{"id":320515,"date":"2020-06-01T07:00:32","date_gmt":"2020-06-01T10:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=320515"},"modified":"2020-06-01T07:00:32","modified_gmt":"2020-06-01T10:00:32","slug":"avanco-da-soja-cria-cemiterio-de-colmeias-no-interior-do-para","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/avanco-da-soja-cria-cemiterio-de-colmeias-no-interior-do-para\/","title":{"rendered":"Avan\u00e7o da soja cria &#8216;cemit\u00e9rio de colmeias&#8217; no interior do Par\u00e1"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"byline__name\">Mara R\u00e9gia e Elizabeth Oliveira <\/span><span class=\"byline__title\">De Belterra e Santar\u00e9m (PA)<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/A796\/production\/_112420924_whatsubject.jpg\" alt=\"Produ\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o despencou na regi\u00e3o de Belterra e se tornou economicamente insustent\u00e1vel\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Produ\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o despencou na regi\u00e3o de Belterra e se tornou economicamente insustent\u00e1vel<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Cercada de plantios de soja por todos os lados, a Ch\u00e1cara Jo\u00e3o do Mel, em Belterra, no oeste do Par\u00e1, \u00e9 como uma ilha de biodiversidade que ainda reflete a natureza amaz\u00f4nica em um cen\u00e1rio formado por \u00e1reas desmatadas a perder de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da express\u00e3o de resist\u00eancia ecol\u00f3gica, o pequeno o\u00e1sis pertencente a Jo\u00e3o Batista Ferreira j\u00e1 sofre os efeitos do modelo de monocultura regada a agrot\u00f3xicos em larga escala. Esse e outros impactos socioambientais t\u00eam sido cada vez mais associados ao exterm\u00ednio de abelhas e, consequentemente, \u00e0 inviabilidade da produ\u00e7\u00e3o de mel como atividade econ\u00f4mica desse munic\u00edpio que integra a Regi\u00e3o Metropolitana de Santar\u00e9m, a 724 km de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 59 anos, Ferreira passa por uma mudan\u00e7a de rumo profissional jamais imaginada para quem transformou um hobby, aprimorado desde a adolesc\u00eancia, em um bem-sucedido neg\u00f3cio de meliponicultura (cultivo de abelhas nativas sem ferr\u00e3o) que o tornou conhecido regionalmente como Jo\u00e3o do Mel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele recorda que h\u00e1 20 anos tinha mais de mil colmeias, abrigadas em caixas de madeira padronizadas que foi aprendendo a confeccionar a partir dos 17 anos. Estrategicamente espalhadas pela propriedade de 16 hectares, cada uma chegava a ter de 80 mil a 100 mil abelhas jata\u00ed, janda\u00edra e outras esp\u00e9cies nativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecedor dos nomes cient\u00edficos e principais h\u00e1bitos das abelhas, o ex-produtor diz que as chamadas de canudo (ou tucano) eram campe\u00e3s de produtividade.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" style=\"text-align: justify;\" data-variation=\"default-0\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Produziam de 5 a 6 kg, por caixa. Mas, atualmente, a produ\u00e7\u00e3o de cada uma n\u00e3o rende nem meio quilo&#8221;, calcula, relacionando esse decl\u00ednio \u00e0 expans\u00e3o gradativa da soja nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E acrescenta que o agroneg\u00f3cio mudou o comportamento e a din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o desses polinizadores. &#8220;Quantas vezes encontramos caixas completamente vazias ou enxames mortos.&#8221; Assim, o sonho de manter essa atividade comercial ruiu completamente depois de 40 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com cerca de 100 caixas que restaram na ch\u00e1cara, Jo\u00e3o do Mel admite que naquele \u201ccemit\u00e9rio de colmeias\u201d jaz a meliponicultura como atividade de reconhecida import\u00e2ncia socioecon\u00f4mica e ambiental.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/143D6\/production\/_112420928_whatsubject.jpg\" alt=\"Colmeia de abelha nativa sem ferr\u00e3o na Ch\u00e1cara Jo\u00e3o do Mel, em Belterra\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Colmeia de abelha nativa sem ferr\u00e3o na Ch\u00e1cara Jo\u00e3o do Mel, em Belterra<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pequenas quantidades de abelhas que resistem precisam se alimentar do pr\u00f3prio mel produzido nas \u00faltimas colmeias que ele mant\u00e9m somente para nutri-las. &#8220;Se tirar o mel o enxame se acaba&#8221;, explica, acrescentando que al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o da quantidade de \u00e1reas de florestas e, consequentemente, das floradas das quais dependem esses e outros polinizadores, a situa\u00e7\u00e3o piora na temporada de chuvas intensas na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como outro reflexo do desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico regional, o ex-produtor menciona que n\u00e3o faltam, ainda, as investidas de tamandu\u00e1s que, ao farejarem a presen\u00e7a de abelhas, muitas vezes rompem as tampas das caixas em busca das colmeias que restam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com olhos marejados e voz embargada, ele diz ainda estar sentindo o impacto emocional pelo exterm\u00ednio das abelhas na sua propriedade e nas de outros produtores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Argumenta, ainda, que o fracasso dessa pr\u00e1tica tradicionalmente vinculada \u00e0 cultura ind\u00edgena, \u00e0 agricultura familiar e \u00e0 agroecologia representa um sinal de risco, principalmente \u00e0 seguran\u00e7a alimentar, embora o problema seja pouco percebido por grande parte da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O agroneg\u00f3cio chegou como uma bomba at\u00f4mica a Belterra e o seu impacto foi violento&#8221;, opina Jo\u00e3o do Mel. &#8220;O agrot\u00f3xico pulverizado nos plantios de soja se dispersa no vento e na chuva, afetando toda a cidade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele diz que os efeitos podem atingir at\u00e9 mesmo as \u00e1rvores mais altas, cujas floradas s\u00e3o buscadas pelas abelhas sem ferr\u00e3o. Ele se queixa da falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o ao uso desses produtos qu\u00edmicos e diz que s\u00e3o cada vez mais comuns os casos de c\u00e2ncer na regi\u00e3o, doen\u00e7a praticamente inexistente antes da expans\u00e3o dessa cultura agr\u00edcola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ex-produtor afirma que enquanto a agricultura familiar \u00e9 ben\u00e9fica \u00e0 presen\u00e7a de abelhas, as monoculturas, de forma geral, contribuem para ampliar a perda de habitat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um passeio com a reportagem pela ch\u00e1cara, Jo\u00e3o do Mel fala das conex\u00f5es entre fauna e flora. &#8220;A cotia passou por aqui. Veio comer tucum\u00e3&#8221;, explica mostrando as marcas das patas do animal deixadas na terra molhada e aponta para o p\u00e9 de carregado, com muitos frutos j\u00e1 ca\u00eddos pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/846E\/production\/_112420933_tucumsnasmosdojoodomel1.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o do Mel com tucum\u00e3 nas m\u00e3os\" width=\"872\" height=\"1549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Jo\u00e3o do Mel com tucum\u00e3 nas m\u00e3os: produtor se dedicou \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mel por mais de 40 anos<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apaixonado por m\u00fasica e poesia, ele gosta de criar inspirado nas din\u00e2micas da natureza. &#8220;A ecologia perdeu seu lugar. Lutar para qu\u00ea, se a vida \u00e9 matar ou morrer?&#8221;. diz em\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/amazonialatitude.com\/2019\/05\/02\/agronegocio-em-belterra-gera-aumento-mortandade-abelhas\/\">O lamento do Jo\u00e3o do Mel,<\/a>\u00a0poema que tem despertado o interesse de estudiosos e outros profissionais atentos ao que acontece na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho de pais que vieram do Cear\u00e1 para trabalhar no fracassado polo da borracha da Amaz\u00f4nia e se radicaram em Belterra, ele deixa escapar alguns sinais de for\u00e7a e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando reconheceu a impossibilidade de tirar o sustento da produ\u00e7\u00e3o de mel, Jo\u00e3o do Mel passou a produzir m\u00f3veis e pe\u00e7as decorativas com restos de madeira em uma oficina que instalou na ch\u00e1cara. Agora se considera artes\u00e3o. Tamb\u00e9m est\u00e1 prestes a ser pai e, ao falar sobre o filho que deve nascer em meados do ano, sorri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas desanima quando indagado sobre as expectativas para o desenvolvimento da cidade que ser\u00e1 a terra do seu filho: &#8220;N\u00e3o vejo futuro nenhum em Belterra&#8221;, afirma. E se tivesse que dar um conselho para quem deseja se dedicar \u00e0 meliponicultura na regi\u00e3o? &#8220;Eu n\u00e3o aconselharia. \u00c9 preju\u00edzo na certa. Muitas abelhas j\u00e1 foram extintas e outras ser\u00e3o brevemente.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Os Janda\u00edras contra a extin\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outra \u00e1rea de 16 hectares de floresta conservada, o pastor Jos\u00e9 Batista Ferreira, 57 anos, tamb\u00e9m tenta livrar as abelhas da extin\u00e7\u00e3o. Desde a adolesc\u00eancia, o pastor Natalino, como \u00e9 conhecido, tem uma grande preocupa\u00e7\u00e3o com a prote\u00e7\u00e3o da natureza, tanto que h\u00e1 cerca de 40 anos tem se dedicado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o desses polinizadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como o irm\u00e3o, Jo\u00e3o do Mel, ele tem predile\u00e7\u00e3o pelas abelhas sem ferr\u00e3o. Ambos sorriem quando s\u00e3o comparados \u00e0 janda\u00edra, esp\u00e9cie resistente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es adversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o pastor, o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio pode ter sido importante do ponto de vista econ\u00f4mico para o Brasil, mas a julgar pela realidade de Belterra, o balan\u00e7o n\u00e3o \u00e9 positivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele relata que, h\u00e1 20 anos, a sua produ\u00e7\u00e3o de mel alcan\u00e7ava at\u00e9 seis toneladas por ano. Em 2019, foram produzidos somente 100 kg, mesmo tendo uma \u00e1rea de floresta com diversidade de esp\u00e9cies que contribuem para a prote\u00e7\u00e3o das abelhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua escala comercial tamb\u00e9m foi sendo gradativamente inviabilizada. &#8220;O que ainda fazemos \u00e9 para livrar as abelhas da extin\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma. Durante a entrevista, o pastor aponta para os ing\u00e1s e avisa: &#8220;T\u00e1 na hora da florada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos arredores do s\u00edtio explica que esp\u00e9cies como cedro, murta, louro, pau-ferro e outras florescem em diferentes \u00e9pocas do ano. Assim como na propriedade do irm\u00e3o, apesar da queda da produ\u00e7\u00e3o do mel, considera que o ambiente ainda pode ser considerado uma &#8220;ilha de vida silvestre&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CEA6\/production\/_112420925_whatsubject.jpg\" alt=\"Tentativa de implanta\u00e7\u00e3o de polo industrial em Belterra favoreceu a expans\u00e3o da soja\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Tentativa de implanta\u00e7\u00e3o de polo industrial em Belterra favoreceu a expans\u00e3o da soja<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em torno das caixas de abelhas jata\u00ed, por exemplo, conta que s\u00e3o avistados morcegos, beija-flores, borboletas e mariposas. Nos arredores da casa tamb\u00e9m s\u00e3o vistos tamandu\u00e1s, pacas, tatus e cotias. &#8220;A diversidade da floresta garante um mel de alto valor nutricional&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pastor tamb\u00e9m considera que o uso de agrot\u00f3xicos nas planta\u00e7\u00f5es de soja tem rela\u00e7\u00e3o direta com a perda gradativa da produ\u00e7\u00e3o de mel, antes abundante na regi\u00e3o. Ele relata que encontrar colmeias vazias se tornou uma rotina, quando antes enchiam de abelhas e mel, o que leva a crer em uma mudan\u00e7a na din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o desses polinizadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se as abelhas deixarem de existir, outras esp\u00e9cies v\u00e3o desaparecer, e o ser humano tamb\u00e9m&#8221;, alerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com express\u00e3o preocupada, conta, ainda, que produtores de soja est\u00e3o interessados em comprar as suas terras e fazem ofertas que n\u00e3o correspondem ao valor da propriedade. Tem sido assim com outros propriet\u00e1rios, conforme in\u00fameros relatos ouvidos sobre esse tipo de press\u00e3o provocada pelo setor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como outros entrevistados, o pastor afirma que ainda falta lideran\u00e7a na cidade para questionar os impactos do avan\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de soja percebidos no ambiente, na sa\u00fade dos moradores e, sobretudo, na agricultura familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ele, embora o prefeito de Belterra seja m\u00e9dico, n\u00e3o parece priorizar as quest\u00f5es ambientais, que t\u00eam interface direta com problemas de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;O veneno est\u00e1 no centro da cidade&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cortada por uma rua de barro, a casa de Lucivaldo Pimentel, conhecido como Seu L\u00facio, de 46 anos, \u00e9 separada de uma \u00e1rea de mais de 60 hectares de plantio de soja por uma dist\u00e2ncia de cerca de dez metros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele conta que, h\u00e1 pouco mais de dez anos, quando foi morar naquela resid\u00eancia, a vista era tomada por uma floresta com ip\u00eas, seringueiras, castanheiras e tantas outras \u00e1rvores amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pouco tempo depois, chegaram os (produtores) ga\u00fachos. Passaram o trator e derrubaram tudo&#8221;, recorda. Os novos vizinhos, que nada constru\u00edram, disseram que tinham documentos de titula\u00e7\u00e3o, mas os moradores da localidade tinham conhecimento de que aquelas se tratavam de terras pertencentes \u00e0 Uni\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A derrubada da floresta foi denunciada \u00e0 Secretaria Municipal de Meio Ambiente e ao Ibama, relata o morador. A \u00e1rea chegou a ser lacrada pelos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, mas, a partir de 2010, o plantio de soja tomou forma de vez, sendo regularmente pulverizado com agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os seus quatro filhos e os filhos dos vizinhos passaram a manifestar alergias na pele, n\u00e1useas e outros sintomas, Seu L\u00facio conta que come\u00e7ou a amargar preju\u00edzos causados pelos impactos dos produtos qu\u00edmicos em \u00e1rvores frut\u00edferas e animais que serviam de fontes de renda e alimenta\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano passado mais de 60 galinhas do seu quintal morreram, segundo ele, afetadas pelo veneno trazido pelo vento e pela chuva. Os vizinhos produtores de soja prometeram pagar cerca de R$ 5 mil, mas o ressarcimento ainda n\u00e3o ocorreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de n\u00e3o haver mais carne e ovos para comer e vender, o abacateiro, outra fonte de renda familiar, n\u00e3o produz mais frutos. As bananeiras est\u00e3o secando e a mangueira tem folhas escurecidas, com mangas que apodrecem antes mesmo do crescimento.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D6E4\/production\/_112421055_mel.jpg\" alt=\"Colmeias em produ\u00e7\u00e3o em comunidade da Reserva Tapaj\u00f3s Arapiuns\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Colmeias em produ\u00e7\u00e3o em comunidade da Reserva Extrativista Tapaj\u00f3s Arapiuns<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu L\u00facio relata que perdeu a conta da quantidade de p\u00e1ssaros mortos que tem visto. &#8220;Abelhas e outros insetos desapareceram daqui&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 nove anos, ele sofreu uma queda enquanto trabalhava em uma constru\u00e7\u00e3o. O impacto na coluna vertebral levou \u00e0 perda dos movimentos das pernas. Desde ent\u00e3o, passou a usar cadeira de rodas e a viver com um benef\u00edcio de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante da dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a ficar mais tempo em casa e a sentir mais diretamente os efeitos dos agrot\u00f3xicos pulverizados na planta\u00e7\u00e3o de soja dos vizinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O veneno \u00e9 lan\u00e7ado na parte da tarde e tem um cheiro muito forte&#8221;, afirma. E acrescenta que pode ser sentido tanto pelas crian\u00e7as na escola como pelos doentes no hospital da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sabemos que veneno em \u00e1rea urbana \u00e9 proibido. Mas n\u00e3o existe fiscaliza\u00e7\u00e3o. A gente denuncia, mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer provid\u00eancia&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ser indagado sobre o que espera para o seu futuro, Seu L\u00facio responde com os olhos marejados que, brevemente, aquela terra &#8220;n\u00e3o servir\u00e1 para mais nada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A degrada\u00e7\u00e3o ambiental, diz, ser\u00e1 fonte de mais dificuldades financeiras, sobretudo para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, que, consequentemente, dever\u00e1 ter mais problemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu mesmo tenho medo de ter uma doen\u00e7a. Sabemos que t\u00eam morrido muitas pessoas com c\u00e2ncer na cidade. Aqui n\u00e3o existia isso&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, diz n\u00e3o sentir que Belterra evolui com a expans\u00e3o da soja. &#8220;Aqui n\u00e3o fica nada. Vai tudo para a China&#8221;, comenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es do produto.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Agrot\u00f3xicos no ambiente<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O comportamento dos agrot\u00f3xicos no ambiente representa uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es dos pesquisadores dedicados aos estudos sobre esses produtos qu\u00edmicos, segundo o bi\u00f3logo Ruy Bessa, professor da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (UFOPA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essas subst\u00e2ncias transitam por todas as matrizes ambientais. Est\u00e3o no solo, na \u00e1gua, no ar, na biota e em n\u00f3s&#8221;, afirma o especialista, que atua em ecotoxicologia, uma \u00e1rea de pesquisa com interfaces entre os temas de sa\u00fade ambiental e sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10D0C\/production\/_112567886_77ac066d-14e3-4d04-862c-42fcfc443157.jpg\" alt=\"\u00daltimas colmeias de Jo\u00e3o do Mel\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>\u00daltimas colmeias de Jo\u00e3o do Mel: &#8216;O homem n\u00e3o v\u00ea o tempero da natureza&#8217;, diz o ex-produtor<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao tomar conhecimento dos relatos ouvidos pela equipe de reportagem, o professor concordou com as percep\u00e7\u00f5es dos entrevistados sobre os potenciais riscos de dispers\u00e3o de agrot\u00f3xicos. &#8220;O apodrecimento ou enrugamento das folhas do abacateiro do morador de Belterra se deve a isso&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A literatura cient\u00edfica nos informa que mais de 90% desses venenos, desses compostos, quando aplicados, atingem popula\u00e7\u00f5es formadas por n\u00e3o alvos. \u00c9 o abacateiro do seu Jo\u00e3o, a mangueira, a andiroba. S\u00e3o os roedores, os p\u00e1ssaros, as abelhas e somos n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como indicador de problemas relacionados \u00e0 &#8220;sa\u00fade ambiental&#8221;, Bessa destaca que h\u00e1 um decl\u00ednio nas popula\u00e7\u00f5es de abelhas, em n\u00edvel mundial, n\u00e3o causado apenas pelo uso de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na regi\u00e3o metropolitana de Santar\u00e9m s\u00e3o afetadas, especialmente, as abelhas sem ferr\u00e3o. O especialista destaca que sem essas formas de vida, &#8220;as florestas encolhem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia socioambiental e econ\u00f4mica dos servi\u00e7os de poliniza\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada no\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.bpbes.net.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/BPBES_CompletoPolinizacao-2.pdf\">Relat\u00f3rio Tem\u00e1tico sobre Poliniza\u00e7\u00e3o, Polinizadores e Produ\u00e7\u00e3o de Alimentos no Brasil<\/a>, lan\u00e7ado em 2019, pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos (BPBES, na sigla em ingl\u00eas)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Defensor da amplia\u00e7\u00e3o do monitoramento sistem\u00e1tico sobre os potenciais impactos causados pelos agrot\u00f3xicos na Regi\u00e3o Metropolitana de Santar\u00e9m, o professor tamb\u00e9m alerta para outros riscos que preocupam os pesquisadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O problema maior \u00e9 que n\u00f3s estamos no cora\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. No meio da \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o [de soja] n\u00f3s temos a Floresta Nacional (Flona) do Tapaj\u00f3s&#8221;, alerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/www.icmbio.gov.br\/flonatapajos\/\">Essa unidade de conserva\u00e7\u00e3o federal<\/a>, de import\u00e2ncia socioambiental e econ\u00f4mica central para a regi\u00e3o, ocupa 527,3 mil hectares, abrangendo os munic\u00edpios paraenses de Aveiro, Belterra, Placas e Rur\u00f3polis, embora a sua maior extens\u00e3o (248,2 mil hectares, 46,94% da \u00e1rea total) esteja localizada em Belterra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O especialista defende, principalmente, an\u00e1lises de riscos de contamina\u00e7\u00e3o dos seus recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor adverte, ainda, que alguns compostos qu\u00edmicos presentes nos agrot\u00f3xicos podem se movimentar com mais facilidade na Regi\u00e3o Metropolitana de Santar\u00e9m devido ao seu tipo de solo mais aerado. &#8220;Essa contamina\u00e7\u00e3o pode atingir o len\u00e7ol fre\u00e1tico&#8221;. Para o especialista, isso precisa ser mais amplamente investigado.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Das seringueiras \u00e0 soja<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O passado de Belterra foi marcado, no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, pela tentativa frustrada de Henry Ford, na \u00e9poca o empres\u00e1rio mais rico do mundo, de produzir borracha na Amaz\u00f4nia, a partir de concess\u00f5es governamentais para explora\u00e7\u00e3o de cerca de 1 milh\u00e3o de hectares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Par\u00e1, o projeto de plantio de seringueiras para a fabrica\u00e7\u00e3o de pneus dos autom\u00f3veis da companhia americana foi iniciado por Fordl\u00e2ndia, atualmente pertencente ao munic\u00edpio de Aveiro. Como o projeto falhou, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es envolvendo as particularidades naturais do bioma (incluindo a sazonalidade de seus rios), a praga que atingiu as \u00e1rvores plantadas e a resist\u00eancia cultural de seus povos aos h\u00e1bitos estrangeiros que se tentou impor, Belterra foi a segunda escolha pela sua localiza\u00e7\u00e3o, solo e relevo considerados privilegiados \u00e0 expans\u00e3o dessa monocultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora essa nova investida tamb\u00e9m n\u00e3o tenha dado certo, resqu\u00edcios da presen\u00e7a americana ainda s\u00e3o percept\u00edveis na atualidade. Os tra\u00e7os s\u00e3o vis\u00edveis na arquitetura de pr\u00e9dios p\u00fablicos e da vila de casas constru\u00edda para as fam\u00edlias dos funcion\u00e1rios que vieram viver na cidade, fundada em 1934, com objetivo de abrigar um polo industrial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu nome deriva de Bela Terra, uma express\u00e3o de surpresa diante das riquezas naturais existentes em abund\u00e2ncia, at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia da professora Laura Chagas vive na casa n\u00famero 2, constru\u00edda em madeira de pequi\u00e1 e castanheira para hospedar o ent\u00e3o presidente Get\u00falio Vargas, que visitou o megaprojeto em 1940.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12504\/production\/_112421057_arquiteturaamericanaembelterra1.jpg\" alt=\"Casa com arquitetura americana em Belterra\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Arquitetura americana em Belterra: resqu\u00edcios da passagem da montadora Ford pela regi\u00e3o<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 54 anos, a resid\u00eancia passou \u00e0 propriedade da fam\u00edlia j\u00e1 que o pai dela veio para a regi\u00e3o, como agr\u00f4nomo, para atuar no polo da borracha e, posteriormente, foi contratado pelo Minist\u00e9rio da Agricultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A casa n\u00famero 1, tamb\u00e9m erguida em madeira nobre, foi projetada para receber o empres\u00e1rio Henry Ford, que nunca veio \u00e0 regi\u00e3o temendo contrair doen\u00e7as tropicais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela conta que, al\u00e9m da vila residencial, a Ford providenciou a instala\u00e7\u00e3o de infraestrutura urbana de Belterra, cidade que foi projetada em quadras. \u00c1gua tratada e canalizada, hospital, telecomunica\u00e7\u00f5es, entre outros servi\u00e7os foram trazidos \u00e0 cidade em car\u00e1ter pioneiro na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse passado deixou uma infraestrutura que continua servindo \u00e0 cidade. E hoje o que a soja deixa para n\u00f3s?\u201d, questiona a professora, graduada em biologia e preocupada com os impactos socioambientais desse modelo de monocultura que se expandiu na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No document\u00e1rio\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/beyondfordlandia.com\/\">Beyond Fordl\u00e2ndia<\/a>\u00a0(Muito al\u00e9m de Fordl\u00e2ndia, no t\u00edtulo em portugu\u00eas), dirigido pelo pesquisador Marcos Col\u00f3n, \u00e9 tra\u00e7ado um paralelo entre passado e presente da regi\u00e3o, a partir de uma narrativa que ilustra como a cultura da soja se beneficiou do caminho aberto pelo projeto megaloman\u00edaco de Ford, cujo desmatamento buscava a substitui\u00e7\u00e3o da floresta nativa pela monocultura de seringueiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cortada pela controversa rodovia Santar\u00e9m-Cuiab\u00e1, a BR-163, Belterra, com cerca de 17 mil habitantes, est\u00e1 inserida num polo regional de produ\u00e7\u00e3o da oleaginosa que se expandiu nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aposentado Francisco Bezerra Oliveira, 80 anos, conhece bem a hist\u00f3ria de se tentar, sem sucesso, fazer de Belterra um laborat\u00f3rio a c\u00e9u aberto de produ\u00e7\u00e3o de borracha natural. Ele conta que seus pais vieram com a fam\u00edlia do Cear\u00e1, atra\u00eddos por essa promessa n\u00e3o cumprida de progresso para a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre passado e presente, o aposentado tamb\u00e9m busca tra\u00e7ar um paralelo pela experi\u00eancia de vida. &#8220;Assim como aconteceu com as seringueiras, a soja tamb\u00e9m n\u00e3o vai dar certo&#8221;, opina. &#8220;O solo n\u00e3o \u00e9 apropriado&#8221;, acrescenta, destacando a necessidade de uma grande quantidade de produtos qu\u00edmicos para viabilizar os plantios. Ele diz que a riqueza da Amaz\u00f4nia est\u00e1 na sua floresta de p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O solo \u00e9 apropriado \u00e0 floresta&#8221;, refor\u00e7a ao reclamar que o desmatamento da regi\u00e3o, tamb\u00e9m associado \u00e0 expans\u00e3o da soja, contribui para o desaparecimento das abelhas e de muitas outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aposentado diz conhecer fam\u00edlias que sofrem diretamente \u201cos efeitos dos jatos de veneno\u201d da pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, precisando vedar janelas e outras entradas de ar de suas casas durante essas aplica\u00e7\u00f5es nas planta\u00e7\u00f5es no entorno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas reclama da falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o e de mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade para enfrentamento mais en\u00e9rgico do problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lamenta, ainda, que, historicamente, seja recorrente na Amaz\u00f4nia a concess\u00e3o de terras p\u00fablicas para plantio de culturas que n\u00e3o s\u00e3o nativas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua vis\u00e3o cr\u00edtica se reflete nas m\u00fasicas e par\u00f3dias que gosta de criar. Ao viol\u00e3o entoa: &#8220;&#8230;A soja plantada, a mata sumindo e o povo assistindo sem nada fazer\u201d. Outros versos d\u00e3o o tom do entendimento da interface entre desmatamento e o agravamento da crise clim\u00e1tica: &#8220;Motosserra zoando e o clima s\u00f3 faz aquecer&#8230;.&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aposentado reconhece que existem leis para a salvaguarda da natureza, mas que n\u00e3o est\u00e3o sendo cumpridas devido aos in\u00fameros interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos envolvidos. Suas ideias tamb\u00e9m se transformam em versos cr\u00edticos que soam ao viol\u00e3o em questionamento: &#8220;&#8230; A lei protege, mas que prote\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, se o trator e a motosserra todo dia fazem festa?&#8230;.&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reportagem manteve contatos com o prefeito de Belterra, Jocicl\u00e9lio Castro Macedo, e com a assessoria de imprensa da ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, Tereza Cristina. Mas, at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, n\u00e3o houve retorno \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es de entrevistas para discutir poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para os problemas relatados.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cercada de plantios de soja por todos os lados, a Ch\u00e1cara Jo\u00e3o do Mel, em Belterra, no oeste do Par\u00e1, \u00e9 como uma ilha de biodiversidade que ainda reflete a natureza amaz\u00f4nica em um cen\u00e1rio formado por \u00e1reas desmatadas a perder de vista.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":320516,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-320515","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/colmeia.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320515","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=320515"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320515\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/320516"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=320515"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=320515"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=320515"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}