{"id":322389,"date":"2020-06-20T16:05:29","date_gmt":"2020-06-20T19:05:29","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=322389"},"modified":"2020-06-20T16:05:29","modified_gmt":"2020-06-20T19:05:29","slug":"com-apenas-tres-falantes-lingua-indigena-tem-estudo-recuperado-pelo-museu-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/com-apenas-tres-falantes-lingua-indigena-tem-estudo-recuperado-pelo-museu-nacional\/","title":{"rendered":"Com apenas tr\u00eas falantes, l\u00edngua ind\u00edgena tem estudo recuperado pelo Museu Nacional"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><strong><span class=\"byline__name\">Lu\u00eds Costa<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/14594\/production\/_112984338_untitled.png\" alt=\"Tap\u00ed Yawalapiti\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Yawalapiti, a l\u00edngua original da etnia do Alto Xingu, sobrevive hoje na voz de apenas tr\u00eas homens, todos j\u00e1 em torno dos 70 anos<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Nas terras dos ind\u00edgenas Yawalapiti, no Alto Xingu, fala-se kalapalo, kamaiur\u00e1 e kuikuro. O pr\u00f3prio yawalapiti, a l\u00edngua original da etnia, sobrevive hoje na voz de apenas tr\u00eas homens, todos j\u00e1 em torno dos 70 anos.<\/p>\n<p>O mais velho, Aritana, 76, \u00e9 o cacique da tribo. Quem trabalha para revitalizar o idioma \u00e9 seu filho, Tap\u00ed Yawalapiti, 43, mestrando em lingu\u00edstica na Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>Ele agora tem ao alcance o mais completo estudo descritivo j\u00e1 publicado sobre a l\u00edngua, feito h\u00e1 mais de 40 anos e recuperado pelo Museu Nacional, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 o primeiro extenso trabalho de resgate e publica\u00e7\u00e3o de um arquivo lingu\u00edstico ind\u00edgena da institui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o inc\u00eandio de setembro de 2018, que destruiu quase todo o seu acervo, ent\u00e3o o quinto maior do mundo em n\u00famero de pe\u00e7as. Estima-se que o museu guardasse 20 milh\u00f5es de itens, entre diversas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Escritos entre 1976 e 1977, os cadernos de campo, agora digitalizados, trazem a caligrafia original da \u00e9poca, fotografada e colorida. S\u00e3o 2.762 entradas, com vocabul\u00e1rios e express\u00f5es yawalapiti, transcritos em um sistema fon\u00e9tico, que abrangem temas como corpo, indument\u00e1ria, animais, ambientes da casa, festas e rituais.<\/p>\n<p>O l\u00e9xico traduz express\u00f5es que o portugu\u00eas desconhece, como haka, o cheiro de alimento que est\u00e1 sendo feito. O contato com o branco fez com que novas express\u00f5es surgissem no vocabul\u00e1rio da l\u00edngua. Os \u00f3culos s\u00e3o a &#8220;defesa do olho&#8221;. Ferramenta do linguista, o gravador tem o nome de &#8220;pegador de palavra&#8221;.<\/p>\n<p>Outros nomes s\u00e3o intraduz\u00edveis e est\u00e3o na raiz da cosmogonia yawalapiti. Na tradi\u00e7\u00e3o da etnia, o sol (Kami) e a lua (K\u00fcri) s\u00e3o dois irm\u00e3os g\u00eameos. Para os xinguanos, eles s\u00e3o os arqu\u00e9tipos e criadores da humanidade. N\u00e3o h\u00e1 como cham\u00e1-los em outra l\u00edngua sem perda de sentido.<\/p>\n<p>&#8220;Quando se rompe a transmiss\u00e3o da l\u00edngua, voc\u00ea rompe tamb\u00e9m a dos conhecimentos&#8221;, afirma a linguista Ana Suelly Arruda C\u00e2mara Cabral, orientadora de Tap\u00ed no mestrado da UnB. &#8220;A perda de uma l\u00edngua \u00e9 a perda desse v\u00ednculo com a hist\u00f3ria, com a identidade.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Identidade do povo&#8217;<\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria do povo Yawalapiti \u00e9 feita de crises e sobreviv\u00eancias. Atingida por epidemias na d\u00e9cada de 1940, a etnia chegou a contar com 25 indiv\u00edduos em 1954. Com a chegada dos irm\u00e3os Villas-B\u00f4as &#8211; Orlando, Cl\u00e1udio e Leonardo, sertanistas que idealizaram o Parque Ind\u00edgena do Xingu, criado em 1961 -, casamentos inter\u00e9tnicos foram estimulados como estrat\u00e9gia de preserva\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>Os falantes da l\u00edngua original foram desaparecendo \u00e0 medida que os idiomas vizinhos eram incorporados \u00e0 vida da aldeia. Quando Tap\u00ed nasceu, em 1977, havia 20 falantes de yawalapiti.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 na minha responsabilidade revitalizar a l\u00edngua materna do meu povo. Se ela desaparecer, a gente perde parte da cultura. A l\u00edngua \u00e9 identidade do povo&#8221;, diz o linguista, que ainda n\u00e3o conhecia os cadernos guardados no Museu Nacional, escritos no ano do seu nascimento.<\/p>\n<p>Ele anota e estuda diariamente registros da l\u00edngua com o pai. Sua pesquisa aponta processos de mudan\u00e7a que o idioma adotou para sobreviver, pressionado pelo contato com outras l\u00ednguas.<\/p>\n<p>O yawalapiti reestruturou as formas de nega\u00e7\u00e3o, as ora\u00e7\u00f5es subordinadas, a concord\u00e2ncia de g\u00eanero, a extens\u00e3o das palavras. Mas, para al\u00e9m dos estudos de gram\u00e1tica, \u00e9 a pr\u00e1tica cotidiana da l\u00edngua que Tap\u00ed quer estimular na aldeia, hoje com cerca de 120 pessoas na \u00e1rea principal.<\/p>\n<p>Com a instru\u00e7\u00e3o de Tap\u00ed, um professor do ensino m\u00e9dio j\u00e1 ensina a adolescentes palavras simples em yawalapiti, como nomes de animais, peixes e \u00e1rvores. &#8220;Eles j\u00e1 est\u00e3o me cobrando uma gram\u00e1tica&#8221;, conta o pesquisador, que tem o projeto de criar livros did\u00e1ticos e material audiovisual no idioma.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/380C\/production\/_112984341_untitled3.png\" alt=\"Aritana Yawalapiti, l\u00edder do Alto Xingu\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">O Brasil \u00e9 o pa\u00eds com mais l\u00ednguas sob risco de extin\u00e7\u00e3o no mundo: s\u00e3o 178 idiomas amea\u00e7ados e 12 j\u00e1 desaparecidos<\/figure>\n<p>&#8220;Meu pai e eu queremos ver os meninos falarem a l\u00edngua. Os jovens est\u00e3o interessados. Eles s\u00f3 precisam da gram\u00e1tica&#8221;, diz Tap\u00ed, que, al\u00e9m do yawalapiti, fala portugu\u00eas, kalapalo, kamaiur\u00e1 e kuikuro.<\/p>\n<p>O papel de lideran\u00e7a na tribo n\u00e3o \u00e9 gratuito: ele foi escolhido pelo pai, Aritana, e pelo cacique Raoni Metuktire como o pr\u00f3ximo l\u00edder dos povos do Xingu.<\/p>\n<p>Segundo o Atlas de L\u00ednguas em Perigo da Unesco, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds com mais l\u00ednguas sob risco de extin\u00e7\u00e3o no mundo: s\u00e3o 178 idiomas amea\u00e7ados e 12 j\u00e1 desaparecidos. No pa\u00eds, 45 l\u00ednguas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, em risco iminente de serem extintas.<\/p>\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o ocorre quando os poucos falantes do idioma j\u00e1 est\u00e3o em idade avan\u00e7ada e interagem apenas parcialmente na l\u00edngua com os demais membros da comunidade.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do yawalapiti. &#8220;Se essas tr\u00eas pessoas falecerem, e n\u00e3o registrarmos, a l\u00edngua vai acabar, vai desaparecer&#8221;, diz Tap\u00ed. Estudos indicam que, desde a coloniza\u00e7\u00e3o, o Brasil possa ter perdido ao menos mil l\u00ednguas ind\u00edgenas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A salvo do inc\u00eandio<\/h2>\n<p>A salvaguarda dos cadernos da d\u00e9cada 1970 ocorreu por uma coincid\u00eancia: no momento do inc\u00eandio, os originais estavam fora do arquivo, em processo de higieniza\u00e7\u00e3o junto de outros itens.<\/p>\n<p>Os documentos haviam sido doados pela linguista Charlotte Emmerich, professora aposentada da UFRJ que orientou os estudos \u00e0 \u00e9poca e coordenou o trabalho de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes da trag\u00e9dia, os arquivos do Museu Nacional guardavam, catalogados, cerca de 11 mil documentos relativos a mais de 190 l\u00ednguas ind\u00edgenas do Brasil, algumas j\u00e1 extintas. Somados aos n\u00e3o indexados, estima-se que fossem mais de 16 mil itens entre cartas, vocabul\u00e1rios, cadernos e di\u00e1rios de campo, anota\u00e7\u00f5es, telegramas e outros pap\u00e9is, al\u00e9m de arquivos sonoros com discursos, narra\u00e7\u00e3o de mitos e cantos rituais.<\/p>\n<p>&#8220;Comparado ao que se perdeu, \u00e9 uma parte m\u00ednima&#8221;, diz Mar\u00edlia Fac\u00f3, diretora do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o de L\u00ednguas Ind\u00edgenas (Celin), vinculado ao museu e respons\u00e1vel pela guarda e cataloga\u00e7\u00e3o desses materiais. O inc\u00eandio consumiu arquivos hist\u00f3ricos extensos, como o do povo Parkat\u00eaj\u00ea, do Par\u00e1, cujo idioma, o Timbira Oriental, \u00e9 hoje falado apenas entre os mais velhos.<\/p>\n<p>Com uma equipe fixa de tr\u00eas pessoas (al\u00e9m de Mar\u00edlia, uma bibliotec\u00e1ria e uma arquivista), o Celin trabalha para indexar o material recuperado e as doa\u00e7\u00f5es que chegam ao arquivo, hoje em n\u00famero de 208 pe\u00e7as catalogadas, al\u00e9m de 6 mil livros.<\/p>\n<p>Uma outra estrat\u00e9gia de resgate \u00e9 o que se chama de recupera\u00e7\u00e3o digital por circuito de usu\u00e1rios, quando os pesquisadores guardam em seu pr\u00f3prios arquivos c\u00f3pias e fotografias do material consultado.<\/p>\n<p>Foi assim que o museu resgatou, por exemplo, o vocabul\u00e1rio da extinta l\u00edngua Puri, coletado em 1885 pelo engenheiro Alberto de Noronha Torrez\u00e3o. No \u00faltimo levantamento, em setembro de 2019, j\u00e1 haviam sido recuperados 690 itens de documenta\u00e7\u00e3o de 77 l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos materiais que escaparam ao inc\u00eandio por estarem momentaneamente fora do arquivo, outros foram preservados por digitaliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. O Museu Nacional guardava os originais dos arquivos do etn\u00f3logo alem\u00e3o Curt Nimuendaj\u00fa, respons\u00e1vel pelo maior n\u00famero de expedi\u00e7\u00f5es nas aldeias do pa\u00eds na primeira metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Comprados ap\u00f3s a morte do estudioso em uma aldeia Ticuna, em 1945, os documentos foram perdidos no inc\u00eandio. Mas um trabalho de digitaliza\u00e7\u00e3o, feito em 2016 com recursos do extinto Minist\u00e9rio da Cultura, permitiu que os documentos estivessem hoje preservados. Agora a ideia, segundo Mar\u00edlia, \u00e9 tornar esses arquivos acess\u00edveis a todos.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o adianta passar a vida com os arquivos e achar que s\u00f3 os especialistas v\u00e3o procur\u00e1-los&#8221;, diz a linguista. &#8220;Esses materiais s\u00f3 tem seu valor pleno se divulgados. N\u00e3o podem ficar como fruto de um colecionismo que acha que vai salvar l\u00ednguas mantendo um arquivo protegido.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AD3C\/production\/_112984344_untitled4.png\" alt=\"Carvalho entrevistando ind\u00edgena da etnia Ikpeng\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Carvalho entrevistando ind\u00edgena da etnia Ikpeng<\/figure>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de arquivos p\u00fablicos de l\u00ednguas ind\u00edgenas ainda \u00e9 minorit\u00e1ria no Brasil. Linguista e professor da Universidade Federal do Amap\u00e1 (Unifap), Fernando Orph\u00e3o de Carvalho consultou as c\u00f3pias dos cadernos Yawalapiti em 2016, quando estudava o desenvolvimento hist\u00f3rico do idioma, um dos tr\u00eas da fam\u00edlia Aruak, a maior da Am\u00e9rica do Sul em n\u00famero de l\u00ednguas e extens\u00e3o geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Ele diz que apenas nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas o pa\u00eds vem adotando modelos de documenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica nos quais os dados s\u00e3o compartilhados.<\/p>\n<p>&#8220;A tradi\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 a seguinte: o pesquisador vai a campo, coleta dados sobre a l\u00edngua, mas ele meio que &#8216;senta&#8217; sobre aqueles dados. Aquelas informa\u00e7\u00f5es ficam sendo dele, privadas&#8221;, diz o professor, que hoje pesquisa o idioma do povo Ikpeng, do Alto Xingu.<\/p>\n<p>Segundo Carvalho, nos Estados Unidos, a cria\u00e7\u00e3o de bancos de dados extensos sobre documenta\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica permitiu que, hoje, popula\u00e7\u00f5es remanescentes tentem revitalizar l\u00ednguas j\u00e1 extintas. &#8220;Produziram-se arquivos de documentos enormes, com grava\u00e7\u00f5es de v\u00eddeo, de \u00e1udio, que ainda nem sequer foram analisadas.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro, segundo Mar\u00edlia Fac\u00f3, que pesquisadores mantenham seus arquivos sob guarda privada. &#8220;Alguns constituem dentro de casa, o que n\u00e3o \u00e9 legal, porque as pessoas s\u00e3o pagas com verba p\u00fablica&#8221;, diz. P<\/p>\n<p>ara Carvalho, o h\u00e1bito de guardar, em cole\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, material coletado em campo torna dif\u00edcil a constitui\u00e7\u00e3o de estudos mais densos. &#8220;Pesquisadores, propositadamente, boicotam a\u00e7\u00f5es por parte de outros linguistas que queiram trabalhar com aquela l\u00edngua&#8221;, afirma.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Corrida pela digitaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>No Brasil, trabalhos de ampla documenta\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o t\u00edmidos. Em 2009, o Museu do \u00cdndio lan\u00e7ou um projeto lingu\u00edstico de estudo sobre 13 l\u00ednguas, com a produ\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios, estudos gramaticais e vocabul\u00e1rios. Aos poucos, a digitaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7a tamb\u00e9m a ser uma t\u00e1tica comum de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Museu Paraense Em\u00edlio Goeldi guarda 20 mil itens relativos a aproximadamente 80 l\u00ednguas ind\u00edgenas amaz\u00f4nicas, das quais 65 j\u00e1 digitalizadas. O alto custo, no entanto, ainda \u00e9 uma barreira. A recupera\u00e7\u00e3o dos cadernos Yawalapiti custou cerca R$ 20 mil, obtidos em recurso de apoio emergencial da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).<\/p>\n<p>Na \u00e1rea de cria\u00e7\u00e3o de bancos arquiv\u00edsticos, tamb\u00e9m h\u00e1 iniciativas de institui\u00e7\u00f5es e cons\u00f3rcios de pesquisadores internacionais, no campo da lingu\u00edstica de salvamento, que \u00e9 a documenta\u00e7\u00e3o de idiomas em estado cr\u00edtico de exist\u00eancia. O programa alem\u00e3o Dobes documentou, por exemplo, a l\u00edngua kuikuro, falada no Xingu.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o esparsa resulta em trabalhos de pouco f\u00f4lego. Segundo a professora Ana Suelly, s\u00e3o poucos os dicion\u00e1rios ind\u00edgenas na Am\u00e9rica do Sul, que n\u00e3o v\u00e3o muito al\u00e9m de 4 mil palavras. Um dos mais completos trabalhos continua sendo o do padre jesu\u00edta Antonio Ruiz de Montoya, que documentou a antiga l\u00edngua Guarani no s\u00e9culo 17. A l\u00edngua do povo Waj\u00e3pi, do Amap\u00e1, tem descri\u00e7\u00e3o de l\u00e9xico com 6 mil entradas.<\/p>\n<p>Para Carvalho, comparado ao estado de documenta\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas da Europa e da Am\u00e9rica do Norte, o continente sul-americano continua sendo uma terra inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 l\u00ednguas que n\u00e3o t\u00eam mais documenta\u00e7\u00e3o do que listas de palavras isoladas, registradas por indiv\u00edduos sem treinamento lingu\u00edstico. S\u00e3o dados problem\u00e1ticos&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;A documenta\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas no Brasil \u00e9 muito fragment\u00e1ria&#8221;, diz Ana Suelly. &#8220;Algu\u00e9m faz uma gram\u00e1tica e j\u00e1 chama de &#8216;a gram\u00e1tica&#8217;. \u00c9 preciso todo tipo de documenta\u00e7\u00e3o, da flora, da fauna, dos fazeres, dos rituais, a fala das crian\u00e7as, da m\u00e3e com as crian\u00e7as. A l\u00edngua \u00e9 uma fonte de conhecimento inesgot\u00e1vel&#8221;, afirma a professora, que trabalha para a cria\u00e7\u00e3o de um atlas sonoro com 40 l\u00ednguas ind\u00edgenas no Laborat\u00f3rio de L\u00ednguas e Literaturas Ind\u00edgenas (Lalli), que coordena na UnB.<\/p>\n<p>Para ela, a documenta\u00e7\u00e3o feita pelo ind\u00edgena, imerso na cultura que estuda, \u00e9 incompar\u00e1vel. &#8220;Tap\u00ed sabe de coisas que linguista nenhum vai saber&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O protagonismo ind\u00edgena na lingu\u00edstica \u00e9 dado recente. Antes apenas objeto de observa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise, o ind\u00edgena passa a se tornar protagonista da pr\u00f3pria l\u00edngua. No Museu Nacional, o Mestrado Profissional em Lingu\u00edstica e L\u00ednguas Ind\u00edgenas tem 70% das vagas destinadas a esse grupo.<\/p>\n<p>Na UnB, ind\u00edgenas tamb\u00e9m ocupam os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00f5es de revistas acad\u00eamicas s\u00e3o dedicadas exclusivamente a esses pesquisadores.<\/p>\n<p>Pesquisador dessa gera\u00e7\u00e3o, Tap\u00ed diz que o trabalho do pesquisador n\u00e3o ind\u00edgena \u00e9 importante, mas a intera\u00e7\u00e3o com as aldeias \u00e9 necess\u00e1ria. &#8220;Todos os trabalhos cient\u00edficos precisam ter um retorno&#8221;, diz. &#8220;Tem que levar esses trabalhos escritos aos caciques, \u00e0 comunidade. Os professores ind\u00edgenas podem trabalhar com a escrita e o registro da l\u00edngua materna e paterna.&#8221;<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o dos cadernos do Museu Nacional est\u00e3o dentro dessa l\u00f3gica, diz Mar\u00edlia Fac\u00f3. &#8220;Os yawalapiti podem se apropriar do trabalho para corrigir, para mudar, comentar, discutir. \u00c9 parte do processo de revitaliza\u00e7\u00e3o, de retomada.&#8221;<\/p>\n<p>Tap\u00ed s\u00f3 aguarda o retorno das atividades da UnB, suspensas pela pandemia da covid-19, para defender a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado e se preparar para o doutorado. Ele se mostra confiante na sobreviv\u00eancia e revitaliza\u00e7\u00e3o da sua l\u00edngua, que j\u00e1 pode ser ouvida, ainda que timidamente, entre os mais jovens pela aldeia.<\/p>\n<p>&#8220;Converso com os meninos e eles est\u00e3o muito interessados. Acredito que vou conseguir realizar meu sonho de ver os jovens falarem na l\u00edngua materna.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yawalapiti, a l\u00edngua original da etnia do Alto Xingu, sobrevive hoje na voz de apenas tr\u00eas homens, todos j\u00e1 em torno dos 70 anos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":322390,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327,6],"tags":[],"class_list":["post-322389","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/indio-cacu.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=322389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322389\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/322390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=322389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=322389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=322389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}