{"id":319510,"date":"2020-05-21T07:26:57","date_gmt":"2020-05-21T10:26:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=319510"},"modified":"2020-05-21T07:26:57","modified_gmt":"2020-05-21T10:26:57","slug":"gelo-no-penis-exorcismo-e-medo-os-padres-gays-silenciados-pela-igreja-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/gelo-no-penis-exorcismo-e-medo-os-padres-gays-silenciados-pela-igreja-no-brasil\/","title":{"rendered":"Gelo no p\u00eanis, exorcismo e medo; os padres gays silenciados pela Igreja no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Vitor Hugo Brandalise<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/0339\/production\/_110952800_padre2.jpg\" alt=\"Padre de costas vestido com batina branca\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Para os padres que conversaram com a reportagem, a Igreja Cat\u00f3lica no Brasil tem avan\u00e7ado pouco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de moral sexual<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">No meio da noite, num semin\u00e1rio cat\u00f3lico em S\u00e3o Paulo, um aspirante a padre se martirizava: &#8220;Em nome de Jesus, dem\u00f4nio da homossexualidade, saia de mim!&#8221;. Deitado em sua cama no quarto que dividia com dois religiosos, Rafael*, de 20 anos, apertava as unhas nas palmas das m\u00e3os at\u00e9 quase machucar, e rezava sem parar. Insone, caminhava at\u00e9 o banheiro e, esbravejando e chorando, agredia o seu \u00f3rg\u00e3o sexual e o envolvia em cubos de gelo. Deitava no ch\u00e3o gelado ou, em outros momentos, ficava sob a ducha fria at\u00e9 amanhecer, rezando e suplicando. &#8220;Esp\u00edrito inimigo, manifesta\u00e7\u00e3o do Mal. Saia de mim!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ora\u00e7\u00f5es e supl\u00edcios eram parte de um ritual noturno que o seminarista chamava de &#8220;exorcismo da homossexualidade&#8221;. Nessas noites, Rafael pedia para deixar de ser uma pessoa &#8220;desordenada&#8221;, como documentos da Igreja Cat\u00f3lica definem os homens e mulheres gays. &#8220;Senhor, me cura de toda tend\u00eancia homossexual&#8221;, rezava o estudante, que chegara \u00e0 capital paulista dois anos antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as primeiras li\u00e7\u00f5es recebidas ao entrar num semin\u00e1rio diocesano, em 1994, Rafael sentiu o peso de uma contradi\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje insuper\u00e1vel nas regras da Igreja: h\u00e1 anos, seus l\u00edderes afirmam que a homossexualidade \u00e9 &#8220;contr\u00e1ria \u00e0 lei natural&#8221; e que homens com &#8220;tend\u00eancias homossexuais fortemente radicadas&#8221; n\u00e3o podem ser padres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Rafael, o tormento aumentava ap\u00f3s os retiros anuais de seu semin\u00e1rio, no interior paulista. Na frente de plateias repletas de seminaristas, padres refor\u00e7avam a ideia de que a homossexualidade seria uma &#8220;doen\u00e7a&#8221;, um &#8220;fruto da a\u00e7\u00e3o do mal&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de viver sob uma condi\u00e7\u00e3o a ser &#8220;curada&#8221; acompanhou Rafael por muito tempo. Nove anos depois das noites de exorcismo no semin\u00e1rio, j\u00e1 ordenado sacerdote, ele anotou em uma esp\u00e9cie de carta, endere\u00e7ada a Deus: &#8220;Cansei de fingir ser quem eu n\u00e3o sou. Quero descansar&#8221;, relembrou Rafael, hoje um padre na periferia de S\u00e3o Paulo, &#8220;por favor, Deus, me leve. Prefiro a morte&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Solid\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias dos padres gays s\u00e3o vividas em segredo, discutidas apenas entre eles, tratadas em guetos dentro das congrega\u00e7\u00f5es, sob o medo de persegui\u00e7\u00e3o e de ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Ou, apenas, em solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 uma estat\u00edstica oficial sobre o n\u00famero de padres cat\u00f3licos homossexuais no Brasil. No pa\u00eds, dentre 27 mil padres, n\u00e3o h\u00e1 nenhum que esteja atualmente exercendo o sacerd\u00f3cio e que tenha assumido a homossexualidade em p\u00fablico. Nos Estados Unidos, pouco mais de dez j\u00e1 falaram publicamente sobre sua orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dezenas de padres gays brasileiros e pesquisadores do tema estimam, entretanto, que o n\u00famero de homossexuais entre os sacerdotes do pa\u00eds \u00e9 significativo. Padres, formadores de sacerdotes e estudiosos ouvidos pela reportagem estimam, informalmente, que existam ao menos 30% de homens gays no clero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um padre gay no Cear\u00e1 disse \u00e0 BBC News Brasil que, em sua ordem religiosa no Nordeste, &#8220;pelo menos 80%&#8221; dos colegas t\u00eam essa orienta\u00e7\u00e3o. Um seminarista disse \u00e0 reportagem que, em sua turma de 40 estudantes no interior de S\u00e3o Paulo, 30 seriam homossexuais. E uma pesquisadora que estuda um monast\u00e9rio cat\u00f3lico no Nordeste afirma que, l\u00e1, &#8220;90% do clero \u00e9 gay&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seis padres e seminaristas homossexuais de cinco Estados brasileiros aceitaram compartilhar suas hist\u00f3rias, ao longo de um m\u00eas, com a reportagem da BBC News Brasil. Todos pediram anonimato, por receio de puni\u00e7\u00f5es. Mesmo que vivam o celibato, como pede a doutrina cat\u00f3lica, se os seus superiores considerarem que t\u00eam orienta\u00e7\u00e3o sexual inadequada, eles podem ser expulsos da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse um padre da Bahia antes de aceitar conceder a entrevista, &#8220;minha vida depende desse anonimato&#8221;. Do contr\u00e1rio, ele poderia perder n\u00e3o s\u00f3 o emprego, mas a casa, o plano de sa\u00fade, a aposentadoria e amigos. Teria que deixar a par\u00f3quia que hoje lidera, no interior baiano, com &#8220;uma sacola de roupas velhas&#8221;, poucas centenas de reais na conta banc\u00e1ria e sem ideia do que fazer depois.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">No fogo cruzado, os padres gays<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, as discuss\u00f5es sobre como lidar com os padres homossexuais dentro da Igreja aumentaram. Em 2013, respondendo a uma pergunta sobre a influ\u00eancia de sacerdotes gays no Vaticano, o papa Francisco disse sua famosa frase &#8220;Quem sou eu para julgar?&#8221; \u2014 uma fala que trouxe esperan\u00e7a a todos os cat\u00f3licos LGBTs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano seguinte, no S\u00ednodo sobre a Fam\u00edlia, o papa fez uma refer\u00eancia direta aos &#8220;dons e qualidades&#8221; dos homossexuais e perguntou se a Igreja &#8220;seria capaz de acolher&#8221; essas pessoas. O trecho n\u00e3o conseguiu a quantidade necess\u00e1ria de votos de bispos para constar do documento final do encontro, mas foi recebido como uma nova maneira de tratar do tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rea\u00e7\u00e3o em setores tradicionalistas cat\u00f3licos foi forte. A tentativa de maior abertura teria tido influ\u00eancia em uma campanha contra o papa que se agravou com a acusa\u00e7\u00e3o de que Francisco teria acobertado ou tolerado abusos sexuais de menores cometidos pelo ex-cardeal americano Theodore E. McCarrick (posteriormente expulso da Igreja pelo papa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma carta aberta, um ex-embaixador do Vaticano em Washington, Carlo Maria Vigan\u00f2, chegou a pedir a ren\u00fancia do papa e denunciou uma &#8220;m\u00e1fia rosa&#8221; que agiria na Santa S\u00e9. Segundo Vigan\u00f2, esse grupo pregaria mais poder para o clero homossexual e encobriria casos de pedofilia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dezenas de estudos feitos em v\u00e1rios pa\u00edses jamais encontraram rela\u00e7\u00e3o entre ser gay e abusar sexualmente de crian\u00e7as. Ainda assim, bispos e cardeais desses mesmos setores tradicionalistas insistem em apontar os padres homossexuais como a causa do problema dentro da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas manifesta\u00e7\u00f5es seguintes sobre o clero gay, o pr\u00f3prio papa pareceu se tornar mais cr\u00edtico. Ele disse, em maio de 2018, que a homossexualidade est\u00e1 &#8220;na moda&#8221; e que &#8220;\u00e9 melhor que deixem o sacerd\u00f3cio a continuarem a viver uma vida dupla&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, em nova abertura, em setembro, Francisco recebeu o padre jesu\u00edta James Martin, um defensor da causa gay entre os sacerdotes. A reuni\u00e3o foi vista como novo sinal de apoio do pont\u00edfice \u00e0 acolhida de homossexuais.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Brasil<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o posicionamento da Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 id\u00eantico \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do Vaticano. Em resposta a questionamentos da BBC News Brasil sobre quem pode se tornar padre, o arcebispo-primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, citou a \u00faltima instru\u00e7\u00e3o publicada pela Igreja, em 2005 \u2014 a que fala que n\u00e3o se pode &#8220;admitir nos semin\u00e1rios e ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade&#8221;, apresentam &#8220;tend\u00eancias homossexuais profundamente radicadas&#8221; ou &#8220;apoiam a chamada &#8216;cultura gay'&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto que a Arquidiocese-primaz do Brasil cita passou a valer nos primeiros meses do papado de Joseph Ratzinger, o Bento 16, e \u00e9 o mais restritivo em rela\u00e7\u00e3o aos gays.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A instru\u00e7\u00e3o repete normas que j\u00e1 apareciam no Catecismo da Igreja (conjunto de regras da doutrina cat\u00f3lica para todos os pa\u00edses), escrito pelo pr\u00f3prio Ratzinger, ent\u00e3o cardeal, em 1986 \u2014 quando era o l\u00edder da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, entidade do Vaticano respons\u00e1vel por defender a tradi\u00e7\u00e3o e as ideias teol\u00f3gicas da Igreja. Vigente ainda hoje, esse \u00e9 o texto que define pessoas gays como &#8220;objetivamente desordenadas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meio dos embates na Santa S\u00e9 e nas igrejas nacionais est\u00e3o os padres gays \u2014 que recebem calados os impactos das disputas entre os setores tradicionalistas e progressistas da Igreja, e de grupos de fi\u00e9is fora dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse um padre gay do interior da Bahia, querer avan\u00e7ar na discuss\u00e3o sobre a acolhida do clero gay na Igreja, neste momento de divis\u00e3o, \u00e9 &#8220;pedir para ser apedrejado&#8221;. &#8220;H\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de que, com Francisco, \u00e9 agora ou nunca (para mudan\u00e7as). Mas, como na doutrina nada muda, ao mesmo tempo em que h\u00e1 mais integrantes do clero querendo falar, a ang\u00fastia s\u00f3 aumenta, por n\u00e3o se sentirem seguros para isso.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respons\u00e1vel pelas discuss\u00f5es que podem promover mudan\u00e7as na Igreja no pa\u00eds, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou, por sua vez, que n\u00e3o foram feitas nos \u00faltimos anos e nem est\u00e3o sendo feitas atualmente, em suas assembleias internas, discuss\u00f5es sobre os sacerdotes homossexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos desses padres oscilam entre os lampejos de abertura de Francisco, a postura distante da Igreja Cat\u00f3lica no Brasil e a franca agressividade dos setores ultratradicionalistas. E vivem suas trajet\u00f3rias em sil\u00eancio, no dia a dia das par\u00f3quias do interior e das grandes cidades brasileiras, sem revelar quem eles realmente s\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12112\/production\/_111120047_papa_afp.jpg\" alt=\"Papa Francisco\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>No S\u00ednodo sobre a Fam\u00edlia de 2014, o papa Francisco fez uma refer\u00eancia direta aos &#8216;dons e qualidades&#8217; dos homossexuais e perguntou se a Igreja &#8216;seria capaz&#8217; de acolh\u00ea-los<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Nunca em dois<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aspirantes a padres aprendem como funciona o arm\u00e1rio cat\u00f3lico ainda no semin\u00e1rio. Muitas das normas dessas casas de forma\u00e7\u00e3o s\u00f3 existem para combater as &#8220;tend\u00eancias homossexuais&#8221; entre os seminaristas, como relembra o padre Rafael, hoje aos 45 anos, em uma conversa com a BBC News Brasil na cozinha da casa simples onde vive, perto de sua par\u00f3quia em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andar em duplas pelos corredores e p\u00e1tios \u00e0 noite, por exemplo, era visto com maus olhos. Os dormit\u00f3rios eram compartilhados, sempre, entre tr\u00eas ou cinco seminaristas. &#8220;Nunca duas, nunca quatro pessoas. Era uma regra que todos entendiam: para evitar a forma\u00e7\u00e3o de casais&#8221;, conta o padre. &#8220;Mas o que acabava inibindo eram as amizades.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistir ao telejornal depois do jantar, ou ir ao cinema, s\u00f3 se os seminaristas estivessem em n\u00fameros \u00edmpares. &#8220;Provoca um clima tenso, n\u00e3o \u00e9 natural, tranquilo. Sempre h\u00e1 olhos em voc\u00ea. E isso se prolonga por sete, oito anos&#8221;, diz um outro seminarista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois seminaristas com quem a reportagem conversou (um de Minas Gerais e outro do Piau\u00ed) relataram regras semelhantes em suas rotinas. &#8220;Quem vai achar que esse \u00e9 um bom ambiente para uma pessoa ter uma forma\u00e7\u00e3o sentimental saud\u00e1vel?&#8221;, questiona o padre Rafael. &#8220;\u00c9 importante ter um bom desenvolvimento afetivo para ficar bem consigo e depois poder servir bem aos fi\u00e9is. N\u00e3o \u00e9 essa a raz\u00e3o de ser da igreja?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos seus anos de forma\u00e7\u00e3o, Rafael traz tamb\u00e9m a sensa\u00e7\u00e3o de culpa. Segundo o catecismo da Igreja, a masturba\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada pecado grave, por representar um ato sexual cujo fim n\u00e3o \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o. Se envolvesse pensamentos homossexuais, tratava-se de &#8220;manifesta\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio&#8221; \u2014 uma &#8220;sensa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel&#8221;, define Rafael, e sobre a qual n\u00e3o podia falar com ningu\u00e9m, por medo de ser expulso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse per\u00edodo da juventude, entre os 20 e os 25 anos, o seminarista considerou estrat\u00e9gias diversas para combater esse &#8220;mal&#8221;: al\u00e9m das aplica\u00e7\u00f5es de gelo na genit\u00e1lia, quis ter um cinto de castidade (&#8220;achava que um cadeado resolveria&#8221;) e decidiu deixar de comer seus pratos preferidos (&#8220;uma ideia de purifica\u00e7\u00e3o contra o prazer&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro padre gay, Aur\u00e9lio*, hoje p\u00e1roco numa cidade m\u00e9dia no interior da Bahia, conta que em seu semin\u00e1rio, no in\u00edcio dos anos 2000, santos cat\u00f3licos &#8220;bem-sucedidos&#8221; em reprimir a sexualidade eram citados como exemplos a seguir. S\u00e3o Francisco de Assis, contavam os formadores, se atirava nos espinhos de uma roseira quando sentia impulsos sexuais fortes demais, ou na neve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 20 anos, Aur\u00e9lio acreditou que a priva\u00e7\u00e3o do sono seria uma boa forma de frear seus desejos (fortes naquele tempo, segundo ele conta). &#8220;Me obrigava a dormir tr\u00eas horas por noite, no m\u00e1ximo. Fazia trabalhos de gra\u00e7a, virava noites, me cansava muito. Achava que, se eu estivesse bem desgastado, n\u00e3o teria desejos&#8221;, contou o padre. Como resultado, perdeu mais de 10 quilos e, numa manh\u00e3, caiu de cama e durante dias n\u00e3o p\u00f4de se levantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um al\u00edvio poss\u00edvel, nesse contexto, era a confiss\u00e3o. &#8220;Eu chegava a ir de roup\u00e3o ao confession\u00e1rio. Sa\u00eda do banho morrendo de culpa por ter tido prazer sexual sozinho&#8221;, relembra o padre Rafael. &#8220;Era um al\u00edvio incompleto. N\u00e3o sentia confian\u00e7a no padre confessor, n\u00e3o falava das minhas fantasias com receio de ser perseguido. Logo depois me sentia culpado de novo. A sexualidade era esse inferno, de dia e de noite. Um terror.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas aulas sobre a doutrina, as d\u00favidas se multiplicavam. &#8220;A masturba\u00e7\u00e3o, um pecado grave? Honestamente, Deus est\u00e1 preocupado se voc\u00ea est\u00e1 se tocando? E a\u00ed vai ao confession\u00e1rio e n\u00e3o fala que tratou mal o pobre, que manchou a imagem de algu\u00e9m\u2026 O \u00fanico pecado era a sexualidade&#8221;, afirma Rafael. &#8220;E satanizei esse meu lado. Percebi que tinha a &#8216;tend\u00eancia&#8217; e fiquei pirado. Lembro do dia em que falei para mim mesmo: &#8216;Meu Deus, estou desconfiado de que sou gay. Nem mere\u00e7o estar vivo&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu semin\u00e1rio, Rafael ouviu pela primeira vez uma express\u00e3o comum nesse meio: as &#8220;amizades particulares&#8221;, como os superiores chamavam os relacionamentos entre jovens que eles acreditavam serem gays.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;&#8216;N\u00e3o podemos ceder a amizades particulares&#8217;, eles falavam, uma regra sempre repetida&#8221;, conta Rafael. &#8220;Era uma forma de dizer que a proximidade entre amigos estava descambando para a &#8216;anormalidade&#8217;. Eu vivi isso. Tinha meu melhor amigo e ouv\u00edamos cr\u00edticas: &#8216;Olha quem vem l\u00e1, uma amizade particular\u2026'&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Rafael estava decidido a viver o celibato, e tamb\u00e9m a afastar suspeitas de que desrespeitava essa regra, ele se distanciava das pessoas com quem tinha afinidade. &#8220;A consequ\u00eancia \u00e9 que os semin\u00e1rios formam jovens adultos muito imaturos emocionalmente.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Por que insistir em ser padre?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael terminou sua forma\u00e7\u00e3o em 2002 e, uma vez ordenado, encontrou durante algum tempo relativa paz. Viver em celibato \u00e9 um desafio para qualquer padre, ele dizia a si pr\u00f3prio, seja ele gay ou heterossexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de uma &#8220;igreja para os pobres&#8221; era o que o atra\u00eda, e Rafael, como os padres que aceitaram contar suas hist\u00f3rias nesta reportagem, n\u00e3o duvidava de ter ouvido o &#8220;chamado&#8221;. N\u00e3o questionava, enfim, o que a Igreja Cat\u00f3lica chama de voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sentia que tinha o que \u00e9 necess\u00e1rio para ser um bom sacerdote. Nunca duvidei disso. A Igreja que me atrai \u00e9 a que est\u00e1 com o povo, que se doa, ajuda as pessoas, vai ao encontro de quem precisa. A Igreja que prepara para enfrentar a vida e n\u00e3o a que vira as costas para o diferente&#8221;, diz. &#8220;\u00c9 a ideia que me mant\u00e9m nela at\u00e9 hoje, mesmo que n\u00e3o me aceite plenamente.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dedicado, o padre Rafael galgou posi\u00e7\u00f5es dentro de sua diocese, que o colocou em uma rela\u00e7\u00e3o de autoridade sobre outros padres. Foi quando voltou a sentir o peso da contradi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que abra\u00e7ara. &#8220;Eu me perguntava: como posso ser respons\u00e1vel por essa estrutura toda e sentir atra\u00e7\u00e3o por homens? Est\u00e1 errado, eu sou errado. Deus vai me castigar, vai descontar nas minhas iniciativas pastorais, algo muito ruim vai acontecer.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, um frequentador de uma par\u00f3quia sob sua responsabilidade passou a se dizer possu\u00eddo pelo dem\u00f4nio. Para Rafael, a culpa era sua, da sua sexualidade e de seus sentimentos &#8220;desordenados&#8221;. &#8220;Nessa \u00e9poca, come\u00e7aram a surgir feridas no meu corpo, que eu procurava esconder e que demoraram meses para sarar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O padre havia tentado fazer terapia com uma psic\u00f3loga indicada pela Igreja. Mas a experi\u00eancia n\u00e3o foi boa. Quando ousou falar de sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, a rea\u00e7\u00e3o da profissional foi perguntar: &#8220;S\u00e9rio?&#8221; E relatou como, um tempo antes, havia &#8220;curado&#8221; um senhor de suas &#8220;tend\u00eancias&#8221;. Recomendada pela Igreja, a psic\u00f3loga era adepta da &#8220;terapia de convers\u00e3o&#8221;, a chamada &#8220;cura gay&#8221;. Rafael escreveu nessa \u00e9poca as linhas em que dizia preferir morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pensei: o que vou fazer? Ent\u00e3o descobri os sites porn\u00f4, fiquei viciado em pornografia, v\u00eddeos de sexo entre homens todo dia, a culpa s\u00f3 aumentava\u2026 N\u00e3o aguentava mais, e orei pela minha morte.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meses depois, os poucos amigos com quem passou a falar sobre o assunto insistiram para que ele tentasse novamente a terapia. Recebeu a indica\u00e7\u00e3o de um outro padre, psic\u00f3logo, que atendia dentro de uma congrega\u00e7\u00e3o. Desta vez, a abordagem foi outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A primeira frase que disse pra ele foi: &#8216;Eu reconhe\u00e7o que tenho uma tend\u00eancia homossexual, mas n\u00e3o aceito&#8217;. E a primeira coisa que ele falou foi: &#8216;Mas como voc\u00ea vai ser feliz, se voc\u00ea n\u00e3o se aceita?'&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Cara, ele me quebrou as pernas. Que diferen\u00e7a. Joguei fora um livro que eu estava lendo, coisa pesad\u00edssima, chamado\u00a0<i>Batalha pela Normalidade Sexual<\/i>\u00a0\u2014 que normalidade \u00e9 essa, meu amigo? Mas foi s\u00f3 ali que comecei a entender. Tomei consci\u00eancia dos meus mecanismos, de como eu jogava tudo para baixo do tapete, do problema que \u00e9 n\u00e3o falar sobre o que se sente\u2026 Comecei a me aceitar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao receber ajuda deste outro padre psic\u00f3logo, que lhe disse ter atendido outras dezenas de sacerdotes com ang\u00fastias parecidas,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael percebeu uma outra faceta do arm\u00e1rio cat\u00f3lico: entre os padres, ele n\u00e3o \u00e9 secreto de forma alguma. Todos sabem da exist\u00eancia de homossexuais no clero \u2014 a quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se pode falar disso publicamente. &#8220;\u00c9 a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de tabu.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma situa\u00e7\u00e3o inesperada vivida nessa \u00e9poca, em meados de 2012, contribuiu para o processo de aceita\u00e7\u00e3o do padre Rafael. Em uma viagem, ele encontrou um superior, um bispo conhecido seu, que o olhou de um jeito novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele deu em cima de mim. O bispo se aproximou, me deu um beijo na orelha. Fiquei sem rea\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o o conhecia h\u00e1 muito tempo, mas simpatizava com ele e n\u00e3o quis afast\u00e1-lo. Deixei que ele me tocasse, toquei nele. Ficou nisso. Ele era uma autoridade, n\u00e3o fiquei \u00e0 vontade para nada mais. Olha, eu tento viver o celibato, mas h\u00e1 momentos de tenta\u00e7\u00e3o. Esse foi um&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fiquei achando que aquilo podia ser uma desgra\u00e7a na minha vida, que eu podia ficar traumatizado. Mas foi o contr\u00e1rio: senti uma liberta\u00e7\u00e3o. Comecei a raciocinar: se eu, que sou um pobre miser\u00e1vel, com responsabilidades medianas na Igreja, sinto esse tipo atra\u00e7\u00e3o e fico me culpando\u2026 Vem esse cara, com centenas abaixo dele, e tamb\u00e9m sente. N\u00e3o vou me culpar mais. Vou ficar tranquilo, se \u00e9 para me masturbar, vou me masturbar, vou fazer minha terapia&#8230; Eu sou o que sou.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed, aos 38 anos, come\u00e7a o per\u00edodo que o padre Rafael chama de &#8220;liberta\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;A tranquilidade de entender que n\u00e3o era s\u00f3 comigo me ajudou muito, diminu\u00ed a pornografia, a masturba\u00e7\u00e3o. As coisas deixaram de ter propor\u00e7\u00f5es enormes na minha vida, como tinham antes. E deixei de me culpar pelo prazer.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma liberdade ainda prec\u00e1ria, diz ele \u2014 pois, embora j\u00e1 tenha sa\u00eddo do arm\u00e1rio para si pr\u00f3prio e alguns amigos padres mais pr\u00f3ximos, n\u00e3o o fez publicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Rafael, o ass\u00e9dio do bispo foi uma prova do que ele j\u00e1 intu\u00eda. A presen\u00e7a de gays extrapola os semin\u00e1rios e par\u00f3quias, e avan\u00e7a pela hierarquia da Igreja, que finge que a quest\u00e3o n\u00e3o existe.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16F32\/production\/_111120049_padre1.jpg\" alt=\"Padre de batina branca e com faixa vermelha sobre os ombros\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;O bispo se aproximou, me deu um beijo na orelha, deixei que ele me tocasse, toquei nele; ele deu em cima de mim, ficou nisso&#8221;, contou o padre a BBC News Brasil.<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O clero gay<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante boa parte da hist\u00f3ria da Igreja Cat\u00f3lica, a presen\u00e7a ou mesmo a predomin\u00e2ncia de padres gays n\u00e3o representou problema algum. Na verdade, era um fato encarado com indiferen\u00e7a pelos papas, como afirmou o autor brit\u00e2nico Andrew Sullivan, que escreve sobre homossexualidade, pol\u00edtica e religi\u00e3o, em artigo publicado na New York Magazine no ano passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia inquieta\u00e7\u00e3o com a vida sexual em geral, mas n\u00e3o com a quest\u00e3o espec\u00edfica da homossexualidade, desde que se respeitasse o celibato, escreve Sullivan. Para ilustrar essa maior toler\u00e2ncia, ele cita registros hist\u00f3ricos de padres e monges que, nos s\u00e9culos 11 e 12, enviavam poemas de amor uns aos outros. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias de que tenham sido perseguidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, em um exemplo da menor import\u00e2ncia que se dava ao tema, o papa Le\u00e3o 9\u00ba recusou um pedido de proibi\u00e7\u00e3o expressa da homossexualidade no clero, em 1051. Na justificativa, o l\u00edder cat\u00f3lico disse que o problema seria se o sexo homossexual fosse &#8220;uma pr\u00e1tica antiga, ou praticado com muitos homens&#8221; e aceitou que falhas eventuais fossem perdoadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos depois, em 1059, o papa Alexandre 2\u00ba tamb\u00e9m reagiu com distanciamento a proposta semelhante e n\u00e3o a atendeu, como apontou o historiador da Universidade de Yale John Boswell, no livro\u00a0<i>Christianity, Social Tolerance and Homossexuality<\/i>\u00a0(<i>Cristianidade, Toler\u00e2ncia Social e Homossexualidade<\/i>, publicado em 1980).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma mudan\u00e7a crucial veio no s\u00e9culo 13, quando S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, nos apontamentos mais tarde reunidos em sua\u00a0<i>Suma Teol\u00f3gica<\/i>, denunciou atos homossexuais como sendo &#8220;contra a natureza&#8221;, e classificou a rela\u00e7\u00e3o entre pessoas do mesmo sexo como &#8220;pecado mais grave&#8221; do que a viola\u00e7\u00e3o ou o adult\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dali, o tabu em rela\u00e7\u00e3o ao tema prosperou. A pr\u00e1tica sexual, segundo Tom\u00e1s de Aquino, teria de se restringir ao casamento e \u00e0 procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja abra\u00e7ou esse ide\u00e1rio. \u00c9 o que sustenta, ainda hoje, a doutrina escrita por Ratzinger em 1986.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Sil\u00eancio<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais que tenham se tornado a voz oficial do catolicismo nos s\u00e9culos seguintes, as bases colocadas por Tom\u00e1s de Aquino n\u00e3o levaram \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o dos padres gays.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que ela fez foi provocar um silenciamento e um mergulho na clandestinidade, que vemos at\u00e9 hoje&#8221;, diz a BBC News Brasil o padre e te\u00f3logo ingl\u00eas James Alison, que \u00e9 gay e escreveu\u00a0<i>F\u00e9 Al\u00e9m do Ressentimento &#8211; Fragmentos Cat\u00f3licos em Voz Gay<\/i>\u00a0(Ed. \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado pela Universidade de Oxford, Alison viveu no Brasil durante dez anos \u2014 entre 1987 e 1990 (quando fez um doutorado em Teologia pela Faculdade Jesu\u00edta de Belo Horizonte) e, mais tarde, entre 2008 e 2014, em S\u00e3o Paulo \u2014, e estuda a rela\u00e7\u00e3o de homossexualidade e clero pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 um sil\u00eancio que favorece o ambiente de medo e impede uma vida emocional adulta, honesta e transparente&#8221;, disse ele. &#8220;Ele impede o que chamamos de &#8216;parrhesia&#8217;, ou ousadia da palavra livre que \u00e9 t\u00e3o importante para passar a mensagem do evangelho.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa noite de domingo, ap\u00f3s um dia de trabalho em sua par\u00f3quia na Bahia, o padre Aur\u00e9lio, hoje aos 36 anos, reflete sobre como um ideal de masculinidade imposto pela Igreja obriga sacerdotes a uma &#8220;vida de apar\u00eancias&#8221;. &#8220;\u00c9 desolador viver fingindo. No meu caso, lamentavelmente, em muitos momentos coloquei m\u00e1scaras para poder continuar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como resultado, ele diz, muitos padres agem com pouca naturalidade. &#8220;Ser\u00e1 que eu tenho algum trejeito, ser\u00e1 que estou andando direitinho, estou pregando com muitos gestos? A minha voz \u00e9 afeminada? J\u00e1 passei por isso e colegas me perguntam o mesmo. Voc\u00ea fica o tempo todo preocupado, atrapalhado&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E me faz sentir desonesto. Muitas vezes aparecem rapazes desesperados, chorando, falando que n\u00e3o se aceitam como gays. D\u00e1 vontade de partilhar: eu passei por isso, tem caminhos para a aceita\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o tenho coragem.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a forma\u00e7\u00e3o, Aur\u00e9lio tentou tr\u00eas vezes falar sobre o tema aos padres-professores, e foi recebido com frieza. &#8220;Contando parece at\u00e9 engra\u00e7ado, mas dava muita raiva. Eu dizia que n\u00e3o conseguia mais viver, e eles me mandavam rezar uma penit\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na quarta tentativa de se abrir, um formador o escutou. Os dois caminhavam em um passeio a uma praia e, ap\u00f3s um coment\u00e1rio deste padre sobre uma mulher bonita, Aur\u00e9lio tomou coragem para dizer que n\u00e3o sentia nada por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele olhou para mim, para ela, e perguntou: &#8216;voc\u00ea n\u00e3o acha ela bonita?&#8217; E eu: &#8216;acho, mas eu n\u00e3o gosto de mulher desse jeito&#8217;. A\u00ed ele me chamou para sentar na areia com ele e conversamos. Lembro at\u00e9 hoje das palavras dele: obrigado por confiar e partilhar. E a\u00ed eu chorei, fiquei emocionado porque ele acolheu e, atrav\u00e9s de uma brincadeira, consegui falar a verdade&#8221;, relembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Depois ele passou a perguntar sobre meus sentimentos. Me viu como algu\u00e9m que poderia ajud\u00e1-lo a entender a homossexualidade, para acompanhar outros seminaristas. Um padre bem resolvido com a sua orienta\u00e7\u00e3o, disposto a ajudar os outros a entenderem a sua. S\u00e3o esses padres, gays ou h\u00e9teros, os que salvam a Igreja.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Orienta\u00e7\u00e3o sexual bem definida&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos de semin\u00e1rio, Aur\u00e9lio ficou mais destemido \u2014 &#8220;mais eu mesmo&#8221;, diz \u2014 e passou a questionar alguns dogmas. &#8220;O formador falava dos desafios a enfrentar, porque mulheres d\u00e3o em cima dos padres nas par\u00f3quias. Mas e os padres gays, por que n\u00e3o se falava dos desejos deles? Eu levantava a m\u00e3o e perguntava. Fui reprovado, fiquei dois anos a mais no semin\u00e1rio porque n\u00e3o me liberavam. Parecia cuidado comigo, mas era temor, achavam que eu n\u00e3o seria discreto.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu relat\u00f3rio final, no espa\u00e7o destinado \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual, Aur\u00e9lio escreveu a verdade \u2014 homossexual. O mesmo padre com quem ele se assumiu pela primeira vez o chamou num canto e disse que, se n\u00e3o alterasse aquilo, teria problemas. O padre sugeria colocar &#8220;heterossexual&#8221;. O jovem insistiu, e chegaram a um meio termo: &#8220;Aur\u00e9lio tem uma orienta\u00e7\u00e3o sexual bem definida&#8221;. Assim ficou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aur\u00e9lio ordenou-se em meados dos anos 2000 e, conhecido em seu meio pelo interesse na tem\u00e1tica homossexual em discuss\u00f5es e estudos, acabou ficando isolado. Ele descumpriu a mais importante regra do arm\u00e1rio cat\u00f3lico: o verdadeiro pecado \u00e9 n\u00e3o esconder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolhido para ser vig\u00e1rio (um dos padres subordinados a um p\u00e1roco) em uma cidade pequena, ele logo notou que sua fama o precedia. &#8220;Sabiam que eu era gay, e muitos eram tamb\u00e9m. O preconceito n\u00e3o era em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha orienta\u00e7\u00e3o. Mas eles achavam que minha postura mais &#8216;combativa&#8217; chamaria a aten\u00e7\u00e3o para eles tamb\u00e9m. Fui sendo rejeitado.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Aur\u00e9lio passou a beber duas, tr\u00eas garrafas de vinho por dia. &#8220;Hoje eu vejo que era car\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 do desejo, mas de n\u00e3o ter com quem conversar. Eu bebia todos os dias, me sentia inferior por ser homossexual e isolado por essa minha bendita transpar\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aur\u00e9lio recebeu uma visita do bispo de sua regi\u00e3o, que ouvira que ele precisava de ajuda. &#8220;Mas eu n\u00e3o consegui me abrir. O que eu fiz foi pedir para ser internado em uma cl\u00ednica de desintoxica\u00e7\u00e3o do alcoolismo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de tr\u00eas meses, ele voltou ao servi\u00e7o e, com a ajuda do mesmo bispo, conseguiu uma transfer\u00eancia para o interior da Bahia \u2014 passou a servir em uma par\u00f3quia de fi\u00e9is fervorosos, ele conta, com orgulho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Aur\u00e9lio, hoje, afirma trabalhar at\u00e9 15 horas por dia, e sabe que se trata de uma esp\u00e9cie de fuga. &#8220;Meu normal \u00e9 me sobrecarregar de servi\u00e7o, creio que por medo da solid\u00e3o&#8221;, desabafa. O excesso de carga hor\u00e1ria tem ainda um outro motivo. &#8220;Acredito que n\u00f3s, homossexuais, somos capazes de acolher bem outros marginalizados.&#8221; Seus hor\u00e1rios de escuta na par\u00f3quia, ele conta, est\u00e3o sempre cheios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que n\u00e3o fale sobre sua sexualidade em p\u00fablico, Aur\u00e9lio \u00e9 um padre que se exp\u00f5e um pouco mais \u2014 em uma reuni\u00e3o com seus superiores, por exemplo, indicou dois pontos para serem inclu\u00eddos nas forma\u00e7\u00f5es: homossexualidade no clero e o sofrimento ps\u00edquico dos sacerdotes. &#8220;Nenhum deles foi escolhido. Decidiram tratar de direito can\u00f4nico.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tentativas de trazer o assunto \u00e0 tona, por\u00e9m, levaram Aur\u00e9lio a ser procurado \u2014 sempre discretamente \u2014 por jovens aspirantes a padres ou outros sacerdotes, angustiados com sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. &#8220;Mostra uma falha na forma\u00e7\u00e3o, porque eles enganam seus orientadores.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos jovens que o procuram, ele d\u00e1 a orienta\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o guardem para si. No entanto, ressalva, \u00e9 preciso avaliar o interlocutor. &#8220;Quando eu sei que o superior \u00e9 inclusivo, eu oriento a conversar sem medo. J\u00e1 tem outros que eu digo &#8216;Por favor, n\u00e3o fale para ele. Se falar, com certeza vai ser expulso.&#8217; Nesses casos eu falo para partilhar com uma psic\u00f3loga, por fora.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/84D2\/production\/_111120043_gettyimages-1069383094.jpg\" alt=\"padre reza missa\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;Meu normal \u00e9 me sobrecarregar de servi\u00e7o, creio que por medo da solid\u00e3o&#8221;, desabafa o padre Aur\u00e9lio.<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Nas m\u00e3os dos bispos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A regra geral de rejeitar candidatos gays \u00e9 muitas vezes ignorada por bispos e reitores, dizem pesquisadores da homossexualidade no clero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na pr\u00e1tica, h\u00e1 bom senso de alguns desses superiores, desses bispos, que priorizam a capacidade de trabalho e a fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o ao rigor da doutrina. Ou seja, discordam da norma&#8221;, disse o padre e te\u00f3logo \u00c9lio Gasda, professor da Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte, que comanda um grupo de estudos de diversidade cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escassez de padres e um compromisso de comportar-se &#8220;com discri\u00e7\u00e3o&#8221; s\u00e3o outros motivos pelos quais \u00e0s vezes a regra caduca, explica o te\u00f3logo. &#8220;Uma \u00faltima possibilidade, remota, mas poss\u00edvel, \u00e9 que o bispo e ou o formador do semin\u00e1rio tamb\u00e9m sejam homoafetivos. Ent\u00e3o h\u00e1 uma esp\u00e9cie de &#8216;dificuldade moral&#8217; da autoridade em recusar homossexuais.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso considerar, ainda, particularidades geracionais no que diz respeito ao &#8220;arm\u00e1rio cat\u00f3lico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com um formador de seminaristas, que n\u00e3o quis se identificar, muitos t\u00eam rompido o sil\u00eancio, pelo menos dentro dos muros das escolas de padres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Houve mudan\u00e7as de cinco anos para c\u00e1. Por exemplo: presenciei entrevistas em que o jovem trouxe logo de cara: &#8216;Sou gay e quero ser padre&#8217;. Falou sem rodeios, sorriu e cruzou os bra\u00e7os, esperando uma resposta do superior&#8221;, contou esse formador, que vive em um convento em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nesse caso, ele passou por uma entrevista muito rigorosa, disse estar disposto ao celibato e foi aprovado. Est\u00e1 a\u00ed, no segundo ano de forma\u00e7\u00e3o&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um outro seminarista, de Minas Gerais, que teve uma experi\u00eancia positiva ao revelar de cara sua orienta\u00e7\u00e3o ao superior, a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;com a fachada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A rea\u00e7\u00e3o do meu orientador foi marcar uma conversa com um bispo, no dia seguinte. Fui at\u00e9 l\u00e1, o bispo me ouviu, agradeceu a franqueza e me disse pra seguir em frente&#8221;, contou o estudante, de 27 anos. &#8220;E falou que meu orientador me ensinaria &#8216;como agir&#8217;. Entendi que s\u00f3 n\u00e3o podia ter esc\u00e2ndalo. A ideia \u00e9 dissimular, para n\u00e3o perder a f\u00e9 das senhorinhas devotas.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Clandestinidade e injusti\u00e7a<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se trata de assunto clandestino, h\u00e1 tratamentos desiguais e injusti\u00e7as. Todas as pessoas ouvidas pela reportagem da BBC News Brasil conhecem seminaristas que foram expulsos por serem afeminados, ou por terem tido experi\u00eancias sexuais \u2014 as chamadas &#8220;reca\u00eddas&#8221; (que, tanto para padres quanto para estudantes, n\u00e3o s\u00e3o suficientes, por si s\u00f3, para justificar um afastamento, desde que sejam confessadas a um superior).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um desses estudantes, que teve de mudar de semin\u00e1rio por causa de seus &#8220;trejeitos&#8221;, define o m\u00eas de dezembro, quando os jovens s\u00e3o reavaliados, como um tempo de &#8220;ca\u00e7a \u00e0s bruxas&#8221;. &#8220;Uns anos atr\u00e1s, cinco foram convidados a sair. Eu fui um deles. Perseguir os que consideram mais afeminados, al\u00e9m de injusto, favorece o fingimento, as pessoas enrustidas e hom\u00f3fobas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse seminarista, hoje aos 29 anos, n\u00e3o se esquece de como a homossexualidade era tratada pelo seu formador no semin\u00e1rio do qual foi expulso, no Piau\u00ed. &#8220;Ele dizia que &#8216;homossexual tende sempre a olhar para a virilha dos outros homens e, por isso, n\u00e3o se concentram e trabalham mal&#8217;. Nas semanas seguintes, eu olhava para o teto, via uma viga de madeira, me enxergava pendurado nela pelo pesco\u00e7o. Mexeu muito comigo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, em geral, um jovem entra para o semin\u00e1rio no Brasil depois de completar 18 anos. At\u00e9 os anos 1980, era mais comum que adolescentes no meio da puberdade fossem chamados pela Igreja. Como resultado, padres mais velhos, hoje na faixa dos 60 anos, viveram desde mais cedo em um ambiente de repress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia da entrevista com Aur\u00e9lio, em meados de novembro, um padre na faixa dos 60 anos o havia procurado para conversar. &#8220;Era um desses irm\u00e3os que considero &#8216;perigosos&#8217;, porque nunca se assumiram nem para si pr\u00f3prios e t\u00eam muito preconceito. E nesse dia ele quis se abrir. Achei triste que em tanto tempo de sacerd\u00f3cio ele nunca encontrou algu\u00e9m para falar sobre isso&#8221;, conta. Homossexuais homof\u00f3bicos, diz o padre, em conson\u00e2ncia com o que afirmam pesquisadores, s\u00e3o numerosos na Igreja. &#8220;\u00c9 uma das consequ\u00eancias da repress\u00e3o. Eles querem combater no outro o que odeiam e consideram um mal em si pr\u00f3prios.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Desconfian\u00e7a e estigma<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do estigma da homossexualidade numa institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a tolera, padres gays v\u00eam sofrendo com as tentativas de associ\u00e1-los \u00e0s crises de abusos sexuais \u2014 que, especialmente desde o in\u00edcio dos anos 2000, s\u00e3o revelados com frequ\u00eancia aterradora dentro da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Rafael conta ter lido recentemente um artigo, em uma revista de uma comunidade cat\u00f3lica conservadora, que fazia associa\u00e7\u00e3o entre homossexualidade e pedofilia. &#8220;Fiquei revoltado. Eu sou gay, n\u00e3o sou ped\u00f3filo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversas pesquisas descartam a rela\u00e7\u00e3o entre homossexualidade e abuso sexual de menores. No que diz respeito aos padres, n\u00e3o \u00e9 diferente, segundo o maior estudo sobre esse tipo de crime dentro da Igreja, publicado em 2011 pelo John Jay College of Criminal Justice, instituto da Universidade de Nova York, reconhecido pelos cursos e pesquisas na \u00e1rea criminal e forense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar das evid\u00eancias contr\u00e1rias, segundo pesquisadores, culpar padres gays por abusos sexuais \u00e9 conveniente. &#8220;Em parte, porque eles n\u00e3o podem vir a p\u00fablico para se defender. S\u00e3o uma escolha f\u00e1cil para bode expiat\u00f3rio&#8221;, diz James Alison. &#8220;A sociedade n\u00e3o fica sabendo de seus exemplos positivos, que eles podem ser homossexuais e celibat\u00e1rios e servir suas par\u00f3quias t\u00e3o bem quanto os heterossexuais.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura do sil\u00eancio pode ter outro efeito, al\u00e9m de impedir que padres gays se defendam. Ela pode, a\u00ed sim, ajudar a acobertar crimes de pedofilia, de acordo com pesquisadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O mecanismo \u00e9 o seguinte: aqueles que t\u00eam medo de serem expostos como gays s\u00e3o facilmente chantage\u00e1veis por aqueles que t\u00eam culpa em mat\u00e9ria grave&#8221;, afirma Alison. &#8220;Como o encobrimento \u00e9 a regra do jogo, n\u00e3o h\u00e1 capacidade para se distinguir publicamente entre o que seria um comportamento adulto e leg\u00edtimo pela lei civil, mesmo que irregular no sistema clerical, do que, por outro lado, seria um comportamento patol\u00f3gico e criminoso.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo de serem expostos \u00e9 t\u00e3o grande que alguns padres gays, ao serem contatados pela reportagem da BBC News Brasil, desconfiavam ou entravam em p\u00e2nico. Um historiador, que se disp\u00f4s a ajudar nesta reportagem, levou a um padre, do interior de Pernambuco, a proposta da entrevista. A rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi boa, contou depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;De in\u00edcio, ele ficou numa perplexidade prestes a se tornar p\u00e2nico. Disse que, se n\u00e3o f\u00f4ssemos amigos, iria pensar que eu estava fazendo alguma manobra para extorqui-lo. E terminou a conversa pedindo-me para &#8216;calar acerca das fraquezas alheias'&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3B62\/production\/_111120251_padre3.jpg\" alt=\"M\u00e3o segurando um ter\u00e7o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Pesquisadores acreditam que necessidade de fugir de press\u00f5es sociais \u00e9 respons\u00e1vel por grande n\u00famero de gays no clero<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Por que h\u00e1 tantos gays no clero?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inten\u00e7\u00e3o de ajudar pessoas marginalizadas, assim como eles, e a necessidade de fugir de press\u00f5es sociais e familiares, s\u00e3o apontadas por pesquisadores como algumas das raz\u00f5es pelas quais existem tantos gays no clero, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 porcentagem na popula\u00e7\u00e3o total \u2014 cerca de 10%, no Brasil, segundo estimativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre gay de 43 anos, Alexandre* se lembra de, na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, sentir um senso de &#8220;deslocamento profundo&#8221; e identifica\u00e7\u00e3o com as pessoas &#8220;exclu\u00eddas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente sabe o que \u00e9 se sentir &#8216;diferente&#8217;. Acho que isso me levou a ficar sens\u00edvel, a olhar o outro com mais compaix\u00e3o, e a vida religiosa tem essa caracter\u00edstica de n\u00e3o desistir das pessoas&#8221;, afirma ele, que \u00e9 p\u00e1roco em uma cidade m\u00e9dia do Cear\u00e1. &#8220;Fui criado em um lugar pobre, via muita gente sofrendo e queria ajudar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dessa motiva\u00e7\u00e3o, o padre conta que, a partir da puberdade, passou a ver no semin\u00e1rio um ref\u00fagio para um desejo que n\u00e3o conseguia aceitar em si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sentia um grande sofrimento, um conflito interno intenso, ent\u00e3o busquei o que achava ser um ambiente de pureza, santo, sadio. No fundo, acreditava que nesse lugar eu n\u00e3o teria mais desejo. Mas o desejo n\u00e3o sumia, pelo contr\u00e1rio. Era uma inquieta\u00e7\u00e3o constante, e com a qual n\u00e3o entendia como lidar.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Castidade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo sacerdote cat\u00f3lico precisa enfrentar o celibato, e aqueles que aceitaram falar nesta reportagem dizem &#8220;viver a castidade&#8221;. Alguns padres gays entrevistados reconheceram ter descumprido seus votos e que, quando isso aconteceu, conversaram com seus superiores e escolheram voltar \u00e0 vida celibat\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre afirma nunca ter feito sexo antes de ter entrado para o semin\u00e1rio. &#8220;Passou o primeiro ano, o segundo, fui ficando curioso e tive uma primeira experi\u00eancia com outro homem. Entrei numa crise profunda. Porque at\u00e9 ent\u00e3o nunca tinha beijado outro homem, nunca tinha tido rela\u00e7\u00e3o \u00edntima. Fiquei cheio de culpa, um &#8216;meu Deus, como eu pude?&#8217;. E achei que automaticamente tinha que sair do semin\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele decidiu falar com o seu formador. &#8220;Para minha surpresa, ele recebeu bem. Disse que reca\u00eddas aconteceriam mais vezes. Ele tinha raz\u00e3o, e eu n\u00e3o me arrependo das vezes em que fiz. Precisava saber como eu me sentia em rela\u00e7\u00e3o a isso, at\u00e9 para poder escolher meu caminho, se seguia na vida religiosa ou n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ciente do bem que lhe fez falar do que sentia ao superior, padre Alexandre sugere a cria\u00e7\u00e3o de uma Pastoral LGBT em sua regi\u00e3o. &#8220;Um lugar onde essas pessoas possam desabafar, partilhar os sofrimentos, as ang\u00fastias&#8221;, diz. &#8220;Vai ser um esc\u00e2ndalo, porque o pensamento aqui \u00e9 muito conservador.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Uma pastoral LGBT<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve iniciativas nas \u00faltimas d\u00e9cadas de criar espa\u00e7os dentro das igrejas para os fi\u00e9is LGBT. Geralmente, basta unir os termos &#8220;pastoral&#8221;, como a Igreja chama seus trabalhos sociais nas comunidades, e &#8220;diversidade&#8221;, para provocar rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vinte e cinco anos atr\u00e1s, um p\u00e1roco paulista foi not\u00edcia por criar em Campinas o que a imprensa chamou de &#8220;pastoral gay&#8221;. Professor titular da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Campinas, o padre Jos\u00e9 Trasferetti concretizou, em 1995, o que o padre Alexandre sugere que exista no Cear\u00e1: um projeto de acolhida de cidad\u00e3os LGBT \u2014 no caso de Trasferetti, com base na par\u00f3quia de S\u00e3o Geraldo Magela, na periferia da cidade do interior paulista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Perto da par\u00f3quia havia duas casas de homossexuais e travestis. Fiz amizade com eles e passei a visit\u00e1-los, e eles passaram tamb\u00e9m a ir \u00e0s missas&#8221;, afirma Trasferetti, em uma conversa por email. Na \u00e9poca, ele falava em &#8220;cidadania homossexual&#8221;, express\u00e3o ainda atual, segundo ele. &#8220;\u00c9 simplesmente a possibilidade de viverem normalmente na sociedade, sem viol\u00eancia, repress\u00e3o e ignor\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tudo o que envolve trabalhar com gays na Igreja, a rea\u00e7\u00e3o foi forte. &#8220;Press\u00e3o psicol\u00f3gica para n\u00e3o dar entrevistas, n\u00e3o escrever ou dar aulas sobre esses temas. Um militar descobriu meu telefone, me ofendeu e v\u00e1rias vezes amea\u00e7ou me matar&#8221;, contou Trasferetti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante cinco anos, o padre Trasferetti tocou a pastoral. &#8220;Continuei minha jornada sem medo&#8221;. Ele interrompeu esse trabalho em 1999, ao mudar de igreja. Hoje, o padre defende uma a\u00e7\u00e3o mais ampla em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico gay, sem que passe necessariamente por uma pastoral espec\u00edfica. &#8220;O que precisa ficar claro \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o pastoral para o p\u00fablico LGBT \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel e est\u00e1 dentro da doutrina da Igreja.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora veja evolu\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a movimentos LGBT fora do ambiente religioso, Trasferetti afirma que a Igreja no pa\u00eds, como institui\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ou pouco. &#8220;A Igreja Cat\u00f3lica no Brasil \u00e9 muito comprometida com as quest\u00f5es sociais. Entretanto, em quest\u00f5es de moral sexual, a pr\u00e1tica e o discurso continuam os mesmos dos anos 1940 e 1950.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/36B2\/production\/_111120041_gettyimages-97891534.jpg\" alt=\"m\u00e3os segurando ter\u00e7o com crucifixo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Para o padre Jos\u00e9 Trasferetti a Igreja Cat\u00f3lica no Brasil, apesar de ser comprometida com as quest\u00f5es sociais, avan\u00e7ou pouco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de moral sexual<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, nega\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confrontadas com a quest\u00e3o, igrejas de outros pa\u00edses promovem discuss\u00f5es sobre a homossexualidade. Na Alemanha, por exemplo, a confer\u00eancia local de bispos cat\u00f3licos decidiu, em setembro, abordar a moral sexual, o celibato, e a b\u00ean\u00e7\u00e3o a casais gays.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro exemplo \u00e9 a Igreja su\u00ed\u00e7a. Em 2006, ano seguinte \u00e0 publica\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o de Bento 16 que pro\u00edbe padres gays, os bispos su\u00ed\u00e7os se manifestaram sobre o tema. Em texto, deixaram claro que padres e estudantes h\u00e9teros e gays convivem em seus semin\u00e1rios e dioceses e que cada um se &#8220;respeita como homens e coirm\u00e3os&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00f3s decidimos viver a castidade independentemente de nossa orienta\u00e7\u00e3o sexual. Por isso, no \u00e2mago de nossas reflex\u00f5es sobre o acesso ao sacerd\u00f3cio, n\u00e3o h\u00e1 quest\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o sexual, mas a disponibilidade de seguir Cristo de maneira coerente&#8221;, diz o texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a CNBB \u2014 entidade respons\u00e1vel por elaborar as diretrizes da Igreja no pa\u00eds \u2014 afirma n\u00e3o ter planos de discutir a homossexualidade no clero. Por email, o vice-presidente da entidade e arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, reafirmou a instru\u00e7\u00e3o do Vaticano. &#8220;A quest\u00e3o da homossexualidade \u00e9 s\u00e9ria e deve ser abordada desde o in\u00edcio do itiner\u00e1rio formativo dos candidatos \u00e0s ordens sacras. Urge um processo adequado de discernimento.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionado sobre se padres brasileiros que queiram falar de sua orienta\u00e7\u00e3o sexual publicamente teriam respaldo de seus superiores, Spengler diz que &#8220;se um padre vai ao encontro de seu bispo e apresenta a dificuldade de observar a castidade, o bispo tem o dever de fazer o poss\u00edvel para auxili\u00e1-lo&#8221;. Ele ressalta que todo padre precisa &#8220;ser capaz de estar \u00e0 vontade consigo mesmo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alguns pesquisadores ouvidos pela reportagem, a postura da Igreja no pa\u00eds \u00e9 ainda mais tradicionalista do que a do Vaticano, em rela\u00e7\u00e3o ao tema. &#8220;Diria que a Santa S\u00e9 \u00e9 menos conservadora, pois mais ciente da necessidade de avan\u00e7ar no tema&#8221;, diz o te\u00f3logo gay James Alison.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista por email, o arcebispo-primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, falou sobre o tratamento a ser dado aos padres gays, j\u00e1 que as regras da Igreja os condenam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Cada um dever\u00e1 &#8216;renunciar a si mesmo&#8217;. Mudam as lutas, mas o objetivo \u00e9 o mesmo: buscar uma profunda maturidade afetiva, capaz de levar a pessoa \u00e0 correta rela\u00e7\u00e3o com os homens e as mulheres. O que n\u00e3o pode \u00e9 acomodar-se, buscando justificativas para viver segundo as pr\u00f3prias regras&#8221;, disse dom Krieger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionado sobre por que, segundo os padres homossexuais, o assunto \u00e9 silenciado dentro da Igreja, Krieger defende o debate. &#8220;N\u00e3o creio que esse seja um tema para ser tratado em audit\u00f3rios de TV. Mas pode e deve ser tratado em reuni\u00f5es de bispos, de sacerdotes e de seminaristas.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Tu \u00e9 gay, n\u00e3o \u00e9?&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a Igreja n\u00e3o se move, um jovem padre gay de uma cidadezinha no interior da Bahia passou a falar de homofobia em suas missas. Foi bem recebido pelos fi\u00e9is, segundo o relato dele, Andr\u00e9*.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sempre que acontece algum caso de preconceito, incluo uma reflex\u00e3o sobre isso. Falo da import\u00e2ncia de n\u00e3o machucar ou discriminar as pessoas LGBT. Os fi\u00e9is ficam acesos, porque \u00e9 uma realidade muito pr\u00f3xima deles&#8221;, afirma o sacerdote, a cujas missas comparecem em m\u00e9dia 500 fi\u00e9is todo domingo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano passado, ap\u00f3s uma celebra\u00e7\u00e3o, Andr\u00e9 se surpreendeu com o coment\u00e1rio de uma mulher. M\u00e3e de um rapaz perseguido na escola por ser gay, ela queria agradecer a ele. &#8220;Olhe, padre, eu e meu marido o acolhemos, mas temos muito medo de como vai ser a vida dele. Ent\u00e3o eu agrade\u00e7o ao senhor que a nossa igreja esteja respeitando. Nos ajuda a entender que nosso filho \u00e9 um dom de Deus e isso n\u00e3o depende se ele gosta de homem ou mulher.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher o abra\u00e7ou e, antes de sair, virou-se para o sacerdote: &#8220;Padre, queria te perguntar faz tempo. Tu \u00e9 gay, n\u00e3o \u00e9?&#8221; &#8220;Sou&#8221;, respondeu Andr\u00e9, surpreso. &#8220;A b\u00ean\u00e7\u00e3o, padre. Com a gente da tua igreja tu pode contar&#8221;, se despediu a mulher, e n\u00e3o voltou a tocar no assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 teve uma trajet\u00f3ria mais rara do que a de boa parte dos aspirantes a padre: no semin\u00e1rio, ele foi incentivado pelo seu formador a falar de sua sexualidade. &#8220;Um dia, eu estava falando das minhas ang\u00fastias, e ele me disse o contr\u00e1rio do que eu esperava: &#8216;Olhe, acredito que falar disso \u00e9 a sua miss\u00e3o, falar para a Igreja, para a sociedade, que \u00e9 poss\u00edvel ser homoafetivo e viver sua voca\u00e7\u00e3o'&#8221;, lembra padre Andr\u00e9, com um sorriso no rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem sacerdote se diz esperan\u00e7oso em rela\u00e7\u00e3o a uma transforma\u00e7\u00e3o na Igreja. &#8220;N\u00e3o quero ser um &#8216;profeta dos gays&#8217;, e sim um profeta da vida cat\u00f3lica, que aceita a todos. Acredito que a mudan\u00e7a da Igreja n\u00e3o vir\u00e1 de cima, e sim das bases, e creio que elas est\u00e3o se abrindo, sim.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o padre Rafael, como diz na sala de sua casa na periferia de S\u00e3o Paulo, \u00e9 menos otimista. Anos atr\u00e1s, como acontece a muitos padres jovens, ele tinha a ambi\u00e7\u00e3o de ser bispo. Hoje, descarta essa possibilidade. Como bispo, teria de assumir um discurso repressivo contra a homossexualidade, o que para ele seria uma viol\u00eancia. &#8220;Tenho pena dos bispos que s\u00e3o obrigados a reproduzir essa cultura.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contar sua hist\u00f3ria, Rafael interrompeu o relato em tr\u00eas momentos, emocionado. &#8220;Para mim, estou fora do arm\u00e1rio. Para a Igreja, n\u00e3o. Talvez ela nunca queira me ver do lado de fora, esse \u00e9 um desgosto com que eu tenho de conviver&#8221;, disse. Apesar disso, o padre Rafael n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de deixar o sacerd\u00f3cio, parte constitutiva da sua identidade. &#8220;Sou uma prova da incoer\u00eancia da Igreja. Sou padre, sou gay, amo quem eu sou.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os padres que conversaram com a reportagem, a Igreja Cat\u00f3lica no Brasil tem avan\u00e7ado pouco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de moral sexual<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":319511,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-319510","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/padre-tarado.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=319510"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319510\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/319511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=319510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=319510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=319510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}