{"id":321071,"date":"2020-06-06T11:12:40","date_gmt":"2020-06-06T14:12:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=321071"},"modified":"2020-06-06T11:12:40","modified_gmt":"2020-06-06T14:12:40","slug":"negros-representam-75-dos-mortos-em-acoes-policiais-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/negros-representam-75-dos-mortos-em-acoes-policiais-no-brasil\/","title":{"rendered":"Negros representam 75% dos mortos em a\u00e7\u00f5es policiais no Brasil"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1><\/h1>\n<\/header>\n<figure class=\"horizontal\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/24466180-2bf-5c0\/w640h360-PROP\/xwhatsapp-image-2020-06-05-at-18-12-40-jpeg.jpg.pagespeed.ic.3ilwuCbZgW.jpg\" alt=\"O carro em que o m\u00fasico Evaldo Rosa estava foi alvejado por mais de 80 tiros em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, em abril de 2019\" width=\"640\" height=\"360\" \/><figcaption><span class=\"credit\">O carro em que o m\u00fasico Evaldo Rosa estava foi alvejado por mais de 80 tiros em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, em abril de 2019 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"story\">\n<div class=\"header\">\n<div class=\"credits info\"><span class=\"author\">Carolina Heringer, Rafael Nascimento de Souza e Rafael Soares<\/span><\/div>\n<div class=\"text_size\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A morte de\u00a0<strong>George Floyd<\/strong>, um homem negro, por um policial branco no \u00faltimo dia 25, nos\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>, colocou o\u00a0<strong>racismo<\/strong>\u00a0em debate no Brasil e no mundo. Foram in\u00fameras as manifesta\u00e7\u00f5es contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial, fazendo surgir a hashtag #vidasnegrasimportam, uma forma de protesto nas redes sociais. Um n\u00famero do \u00faltimo Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, lan\u00e7ado em 2019 com dados do ano anterior, ajuda a dar a dimens\u00e3o do problema no Brasil, onde os negros representam cerca de metade da popula\u00e7\u00e3o. Em 2018, das 6.220 pessoas mortas pela pol\u00edcia no pa\u00eds, 75,4% (4.690) eram negras. Por outro lado, os policiais negros tamb\u00e9m est\u00e3o na mira dos criminosos. Do total de 343 agentes de seguran\u00e7a mortos em 2018, a maioria era negra: 51,4% (177). Mas vale ressaltar que eles s\u00e3o minoria nas tropas Militar e Civil: formam 37% do efetivo.<\/p>\n<p>Os dados de mortes pela pol\u00edcia apresentados no anu\u00e1rio abrangem aquelas que s\u00e3o decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais, quando os agentes que matam algu\u00e9m alegam que agiram em defesa pr\u00f3pria, normalmente em opera\u00e7\u00f5es. No entanto, em muitas ocasi\u00f5es, as fam\u00edlias contestam a vers\u00e3o dos policiais. Em dezembro de 2018, Lucas de Azevedo Albino, de 18 anos, morreu ap\u00f3s ter sido baleado por PMs do Batalh\u00e3o de Iraj\u00e1 num posto de gasolina em Costa Barros, na Zona Norte do Rio. Os policiais afirmaram que o rapaz, negro, estava armado, e o caso foi registrado como morte decorrente de interven\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/24466199-d6a-b30\/w448\/xwhatsapp-image-2020-06-05-at-22-48-231jpeg.jpg.pagespeed.ic.hm3FRyDxd8.jpg\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p>A m\u00e3e de Lucas, Laura Ramos de Azevedo, de 37 anos, luta contra um c\u00e2ncer terminal e tamb\u00e9m para limpar a imagem do rapaz. Ela nega que o filho estivesse armado.<\/p>\n<p>\u2014 Meu filho foi mais uma v\u00edtima da pol\u00edcia. Ele era negro e morador de favela. O que aconteceu com meu filho acontece com muitas fam\u00edlias negras pelo Brasil. Minha dor e meu sofrimento s\u00e3o os mesmos desde o dia em que o perdi. Vou lutar para limpar o nome do Lucas enquanto eu puder \u2014 afirmou Laura ao EXTRA, na manh\u00e3 de ontem, por telefone.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/24466179-3a2-2bf\/w448\/xwhatsapp-image-2020-06-05-at-18-10-31-jpeg.jpg.pagespeed.ic.YHnWLJDnY9.jpg\" alt=\"Lucas de Azevedo Albino foi assassinado em dezembro de 2018, aos 18 anos\" \/><figcaption>Lucas de Azevedo Albino foi assassinado em dezembro de 2018, aos 18 anos Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O caso do m\u00fasico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo, em abril do ano passado, tamb\u00e9m foi emblem\u00e1tico. O carro onde o m\u00fasico, que era negro, estava com a fam\u00edlia foi alvejado por mais de 80 tiros em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, por homens do Ex\u00e9rcito. Inicialmente, os militares alegaram que o grupo foi alvo de disparos e que, por isso, atirou. Luciano, que tamb\u00e9m era negro, estava na rua e foi em dire\u00e7\u00e3o ao ve\u00edculo do m\u00fasico para ajudar a socorrer a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Nesta sexta-feira, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma liminar para impedir a realiza\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es policiais em comunidades do Rio durante a pandemia do coronav\u00edrus, a n\u00e3o ser em hip\u00f3teses excepcionais. Nesses casos, deve haver justificativa por escrito da autoridade competente, com comunica\u00e7\u00e3o imediata ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio.<\/p>\n<p>O pedido foi feito pelo PSB, em parceria com a Defensoria P\u00fablica do Rio e com entidades representativas de grupos minorit\u00e1rios. Na a\u00e7\u00e3o, as entidades afirmam que o quadro j\u00e1 dram\u00e1tico de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no Rio vem se agravando, \u201cvitimando especialmente a popula\u00e7\u00e3o pobre, negra, que mora em comunidades\u201d. O texto afirma que, durante a pandemia, \u201cas opera\u00e7\u00f5es policiais v\u00eam se tornando ainda mais letais e violentas\u201d. Entre elas, a a\u00e7\u00e3o cita a chacina ocorrida no Complexo do Alem\u00e3o, no dia 15 de maio, e o assassinato de crian\u00e7as e adolescentes, como Jo\u00e3o Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, no Complexo do Salgueiro, em S\u00e3o Gon\u00e7alo, no \u00faltimo dia 18. Os advogados Daniel Sarmento e Ademar Borges, autores da a\u00e7\u00e3o, manifestaram-se e celebraram a decis\u00e3o de Fachin: \u201cA pol\u00edcia do Rio de Janeiro praticava genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra. Isso lamentavelmente aumentou no per\u00edodo de pandemia em que o n\u00famero de incurs\u00f5es policiais na favela e de mortes subiu dramaticamente. A decis\u00e3o do Fachin revela que vidas negras importam\u201d.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/24466181-73f-a8e\/w448\/xwhatsapp-image-2020-06-05-at-18-11-12-jpeg.jpg.pagespeed.ic.Ur_zqeMrof.jpg\" alt=\"Roberto de Souza Penha, de 15 anos, e outros quatro amigos foram assassinados em Costa Barros\" \/><figcaption>Roberto de Souza Penha, de 15 anos, e outros quatro amigos foram assassinados em Costa Barros Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure><strong><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/24466182-6f6-b81\/w448\/xwhatsapp-image-2020-06-05-at-18-11-58-jpeg.jpg.pagespeed.ic.0dW-LO8F69.jpg\" alt=\"O frentista Daniel Rangel, de 20 anos, foi morto com cinco tiros\" \/><\/strong><figcaption>O frentista Daniel Rangel, de 20 anos, foi morto com cinco tiros Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Casos controversos no Rio<\/strong><\/p>\n<p>Jorge Roberto Lima da Penha tamb\u00e9m viu a \u00edndole do filho ser colocada em xeque quando o rapaz foi morto por policiais do 41\u00ba BPM (Iraj\u00e1), um dos batalh\u00f5es que mais matam no estado, em 2015. No carro onde Roberto de Souza Penha, de 15, e outros quatro amigos estavam foram encontradas mais de oito dezenas de marcas de tiros. Os policiais alegavam que tinham atirado porque foram alvejados, vers\u00e3o que depois acabou desmentida. Dois PMs foram condenados a 52 anos de pris\u00e3o pelas mortes.<\/p>\n<p>\u2014 Quando eu vejo essa quantidade de negros, e, principalmente, jovens, sendo assassinados pela PM, sinto como se essas pessoas fossem os meus filhos. Eu lembro o dia em que o meu filho foi executado pelo estado. E o que mais d\u00f3i \u00e9 saber que o fato de ele ser negro propiciou a PM julgar que eles (Roberto e os amigos) eram marginais. O que aconteceu com meu filho em Costa Barros jamais aconteceria e acontecer\u00e1 com um jovem branco na Zona Sul \u2014 afirma Jorge Roberto.<\/p>\n<p>A mesma trag\u00e9dia chegou \u00e0 casa da diarista Ana Cl\u00e1udia Rangel, m\u00e3e do frentista Daniel Rangel, de 20 anos, morto com cinco tiros numa opera\u00e7\u00e3o do Bope no Morro do Estado, em Niter\u00f3i. O rapaz foi apontado como suspeito, e os policiais disseram que ele estava armado. Parentes negam a vers\u00e3o e dizem que Daniel estava no lugar errado e na hora errada.<\/p>\n<p>\u2014 Se meu filho n\u00e3o fosse negro, eles n\u00e3o teriam feito o que fizeram. A carne negra da comunidade, apesar de meu filho n\u00e3o morar ali, \u00e9 mais barata e mais f\u00e1cil de matar \u2014 diz Ana.<\/p>\n<p><strong>Preconceito contra a favela<\/strong><\/p>\n<p>Segundo um levantamento feito pelo EXTRA com base em dados do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio, no primeiro semestre de 2019, dos 885 mortos pela pol\u00edcia, 711 eram negros, o que corresponde a 80% do total. Marcelo Dias, da dire\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado, explica que o percentual elevado de negros mortos pela pol\u00edcia \u00e9 um fato hist\u00f3rico, possui liga\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a no Brasil. Segundo ele, a cria\u00e7\u00e3o delas ocorreu para defender o patrim\u00f4nio da elite brasileira, e n\u00e3o a vida da popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje, nossa pol\u00edtica de seguran\u00e7a \u00e9 a pol\u00edcia apontar o fuzil para a juventude das favelas, que \u00e9 negra, e mat\u00e1-la. Nosso governador est\u00e1 descumprindo a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que coloca a vida como o bem maior a ser preservado. \u00c9 uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a baseada na guerra \u00e0s drogas e totalmente fracassada. At\u00e9 porque, quanto mais matam, mais o tr\u00e1fico se fortalece \u2014 analisa Dias.<\/p>\n<p>Lucia Xavier, coordenadora da ONG Criola, frisa que h\u00e1 um preconceito contra os moradores de favelas, especialmente os jovens negros, e que isso tem rela\u00e7\u00e3o direta com a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas para integr\u00e1-los \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira como um todo:<\/p>\n<p>\u2014 Nunca houve uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contundente para integrar a popula\u00e7\u00e3o negra. E nesse combate ao crime e ao tr\u00e1fico, o principal alvo \u00e9 o jovem negro, que surge como se fosse uma amea\u00e7a para a sociedade. No passado, o negro andava com carteira de trabalho para n\u00e3o ser preso por vadiagem. Hoje, eles s\u00e3o acusados de terem cometido crimes quando muitas vezes isso n\u00e3o aconteceu. O jovem negro precisa provar sua inoc\u00eancia, pois, a princ\u00edpio, quando \u00e9 morto ou n\u00e3o, ele j\u00e1 \u00e9 acusado.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dados de mortes pela pol\u00edcia apresentados no anu\u00e1rio abrangem aquelas que s\u00e3o decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais, quando os agentes que matam algu\u00e9m alegam que agiram em defesa pr\u00f3pria, normalmente em opera\u00e7\u00f5es. 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