{"id":322452,"date":"2020-06-21T11:21:56","date_gmt":"2020-06-21T14:21:56","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=322452"},"modified":"2020-06-21T11:21:56","modified_gmt":"2020-06-21T14:21:56","slug":"as-ultimas-horas-de-ayrton-senna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/as-ultimas-horas-de-ayrton-senna\/","title":{"rendered":"As \u00faltimas horas de Ayrton Senna"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">A morte do brasileiro, que estaria completando 60 anos, representou um ponto de inflex\u00e3o na F\u00f3rmula 1 e ajudou a salvar a vida de muitos pilotos<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/r21s6DQQD86E05_DUz6-AT_sfVg=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/WYBOQBQGMJUCFACQSDZ3PDDCOM.jpg\" alt=\"Ayrton Senna antes do in\u00edcio da corrida do Grande Pr\u00eamio de San Marino de 1994, onde perdeu a vida depois de seu carro se espatifar na curva Tamburello durante a s\u00e9tima volta. O piloto tinha 34 anos.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Ayrton Senna antes do in\u00edcio da corrida do Grande Pr\u00eamio de San Marino de 1994, onde perdeu a vida depois de seu carro se espatifar na curva Tamburello durante a s\u00e9tima volta. O piloto tinha 34 anos.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">FOTO: GETTY<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Sara Navas\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/sara-navas-revilla\/\">SARA NAVAS<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 29 de abril de 1994, Rubens Barrichello sofreu um acidente pavoroso no circuito de \u00cdmola (It\u00e1lia), do qual apenas os mais otimistas esperavam v\u00ea-lo sair vivo. \u201cL\u00e1 estava ele, preso naquele Jordan capotado e destro\u00e7ado, endireitado com intenso furor pelos seguran\u00e7as. Inconsciente, com a l\u00edngua dobrada. Afogando-se\u201d, lembra o jornalista italiano Giorgio Terruzzi, que naquele fim de semana cobria o Grande Pr\u00eamio de San Marino, em seu livro\u00a0<i>L\u2019Ultima Notte di Ayrton Senna<\/i>. Barrichello, que ainda n\u00e3o completara 22 anos, sobreviveu e seu amigo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ayrton-senna\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ayrton Senna<\/a>, 34, foi v\u00ea-lo na enfermaria o mais r\u00e1pido que p\u00f4de. O que o tricampe\u00e3o mundial n\u00e3o sabia \u00e9 que, ao contr\u00e1rio de Barrichello, que milagrosamente se salvou, ele estava vivendo suas \u00faltimas 48 horas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A imprensa especializada logo come\u00e7ou a se referir \u00e0 sexta-feira 29, s\u00e1bado, 30 de abril e domingo, 1\u00ba de maio de 1994 como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/30\/politica\/1556639607_653493.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o fim de semana mais sombrio da hist\u00f3ria da F\u00f3rmula 1<\/a>. Barrichello n\u00e3o se lembra diretamente daqueles dias. \u201cPassados 20 anos, Barrichello n\u00e3o se lembra. N\u00e3o se lembra da visita de Ayrton na enfermaria de \u00cdmola. N\u00e3o se lembra de ter ido ao box de Ayrton no dia seguinte para se despedir antes de voltar para a Inglaterra por ordem do Dr. Watkins. Nada de corridas por um tempo. A amn\u00e9sia, decorr\u00eancia do grave traumatismo craniano, durou meses. E, em certos aspectos, durar\u00e1 para sempre\u201d, relata\u00a0<i>L\u2019Ultima Notte di Ayrton Senna<\/i>. J\u00e1 Ayrton Senna, aterrissou em \u00cdmola carregado de m\u00e1s sensa\u00e7\u00f5es; n\u00e3o se sentia confort\u00e1vel com a Williams que dirigia e o acidente de Barrichello havia aumentado sua inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEle nunca confessou isso publicamente, mas comentava-se que o carro que ele dirigia na Williams tinha facilidades eletr\u00f4nicas que n\u00e3o eram permitidas nas corridas\u201d, disse ao EL PA\u00cdS Rafa Pay\u00e1, jornalista especializado em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/formula-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">F\u00f3rmula 1<\/a>\u00a0no jornal\u00a0<i>As<\/i>. \u201cSeu sonho era pilotar na Ferrari; deixar a McLaren para come\u00e7ar a Williams em 1993 era o passo intermedi\u00e1rio que ele tinha que dar para alcan\u00e7ar seu objetivo, mas as coisas na escuderia inglesa n\u00e3o estavam indo como ele esperava. Senna dava muita import\u00e2ncia \u00e0 seguran\u00e7a e n\u00e3o sentia que sua equipe o respaldava nesse sentido\u201d, observa Pay\u00e1.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\"><b>Giorgio Terruzzi<\/b>\u00a0concorda e explica ao EL PA\u00cdS que falar sobre seguran\u00e7a sempre foi um assunto tabu no mundo do automobilismo. \u201cOs pilotos nunca falam sobre a morte ou o perigo que correm cada vez que rodam pelo circuito\u201d, diz o italiano.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Conforme relatado no livro de Terruzzi, Ayrton Senna havia chegado a \u00cdmola mais tarde do que o normal. \u201cOs pilotos costumam chegar na quarta-feira ao circuito onde v\u00e3o correr no fim de semana\u201d, diz Rafa Pay\u00e1. O brasileiro apareceu l\u00e1 na quinta-feira, um dia antes de Barrichello sofrer o acidente espetacular, e estava enfrentando um fim de semana dif\u00edcil. Era a terceira corrida da temporada, n\u00e3o havia conquistado nenhum ponto nas duas anteriores e um jovem, e quase rec\u00e9m-chegado,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/michael-schumacher\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><b>Michael Schumacher<\/b>\u00a0<\/a>vinha em seu encal\u00e7o.<\/p>\n<aside class=\"quote quote_pull |   font_secondary italic\">\n<blockquote class=\"flex container_column \">\n<div>\u201cSeu sonho era pilotar na Ferrari. Deixar a McLaren para come\u00e7ar na Williams era o passo intermedi\u00e1rio que ele tinha que dar para alcan\u00e7ar seu objetivo. No entanto, as coisas com a escuderia inglesa n\u00e3o estavam indo como ele esperava. Senna dava muita import\u00e2ncia \u00e0 seguran\u00e7a e n\u00e3o sentia que sua equipe o respaldava\u201d<\/div>\n<p><cite class=\"uppercase font_primary \">RAFA PAY\u00c1, JORNALISTA ESPECIALIZADO EM F\u00d3RMULA 1<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/aside>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cSenna tinha certeza de que o carro de Schumacher estava usando facilidades eletr\u00f4nicas ilegais na \u00e9poca, e isso o torturava\u201d, afirma Terruzzi. Mas n\u00e3o era a \u00fanica coisa que o torturava. No Brasil e no Jap\u00e3o, apesar de ter obtido o melhor tempo na classifica\u00e7\u00e3o e ter sa\u00eddo em primeiro no grid de largada, teve que abandonar a corrida depois de sofrer um acidente nos dois circuitos. Ele sabia que n\u00e3o tinha escolha a n\u00e3o ser ficar em primeiro lugar em \u00cdmola, mas tamb\u00e9m sabia que o seu carro n\u00e3o era vencedor. \u201cN\u00e3o posso dirigir, tudo est\u00e1 r\u00edgido, o carro pula a todo momento. Parece uma cadeira el\u00e9trica\u201d, disse Senna assim que chegou ao circuito.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ayrton Senna estava nervoso. &#8220;Ele era muito tranquilo antes de correr, sempre se sentava no carro para ler a B\u00edblia. Mas naquele fim de semana estava inquieto e n\u00e3o queria correr&#8221;, diz o especialista em F\u00f3rmula 1. No s\u00e1bado, 30 de abril, aconteceu algo que causou como\u00e7\u00e3o no mundo do esporte e fez com que Senna e outros pilotos se recusassem a correr no dia seguinte. O carro do austr\u00edaco Roland Ratzenberger, de 33 anos, bateu a 320 quil\u00f4metros por hora durante a classifica\u00e7\u00e3o para o Grande Pr\u00eamio de San Marino. O piloto perdeu a vida quase instantaneamente: exatamente oito minutos depois de ter sido levado por um helic\u00f3ptero. Era o segundo acidente em \u00cdmola em menos de 24 horas. N\u00e3o seria o \u00faltimo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Senna estava no box quando Ratzenberger perdeu o controle do carro. Depois de assistir \u00e0s imagens em c\u00e2mera lenta no monitor, ele come\u00e7ou a chorar descontroladamente. Sid Watkins, m\u00e9dico que havia atendido Barrichello no dia anterior e a Ratzenberger, um pouco antes e sem \u00eaxito, recebeu o brasileiro na enfermaria. Eram amigos e, como relatado em\u00a0<i>L&#8217;Ultima Notte di Ayrton Senna,<\/i>\u00a0ele lhe deu um conselho: &#8220;Ayrton, deixa pra l\u00e1, n\u00e3o corra amanh\u00e3, h\u00e1 muitas outras coisas na vida. Voc\u00ea ganhou tr\u00eas campeonatos mundiais, \u00e9 o melhor piloto do mundo. N\u00e3o precisa se arriscar agora. Vamos sair daqui, vamos pescar.&#8221; O piloto ficou em sil\u00eancio por um longo tempo e, de acordo com o pr\u00f3prio Watkins em seu livro\u00a0<i><b>Life at the Limit: Triumph and Tragedy in Formula One<\/b><\/i>, ele lhe respondeu assim: &#8220;H\u00e1 coisas que escapam ao nosso controle. Preciso continuar&#8221;.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Giorgio Terruzzi garante que Senna n\u00e3o queria correr no domingo. \u201cQuando olho para tr\u00e1s, lembro que a atmosfera estava muito tensa. O acidente de Ratzenberger foi algo horr\u00edvel que n\u00f3s, que est\u00e1vamos l\u00e1, presenciamos, e isso nos marcou. Vimos muito sangue e eu cometi a estupidez de ir ver o carro ap\u00f3s o acidente, e Ayrton tamb\u00e9m fez isso. Ele estava realmente triste e preocupado\u201d, comenta o jornalista italiano.<\/p>\n<aside class=\"quote quote_pull |   font_secondary italic\">\n<blockquote class=\"flex container_column \">\n<div>\u201cN\u00e3o posso dirigir, tudo est\u00e1 r\u00edgido, o carro pula a todo momento. Parece uma cadeira el\u00e9trica\u201d, disse Senna assim que chegou ao circuito.<\/div>\n<\/blockquote>\n<\/aside>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Segundo Terruzzi em seu livro, o brasileiro suplicou ao chefe da Williams, Frank Williams, que pedisse o cancelamento da corrida do dia seguinte. \u201cEstava convencido de que, depois dos acidentes de Barrichello e Ratzenberger, os pilotos n\u00e3o estavam em condi\u00e7\u00f5es de competir\u201d, conta Terruzzi, que naquela tarde testemunhou o momento em que Senna fez estas declara\u00e7\u00f5es reveladoras: \u201cConsegui o melhor tempo, mas isso n\u00e3o significa que as coisas v\u00e3o bem. Esta pista \u00e9 um desastre &#8230; Os carros s\u00e3o imprevis\u00edveis, correm muito e \u00e9 dif\u00edcil dirigi-los. Ser\u00e1 um ano com muitos acidentes e acho que estaremos com sorte se nada grave acontecer\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Na noite de s\u00e1bado, 30 de abril, Ayrton ligou para sua namorada, a modelo Adriane Galisteu. Ela, 12 anos mais jovem que ele, estava em Sintra (Portugal) e eles planejavam se encontrar depois do GP de domingo. \u201cTudo est\u00e1 uma merda, um austr\u00edaco bateu e se matou. Eu vi tudo. Morreu na minha frente. Sabe de uma coisa? Eu n\u00e3o quero correr.\u201d \u00c9 assim que Terruzzi reproduz a conversa do casal. \u201cNunca tinha escutado Ayrton falar desse jeito\u201d, confessou Galisteu tempos depois.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/X4cHETmrQDU-_sTqTS7UA-_740w=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/GQL5KL7O3MKQ4KHKTOQLSI2C5Q.jpg\" alt=\"Ayrton Senna com sua namorada, a modelo Adriane Galisteu, em f\u00e9rias no Brasil em fevereiro de 1994. &quot;Quando o conheci, eu tinha 19 anos, e ele, 31. Nos divert\u00edamos muito e acho que eu dava jovialidade a sua rotina, que estava cheia de responsabilidades&quot;, disse a brasileira em 'Caminho das Borboletas', livro em que recordava sua hist\u00f3ria de amor com o piloto.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Ayrton Senna com sua namorada, a modelo Adriane Galisteu, em f\u00e9rias no Brasil em fevereiro de 1994. &#8220;Quando o conheci, eu tinha 19 anos, e ele, 31. Nos divert\u00edamos muito e acho que eu dava jovialidade a sua rotina, que estava cheia de responsabilidades&#8221;, disse a brasileira em &#8216;Caminho das Borboletas&#8217;, livro em que recordava sua hist\u00f3ria de amor com o piloto.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">FOTO: GETTY<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No final de 1994, Adriane publicou\u00a0<i>Caminho das Borboletas<\/i>, livro em que recordava assim sua hist\u00f3ria com Ayrton: \u201cQuando o conheci, eu tinha 19 anos, ele, 31. Nos divert\u00edamos muito e acho que eu lhe dava jovialidade em sua rotina, que era cheia de responsabilidades. O maior legado que Ayrton me deixou foi ter for\u00e7a para realizar meus sonhos. Nunca imaginei que ele poderia morrer fazendo o que mais amava e o que sabia fazer melhor. Em um piscar de olhos, tudo muda e n\u00e3o volta mais.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ayrton passou sua \u00faltima noite com vida no Hotel Castello em Castel San Pietro Terme. Ali sempre ficava no quarto 200. Frank Williams, o chefe de sua escuderia, ficava no quarto 100, um andar abaixo, e Ron Dennis, chefe da McLaren, no quarto 300, apenas um andar acima. Jantou na\u00a0<i>trattoria<\/i>\u00a0Romagnola com v\u00e1rios amigos e jornalistas, e pouco depois das 22 horas ao retornou ao hotel.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Senna era emp\u00e1tico e se preocupava com as pessoas. Nos grandes pr\u00eamios era o grande defensor dos pilotos, apoiava quando algu\u00e9m tinha alguma queixa ou n\u00e3o se sentia \u00e0 vontade&#8221;, lembra Rafa Pay\u00e1 sobre o brasileiro, sem deixar de salientar que era um homem muito peculiar. &#8220;Era mulherengo, apesar de muito cat\u00f3lico. No Brasil, casou-se com a que havia sido sua grande amiga de inf\u00e2ncia, Lilian de Vasconcelos Souza, mas logo se divorciaram, e a partir desse momento Senna teve 300 namoradas. Mas tamb\u00e9m gostava muito de ficar sozinho e seus relacionamentos amorosos n\u00e3o o afetavam profissionalmente, sabia como se isolar. Os problemas que tivesse fora das pistas n\u00e3o o perturbavam&#8221;, observa Pay\u00e1.<\/p>\n<aside class=\"quote quote_pull |   font_secondary italic\">\n<blockquote class=\"flex container_column \">\n<div>\u201cAyrton era muito tranquilo. Antes de correr, sempre se sentava no carro para ler a B\u00edblia. Mas naquele fim de semana estava inquieto e n\u00e3o queria correr\u201d<\/div>\n<p><cite class=\"uppercase font_primary \">RAFA PAY\u00c1, JORNALISTA ESPECIALIZADO EM F\u00d3RMULA 1<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/aside>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Durante muito tempo, Senna teve rela\u00e7\u00f5es curtas, completamente desprovidas de envolvimento emocional&#8221;, concorda, em seu livro, o jornalista Giorgio Terruzzi, que tamb\u00e9m menciona a estreita rela\u00e7\u00e3o do piloto com a religi\u00e3o. &#8220;Deram-lhe uma B\u00edblia e ele come\u00e7ou a ler passagens. Rapidamente aprendeu a compartilhar com Deus suas decep\u00e7\u00f5es, aspira\u00e7\u00f5es e \u00eaxitos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Joaqu\u00edn Jo Ram\u00edrez, coordenador da McLaren, a equipe pela qual Senna conquistou seus tr\u00eas t\u00edtulos, falou ao\u00a0<b>EL PA\u00cdS<\/b>\u00a0sobre Senna em maio de 2019: \u201cEra uma dessas pessoas com aura, com uma eletricidade especial. Se ele entrasse em uma sala, a atmosfera desse lugar mudava.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No domingo, 1\u00ba de maio de 1994, Ayrton Senna estava exausto. Mal dormira, com a mente dando voltas pelos acidentes de Barichello e Ratzenberger e tamb\u00e9m a m\u00e1 rela\u00e7\u00e3o que sua fam\u00edlia mantinha com Adriane, que n\u00e3o aceitavam. Quis falar com Gerhard e Niki Lauda assim que chegou ao circuito. &#8220;\u00c9 preciso agir com rapidez e tomar decis\u00f5es sobre a seguran\u00e7a, mesmo que isso envolva confrontos&#8221;, disse o piloto, de acordo com\u00a0<i>L&#8217;Ultima Notte di Ayrton Senna<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O brasileiro chegou ao circuito de Imola depois das oito da manh\u00e3, acompanhado por seu irm\u00e3o, Leonardo. Conversou com Lauda sobre uma reuni\u00e3o na semana seguinte para decidir que medidas tomar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a nos grandes pr\u00eamios e vestiu o macac\u00e3o para iniciar o aquecimento. J\u00e1 no carro, rodando na pista, dedicou algumas palavras por r\u00e1dio a seu eterno rival, Alain Prost (que se aposentara no ano anterior e estava no estande dos comentaristas): \u201cGostaria de enviar uma mensagem a Alain Prost: Alain, sinto sua falta\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Alain Prost e Ayrton Senna protagonizaram o desafio mais selvagem da hist\u00f3ria do automobilismo. A rivalidade fez com que a F\u00f3rmula 1, mais do que nunca, se consolidasse no imagin\u00e1rio coletivo. O p\u00fablico n\u00e3o queria perder o duelo de ambos no asfalto, e as corridas eram seguidas por multid\u00f5es. Prost, conhecido como \u201cO Professor\u201d, tinha quatro campeonatos mundiais (1985, 1986, 1989 e 1993). Senna acumulava tr\u00eas (1988, 1990 e 1991). Em 1988 e 1989 ambos estiveram na McLaren e conseguiram \u2013 num ano, Senna; no seguinte, Prost \u2013 que a escuderia ganhasse o campeonato.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/p0joORRlOuxyOc3AOil_g5urNBc=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/67QIKQUFZUZRBASMTQGCXHFD5M.jpg\" alt=\"Ayrton Senna durante a etapa de classifica\u00e7\u00e3o no s\u00e1bado, 30 de abril de 1994. Nesse dia o austr\u00edaco Roland Ratzenberger perdeu a vida. O mesmo aconteceria com Senna no dia seguinte.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Ayrton Senna durante a etapa de classifica\u00e7\u00e3o no s\u00e1bado, 30 de abril de 1994. Nesse dia o austr\u00edaco Roland Ratzenberger perdeu a vida. O mesmo aconteceria com Senna no dia seguinte.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\">FOTO: GETTY<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA escolha de meu companheiro em 1988 estava entre Senna e Piquet. Eu disse a Ron Dennis [diretor da McLaren] que devia escolher Ayrton, porque era o piloto com mais talento, e para mim a equipe vinha em primeiro lugar. Se agora fosse come\u00e7ar de novo minha carreira, agiria de forma diferente, me concentraria mais em mim e no meu trabalho. Podia ter dito n\u00e3o \u00e0 chegada de Ayrton \u00e0 McLaren. Uma de minhas virtudes \u00e9 que, quando tomo uma decis\u00e3o, normalmente n\u00e3o me arrependo. Mas definitivamente errei naquela ocasi\u00e3o\u201d, contou Alain ao jornalista Nigel Roeucken em 1998, quatro anos depois da morte de Senna.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 1990, Prost foi contratado pela Ferrari e colocou como condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter Senna como companheiro de equipe, fechando assim as portas ao brasileiro, que sempre havia querido competir pela escuderia presidida por Luca Cordero di Montezemolo. Mas em 1993, aos 38 anos, ele se aposentou e Senna viu a chance de fechar contrato oficialmente com a Ferrari \u2013 o que nunca chegou a acontecer. \u201cO presidente da Ferrari disse em mais de uma ocasi\u00e3o que era quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que Senna fizesse parte de sua equipe\u201d, diz Rafa Pay\u00e1. Mas Ayrton morreu antes de cumprir seu sonho de vestir o macac\u00e3o vermelho.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo domingo da vida de Senna, ao concluir a volta de aquecimento, o piloto se dirigiu aos jornalistas que o esperavam e disse uma frase hoje considerada premonit\u00f3ria: \u201cA F\u00f3rmula 1 n\u00e3o voltar\u00e1 a ser a mesma depois deste fim de semana.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Minutos antes de iniciar aquela que foi \u00faltima corrida de Ayrton Senna, no box do piloto reinava uma calma que contrastava com o alvoro\u00e7o na Benetton de Schumacher e na Ferrari de Berger. Enquanto eram acertados os \u00faltimos detalhes antes do in\u00edcio da prova, Giorgio Terruzzi, que estava l\u00e1, recorda que Senna estava \u201cmergulhado em suas medita\u00e7\u00f5es\u201d, alheio ao caso \u00e0 sua volta. A corrida come\u00e7ou, e n\u00e3o demorou para que ocorresse o desastre. Na s\u00e9tima volta do circuito de \u00cdmola, na curva Tamburello, Ayrton Senna perdeu o controle do ve\u00edculo e colidiu contra o muro. O bra\u00e7o direito da suspens\u00e3o dianteira saiu disparado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua cabe\u00e7a e o acertou justo abaixo da viseira. \u201cQuando vimos sua cabe\u00e7a se mexer no carro, pensamos que estava vivo\u201d, confessou anos mais tarde Barrichello.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Terruzzi recorda que seu primeiro pensamento foi de nega\u00e7\u00e3o: isso n\u00e3o podia estar acontecendo com Ayrton. \u201cMinha cabe\u00e7a n\u00e3o estava preparada para assimilar que Senna podia morrer no circuito. Ele era o chefe, e sem ele a F\u00f3rmula 1 n\u00e3o tinha sentido. Eu n\u00e3o queria perceber a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Demoraram quatro minutos para tir\u00e1-lo do carro. Realizaram uma traqueotomia, mas n\u00e3o havia nada a fazer para salvar sua vida. Ayrton, como compreendeu o doutor Watkins, mostrava sinais de morte cerebral. O m\u00e9dico da F\u00f3rmula 1 recorda em seu livro como encontrou o brasileiro deitado na pista. \u201cSuspirou profundamente. Tinha a cara tranquila. Parecia dormir. Enquanto estava socorrendo, notei uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, como se sua alma o abandonasse.\u201d \u00c0s 18:40 do domingo 1.o de maio de 1994, foi certificada a morte de Ayrton Senna.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO pior veio duas semanas depois, quando aceitei que ele havia morrido\u201d, confessou Schumacher, que venceu a corrida de \u00cdmola naquele domingo. \u201cPensei que Ayrton podia ter quebrado uma perna ou um bra\u00e7o, mas que tudo continuaria igual. Foi depois do p\u00f3dio que me disseram que ele estava em coma. Eu sabia que h\u00e1 v\u00e1rios tipos de coma, mas havia muitas informa\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias. N\u00e3o sabia o que pensar. N\u00e3o podia imaginar que ele pudesse chegar a morrer. No m\u00e1ximo, perderia algumas corridas e pronto.\u201d<\/p>\n<aside class=\"quote quote_pull |   font_secondary italic\">\n<blockquote class=\"flex container_column \">\n<div>Antes de iniciar aquela que foi sua \u00faltima corrida, Senna disse uma frase hoje considerada premonit\u00f3ria: \u201cA F\u00f3rmula 1 n\u00e3o voltar\u00e1 a ser a mesma depois deste fim de semana.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<\/aside>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Como afirma Rafa Pay\u00e1, a seguran\u00e7a na F\u00f3rmula 1 nunca foi uma prioridade.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/13\/deportes\/1510606356_734298.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ap\u00f3s a morte de Senna<\/a>, contudo, come\u00e7ou a ser considerada um assunto de suma import\u00e2ncia. Foram tomadas medidas que conseguiram fazer a F\u00f3rmula 1 passar 20 anos sem mortes. Embora hoje as medidas de preven\u00e7\u00e3o de acidentes sejam enormes, o franc\u00eas Jules Bianchi morreu aos 25 anos depois de passar nove meses em coma em decorr\u00eancia das sequelas deixadas pelo acidente sofrido no Grande Pr\u00eamio do Jap\u00e3o em 2014. \u201cA morte de Ayrton Senna foi um ponto de inflex\u00e3o, uma trag\u00e9dia que serviu para mudar as coisas e que ajudou a salvar as vidas de muitos pilotos\u201d, diz Pay\u00e1.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAyrton e eu t\u00ednhamos um v\u00ednculo. Sua morte foi o final da minha hist\u00f3ria com a F\u00f3rmula 1. Ningu\u00e9m pode falar dele sem me mencionar, e ningu\u00e9m pode se referir a mim sem falar dele\u201d, declarou Prost no document\u00e1rio\u00a0<i>Senna<\/i>, de Asif Kapadia.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ayrton n\u00e3o foi o piloto que ganhou mais t\u00edtulos. Depois dele, Schumacher acabou conquistando sete campeonatos, Lewis Hamilton seis e Sebastian Vettel, quatro. Mas, mesmo antes de sua morte torn\u00e1-lo uma lenda do automobilismo, Ayrton Senna j\u00e1 era uma institui\u00e7\u00e3o. Como afirma o pr\u00f3prio Terruzzi, que viveu de perto seus melhores (e \u00faltimos) anos como piloto, \u201cAyrton Senna era o chefe. O primeiro da lista. O intoc\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte do brasileiro, que estaria completando 60 anos, representou um ponto de inflex\u00e3o na F\u00f3rmula 1 e ajudou a salvar a vida de muitos pilotos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":322453,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327,6],"tags":[],"class_list":["post-322452","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/airton-sena-ultimas-horas.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322452","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=322452"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322452\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/322453"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=322452"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=322452"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=322452"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}