alt=\"Cena de \u2018Sal\u00f2 ou os 120 Dias de Sodoma\u2019.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Cena de \u2018Sal\u00f2 ou os 120 Dias de Sodoma\u2019.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">CORDON PRESS<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>Sal\u00f2 ou os 120 Dias de Sodoma<\/i>\u00a0(1975), de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/pier-paolo-pasolini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Pier Paolo Pasolini<\/a><\/h3>\n<p class=\"\">Pasolini adaptou um romance do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/marques-de-sade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">marqu\u00eas de Sade<\/a>\u00a0mudando completamente seu contexto hist\u00f3rico e pol\u00edtico. O que na literatura era o s\u00e9culo XVIII visto por um libertino, aqui \u00e9 o fascismo italiano visto por um comunista desesperan\u00e7ado. Nos tempos da rep\u00fablica de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/benito-mussolini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Mussolini<\/a>, um duque, um bispo, um pol\u00edtico e um banqueiro sequestram um grupo de jovens e, com a cumplicidade de quatro prostitutas, os submetem a humilha\u00e7\u00f5es que incluem impens\u00e1veis atos de sexo e viol\u00eancia at\u00e9 sua total aniquila\u00e7\u00e3o. Essa alegoria sobre a sociedade capitalista e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-05-05\/como-bolsonaro-mussolini-iniciou-a-instauracao-do-fascismo-com-ameacas-ao-parlamento-e-a-liberdade-de-expressao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">os modos ocultos de fascismo<\/a>\u00a0que a sustentam \u00e9, apesar do horror que mostra, atravessada por uma poesia tr\u00e1gica e do\u00edda. Mas quando ainda hoje algu\u00e9m se escandaliza com algo que viu em um filme, conv\u00e9m lembr\u00e1-lo que h\u00e1 45 anos Pasolini j\u00e1 havia levado ao m\u00e1ximo o que podia ser mostrado em uma tela de cinema.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/D1QaYXUD_UaU7AHx60faPrUNlPI=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/73QYF5JY7FFZRJJ7NVMPRP3FNA.jpg\" alt=\"Imagem promocional de \u2018O Imp\u00e9rio dos Sentidos\u2019. \" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Imagem promocional de \u2018O Imp\u00e9rio dos Sentidos\u2019.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">CORDON PRESS<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>O Imp\u00e9rio dos Sentidos<\/i>\u00a0(1976), de Nagisha Oshima<\/h3>\n<p class=\"\">Nagisha Oshima se inspirou em uma hist\u00f3ria real para escrever este roteiro sobre um homem e uma mulher que vivem uma hist\u00f3ria sexual t\u00e3o intensa e obsessiva que, a certa altura, a \u00fanica sa\u00edda que encontram passa pela mutila\u00e7\u00e3o e o assassinato. Quando foi lan\u00e7ado, teve que enfrentar a a\u00e7\u00e3o da censura, uma vez que inclui v\u00e1rias\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/10\/cultura\/1412936815_583459.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">cenas de sexo expl\u00edcito<\/a>\u00a0e n\u00e3o simulado entre os dois protagonistas. A cena em que ele introduz um ovo na vagina dela para depois com\u00ea-lo dificultou a distribui\u00e7\u00e3o, mas talvez o mais perturbador seja o final. A\u00ed \u00e9 mostrado de maneira frontal o resultado do ato de viol\u00eancia cometido por um dos amantes no corpo do outro, e n\u00e3o \u00e9 raro que quem o contemple tenha que desviar o olhar. O filme \u00e9, certamente, uma das mais belas e l\u00facidas reflex\u00f5es sobre as interse\u00e7\u00f5es entre o amor e a morte de toda a hist\u00f3ria do cinema.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/bNwqIhIVbJldHM1crCZi3d1avBc=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/AQU5IWNJWUNMZKMERNEUEGONLQ.jpg\" alt=\"P\u00f4ster de 'A pele'.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">P\u00f4ster de &#8216;A pele&#8217;.<\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>A Pele<\/i>\u00a0(1981), de Liliana Cavani<\/h3>\n<p class=\"\">Nos estertores da<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/segunda-guerra-mundial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Segunda Guerra Mundial<\/a>, N\u00e1poles foi tomada pelas tropas norte-americanas e sua popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 empobrecida e disposta a fazer qualquer coisa para sobreviver. Esse qualquer coisa voc\u00ea pode imaginar, mas, em todo caso, Liliana Cavani o mostra em detalhes atrav\u00e9s dos olhos (cheios de cinismo) do escritor e diplomata Curzio Malaparte. Cavani j\u00e1 havia dirigido filmes esc\u00e2ndalo como\u00a0<i>O Porteiro da Noite<\/i>\u00a0(<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/nazismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">nazismo<\/a>\u00a0+ sadomasoquismo) e\u00a0<i>Al\u00e9m do Bem e do Mal<\/i>\u00a0(ou Nietzsche, Paul R\u00e9e,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ideas\/2020-01-25\/falta-de-horas-de-descanso-faz-com-que-nossa-melancolia-se-torne-raiva-ou-depressao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Lou-Andreas Salom\u00e9)<\/a>, mas aqui parece seguir uma estrat\u00e9gia deliberada de ofender e enojar o espectador encadeando as cenas de deprava\u00e7\u00e3o e sugerindo que o ser humano merece a extin\u00e7\u00e3o. Talvez fosse a \u00fanica maneira de expressar essa ideia. Apenas talvez.<\/p>\n<p class=\"\">Mas o pior chega ao final: durante um desfile militar com tanques, os soldados norte-americanos jogam caramelos para os italianos que foram aplaudi-los. Um homem com uma crian\u00e7a nos bra\u00e7os se pede em meio \u00e0 festa, trope\u00e7a e seu corpo \u00e9 esmagado pelas rodas do ve\u00edculo blindado. Cavani n\u00e3o gosta nem um pouco de elipses, ent\u00e3o nos oferece uma minuciosa demonstra\u00e7\u00e3o visual do efeito de trocentas toneladas de a\u00e7o sobre um corpo humano. O longo plano do resultado \u00e9 t\u00e3o insuport\u00e1vel que permanece no subconsciente durante dias.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/ng-yDe-lTGY9NlNNs_5PpyM1b3s=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/G3NXKXH6OAJA73QC75URHTIQUQ.jpg\" alt=\"Enrique San Francisco e Jos\u00e9 Luis Manzano em uma cena de \u2018El Pico\u2019\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Enrique San Francisco e Jos\u00e9 Luis Manzano em uma cena de \u2018El Pico\u2019<\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>El Pico<\/i>\u00a0(1983), de Eloy de la Iglesia<\/h3>\n<p class=\"\">A face menos amig\u00e1vel de nossos loucos anos oitenta era a de uma grave crise sociossanit\u00e1ria (a explos\u00e3o descontrolada do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/12\/internacional\/1497295458_563632.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">consumo de hero\u00edna<\/a>) e uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/amenazas-terroristas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">amea\u00e7a terrorista<\/a>\u00a0(os anos de chumbo do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/eta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ETA<\/a>). Ambas as realidades pairam sobre este filme ou interv\u00eam decisivamente em sua trama. \u00c9 uma hist\u00f3ria de amizade e queda de dois jovens de diferentes origens sociais e pol\u00edticas em uma Bilbao que n\u00e3o existe mais, pois em algum momento foi substitu\u00edda pelo gigantesco holograma irradiado pelo efeito Guggenheim. Com filmes como\u00a0<i>Los Placeres Ocultos<\/i>,\u00a0<i>La Creatura<\/i>\u00a0e\u00a0<i>El Diputado<\/i>, Eloy de la Iglesia j\u00e1 havia tratado assuntos dif\u00edceis para a sociedade da \u00e9poca, mas aqui o coquetel entre juventude, hero\u00edna, Guarda Civil, esquerda nacionalista e brutalidade policial era ainda mais forte do que esperado. \u00c9 claro, h\u00e1 cenas de sexo e seringas hipod\u00e9rmicas injetando sua carga letal em primeiro plano, no entanto o potencial ofensivo do filme n\u00e3o se limita a isso, mas se expande como uma mancha de \u00f3leo na superf\u00edcie de sua ambiguidade moral e pol\u00edtica.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/OnTbetkMQ93uf44ZpaD56-qGSSQ=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/RIUVRTGMATTIODNFYSFLZHRVMU.jpg\" alt=\"Cristina S\u00e1nchez Pascual e Mary Carrillo em \u2018Maus H\u00e1bitos\u2019. \" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Cristina S\u00e1nchez Pascual e Mary Carrillo em \u2018Maus H\u00e1bitos\u2019.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">CORDON PRESS<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\"><i>Maus H\u00e1bitos<\/i>\u00a0(1983), de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/pedro-almodovar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Pedro Almod\u00f3var<\/a><\/h3>\n<p class=\"\">Quem diria \u00e0 cat\u00f3lica Espanha que em 1983 um filme nacional contaria a hist\u00f3ria de um convento de freiras dirigido por uma madre superiora viciada em hero\u00edna, l\u00e9sbica, f\u00e3 de bolero e de extorquir marquesas. Quando se fala da suposta indiferen\u00e7a pol\u00edtica de Almod\u00f3var n\u00e3o \u00e9 demais lembrar que, naquela \u00e9poca, conceber um filme como este era mais do que uma simples provoca\u00e7\u00e3o e adquiria a consist\u00eancia de um manifesto pol\u00edtico: como tal, o filme apareceu na recente exposi\u00e7\u00e3o do Centro de Arte Reina Sof\u00eda P<i>o\u00e9ticas da Democracia \u2013 Imagens e Contraimagens da Transi\u00e7\u00e3o<\/i>. A cena em que a superiora (Julieta Serrano) e sua protegida (Cristina S\u00e1nchez Pascual) se injetam droga em uma sala cheia de imagens religiosas conserva, ou assim nos parece, toda sua carga explosiva.<\/p>\n<\/div>\n<aside class=\"a_tp | border_top_dotted border_bottom_dotted border_gray border_1 border_top border_bottom\">\n<div class=\"a_tp_w | flex container_column_mobile justify_space_between\">\n<div class=\"a_tp_c | flex align_items_center justify_center\" style=\"text-align: justify;\">Adere a<\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O\u00a0incesto \u00e9 um dos grandes tabus\u00a0que ainda restam. 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