{"id":319784,"date":"2020-05-24T16:05:12","date_gmt":"2020-05-24T19:05:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=319784"},"modified":"2020-05-24T16:05:12","modified_gmt":"2020-05-24T19:05:12","slug":"a-desconhecida-e-injusta-historia-da-fotografa-que-se-desnudou-na-banheira-de-hitler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-desconhecida-e-injusta-historia-da-fotografa-que-se-desnudou-na-banheira-de-hitler\/","title":{"rendered":"A desconhecida (e injusta) hist\u00f3ria da fot\u00f3grafa que se desnudou na banheira de Hitler"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie \u2018Hollywood\u2019, da Netflix, recuperou em uma de suas tramas o nome de Lee Miller, uma mulher que viajou pelo mundo, foi precursora da fotografia surrealista e morreu deixando centenas de segredos em um s\u00f3t\u00e3o<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/VM37hAuOulyNtkF4BJpH-R0qSQM=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/25QFVXGNHFDGZH7TSRGWQCFZDQ.jpg\" alt=\"Lee Miller, em sua fase de modelo, fotografada para a \u2018Vogue\u2019, em 1931, por George Hoyningen-Huene. \/ George Hoyningen-Huene \/ Cond\u00e9 Nast \/ Getty Images\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Lee Miller, em sua fase de modelo, fotografada para a \u2018Vogue\u2019, em 1931, por George Hoyningen-Huene. \/ George Hoyningen-Huene \/ Cond\u00e9 Nast \/ Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\">EVA G\u00dcIMIL<\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No quinto cap\u00edtulo de\u00a0<i>Hollywood<\/i>, uma das s\u00e9ries de sucesso da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/netflix\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Netflix<\/a>\u00a0durante a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/coronavirus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pandemia<\/a>, a personagem de Patti Lupone, produtora plenipotenci\u00e1ria de uma imita\u00e7\u00e3o da Paramount Pictures, oferece \u00e0 mulher que Mira Sorvino interpreta (uma atriz fict\u00edcia chamada Jeanne Crandall) um papel que a far\u00e1 ganhar o Oscar. Trata-se de Lee Miller.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Sorvino aceita de bom grado, embora n\u00e3o saiba quem \u00e9. Nada incomum em 1947, o ano em que mais ou menos se desenrola a cena. Lee Miller \u00e9 provavelmente a desconhecida mais fascinante do s\u00e9culo XX. Modelo, fot\u00f3grafa, amante e parceira de Man Ray,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/01\/17\/actualidad\/1547741434_914953.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">musa de Picasso<\/a>\u00a0e Cocteau,\u00a0<i>socialite<\/i>, precursora da\u00a0<i>food porn<\/i>\u00a0e uma das primeiras civis que testemunharam o horror dos campos de exterm\u00ednio, uma experi\u00eancia que a mudou para sempre.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A primeira vez que Elizabeth Miller (Poughkeepsie, Nova York, 1907-1977) foi chamada de Lee Miller se deu na capa da\u00a0<i>Vogue<\/i>, em uma aquarela de George Lepape, e sua chegada l\u00e1 quase parece um clich\u00ea de romance rom\u00e2ntico. Enquanto caminhava por Manhattan esteve a ponto de ser atropelada, mas um pedestre, que a observava absorto, interveio. O seu salvador n\u00e3o era outro sen\u00e3o Cond\u00e9 Montrose Nast, o homem que fez da Vogue uma lenda e hoje d\u00e1 nome a uma poderosa editora de moda, atualidades e luxo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A publica\u00e7\u00e3o procurava uma mulher que representasse a nova modernidade percebida nas ruas de Nova York, e Lee se encaixasse no perfil. Tinha um certo ar europeu com seus cabelos curtos e porte sofisticado e, ao mesmo tempo, era profundamente norte-americana gra\u00e7as ao corpo atl\u00e9tico e grandes olhos azuis. A c\u00e2mera n\u00e3o era algo estranho para ela. Seu pai, apaixonado por fotografia, a havia imortalizado obsessivamente, mesmo em nus que hoje poderiam ser considerados perturbadores. Tinha utilizado isso como terapia: quando estava com apenas sete anos, Lee havia sido estuprada por um conhecido da fam\u00edlia que tamb\u00e9m a infectou com gonorreia, um detalhe revelado por seu filho Antony Penrose em\u00a0<i>The Lives of Lee Miller<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Para curar seu corpo, sua m\u00e3e a banhava em \u00e1gua sanit\u00e1ria e desinfetava tudo o que tocava. Para curar sua alma, seu pai \u2013\u2013seguindo o conselho de um psiquiatra\u2013\u2013 tentava faz\u00ea-la recuperar o controle de seu corpo, exibindo-o permanentemente.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/mx-GIsx1n0b_7kzkMZpyLYncjt0=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/PX2FVJ7AY5HCNXYZH5LPJGWNKY.jpg\" alt=\"Em 'Hollywood', a s\u00e9rie Netflix criada por Ryan Murphy, Mira Sorvino interpreta uma atriz fict\u00edcia a quem \u00e9 oferecido o papel de Lee Miller em uma cinebiografia.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Em &#8216;Hollywood&#8217;, a s\u00e9rie Netflix criada por Ryan Murphy, Mira Sorvino interpreta uma atriz fict\u00edcia a quem \u00e9 oferecido o papel de Lee Miller em uma cinebiografia.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Com a capa da\u00a0<i>Vogue<\/i>, essa exposi\u00e7\u00e3o chegou a todo o pa\u00eds. Nos anos 20, os melhores fot\u00f3grafos queriam sua imagem, seu rosto se multiplicava de costa a costa, como os de divas como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/greta_garbo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Greta Garbo,<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/10\/fotorrelato\/1499693045_777367.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Clara Bow<\/a>\u00a0e Louise Brooks. Mas, no auge da carreira, descobriu algo que parece t\u00e3o moderno como a cultura da anula\u00e7\u00e3o de uma pessoa. Uma foto sua terminou em um an\u00fancio de absorvente higi\u00eanico da marca Kotex e isso provocou um esc\u00e2ndalo. Era a primeira vez que um produto de higiene \u00edntimo era promovido por uma mulher de verdade. As demais marcas consideraram indigno que ela aparecesse em seus an\u00fancios e pararam de cham\u00e1-la. N\u00e3o se importou: fez as malas e foi para a muito menos puritana Paris, satisfeita por ter contribu\u00eddo para romper um tabu absurdo.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">De fotografada a fot\u00f3grafa<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O v\u00f3rtice cultural que a capital francesa era na d\u00e9cada de 1920 a enredou. Foi atra\u00edda por novas tend\u00eancias art\u00edsticas e, sobretudo, por um homem em particular: Emmanuel Radnitzky, mais conhecido como Man Ray, outro norte-americano exilado em Paris, o homem que tinha estado na origem do dada\u00edsmo e do surrealismo. Seu primeiro encontro foi t\u00e3o cinematogr\u00e1fico como o que a levou \u00e0 capa da\u00a0<i>Vogue<\/i>. Ela lhe pediu que a aceitasse como aluna, mas o homem cujo epit\u00e1fio (no cemit\u00e9rio de Montparnasse) o define como &#8220;despreocupado, mas n\u00e3o indiferente&#8221; respondeu que n\u00e3o tinha alunas e que iria no dia seguinte para Biarritz. Ela respondeu: &#8220;Eu tamb\u00e9m&#8221;. E o acompanhou.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Lee se tornou sua aprendiz, amante e principal modelo, e, como costuma acontecer quando se rev\u00ea a hist\u00f3ria de mulheres que compartilham o trabalho com homens, seus trabalhos eram misturados no est\u00fadio e muitos foram atribu\u00eddos erroneamente a Ray.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">De fato, sua influ\u00eancia foi decisiva em algumas das inova\u00e7\u00f5es do fot\u00f3grafo, como depois de se assustar porque um rato pousou em seus p\u00e9s. Acendeu a luz antes de terminar um processo de revela\u00e7\u00e3o e assim\u00a0<i>inventou<\/i>\u00a0a solariza\u00e7\u00e3o. Um efeito que enfatiza os contornos dos corpos, gerando um dramatismo que ambos exploraram, mas permanece associado a ele. Para o mundo, ela era apenas a musa dele e em alguns livros de fotografia at\u00e9 se referem a ela como &#8220;seu t\u00e9cnico de laborat\u00f3rio&#8221;, ignorando at\u00e9 que Lee era uma mulher.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No entanto, ela possu\u00eda estilo pr\u00f3prio e algumas de suas fotografias como o\u00a0<b>Nude Bent Forward<\/b>\u00a0(nu inclinado para a frente), que o olho humano identifica como um p\u00eanis ou uma bunda, e que justifica as teorias de Freud sobre a sexualidade cotidiana, s\u00e3o seu expoente m\u00e1ximo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O que come\u00e7ou como uma tutoria terminou como um duelo de egos que Ray, acostumado a modelos silenciosas que se limitavam a passar do est\u00fadio para a sua cama, n\u00e3o sabia administrar. Ele a admirava e ao mesmo tempo era obcecado por ela. Quando percebeu que os sentimentos de Ray por ela tornariam imposs\u00edvel o seu desenvolvimento como artista, ela foi embora. Para se livrar de sua influ\u00eancia, Man Ray a estilha\u00e7ou e come\u00e7ou a fragmentar de modo obsessivo sua anatomia, especialmente olhos e l\u00e1bios.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/FtQ4pd6njBXbNz8DsOL1AuR7Efw=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/CQWOQAS5ZZTYTQMLOF44XYF5RI.jpg\" alt=\"Lee Miller com alguns soldados em Rennes (Fran\u00e7a) em 1944, para onde foi como fot\u00f3grafa de guerra. \" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Lee Miller com alguns soldados em Rennes (Fran\u00e7a) em 1944, para onde foi como fot\u00f3grafa de guerra.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Uma das obras resultantes \u00e9\u00a0<b>Objeto para ser Destru\u00eddo<\/b>, um metr\u00f4nomo em cujo p\u00eandulo ele adicionou uma fotografia de um olho de Lee e que inclu\u00eda um pequeno manual de instru\u00e7\u00f5es: \u201cColoque no p\u00eandulo de um metr\u00f4nomo o olho da pessoa amada que voc\u00ea n\u00e3o voltar\u00e1 a ver. Ponha o metr\u00f4nomo para funcionar at\u00e9 o limite de sua resist\u00eancia. Com um martelo, tente destru\u00ed-lo de um s\u00f3 golpe\u201d. Duas d\u00e9cadas depois, um grupo de estudantes de arte levou a obra ao p\u00e9 da letra e aos gritos de &#8220;Viva a poesia! destruiu o metr\u00f4nomo de Ray. Com o dinheiro do seguro, ele comprou outros cem e hoje eles podem ser vistos em v\u00e1rios museus, como o Reina Sofia. Dada\u00edsta, sim, precavido, tamb\u00e9m.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Adeus, Man Ray<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi o \u00fanico cativado pela beleza de Lee Miller.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pablo_picasso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Pablo Picasso<\/a>\u00a0a pintou seis vezes e Jean Cocteau a incluiu em seu filme\u00a0<i>O Sangue de um Poeta<\/i>, outro motivo para um surto de raiva de Ray, que queria Lee s\u00f3 para ele. Sua obsess\u00e3o por Miller pode ser seguida pelas cartas do artista, que tenta segur\u00e1-la pedindo a em casamento. Mas ela o rejeitou.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Miller fugiu para os Estados Unidos para se distanciar dos egos desmedidos da capital da arte e montou um lucrativo est\u00fadio de fotografia, tendo clientes como Elizabeth Arden, Helena Rubinstein e Saks Fifth Avenue. A Nova York que tirava a poeira da Grande Depress\u00e3o parecia o pior lugar para come\u00e7ar um neg\u00f3cio, mas seus retratos solarizados triunfaram e toda a alta sociedade queria ser imortalizada por sua c\u00e2mera. Quando o calor do ver\u00e3o nova-iorquino se tornou sufocante demais para ela, fechou o est\u00fadio, pensando em abandon\u00e1-lo somente por dois meses. Nunca voltou.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Pelo caminho cruzou com o rico empres\u00e1rio e engenheiro eg\u00edpcio Aziz Eloui Bey. Depois de Nova York e Paris, Lee Miller chegava ao Cairo. Durante tr\u00eas anos, viveu como um personagem de Paul Bowles, t\u00e3o loira, t\u00e3o branca, t\u00e3o independente, viajando por aquela Cairo ancestral em que se sentia purificada. A mulher que tinha oscilado entre as agitadas Nova York e Paris levou tr\u00eas anos para se cansar da languidez cairota. Aziz n\u00e3o p\u00f4s obst\u00e1culos \u00e0 separa\u00e7\u00e3o: ela iniciava uma nova reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Instalou-se em Londres e recuperou seu c\u00edrculo de amigos: Picasso e Dora Maar, Paul Eluard e Nush e Man Ray com Ady, sua nova amante \u2013\u2013a primeira mulher negra a aparecer em uma revista de moda. E com eles, Roland Penrose, um artista brit\u00e2nico endinheirado, fascinado pelo movimento surrealista e conselheiro do Ex\u00e9rcito brit\u00e2nico na t\u00e9cnica de camuflagem.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Juntos, compartilharam um ver\u00e3o em Mougins, durante o qual Miller se reconciliou com parte de seu passado e documentou fotograficamente. Tornou-se amante de Penrose e se estabeleceu em Londres, embora a guerra se intensificasse e seus amigos lhe implorassem que abandonasse a Europa, como fazia a maioria dos norte-americanos. Mas ela preferiu ali permanecer e, em meio aos bombardeios que devastavam Londres, decidiu dar uma nova orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 sua arte.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 1942, convenceu a\u00a0<i>Vogue<\/i>\u00a0a lhe conseguir uma credencial de correspondente e se juntou ao Ex\u00e9rcito a lado do jornalista David E. Sherman, da\u00a0<i>Life<\/i>. Ap\u00f3s o desembarque na Normandia, ambos percorreram durante meses uma Europa devastada pela barb\u00e1rie.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/3oQ6AtqaI_JzhOuNvTdRpQClNnw=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/N7QBTWD2M2RYNHNRCOWD2YEUKY.jpg\" alt=\"Lee Miller conversa com o cr\u00edtico de arte Frederick Laws na inaugura\u00e7\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o de Picasso em Londres em 1950.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Lee Miller conversa com o cr\u00edtico de arte Frederick Laws na inaugura\u00e7\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o de Picasso em Londres em 1950.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">GETTY IMAGES<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A\u00a0<i>Vogu<\/i>e, que tinha sido c\u00e9tica \u00e0 ideia de ter uma correspondente de guerra, encontrou material excepcional. Lee havia entrado com sua c\u00e2mera em lugares permitidos apenas ao Ex\u00e9rcito. Em seu uniforme militar e ao lado da 83\u00aa Divis\u00e3o de Infantaria do S\u00e9timo Ex\u00e9rcito dos EUA, testemunhou a morte de dezenas de crian\u00e7as em um hospital de Viena, documentou o uso de napalm pela primeira vez na Europa, visitou as casas dos ex-comandantes do Ex\u00e9rcito alem\u00e3o em cujos aposentos jaziam os corpos daqueles que preferiram cometer suic\u00eddio com suas fam\u00edlias, a ser julgados, e fotografou o horror de Buchenwald e Dachau.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Depois de visitar campos de exterm\u00ednio, chegou a Munique, no apartamento particular de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adolf_hitler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Hitler<\/a>, na Prinzregentenplatz, e quase sem pensar se despiu e entrou na banheira do ditador. Horas antes, Hitler e Eva Braun haviam se suicidado em seu bunker. Scherman conseguiu a melhor foto de sua vida, Miller nua com o olhar perdido em um quarto branco ass\u00e9ptico no qual apenas o barro de Dachau \u2013\u2013que ainda permanecia em suas botas\u2013\u2013 permitia entrever que aquela n\u00e3o era uma cena da vida cotidiana. Foi severamente julgada pelo que alguns consideraram uma frivolidade. Ela estava apenas tentando exorcizar o horror, a tristeza por aquela Europa vigorosa e brilhante que agora se desvanecia em cacos. Quantos de seus amigos teriam morrido de fome e frio, quantos foram humilhados e torturados pelo regime nazista?<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Reencontrar os amigos foi sua obsess\u00e3o depois do fim da guerra. Quando entrou em uma Paris rec\u00e9m-libertada, o primeiro lugar que visitou foi o n\u00famero 7 na Rue des Grands-Augustin, a casa de Pablo Picasso. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o primeiro soldado aliado que eu vejo&#8221;, disse ele a sua ex-modelo (que teve dificuldade de reconhecer no uniforme militar). A amizade deles permaneceu por toda a vida.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima grande festa<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O mundo estava se recuperando e Lee trocou o p\u00f3 das trincheiras pelas primeiras cole\u00e7\u00f5es de alta costura do p\u00f3s-guerra e pelo retorno da vida cotidiana \u00e0s grandes capitais da Europa Ocidental. Em 1947, engravidou sem ter planejado e se casou com Penrose. Eles se instalaram em uma fazenda em Sussex e ela abra\u00e7ou a vida dom\u00e9stica com o mesmo fervor com que havia submergido nas etapas anteriores de sua exist\u00eancia. Sua casa se tornou um local de encontro de artistas e de festas perp\u00e9tuas, mas ela nunca se recuperou completamente do que havia vivido. Sofria de transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico e se refugiava cada vez mais no \u00e1lcool.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Mas ainda teve tempo de se reinventar uma vez mais: trocou o quarto escuro pela cozinha e come\u00e7ou a inovar como tinha feito antes com a fotografia. Graduou-se na Le Cordon Bleu, em Paris, colecionou mais de 2.000 livros de culin\u00e1ria para os quais teve que arrumar um quarto e criou receitas que combinavam a cozinha tradicional norte-americana com o surrealismo: couves-flores rosa, espaguetes azuis, peitos de frango verdes, pudim de ameixa com molho azul, sorvete de marshmallow e refrigerante &#8230; sua cozinha era um reflexo de si mesma.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de anotar todas as receitas, nunca cumpriu seu objetivo de compil\u00e1-las em um livro, o que s\u00f3 seria feito por sua neta Ami Bouhasanne em 2017 em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.leemiller.co.uk\/article\/Multi-Award-winning-book-Lee-Miller-A-Life-with-Food-Friends-amp-Recipes\/pJV_ykrXKJusXwM7yD3-Hg..a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i><b>Lee Miller: A Life with Food, Friends and Recipes<\/b><\/i><\/a><i>.<\/i><\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Naquela fazenda de Sussex n\u00e3o restava nada da mulher que o MI5 tinha investigado por medo de que fosse uma espi\u00e3 sovi\u00e9tica perigosa. Ou talvez tenha sobrado muito. Miller passou os \u00faltimos anos de sua vida quase reclusa em um quarto que tamb\u00e9m era um bar, vendo desvanecer-se a beleza com a qual nunca se importara e se distanciando de todos a seu redor, incluindo seu filho. Quando morreu de c\u00e2ncer aos 70 anos, era um enigma para o mundo e suas realiza\u00e7\u00f5es haviam desaparecido porque nunca tivera o interesse em promov\u00ea-las.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Era tamb\u00e9m dif\u00edcil reconhecer nela a modelo que tinha sido: o \u00e1lcool e a depress\u00e3o haviam cobrado seu pre\u00e7o. Era um mist\u00e9rio at\u00e9 para o filho, com quem havia tido uma rela\u00e7\u00e3o complexa e que ignorava todo o passado daquela mulher de quem s\u00f3 se lembrava de estar irritada. Ap\u00f3s sua morte, ele descobriu no s\u00f3t\u00e3o dezenas de milhares de negativos, documentos, jornais, c\u00e2meras, cartas de amor e lembran\u00e7as que formavam parte da espinha dorsal da hist\u00f3ria europeia recente, uma hist\u00f3ria em que Lee Miller fora protagonista, mesmo que ningu\u00e9m se lembrasse dela. Mesmo que, ao morrer o obitu\u00e1rio do\u00a0<i>The New York Times<\/i>\u00a0se referisse a ela simplesmente como Lady Penrose.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miller fugiu para os Estados Unidos para se distanciar dos egos desmedidos da capital da arte e montou um lucrativo est\u00fadio de fotografia, tendo clientes como Elizabeth Arden, Helena Rubinstein e Saks Fifth Avenue. A Nova York que tirava a poeira da Grande Depress\u00e3o parecia o pior lugar<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":319785,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-319784","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/lee-miller.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=319784"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/319784\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/319785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=319784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=319784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=319784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}