{"id":322219,"date":"2020-06-18T10:49:59","date_gmt":"2020-06-18T13:49:59","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=322219"},"modified":"2020-06-18T10:49:59","modified_gmt":"2020-06-18T13:49:59","slug":"dez-anos-sem-jose-saramago-obra-do-escritor-e-referencia-para-se-pensar-o-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/dez-anos-sem-jose-saramago-obra-do-escritor-e-referencia-para-se-pensar-o-presente\/","title":{"rendered":"Dez anos\u00a0 sem Jos\u00e9 Saramago, obra do escritor \u00e9 refer\u00eancia para se pensar o presente"},"content":{"rendered":"<div class=\"m-l-article__header m-u-pt-4 m-u-pb-4 m-u-container-lg\">\n<h1 class=\"m-l-article__heading \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"m-l-article__meta m-u-mt-2 m-u-mb-2 m-u-mt-3-md m-u-mb-3-md\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"m-c-meta m-c-meta--has-time-update m-u-text-sans m-u-text-sm m-u-color-gray-600\">Por Dellano Rios<\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"m-l-article__subheading \" style=\"text-align: justify;\">Nesta quinta-feira (18), completa-se uma d\u00e9cada sem o \u00fanico autor da l\u00edngua portuguesa a ser agraciado com o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Jos\u00e9 Saramago, por\u00e9m, segue como modelo de lucidez cr\u00edtica e de engenho liter\u00e1rio<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"m-l-article__thumbnail m-u-container-hg-lg\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure>\n<div class=\"m-b-media m-b-media--image m-u-ratio-16by9\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:1.2956356:1592479582\/Escritor-Jose-Saramango.png?f=16x9&amp;$p$f=9012bdc\" alt=\"Imagem: Arte Lincoln Sousa\" \/><\/div><figcaption class=\"m-u-text-sans m-u-mt-2 m-u-px-3 m-u-text-sm m-u-line-height-tight m-u-color-gray-600\">\n<div class=\"m-u-mb-1\">Em sua obra, Jos\u00e9 Saramago refletiu sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e olhou para os problemas do instante e do local<\/div>\n<div class=\"m-u-mt-1\"><span class=\"m-u-text-bold\">Foto:\u00a0<\/span>Arte\/Lincoln Sousa<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"m-l-article__inner m-u-display-flex-lg m-l-article__inner--sidebar m-u-pt-4 m-u-pb-4 m-u-container-lg m-u-container-hg-lg\">\n<div class=\"m-l-article__tools m-u-mb-3 m-u-mb-0-lg m-u-width-24-lg\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"m-c-tools m-c-tools--social u-m-display-flex m-u-direction-col-lg m-u-width-32 m-u-width-auto-lg m-u-justify-between h32-lg\">\n<div class=\"m-u-width-6 m-u-heigh-6\"><\/div>\n<div class=\"m-u-width-6 m-u-heigh-6\"><\/div>\n<div class=\"m-u-width-6 m-u-heigh-6\"><\/div>\n<div class=\"m-u-width-6 m-u-heigh-6\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"m-l-article__content \">\n<p style=\"text-align: justify;\">Dez anos, exatos, se passaram desde a<strong>\u00a0morte de Jos\u00e9 Saramago<\/strong>. O tempo n\u00e3o foi suficiente para faz\u00ea-lo distante. De l\u00e1 para c\u00e1,<strong>\u00a0tr\u00eas livros in\u00e9ditos<\/strong>\u00a0lhe garantiram uma\u00a0<strong>boa m\u00e9dia de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<\/strong>. Constantes reimpress\u00f5es e reedi\u00e7\u00f5es atestam o interesse p\u00fablico por seus escritos. E que se destaque, at\u00e9 mesmo no Brasil, com t\u00e3o escassos leitores, de A a Z nas classes que dividem oficial e extraoficialmente a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feito n\u00e3o \u00e9 pequeno. Portugu\u00eas, o escritor \u00e9 um raro caso entre seus compatriotas contempor\u00e2neos realmente lidos por estes lados. Leve-se em conta que sua obra ainda imp\u00f5e desafios. Destaquem-se a extens\u00e3o dessa \u2013 s\u00e3o mais de 30, quase 40, os livros, e de g\u00eaneros diversos \u2013 e o estilo singular de sua escrita.<\/p>\n<blockquote class=\"c-bkqt c-bkqt--centered\">\n<div class=\"c-bkqt__text\">Uma hist\u00f3ria pessoal ilustra o inc\u00f4modo da sua prosa: no fim dos anos 1990, quando \u201cJangada de Pedra\u201d figurou entre os livros exigidos pelo Vestibular da Universidade Federal do Cear\u00e1, assustaram os candidatos com a escrita daquele portugu\u00eas, com suas muitas v\u00edrgulas, a aus\u00eancia de aspas e travess\u00f5es e o h\u00e1bito de fazer longas digress\u00f5es filos\u00f3ficas.<\/div>\n<\/blockquote>\n<figure style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"m-b-media m-b-media--image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:1.2956361:1592428132\/Saramango%20neto%20ok.png?f=default&amp;$p$f=d1da4df\" alt=\"Imagem: Dellano Rios\" \/><\/div><figcaption class=\"m-u-text-sans m-u-mt-2 m-u-px-3 m-u-text-sm m-u-line-height-tight m-u-color-gray-600\">\n<div class=\"m-u-mb-1\">Acervo do antrop\u00f3logo cearense Ismael Pordeus Jr. Ele estava em Portugal h\u00e1 dez anos e reuniu jornais e revistas com a cobertura da morte de Jos\u00e9 Saramago<\/div>\n<div class=\"m-u-mt-1\"><span class=\"m-u-text-bold\">Foto:\u00a0<\/span>Dellano Rios<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descri\u00e7\u00e3o, contudo, falsifica a escrita de Saramago, mais ou menos como quem diz da Monalisa um peda\u00e7o de pano coberto de tinta. De fato, \u00e9 uma escrita original. Por vezes, parece que o escritor embaralhou a ordem das palavras, de forma que soem estranhas as linhas que descrevem coisas absolutamente banais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 certo tamb\u00e9m que seus livros, em especial os romances, s\u00e3o\u00a0<strong>carregados de ideias e reflex\u00f5es<\/strong>, muito al\u00e9m daquela que, em geral, o autor escolheu para servir de refer\u00eancia para sua trama. Mas h\u00e1 nisso tudo, nestes livros estranhos e, inicialmente, dif\u00edceis e amea\u00e7adores, algo de sedutor. Como as sereias que convidavam os marinheiros ao irresist\u00edvel mergulho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gl\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o faltam a Saramago leitores, nem admiradore<\/strong>s. Em 1998, converteu-se mesmo em uma esp\u00e9cie de her\u00f3i das letras lus\u00f3fonas, por ter sido, at\u00e9 ent\u00e3o e at\u00e9 hoje, o \u00fanico autor da l\u00edngua portuguesa a ser agraciado com o<strong>\u00a0Pr\u00eamio Nobel de Literatura<\/strong>. Ao contr\u00e1rio de muitos de seus pares no pante\u00e3o de agraciados pela Academia Sueca, Saramago \u00e9 um autor de prosa mais imbricada e abertamente pol\u00edtico em suas cr\u00edticas sociais. A heran\u00e7a dos tempos de marxismo se faz forte at\u00e9 o fim de sua escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As \u00faltimas d\u00e9cadas de vida<\/strong>, certamente, foram mais generosas com ele. Era ent\u00e3o um autor bem estabelecido, com p\u00fablico interessado em sua produ\u00e7\u00e3o prol\u00edfica;\u00a0<strong>sua obra era laureada; e vivia o amor com Pilar del R\u00edo,<\/strong>\u00a0sua tradutora espanhola. Amor da vida tardio. Disse Saramago sobre ele: \u201cse tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora\u201d.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"m-b-media m-b-media--image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:1.2956760:1592479697\/jos%C3%A9%20e%20pilar.jpeg?f=default&amp;$p$f=414157f\" alt=\"Jos\u00e9 e Pilar\" \/><\/div><figcaption class=\"m-u-text-sans m-u-mt-2 m-u-px-3 m-u-text-sm m-u-line-height-tight m-u-color-gray-600\">\n<div class=\"m-u-mb-1\"><span class=\"m-u-text-bold\">\u00a0<\/span>Cinco meses ap\u00f3s sua morte, estreou \u201cJos\u00e9 e Pilar\u201d, document\u00e1rio de Miguel Gon\u00e7alves Mendes, no qual Saramago deixou-se filmar em seu cotidiano<\/div>\n<div class=\"m-u-mt-1\"><span class=\"m-u-text-bold\">Foto:\u00a0<\/span>Reprodu\u00e7\u00e3o<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o quando seus livros, traduzidos mundo afora e religiosamente lan\u00e7ados no Brasil, feito raro para um portugu\u00eas, foram amplificados pelo cinema. O brasileiro Fernando Meireles adaptou\u00a0<strong>\u201cEnsaio sobre a cegueira\u201d<\/strong>\u00a0como \u201cBlindness\u201d, de 2008, com elenco hollywodiano; e, cinco meses ap\u00f3s sua morte, estreou<strong>\u00a0\u201cJos\u00e9 e Pilar\u201d<\/strong>, document\u00e1rio de Miguel Gon\u00e7alves Mendes, no qual Saramago deixou-se filmar em seu cotidiano.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"m-b-media m-b-media--image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:1.2956354:1592448329\/Caderno_%20saramango%20ok.png?f=default&amp;$p$f=3b5223c\" alt=\"Imagens: Dellano Rios\" \/><\/div><figcaption class=\"m-u-text-sans m-u-mt-2 m-u-px-3 m-u-text-sm m-u-line-height-tight m-u-color-gray-600\">\n<div class=\"m-u-mb-1\">Jos\u00e9 Saramago (1922-2010): tr\u00eas livros in\u00e9ditos lhe garantiram uma boa m\u00e9dia de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ap\u00f3s o falecimento<\/div>\n<div class=\"m-u-mt-1\"><span class=\"m-u-text-bold\">Foto:\u00a0<\/span>Divulga\u00e7\u00e3o<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Contra a corrente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 de Sousa Saramago viveu muito, de seu nascimento em 16 de novembro de 1922, na min\u00fascula<strong>\u00a0Azinhaga do Ribatejo<\/strong>\u00a0(a freguesia conta, hoje, com 1,6 mil pessoas), at\u00e9 sua morte, nas ilhas Can\u00e1rias. Contava ent\u00e3o 87 anos naquele 18 de junho quando, por fim, sucumbiu da enfermidade que h\u00e1 algum tempo sofria. Escreveu bastante tamb\u00e9m, mesmo que sua trajet\u00f3ria seja atravessada por um hiato de 19 anos sem qualquer publica\u00e7\u00e3o. Depois de um romance de pouca repercuss\u00e3o e de outro engavetado, no fim dos anos 1940, o escritor s\u00f3 voltou a publicar em 1966. \u201cSimplesmente, achava que n\u00e3o tinha nada para dizer\u201d, explicou, em seu habitual costume desmistificador.<\/p>\n<blockquote class=\"c-bkqt c-bkqt--centered\">\n<div class=\"c-bkqt__text\">Saramago era um pensador raro. Sem se distanciar da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, refletia sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, enredada em quest\u00f5es universais ao g\u00eanero; e olhava para os problemas do instante e do local. Cr\u00edtico social contundente, n\u00e3o mitigava a for\u00e7a de seu veredicto. Talvez por isso, havia certo amargor entre ele e seus conterr\u00e2neos.<\/div>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao v\u00ea-lo morto,\u00a0<strong>Portugal se reconciliou com o autor<\/strong>. A not\u00edcia inundou a imprensa do Pa\u00eds, numa instant\u00e2nea mar\u00e9 de reavalia\u00e7\u00f5es que, em regra, reconheciam suas contradi\u00e7\u00f5es e grandeza. Exatamente como ele, cr\u00edtico e duramente realista, gostaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 assim a vida, vai dando com uma m\u00e3o at\u00e9 o dia em que tira tudo com a outra\u201d, escreveu em \u201cIntermit\u00eancias da morte\u201d, o romance em que o mal irremedi\u00e1vel, sem explica\u00e7\u00e3o, deixa de acontecer em um pa\u00eds n\u00e3o nomeado. J\u00e1 dez anos se passaram, desde que a morte tirou tudo de Saramago. Por ora, n\u00f3s que aqui ficamos,\u00a0<strong>ainda temos sua literatura, intensa e luminosa como um farol, em dias sombrios<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E hoje, o que Saramago escreveria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ateu Jos\u00e9 Saramago n\u00e3o ficaria feliz com suposi\u00e7\u00f5es de feitos seus no al\u00e9m-t\u00famulo. O comich\u00e3o do velho clich\u00ea move a pergunta: o que Saramago, um cr\u00edtico social t\u00e3o atento \u00e0s mazelas do mundo,\u00a0<strong>falaria sobre este ins\u00f3lito 2020<\/strong>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Temos o que deixou escrito at\u00e9 aquele fat\u00eddico dia, 18 de junho de 2010<\/strong>, quando o autor morreu. Mas, para falar conosco, de tempos de pandemia, alucina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e convuls\u00e3o social, h\u00e1 o suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ensaio sobre a cegueira&#8221;, de 1995, parte de uma epidemia que se abate sobre uma cidade. Cegos, os que dela foram acometidos s\u00e3o encerrados num hospital abandonado. O livro \u00e9 um estudo, pelo vi\u00e9s negativo, sobre a \u00e9tica, que se pauta na empatia. &#8220;Tentei dizer que n\u00e3o somos bons e que \u00e9 preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso&#8221;, explicou-se. Vis\u00e3o pessimista, avesso de quem acredita que tudo mudar\u00e1, para melhor; e alerta para o imperativo da nossa interdepend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro livro que dialoga com o momento, subversivamente, \u00e9\u00a0<strong>&#8220;Ensaio sobre a lucidez&#8221; (<\/strong>2004). Na trama, sem mobiliza\u00e7\u00e3o, 70% da popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds vota em branco. Governo e classe pol\u00edtica empreendem a\u00e7\u00f5es para descobrir a raiz do estranho protesto. Os m\u00e9todos passam por &#8220;pris\u00f5es, interrogat\u00f3rios, terrorismo de Estado&#8221;. O descr\u00e9dito do cidad\u00e3o se confronta com o autoritarismo escondido sobre vestes democr\u00e1ticas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00faltimas d\u00e9cadas de vida, certamente, foram mais generosas com ele. Era ent\u00e3o um autor bem estabelecido, com p\u00fablico interessado em sua produ\u00e7\u00e3o prol\u00edfica;\u00a0sua obra era laureada; e vivia o amor com Pilar del R\u00edo,\u00a0sua tradutora espanhola. 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