{"id":322567,"date":"2020-06-23T00:32:53","date_gmt":"2020-06-23T03:32:53","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=322567"},"modified":"2020-06-22T14:46:34","modified_gmt":"2020-06-22T17:46:34","slug":"a-historia-da-jornalista-branca-que-viveu-um-ano-como-uma-mulher-negra-nos-anos-1960","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-historia-da-jornalista-branca-que-viveu-um-ano-como-uma-mulher-negra-nos-anos-1960\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria da jornalista branca que viveu um ano como uma mulher negra nos anos 1960"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Mar\u00edlia Marasciulo<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1350A\/production\/_112941197_e28f6799-4d69-4e26-a9de-86ccf9f86040.jpg\" alt=\"Grace Halsell\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>A jornalista Grace Halsell decidiu que se tornaria negra por um ano<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">No dia do assassinato de Martin Luther King Jr., l\u00edder do movimento por direitos civis nos Estados Unidos, a jornalista Grace Halsell decidiu que se tornaria negra por um ano. Ela queria sentir na pele as dificuldades da popula\u00e7\u00e3o afro-americana, contra as quais o famoso ativista morreu lutando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 era noite do fat\u00eddico 4 de abril de 1968 quando Halsell soube da morte de Luther King. Ela, que trabalhava em Washington no gabinete do ent\u00e3o presidente Lyndon Baines Johnson, havia voltado para o Texas, seu estado natal. Aos 45 anos, havia tempos tinha trocado o Texas por outros lugares. T\u00edpica garota americana, de ascend\u00eancia anglo-sax\u00e3, crist\u00e3, com pele clara e olhos azuis, encontrou no jornalismo uma maneira de se aventurar pelo mundo: cobriu as guerras da Coreia e do Vietn\u00e3, viajou para Hong Kong, Gr\u00e9cia, Turquia, passou uma temporada em Lima, at\u00e9 finalmente se assentar na capital dos EUA em 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi &#8216;n\u00e3o h\u00e1 mais esperan\u00e7a. N\u00f3s vamos falhar como povo e na\u00e7\u00e3o'&#8221;, escreveu Halsell no livro\u00a0<i>Soul Sister<\/i>, publicado em 1969, no qual descreve sua experi\u00eancia como mulher negra. &#8220;Ent\u00e3o gradualmente percebi que cada um de n\u00f3s deveria tentar alcan\u00e7ar seu sonho de uma Am\u00e9rica \u00fanica e me lembro de me fortalecer com o pensamento de que \u00e9 poss\u00edvel matar uma pessoa, mas n\u00e3o uma ideia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Halsell j\u00e1 vinha flertando com a vontade de escurecer a pele desde que ouvira falar, em um jantar na Casa Branca, de John Howard Griffin, autor de\u00a0<i>Black Like Me<\/i>, publicado em 1961. Griffin, um jornalista branco tamb\u00e9m do Texas, viajou como um homem negro por seis semanas em estados do sul americano (Louisiana, Mississippi, Alabama, Arkansas e Ge\u00f3rgia), onde na \u00e9poca vigoravam as leis de segrega\u00e7\u00e3o de Jim Crow. Ap\u00f3s marcar um encontro com o autor e receber a ben\u00e7\u00e3o dele para o projeto, Halsell come\u00e7ou sua jornada para &#8220;se tornar negra&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12C0E\/production\/_112941867_5ded7807-fe22-4df3-82b7-3659edde1b6d.jpg\" alt=\"Grace Halsell puxando um riquix\u00e1 em Hong Kong com o puxador de riquix\u00e1, Lau Kwei, no banco de tr\u00e1s\" width=\"615\" height=\"706\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Grace Halsell puxando um riquix\u00e1 em Hong Kong com o puxador, Lau Kwei, no banco de tr\u00e1s<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como Griffin, o m\u00e9todo escolhido foi a medica\u00e7\u00e3o para vitiligo, uma doen\u00e7a que causa despigmenta\u00e7\u00e3o da pele pela falta ou diminui\u00e7\u00e3o de melanina em determinadas \u00e1reas. A ideia era tomar as p\u00edlulas para &#8220;potencializar&#8221; a exposi\u00e7\u00e3o ao sol, adquirindo um tom de pele mais escuro, o que finalmente alcan\u00e7ou ap\u00f3s uma viagem para Porto Rico. &#8220;Para ter certeza, coloquei o meu bra\u00e7o junto ao dele [de um de seus m\u00e9dicos]. Ele \u00e9 negro, mas eu estava mais escura&#8221;, descreveu no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele outono, embarcou para o Harlem, bairro da cidade de Nova York com uma grande comunidade afro-americana. Com um vestido de algod\u00e3o simples e sapatilhas, um len\u00e7o sujo amarrado no cabelo, lentes de contato pretas e US$ 20 no bolso, entrou no \u00f4nibus rumo a sua nova vida, porque &#8220;parecia bobo voar para um gueto&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus medos eram muitos: que descobrissem que era branca e a castigassem por isso, que os homens negros a estuprassem ou roubassem (como acreditava a popula\u00e7\u00e3o branca), e que encontrasse algo parecido com o inferno de Dante. &#8220;Abandone toda esperan\u00e7a aquele que por aqui entrar&#8221;, pensava enquanto o \u00f4nibus se aproximava do bairro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E6EA\/production\/_112941195_69eac172-1366-4943-bf9d-93d5ec046bbe.jpg\" alt=\"As capas de 'Black Like Me', escrito por um homem branco que se passou por negro e viajou pelo sul dos EUA; e de 'Soul Sister', em que a jornalista Grace Halsell faz o mesmo\" width=\"957\" height=\"764\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>As capas de &#8216;Black Like Me&#8217;, escrito por um homem branco que se passou por negro e viajou pelo sul dos EUA; e de &#8216;Soul Sister&#8217;, em que a jornalista Grace Halsell faz o mesmo<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Transforma\u00e7\u00f5es como nicho<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nada disso aconteceu. Na verdade, o Harlem era t\u00e3o diferente do que ela havia esperado, que alguns meses depois ela decidiu ir para o Mississippi, no sul do pa\u00eds, trabalhar como empregada dom\u00e9stica na casa de uma fam\u00edlia branca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sempre que encontrava algu\u00e9m que n\u00e3o se enquadrava em um padr\u00e3o que ela tinha em mente, ela os descartava&#8221;, explica a professora de estudos afro-americanos Alisha Gaines, da Universidade do Estado da Fl\u00f3rida, autora do livro\u00a0<i>Black for a Day: Fantasies of Race and Empathy<\/i>\u00a0(Preto por um Dia: Fantasias de Ra\u00e7a e Empatia, em tradu\u00e7\u00e3o livre, publicado em 2017). &#8220;Ela aplicava estere\u00f3tipos e enxergava a negritude somente como sofrimento, dor e vulnerabilidade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi na casa da fam\u00edlia branca, por\u00e9m, que ela chegou perto de ter uma das experi\u00eancias que tanto a atemorizavam. Um dia, o homem (branco) da fam\u00edlia tentou estupr\u00e1-la, e ela conseguiu se livrar quebrando um retrato da fam\u00edlia na cabe\u00e7a dele. Halsell interrompeu a experi\u00eancia ali, faltando alguns meses para completar o ano a que se havia proposto. E concluiu, no livro, que &#8220;o problema \u00e9 maior que branco ou preto. \u00c9 a desumanidade do homem com o homem (e mulher) sempre e por toda a parte&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4EF6\/production\/_112941202_91d413dd-09b0-4219-bc9e-9fdcc4f6e0c4.jpg\" alt=\"Grace Halsell\" width=\"622\" height=\"660\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Halsell, que morreu aos 77 anos de mieloma em setembro de 2000, encontrou nas transforma\u00e7\u00f5es raciais um &#8220;nicho&#8221; de carreira; nesta foto, Halsell est\u00e1 no M\u00e9xico<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde come\u00e7a e termina o romantismo de seus relatos, \u00e9 dif\u00edcil saber. Halsell, que morreu aos 77 anos de mieloma em setembro de 2000, encontrou nas transforma\u00e7\u00f5es raciais um &#8220;nicho&#8221; de carreira. Depois de viver como mulher negra, passou uma temporada entre os \u00edndios Navajo, conviveu com imigrantes mexicanos ilegais e viveu com fam\u00edlias israelitas, palestinas e judaicas em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;<i>Soul Sister<\/i>\u00a0\u00e9 em muitas formas um livro irritante, mas tamb\u00e9m muito poderoso dependendo da parte que voc\u00ea l\u00ea, e ela cita [o romancista negro James] Baldwin&#8221;, disse o historiador Robin Kelley, professor da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles, em uma apresenta\u00e7\u00e3o na Universidade de Illinois em Chicago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kelley est\u00e1 trabalhando em um livro sobre a jornalista que deve ser lan\u00e7ado neste ano. &#8220;Baldwin nos ensinou que n\u00e3o precisamos ser como os outros para construir solidariedade. E ela fala algo parecido com isso, sobre encontrar o que havia de diferente e entender como as pessoas sofrem, sair de dentro de n\u00f3s mesmos. \u00c9 por isso que ela fez o experimento, n\u00e3o porque queria ser uma mulher negra.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Solidariedade versus empatia<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora se abstenha de emitir opini\u00e3o sobre seu objeto de pesquisa \u2014 &#8220;eu n\u00e3o preciso gostar do meu sujeito&#8221;, explicou na apresenta\u00e7\u00e3o \u2014, Kelley reconhece que os experimentos de Halsell s\u00e3o delicados. E um dos problemas \u00e9 a linha t\u00eanue entre falar sobre solidariedade e empatia: a primeira leva a uma a\u00e7\u00e3o concreta, enquanto a segunda tende a ser considerada o suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A minha defini\u00e7\u00e3o favorita de empatia vem de Leslie Jamison, que diz que a empatia est\u00e1 sempre empoleirada entre presente e invas\u00e3o. O gesto de empatia de querer entender o outro \u00e9 bom, mas quando esse entendimento se torna invas\u00e3o, ou o peso dele \u00e9 colocado nas pessoas de cor, isso n\u00e3o \u00e9 empatia&#8221;, diz Gaines.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Outro problema \u00e9 quando ela \u00e9 considerada o suficiente, aquela coisa do &#8216;oh, eu sinto tanto, sinto profundamente, estou chorando, mas enfim\u2026&#8217; Se n\u00e3o te propulsiona para solidariedade, constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, qual o sentido?&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/98CA\/production\/_112941193_9c15ec95-19d2-42d5-9439-74a00c3d4e81.jpg\" alt=\"Rachel Dolezal\" width=\"401\" height=\"524\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">Rachel Dolezal ficou conhecida em 2015 por ter escondido sua verdadeira ra\u00e7a: branca, ela se passava por negra<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muita gente, gestos como o de Halsell e Griffin s\u00e3o considerados o \u00e1pice da empatia pelo outro \u2014 nada poderia demonstrar maior vontade de compreender outra pessoa do que literalmente se colocar no lugar dele. Em seu obitu\u00e1rio no New York Times, por exemplo, Halsell \u00e9 descrita como &#8220;a jornalista que buscou a verdade no disfarce&#8221;. O livro de Griffin \u00e9, at\u00e9 hoje, inclu\u00eddo na lista de leitura nas escolas estadunidenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m deles, h\u00e1 outros casos de pessoas brancas que se fingiram negras. O mais recente e amplamente divulgado na m\u00eddia \u00e9 o de Rachel Dolezal, que em 2015 acendeu um debate ao mentir sobre sua verdadeira ra\u00e7a. Ela, uma mulher branca de Montana, declarou-se negra e chegou a ser presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) em Spokane, no estado de Washington, at\u00e9 ter sua verdadeira identidade revelada e se declarar &#8220;transracial&#8221;: embora tenha nascido e sido criada como branca, ela disse em diversas entrevista, sentia-se e se identificava como uma mulher negra. A controv\u00e9rsia virou o document\u00e1rio &#8220;The Rachel Divide&#8221;, lan\u00e7ado em 2018 pela Netflix.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A luta antirracista n\u00e3o \u00e9 ter empatia pelo outro, e sim lutar por uma sociedade melhor. Quando um branco faz algo pelo negro, ele precisa se colocar como dever c\u00edvico, e n\u00e3o de superioridade moral&#8221;, explica a professora Lia Vainer Schucman, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em racismo, branquitude e rela\u00e7\u00f5es raciais. &#8220;E a tentativa de se parecer negro \u00e9 a pior coisa que algu\u00e9m pode fazer na luta antirracista, porque mesmo que viva por um dia como negro, ele pode tirar aquela roupa, e ser negro \u00e9 o ac\u00famulo de dias, \u00e9 uma continuidade hist\u00f3rica.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Lugar de escuta<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o das especialistas, a empatia pode acabar refor\u00e7ando os privil\u00e9gios da popula\u00e7\u00e3o branca. &#8220;Por exemplo, o que est\u00e1 acontecendo agora, com George Floyd. Tenho visto muitas pessoas brancas dizendo &#8216;imagine se ele fosse branco'&#8221;, diz Gaines. &#8220;O fato de que pessoas brancas t\u00eam que fazer esse exerc\u00edcio imaginativo para entender que n\u00e3o est\u00e1 certo ajoelhar no pesco\u00e7o de algu\u00e9m por 8 minutos, isso \u00e9 privil\u00e9gio em seu auge.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, o que deveria ser uma demonstra\u00e7\u00e3o de empatia ou um ato de solidariedade, coloca o branco no centro da quest\u00e3o. &#8220;Algumas pessoas brancas n\u00e3o conseguem olhar para uma pessoa negra e enxergar uma pessoa, elas t\u00eam que torn\u00e1-la seus pr\u00f3prios filhos brancos e reimaginar todo o cen\u00e1rio para sentir raiva&#8221;, conclui a professora.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/27E6\/production\/_112941201_19cb7c76-74cd-4f32-b2ae-fcc9db45b1bd.jpg\" alt=\"Grace Halsell\" width=\"614\" height=\"625\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando um branco faz algo pelo negro, ele precisa se colocar como dever c\u00edvico, e n\u00e3o de superioridade moral&#8221;, diz a professora Lia Vainer Schucman, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 esse o maior problema de experi\u00eancias como a de Halsell, Griffin ou casos como o de Dolezal: em vez de ouvir o que pessoas negras ou outras minorias t\u00eam a dizer, eles acreditam que precisam falar por elas. &#8220;Assim como tem o lugar de fala, tem o lugar de escuta. As pessoas brancas escutam melhor outras pessoas brancas, porque na pr\u00f3pria ideia de branquitude, h\u00e1 a ideia de que o branco \u00e9 neutro e de que o negro fala com vi\u00e9s, o que \u00e9 um engano, porque n\u00e3o existe um lugar sem vi\u00e9s&#8221;, diz a pesquisadora brasileira. &#8220;Mas a branquitude pauta a ideia de uma pseudo neutralidade para o branco, ent\u00e3o se ele fala, ele est\u00e1 sendo acad\u00eamico, se o negro fala, ele est\u00e1 sendo militante, vitimista. Ent\u00e3o \u00e9 um lugar em que brancos escutam melhor os brancos, e que faz parte da pr\u00f3pria l\u00f3gica racista.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Grace n\u00e3o amplificou as vozes de pessoas negras, ela se enfiou no meio e falou por eles. Ela dizia &#8216;estou falando por minhas irm\u00e3s mais escuras&#8217;, como se essas irm\u00e3s n\u00e3o tivessem voz&#8221;, diz Gaines. &#8220;As pessoas n\u00e3o s\u00e3o mudas, elas s\u00f3 precisam de amplifica\u00e7\u00e3o. Chamo Grace de uma aliada que falhou, porque ela estava no centro de tudo, o tempo todo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As obras assinadas por autores negros no per\u00edodo evidenciam isso. No mesmo ano em que Halsell publicou\u00a0<i>Soul Sister<\/i>, Maya Angelou lan\u00e7ou o primeiro volume de sua autobiografia,\u00a0<i>Eu sei por que o p\u00e1ssaro canta na gaiola<\/i>, editado pela primeira vez no Brasil em 2009. Em 1970, Toni Morrison publicou o aclamado\u00a0<i>O Olho Mais Azul<\/i>\u00a0\u2014 quatro livros depois, em 1993, foi reconhecida com um Nobel de Literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio James Baldwin, que teria inspirado Halsell, publicou sua mais importante colet\u00e2nea de ensaios sobre racismo entre 1955 e 1963. Isso sem falar nos que vieram antes, entre eles Ralph Ellison, que lan\u00e7ou\u00a0<i>O Homem Invis\u00edvel<\/i>\u00a0em 1952, e Langston Hughes, morto em 1967, que deixou uma prol\u00edfica bibliografia de poesias, romances, contos, teatro e dramaturgia. N\u00e3o faltavam autores negros para falarem do pr\u00f3prio sofrimento e experi\u00eancias. Faltavam pessoas brancas dispostas a ouvi-los.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As obras assinadas por autores negros no per\u00edodo evidenciam isso. No mesmo ano em que Halsell publicou\u00a0Soul Sister, Maya Angelou lan\u00e7ou o primeiro volume de sua autobiografia,\u00a0Eu sei por que o p\u00e1ssaro canta na gaiola, editado pela primeira vez no Brasil em 2009. 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