{"id":322209,"date":"2020-06-18T10:28:00","date_gmt":"2020-06-18T13:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=322209"},"modified":"2020-06-18T10:28:00","modified_gmt":"2020-06-18T13:28:00","slug":"quem-foi-joaquim-pereira-marinho-o-traficante-de-escravos-que-virou-estatua-na-capital-mais-negra-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quem-foi-joaquim-pereira-marinho-o-traficante-de-escravos-que-virou-estatua-na-capital-mais-negra-do-brasil\/","title":{"rendered":"Quem foi Joaquim Pereira Marinho, o traficante de escravos que virou est\u00e1tua na capital mais negra do Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"byline__name\">Camilla Costa<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/5AB1\/production\/_112871232_estatua.jpg\" alt=\"Est\u00e1tua de Joaquim Pereira Marinho\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Portugu\u00eas ganhou dinheiro com tr\u00e1fico de africanos para o Brasil depois que a atividade j\u00e1 havia deixado de ser legal no pa\u00eds<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Quando manifestantes antirracistas retiraram a est\u00e1tua do brit\u00e2nico Edward Colston, no domingo (07\/06), e a jogaram no fundo de um antigo porto de navios negreiros em Bristol, as imagens reacenderam debates sobre monumentos semelhantes na Europa e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, em Salvador, o porto onde chegaram quase um ter\u00e7o dos africanos trazidos ao Brasil, a homenagem a um dos principais traficantes de escravizados continua imperturb\u00e1vel diante de uma pra\u00e7a p\u00fablica no centro da cidade. Sua biografia ainda \u00e9 conhecida, praticamente, apenas por historiadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A est\u00e1tua do portugu\u00eas Joaquim Pereira Marinho, que fica diante do hospital Santa Izabel, no Largo de Nazar\u00e9, na capital baiana, \u00e9 um exemplo de como pa\u00eds ainda lida com a mem\u00f3ria da escravid\u00e3o, de acordo com um grupo de historiadores que decidiu mapear as homenagens do tipo na cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aqui n\u00f3s sequer temos ideia dos monumentos a figuras do passado que t\u00eam conex\u00f5es com a opress\u00e3o de negros, de ind\u00edgenas ou a movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que temos nas cidades. De tempos em tempos temos esse debate entre os colegas, especialmente quando a discuss\u00e3o explode em outros pa\u00edses, como aconteceu nos Estados Unidos em 2017 e agora na Inglaterra&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil o historiador Moreno Pacheco, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos respons\u00e1veis pela iniciativa.<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"teads-ui-components-credits\"><\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">De traficantes a benfeitores<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joaquim Pereira Marinho passou para a hist\u00f3ria como conde, mas n\u00e3o era parte da nobreza. Seu t\u00edtulo j\u00e1 foi conquistado como parte de um esfor\u00e7o para estabelecer uma imagem como membro da alta sociedade da Bahia, depois da fortuna feita com o tr\u00e1fico de africanos cativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro registro do portugu\u00eas na Bahia \u00e9 de 1828, como mar\u00edtimo, um funcion\u00e1rio de navios. Dois anos depois, ele j\u00e1 \u00e9 registrado como propriet\u00e1rio de navios que faziam frequentemente o trajeto entre o continente africano &#8211; a costa da Mina, onde hoje ficam Benin, Togo e Nig\u00e9ria, e as regi\u00f5es onde hoje s\u00e3o Angola e Congo &#8211; e o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas uma coisa que o torna diferente de figuras como Edward Colston, por exemplo, que j\u00e1 vinha de uma fam\u00edlia propriet\u00e1ria de escravos, \u00e9 que Pereira Marinho realmente entrou no neg\u00f3cio depois que ele j\u00e1 era proibido no Brasil&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil o historiador Carlos da Silva Jr., professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), doutorando em Hist\u00f3ria da \u00c1frica pela Universidade de Hull.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1831, a Lei Feij\u00f3 passou a proibir, em teoria, a importa\u00e7\u00e3o de africanos como escravos ao pa\u00eds. &#8220;Essa lei ficou conhecida como &#8216;Lei para Ingl\u00eas Ver&#8217;, porque apesar da queda no n\u00famero de negros trazidos ao Brasil como escravos at\u00e9 1835, ele voltou a aumentar nos anos seguintes, porque os traficantes, com o apoio do Estado brasileiro, continuaram trazendo pessoas para c\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os navios registrados em nome de Pereira Marinho no projeto Banco de Dados do Tr\u00e1fico de Escravos Transatl\u00e2ntico fizeram 33 viagens entre o Brasil e a \u00c1frica entre 1839 e 1850.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Silva Jr, estima-se que ele trouxe cerca de 11.584 homens, mulheres e crian\u00e7as como escravos \u00e0 Bahia, e at\u00e9 10% deles, cerca de 1.150, podem ter morrido ainda durante a travessia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com a proibi\u00e7\u00e3o definitiva do tr\u00e1fico em 1851, com a Lei Eus\u00e9bio de Queiroz, Marinho continuou transportando africanos como cativos para as Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em 1858, ele criou a Companhia Uni\u00e3o Africana, para fazer com\u00e9rcio legal com a \u00c1frica, mas, gra\u00e7as aos contatos que tinha em Cuba, onde a compra e venda de escravos ainda era legalizada, ele manteve a atividade&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil a professora Ana L\u00facia Ara\u00fajo, professora da Universidade Howard, nos Estados Unidos e especialista na hist\u00f3ria transnacional da escravid\u00e3o, que escreveu sobre o traficante portugu\u00eas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A8D1\/production\/_112871234_hi061898341.jpg\" alt=\"Manifestantes derrubam monumento em homenagem a Edward Colston em Bristol\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Derrubada de est\u00e1tua de brit\u00e2nico por ativistas antirracistas gerou onda de questionamento de homenagens a personagens hist\u00f3ricos envolvidos em massacres<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como o ingl\u00eas Colston, depois de fazer fortuna com o com\u00e9rcio de africanos escravizado, Marinho tamb\u00e9m passou a fazer investimentos em propriedades, empr\u00e9stimos de dinheiro a juros a outros comerciantes e at\u00e9 a governos locais &#8211; algo comum aos homens ricos da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas a partir da d\u00e9cada de 50, quando o tr\u00e1fico acaba, h\u00e1 uma mudan\u00e7a na opini\u00e3o p\u00fablica no Brasil, e o tr\u00e1fico de escravos passa a ser entendido como algo nefasto. Ent\u00e3o a partir da d\u00e9cada de 1860, esses traficantes, que at\u00e9 ent\u00e3o carregavam uma certa aura de hero\u00edsmo, passam a ser criticados&#8221;, conta Carlos da Silva Jr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E durante a d\u00e9cada de 1860, Pereira Marinho come\u00e7a a se defender n\u00e3o s\u00f3 dessas cr\u00edticas, como tamb\u00e9m das acusa\u00e7\u00f5es de que era agiota e emprestava dinheiro a juros exorbitantes. \u00c9 a\u00ed que ele redobra as suas a\u00e7\u00f5es de caridade.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Consci\u00eancia tranquila&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria de homens como Marinho e Colston tamb\u00e9m se encontra a\u00ed. Em Bristol e em Londres, o comerciante ingl\u00eas fundou asilos e escolas, al\u00e9m de fazer doa\u00e7\u00f5es significativas para igrejas e hospitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, Marinho ajudou v\u00edtimas de trag\u00e9dias e da seca em Estados do Nordeste, apoiou obras de caridade, fez reparos em bairros de Salvador e tornou-se patrono da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, uma das mais tradicionais institui\u00e7\u00f5es vindas de Portugal, que tamb\u00e9m fornecia cr\u00e9dito a comerciantes e conferia status aos poderosos da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O elemento em comum entre todos esses traficantes \u00e9 que eles eram filantropos. Durante a vida eles se empenhavam em construir a imagem de pessoas caridosas. E conseguiram, porque vemos que, no decorrer dos anos, a participa\u00e7\u00e3o deles no com\u00e9rcio de humanos foi sendo apagada justamente para ficar a mem\u00f3ria das benfeitorias&#8221;, diz Ana L\u00facia Ara\u00fajo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vemos isso at\u00e9 nas est\u00e1tuas, tanto de Marinho quanto de Colston. Ambos s\u00e3o apresentados acompanhados de crian\u00e7as, ou em postura benevolente. Isso \u00e9 diferente do que ocorre nos EUA, por exemplo, onde a maioria dos monumentos aos ex-donos de escravos projetam mais poder, s\u00e3o mais viris. Eles aparecem cavalgando, empunhando armas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pereira Marinho morreu em 1887, deixando uma fortuna de 8 mil contos de r\u00e9is, o equivalente a cerca de R$ 1 bilh\u00e3o em valores atuais, e 227 im\u00f3veis em seu nome somente na capital baiana. Em seu testamento, ele dizia ter &#8220;a consci\u00eancia tranquila de passar para a vida eterna sem nunca haver concorrido para o mal de meu semelhante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Di\u00e1rio da Bahia, um jornal importante da \u00e9poca, escreveu ap\u00f3s sua morte, em 1887, que &#8220;n\u00e3o sabemos, nem desejamos saber, que em nada isto nos interessa, se o Sr. Conde de Pereira Marinho prejudicou algu\u00e9m no correr de sua exist\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14511\/production\/_112871238_hi061877114.jpg\" alt=\"Est\u00e1tua de Robert Milligan sendo retirada das docas de Londres\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Algumas est\u00e1tuas est\u00e3o sendo retiradas de maneira preventiva de cidades europeias, por sido contestadas por manifestantes na \u00faltima semana<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Sil\u00eancio sobre a escravid\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As revela\u00e7\u00f5es sobre a biografia de Pereira Marinho por historiadores t\u00eam causado debates nas redes sociais, algo que, eles admitem, era pouco comum at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Volta e meia essa discuss\u00e3o das est\u00e1tuas aparece entre os historiadores, mas n\u00e3o me lembro de discuss\u00f5es que apare\u00e7am na comunidade. Mas \u00e9 importante saber como n\u00f3s historiadores podemos ajudar nesse processo. Acho que podemos ajudar a fomentar pol\u00edticas p\u00fablicas e a questionar essas homenagens&#8221;, diz Carlos da Silva Jr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Bristol, o debate sobre as homenagens a Edward Colston, que d\u00e1 nome a escolas, ruas e a uma casa de shows, come\u00e7ou nos anos 1990, quando tr\u00eas historiadoras fizeram um itiner\u00e1rio dos locais importantes para a hist\u00f3ria do tr\u00e1fico negreiro na cidade, segundo Ana L\u00facia Ara\u00fajo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No caso da Bahia, e do Brasil em geral, o impressionante \u00e9 que esse debate sobre monumentos homenageando escravistas praticamente n\u00e3o acontece. J\u00e1 vimos algumas pequenas iniciativas, mas a fal\u00e1cia da democracia racial apagou dos espa\u00e7os p\u00fablicos toda a mem\u00f3ria das atrocidades cometidas contra a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente&#8221;, diz a professora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O sil\u00eancio reina sobre a quest\u00e3o da escravid\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia aos escravocratas, e mais recentemente, come\u00e7aram a colocar est\u00e1tuas homenageando figuras importantes para a popula\u00e7\u00e3o negra em Salvador e no Rio de Janeiro. Mesmo assim n\u00e3o se marca os pelourinhos, n\u00e3o se recupera a mem\u00f3ria de outros espa\u00e7os importantes para a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, para que a gente possa saber onde as coisas aconteceram.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Moreno Pacheco, a ideia de mapear os monumentos problem\u00e1ticos da cidade j\u00e1 se expandiu para incluir tamb\u00e9m os locais de hist\u00f3ria da escravid\u00e3o que n\u00e3o possuem nenhum tipo de marca\u00e7\u00e3o, como antigos mercados de pessoas, e homenagens que n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1tuas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pra\u00e7a diante da igreja do Nosso Senhor do Bonfim, uma das mais importantes da cidade tanto para cat\u00f3licos quanto para adeptos do candombl\u00e9, por causa do sincretismo religioso, tamb\u00e9m homenageia um dos principais traficante de escravizados do s\u00e9culo 18, Teod\u00f3sio Rodrigues de Farias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi Farias, na verdade, que levou a imagem do Senhor do Bonfim para a cidade, pagando uma promessa que fez durante uma dificuldade na travessia do Atl\u00e2ntico. Ele est\u00e1 enterrado dentro da igreja, onde tampouco h\u00e1 refer\u00eancia ao tr\u00e1fico de africanos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1079\/production\/_112871240_hi061893083.jpg\" alt=\"Est\u00e1tua de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo decapitada em Boston, nos EUA\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Debate sobre o que fazer com est\u00e1tuas op\u00f5e defensores de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio aos que acreditam que ele deve ser recontextualizado para refletir vis\u00e3o atual sobre o racismo<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O que fazer com os monumentos?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A derrubada da est\u00e1tua de Colston &#8211; que j\u00e1 foi retirada do porto de Bristol e ser\u00e1 exibida em um museu &#8211; provocou uma onda de questionamento sobre monumentos na Gr\u00e3-Bretanha e em outros pa\u00edses da Europa, al\u00e9m dos Estados Unidos, na \u00faltima semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Londres, a est\u00e1tua do not\u00f3rio traficante de africanos Robert Milligan foi removida da \u00e1rea externa do Museu das Docas. O prefeito da capital brit\u00e2nica, Sadiq Khan, anunciou que outras homenagens na cidade ser\u00e3o revistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Oxford, ativistas pedem que a est\u00e1tua do imperialista Cecil Rhodes, na Universidade de Oxford, seja removida, por ser o que chamam de s\u00edmbolo do racismo e do colonialismo brit\u00e2nicos. A vice-reitora da universidade, Louise Richardson, disse \u00e0 BBC News que n\u00e3o se deve &#8220;esconder a hist\u00f3ria&#8221; e, sim, &#8220;aprender com ela&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Antu\u00e9rpia, na B\u00e9lgica, uma est\u00e1tua do rei Leopoldo 2\u00ba, respons\u00e1vel pelo regime colonial brutal que matou milh\u00f5es no Congo, foi retirada de uma pra\u00e7a ap\u00f3s protestos de ativistas, e dever\u00e1 ser colocada em um museu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos Estados Unidos, est\u00e1tuas do navegador Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, creditado pelo descobrimento da Am\u00e9rica no s\u00e9culo 15, mas considerado por povos nativos um dos principais respons\u00e1veis por seu genoc\u00eddio, foram decapitadas em ao menos tr\u00eas cidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, ao menos nas redes sociais, os coment\u00e1rios se voltaram novamente para homenagens aos bandeirantes em S\u00e3o Paulo, como a est\u00e1tua de Borba Gato e o Monumento \u00e0s Bandeiras. E, mais recentemente, para a est\u00e1tua de Pereira Marinho em Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate, em todos os pa\u00edses, op\u00f5e os adeptos \u00e0 revis\u00e3o das homenagens \u00e0queles que defendem que as est\u00e1tuas devem ser mantidas intactas, na condi\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu perfil no Twitter, o escritor Laurentino Gomes, autor de um livro recente sobre a escravid\u00e3o no Brasil, defende que os monumentos &#8220;devem ser preservados como objetos de estudo e reflex\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<div class=\"social-embed\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"social-embed-post social-embed-fallbacktwitter embed-image-wrap\">\n<figure class=\"media-landscape full-width embed-screenshot-js\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/485\/socialembed\/https:\/\/twitter.com\/laurentinogomes\/status\/1270029722974633987~\/portuguese\/brasil-53013733\" alt=\"Twitter post de @laurentinogomes: Vejo nas redes sociais um movimento pela derrubada da est\u00e1tua do bandeirante Borba Gato situada no bairro de Santo Amaro, em SP. Sou contra. Est\u00e1tuas, pr\u00e9dios, pal\u00e1cios e outros monumentos s\u00e3o parte do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. Devem ser preservados como objetos de estudo e reflex\u00e3o \" width=\"465\" height=\"599\" data-highest-encountered-width=\"485\" \/><\/span><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os historiadores baianos, no entanto, acreditam que a revis\u00e3o dos monumentos tamb\u00e9m deve ser considerada como parte da hist\u00f3ria &#8211; a que estamos escrevendo neste momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica, \u00e9 din\u00e2mica. Ent\u00e3o, a eventual retirada desses monumentos tamb\u00e9m \u00e9 um fen\u00f4meno hist\u00f3rico que vai ser estudado no futuro&#8221;, diz Carlos Silva Jr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 preciso necessariamente remover todas as est\u00e1tuas. \u00c9 poss\u00edvel encontrar solu\u00e7\u00f5es diferentes para homenagens e monumentos diferentes. Seja adicionar explica\u00e7\u00f5es nas placas, seja coloc\u00e1-las em museus. Mas \u00e9 importante falarmos sobre isso. Devemos continuar celebrando essas pessoas como antes?&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Os celebrados e os esquecidos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Pacheco, da Ufba, as est\u00e1tuas tamb\u00e9m continuam funcionando como objetos de mem\u00f3ria coletiva quando s\u00e3o retiradas do lugar de homenagens. Apenas &#8220;n\u00e3o do jeito que a pessoa que as patrocinou pretendia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o \u00e9 um processo f\u00e1cil pra uma cidade lidar com o fato de que seu pr\u00f3prio passado est\u00e1 sendo passado em revis\u00e3o, porque d\u00e1 \u00e0s pessoas uma sensa\u00e7\u00e3o de caos e instabilidade. Mas diante do impasse do que fazer com um monumento, mant\u00ea-lo tal como ele \u00e9, celebrat\u00f3rio de uma figura que causou opress\u00e3o a outros grupos, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tanto quanto retir\u00e1-lo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu entendo a preocupa\u00e7\u00e3o com manter esses monumentos como reflex\u00e3o sobre o passado. Por isso que sa\u00eddas como a de levar a est\u00e1tua para um museu s\u00e3o interessantes. Ali \u00e9 poss\u00edvel mostrar a hist\u00f3ria completa daquela figura e refletir sobre sua mem\u00f3ria. Se tiv\u00e9ssemos um museu da escravid\u00e3o na Bahia, por exemplo, que at\u00e9 hoje n\u00e3o existe, a est\u00e1tua de Pereira Coutinho poderia estar l\u00e1, mostrando inclusive que a cidade j\u00e1 celebrou essa pessoa, e um dia escolheu deixar de celebrar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionada sobre seu posicionamento em rela\u00e7\u00e3o a esta e outras homenagens a traficantes de escravos em Salvador, a Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Matos &#8211; \u00f3rg\u00e3o vinculado \u00e0 prefeitura que \u00e9 respons\u00e1vel pela preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico da cidade e lista a est\u00e1tua de Pereira Marinho entre seus monumentos &#8211; afirmou que est\u00e1 atualizando as fichas t\u00e9cnicas de monumentos p\u00fablicos e instalando placas com os textos atualizados, acess\u00edveis por meio de QR Code.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00f3rg\u00e3o disse que n\u00e3o tem planos, no momento, para os locais indicados na reportagem, mas que &#8220;vem realizando outras a\u00e7\u00f5es, que visam dar visibilidade a mem\u00f3ria, al\u00e9m de reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio afro-brasileiro&#8221;, como a preserva\u00e7\u00e3o e o tombamento de terreiros e \u00e1reas remanescentes de antigos quilombos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;H\u00e1 muitas formas de lidar com a mem\u00f3ria de epis\u00f3dios hist\u00f3ricos e a FGM se encontra aberta para avaliar a possibilidade de sugest\u00f5es&#8221;, disse a Funda\u00e7\u00e3o \u00e0 BBC News Brasil, por e-mail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nota \u00e0 BBC News Brasil, a Santa Casa de Miseric\u00f3rdia da Bahia afirmou que &#8220;os fatos que marcaram a biografia do Conde Pereira Marinho s\u00e3o de conhecimento da institui\u00e7\u00e3o e s\u00e3o apresentados a todos que buscam conhecer a hist\u00f3ria dos que fizeram parte da Santa Casa como eles s\u00e3o: pontos da historicidade de uma \u00e9poca&#8221;. Leia a \u00edntegra da nota no fim da reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Carlos da Silva Jr., a Santa Casa costumava enterrar os africanos que chegavam mortos nos navios ou morriam j\u00e1 como propriedade de senhores baianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O enterro era feito num bangu\u00ea, sepultura barata, de indigente, que era dada a pessoas que n\u00e3o tinham dinheiro para ser enterradas em outros espa\u00e7os ou que eram escravizadas. Os donos normalmente teriam que pagar por isso. E muitos, para n\u00e3o gastarem, deixavam os escravos na rua ou na porta da Santa Casa, para que eles fizessem o enterro&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte dos cativos foram enterrados na regi\u00e3o central da cidade. O local n\u00e3o est\u00e1 marcado, nem foi determinado com absoluta certeza pelos historiadores, mas fica em um dos terrenos pr\u00f3ximos ao edif\u00edcio atual da Santa Casa e do Hospital Santa Izabel, onde se encontra a est\u00e1tua do traficante respons\u00e1vel por trazer muitos dos africanos enterrados pela institui\u00e7\u00e3o e imortalizado como seu principal benfeitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia a \u00edntegra da nota da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia da Bahia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>&#8220;A Santa Casa de Miseric\u00f3rdia da Bahia, entidade filantr\u00f3pica privada, informa que, como institui\u00e7\u00e3o secular datada de 1549, esteve inserida nos mais diversos contextos da sociedade baiana ao longo do tempo. Os fatos que marcaram a biografia do Conde Pereira Marinho s\u00e3o de conhecimento da institui\u00e7\u00e3o e s\u00e3o apresentados a todos que buscam conhecer a hist\u00f3ria dos que fizeram parte da Santa Casa como eles s\u00e3o: pontos da historicidade de uma \u00e9poca.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A est\u00e1tua localizada em frente ao pr\u00e9dio do Hospital Santa Izabel foi apresentada no mesmo dia em que o complexo hospitalar foi fundado, no ano de 1893, como consta na ata de inaugura\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio. Este documento est\u00e1 dispon\u00edvel para consulta e comp\u00f5e o acervo do Centro de Mem\u00f3ria Jorge Calmon, arquivo hist\u00f3rico que re\u00fane registros do s\u00e9culo XVII at\u00e9 os dias atuais, visitado por diversos pesquisadores nacionais e internacionais.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>O Conde Pereira Marinho foi respons\u00e1vel pela doa\u00e7\u00e3o que possibilitou a retomada da constru\u00e7\u00e3o do Hospital Santa Izabel ap\u00f3s 40 anos de obras interrompidas por falta de recursos financeiros. Por essa raz\u00e3o, em 1893, a est\u00e1tua foi erguida.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>O monumento, classificado como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e obra art\u00edstica, comp\u00f5e o conjunto arquitet\u00f4nico do Hospital Santa Izabel, reconhecido e tombado pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Art\u00edstico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC).<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A Santa Casa de Miseric\u00f3rdia da Bahia reitera que, como institui\u00e7\u00e3o com quase 500 anos de hist\u00f3ria, atua com o compromisso de promover o vi\u00e9s educativo e o car\u00e1ter reflexivo dos fatos hist\u00f3ricos, seja atrav\u00e9s do Museu da Miseric\u00f3rdia, do Centro de Mem\u00f3ria Jorge Calmon, do Circuito Cultural do Cemit\u00e9rio Campo Santo ou dos monumentos que comp\u00f5em o patrim\u00f4nio cultural da entidade.&#8221;<\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;H\u00e1 muitas formas de lidar com a mem\u00f3ria de epis\u00f3dios hist\u00f3ricos e a FGM se encontra aberta para avaliar a possibilidade de sugest\u00f5es&#8221;, disse a Funda\u00e7\u00e3o \u00e0 BBC News Brasil, por e-mail.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":322210,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-322209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/joaquim-negreiro.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=322209"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322209\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/322210"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=322209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=322209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=322209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}