{"id":322908,"date":"2020-06-25T11:38:49","date_gmt":"2020-06-25T14:38:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=322908"},"modified":"2020-06-25T11:38:49","modified_gmt":"2020-06-25T14:38:49","slug":"fico-deprimida-como-medicos-que-combateram-meningite-na-ditadura-veem-pandemia-de-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/fico-deprimida-como-medicos-que-combateram-meningite-na-ditadura-veem-pandemia-de-covid-19\/","title":{"rendered":"&#8216;Fico deprimida&#8217;: como m\u00e9dicos que combateram meningite na ditadura veem pandemia de covid-19"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Vin\u00edcius Lemos<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/F289\/production\/_112998026_58da18d9-b3f7-444c-a2c1-4eae5d02dc8c.jpg\" alt=\"Campnha vacina\u00e7\u00e3o meningite SP\" width=\"1111\" height=\"814\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Pistolas de vacina\u00e7\u00e3o foram usadas por profissionais de sa\u00fade para imunizar a popula\u00e7\u00e3o<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Discurso negacionista, confus\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o dos dados e intermin\u00e1veis cr\u00edticas \u00e0 cobertura da imprensa diante de uma epidemia.<\/p>\n<p>Tais caracter\u00edsticas t\u00eam sido\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-52765075\">atribu\u00eddas por especialistas<\/a>\u00a0\u00e0 postura do governo Jair Bolsonaro em meio \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, mas postura semelhante foi adotada em um passado n\u00e3o muito distante: na pior epidemia de meningite enfrentada pelo Brasil nos anos 70, durante a ditadura militar.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos que vivenciaram a epidemia de meningite relatam \u00e0 BBC News Brasil semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre o passado e o presente. Na opini\u00e3o deles, Bolsonaro trilha caminho semelhante ao dos militares na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>O Minsit\u00e9rio da Sa\u00fade, por sua vez, tem negado qualquer inten\u00e7\u00e3o de esconder dados e\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-51713943\">voltou a divulgar os n\u00fameros em conson\u00e2ncia<\/a>\u00a0com os do Conselho Nacional de Secret\u00e1rios de Sa\u00fade (Conass), ap\u00f3s uma interrup\u00e7\u00e3o que provocou cr\u00edticas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A epidemia dos anos 70<\/h2>\n<p>Era abril de 1971 quando teve in\u00edcio aquela que se tornaria\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-52058352\">a maior epidemia de meningite da hist\u00f3ria do Brasil<\/a>. Os primeiros casos foram identificados no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo. Meses depois, a propaga\u00e7\u00e3o da enfermidade ganhou propor\u00e7\u00f5es epid\u00eamicas.<\/p>\n<p>O pa\u00eds havia passado por dois surtos da doen\u00e7a anteriormente, em 1923 e em 1945, mas nenhum deles havia sido t\u00e3o grave.<\/p>\n<p>Durante a epidemia, o Brasil foi acometido por dois subtipos de meningite meningoc\u00f3cica: do tipo C, a partir de abril de 71, e do tipo A, em maio de 1974.<\/p>\n<p>Os mais atingidos, a princ\u00edpio, foram moradores de regi\u00f5es carentes, que tiveram sintomas cl\u00e1ssicos da doen\u00e7a, como dor de cabe\u00e7a, febre alta e rigidez na nuca. Nos bairros mais pobres, muitas pessoas morreram sem diagn\u00f3stico ou tratamento.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da epidemia foi pouco noticiado. Isso porque era tempo de &#8216;milagre econ\u00f4mico&#8217; e o governo militar n\u00e3o admitia a exist\u00eancia do problema sanit\u00e1rio. Na \u00e9poca, m\u00e9dicos foram proibidos de conceder entrevistas sobre o tema. Reportagens sobre a enfermidade foram censuradas. N\u00e3o havia dados oficiais.<\/p>\n<p>&#8220;Desde o in\u00edcio, os m\u00e9dicos alertaram as autoridades sobre a epidemia e a necessidade de a\u00e7\u00f5es para que ela fosse contida. Mas os militares n\u00e3o tomavam medidas sobre o assunto&#8221;, relembra o epidemiologista Eliseu Waldman, de 73 anos, que na \u00e9poca era residente no Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11863\/production\/_112997717_66fc10e8-ed3e-487f-bb13-0c11dae8a60e.jpg\" alt=\"Militares em tanques na avenida Rio Branco\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Na d\u00e9cada de 70, militares proibiram divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre casos de meningite; m\u00e9dicos apontam semelhan\u00e7as entre o ato e conduta de Bolsonaro<\/figure>\n<p>Em alguns pontos, os profissionais de sa\u00fade que trabalharam durante a epidemia de meningite consideram que o per\u00edodo atual \u00e9 muito pior, em decorr\u00eancia de medidas do presidente e por se tratar de um v\u00edrus de propaga\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida. Em outros aspectos, ressaltam que a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 melhor, como sob o ponto de vista da democracia, que impede que as principais informa\u00e7\u00f5es sobre a covid-19 sejam ocultadas.<\/p>\n<p>Para os m\u00e9dicos que atuaram no combate \u00e0 meningite, no entanto, a postura atual de Bras\u00edlia lembra a dos militares de cinco d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8220;Estou revivendo algo que jamais imaginei que fosse acontecer de novo, no sentido sanit\u00e1rio e pol\u00edtico&#8221;, desabafa o infectologista Roberto Focaccia, de 74 anos, que atuou na linha de frente contra a epidemia de meningite.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Da meningite ao coronav\u00edrus<\/h2>\n<p>Quando os casos de meningite come\u00e7aram a aumentar exponencialmente, o governo militar se preocupou em esconder a situa\u00e7\u00e3o. Poucas pessoas sabiam do problema. Os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o logo foram impedidos de informar sobre o assunto.<\/p>\n<p>&#8220;Os epidemiologistas da \u00e9poca tiveram acesso \u00e0s notifica\u00e7\u00f5es e viram que a incid\u00eancia de meningite estava muito acima do habitual. N\u00f3s, profissionais da sa\u00fade, sab\u00edamos da real situa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9ramos impedidos de falar com a m\u00eddia&#8221;, relata a epidemiologista Rita Barradas Barata, de 68 anos. No per\u00edodo, ela era aluna do internato em medicina do Em\u00edlio Ribas.<\/p>\n<p>&#8220;A preocupa\u00e7\u00e3o dos militares na \u00e9poca era com o &#8216;milagre econ\u00f4mico&#8217;. Eles n\u00e3o queriam, em hip\u00f3tese nenhuma, associar um pa\u00eds crescendo economicamente com o desgaste causado por uma epidemia&#8221;, acrescenta Rita.<\/p>\n<p>O descaso das autoridades com a epidemia causou mortes e subnotifica\u00e7\u00f5es, apontam os profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabia, a princ\u00edpio, que tinha que tomar medidas, como evitar aglomera\u00e7\u00f5es, para se prevenir da meningite. Isso n\u00e3o sa\u00eda na m\u00eddia, porque a ditadura n\u00e3o permitia. Foi uma \u00e9poca terr\u00edvel&#8221;, comenta a infectologista Marinella Della Negra, de 75 anos, que era residente do Em\u00edlio Ribas na \u00e9poca.<\/p>\n<p>&#8220;Essa tentativa de silenciamento impediu que a\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e adequadas fossem tomadas&#8221;, disse a jornalista Catarina Schneider, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil no fim de mar\u00e7o. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o Social, ela \u00e9 autora da tese &#8216;A Constru\u00e7\u00e3o Discursiva dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo sobre a Epidemia de Meningite na Ditadura Militar Brasileira&#8217; (1971-1975).<\/p>\n<p>A censura da \u00e9poca proibia mat\u00e9rias sobre o tema porque afirmava que elas seriam alarmistas e tendenciosas.<\/p>\n<p>&#8220;Era muito f\u00e1cil ocultar dados na \u00e9poca, porque n\u00e3o havia um sistema de informa\u00e7\u00e3o consolidado com levantamentos da sa\u00fade p\u00fablica&#8221;, diz o infectologista Eliseu Waldman.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13F73\/production\/_112997718_ddbed21b-dbd4-40f4-9849-09e317a50d37.jpg\" alt=\"Campnha vacina\u00e7\u00e3o meningite SP\" width=\"1103\" height=\"820\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Vacina\u00e7\u00e3o para a meningite aconteceu em 75, anos ap\u00f3s surgimento de diversos casos da doen\u00e7a<\/figure>\n<p>Os m\u00e9dicos passavam informa\u00e7\u00f5es em &#8220;off&#8221; para os jornalistas, para alertar a popula\u00e7\u00e3o. As poucas mat\u00e9rias publicadas sobre o assunto eram desmentidas pelas autoridades, que diziam que n\u00e3o se tratava de uma situa\u00e7\u00e3o preocupante.<\/p>\n<p>&#8220;Diziam que esconder isso era quest\u00e3o de Seguran\u00e7a Nacional. Por v\u00e1rias vezes, demos entrevistas a jornais e ped\u00edamos para n\u00e3o nos identificar. No dia seguinte, havia uma receita de bolo ou uma poesia, em vez da reportagem&#8221;, relembra Roberto Focaccia.<\/p>\n<p>Os profissionais de sa\u00fade tra\u00e7am um paralelo entre a situa\u00e7\u00e3o vivida com a covid-19 e a da meningite nos anos 70.<\/p>\n<p>&#8220;O presidente quis esconder a real situa\u00e7\u00e3o da pandemia, como se fosse poss\u00edvel. Hoje, todo mundo j\u00e1 sabe o que estamos passando com o coronav\u00edrus&#8221;, diz Rita Barradas.<\/p>\n<p>Uma das principais aliadas da popula\u00e7\u00e3o, em meio \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, \u00e9 a tecnologia. A internet se tornou pe\u00e7a importante no enfrentamento \u00e0 covid-19.<\/p>\n<p>&#8220;A diferen\u00e7a entre a pandemia de agora e a epidemia de meningite \u00e9 que no passado havia uma censura muito grande e n\u00e3o era poss\u00edvel veicular o que realmente estava acontecendo. Hoje n\u00e3o cabe mais a postura totalit\u00e1ria, principalmente com o advento da internet. O medo acabou e os profissionais de sa\u00fade falam sobre o que est\u00e1 acontecendo, apesar de o presidente tentar negar a gravidade da doen\u00e7a&#8221;, declara Marinella Della Negra.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/800B\/production\/_112997723_a6241fa3-c895-4962-b5e6-6b7bff6d4c5e.jpg\" alt=\"Bolsonaro em manifesta\u00e7\u00e3o\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Presidente critica constantemente as medidas de isolamento e chegou a classificar a covid-19 como &#8220;gripezinha&#8221;<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O negacionismo<\/h2>\n<p>Em 1973, a meningite chegou tamb\u00e9m nas \u00e1reas mais nobres e pessoas de alto poder aquisitivo passaram a morrer em decorr\u00eancia da meningite. O governo militar continuou negando a exist\u00eancia da epidemia.<\/p>\n<p>O pico da epidemia no pa\u00eds foi registrado em 1974. Na \u00e9poca, a propaga\u00e7\u00e3o de outro sorotipo causou crescimento ainda maior de casos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de S\u00e3o Paulo, ao menos outro seis Estados brasileiros, nas regi\u00f5es Sul e Sudeste, sofreram intensamente com a enfermidade. Havia, ao menos, 67 mil casos nas \u00e1reas mais afetadas, sendo 40 mil deles apenas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O Instituto Em\u00edlio Ribas, que era refer\u00eancia no tratamento, tinha 300 leitos dispon\u00edveis, mas chegou a acompanhar cerca de 2 mil pacientes. &#8220;O sistema de sa\u00fade n\u00e3o estava preparado para isso. Hospitais que n\u00e3o estavam ativados precisaram ser alugados pelo poder p\u00fablico para receber os pacientes&#8221;, relata Eliseu Waldman.<\/p>\n<p>&#8220;Vi muita gente morrer em quatro ou cinco horas. Era uma coisa louca. N\u00e3o cabia mais gente no Em\u00edlio Ribas. N\u00e3o havia mais \u00e1rea administrativa. Tudo virou espa\u00e7o para pacientes com meningite. Muitos pacientes dormiam no ch\u00e3o. Alguns seguravam o pr\u00f3prio soro&#8221;, diz Roberto Focaccia.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s, m\u00e9dicos, trabalh\u00e1vamos como loucos. Mor\u00e1vamos no hospital, praticamente&#8221;, comenta Focaccia. Sobrecarregados, os profissionais de sa\u00fade usavam capacetes, \u00f3culos e botas para se proteger. Assim como no contexto do novo coronav\u00edrus, tamb\u00e9m houve registros de trabalhadores da sa\u00fade contaminados com a meningite.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F153\/production\/_112997716_d19abcfd-367a-4512-9efd-192e2f2c3fa9.jpg\" alt=\"Infectologista Roberto Focaccia em 1972\" width=\"686\" height=\"539\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Infectologista Roberto Focaccia em 1972, per\u00edodo em que atuou no combate \u00e0 epidemia de meningite. &#8220;\u00c9ramos proibidos de falar com a imprensa&#8221;, diz o m\u00e9dico.<\/figure>\n<p>Com o aumento de casos, os pacientes menos graves leve passaram a ser levados outras unidades de sa\u00fade de S\u00e3o Paulo. At\u00e9 escolas foram adaptadas para receber doentes. Os mais graves permaneceram no Em\u00edlio Ribas.<\/p>\n<p>Sem informa\u00e7\u00f5es, muitas pessoas desconheciam os cuidados necess\u00e1rios para se prevenir e n\u00e3o sabiam os sintomas da meningite. &#8220;Muita gente morreu por falta de informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve press\u00e3o do governo para adotar medidas urgentes. As consequ\u00eancias da postura dos militares foram terr\u00edveis&#8221;, lamenta Focaccia.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1974, o general Ernesto Geisel assumiu a Presid\u00eancia do pa\u00eds, no lugar do general M\u00e9dici. Ele nomeou o m\u00e9dico sanitarista Paulo de Almeida Machado para o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Machado concedeu uma entrevista para a jornalista Eliane Cantanhede, na \u00e9poca rep\u00f3rter da revista Veja. Ele admitiu que o Brasil vivia uma epidemia, alertou a popula\u00e7\u00e3o e ensinou medidas de higiene. No entanto, a entrevista foi vetada pela censura. O principal argumento era que as declara\u00e7\u00f5es poderiam causar p\u00e2nico e n\u00e3o havia vacina para todos.<\/p>\n<p>Ao comparar a epidemia do passado com a situa\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus, os m\u00e9dicos que atuaram no enfrentamento \u00e0 meningite acreditam que a conduta negacionista de Bolsonaro, que chegou a classificar a covid-19 como uma &#8220;gripezinha&#8221;, pode ser mais perigosa que a postura dos militares da d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>&#8220;Os militares tentavam reduzir a import\u00e2ncia da epidemia, mas n\u00e3o havia nenhum deles abra\u00e7ando algu\u00e9m ou incentivando que as pessoas se expusessem. Na \u00e9poca, apesar de n\u00e3o divulgarem o correto a fazer, n\u00e3o havia algu\u00e9m incentivando pr\u00e1ticas erradas, como temos hoje. Por exemplo, quando um presidente sai sem m\u00e1scara, sendo que a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 para us\u00e1-la, ele est\u00e1 incentivando as pessoas a agirem errado&#8221;, diz Marinella Della Negra.<\/p>\n<p>Marinella tamb\u00e9m critica fala recente de Bolsonaro, que incentivou seus seguidores a invadirem hospitais e filmarem o que encontrarem no interior.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 totalmente insano pedir para as pessoas entrarem em hospitais para filmar, sem ter conhecimento dos riscos disso. \u00c9 preciso respeitar os pacientes e os profissionais de sa\u00fade. Nem na ditadura foi sugerido algo parecido. \u00c9 uma conduta fora da racionalidade. \u00c9 uma aus\u00eancia total de respeito&#8221;, assevera a infectologista.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A469\/production\/_112998024_a6f43041-4232-43aa-bbe9-8d856117d08e.jpg\" alt=\"Jair Bolsonaro\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Bolsonaro tem adotado postura semelhante \u00e0 de militares na d\u00e9cada de 70, avaliam m\u00e9dicos<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O fim da epidemia<\/h2>\n<p>Em meados de 1974, o governo j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais esconder o grave problema sanit\u00e1rio. Na \u00e9poca, aulas foram suspensas e eventos foram cancelados, como os Jogos Pan-Americanos de 1975, que aconteceriam em S\u00e3o Paulo, mas foram transferidos para a Cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>&#8220;Come\u00e7ou uma psicose coletiva e as pessoas ficaram com medo de se contaminar. Ningu\u00e9m passava mais em frente ao Em\u00edlio Ribas. Os t\u00e1xis n\u00e3o paravam mais l\u00e1&#8221;, relembra Focaccia.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, assim como no per\u00edodo atual, tamb\u00e9m havia as not\u00edcias mentirosas sobre a epidemia, hoje conhecidas como fake news. Ainda que n\u00e3o houvesse redes sociais, os boatos eram propagados rapidamente por meio do boca a boca. Uma dessas mentiras dizia que uma pessoa poderia contrair meningite apenas ao passar na rua do Em\u00edlio Ribas, mesmo sem proximidade com qualquer pessoa infectada.<\/p>\n<p>&#8220;As fake news sempre s\u00e3o desinformativas. Em meio a uma pandemia, como agora, \u00e9 um crime contra a sa\u00fade p\u00fablica. \u00c9 t\u00e3o grave quanto a falta de informa\u00e7\u00e3o, pois ambos levam a popula\u00e7\u00e3o a condutas de risco&#8221;, pontua Marinella Della Negra. As redes sociais e aplicativos de mensagem colaboram atualmente para a r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o das fake news, que t\u00eam alcance maior que os boatos do passado. Em raz\u00e3o disso, especialistas ressaltam a necessidade de buscar informa\u00e7\u00f5es corretas e em fontes confi\u00e1veis.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/31EB\/production\/_112997721_7e5b6a9f-6aff-4211-929a-1d0416a56270.jpg\" alt=\"Filas se formaram durante vacina\u00e7\u00e3o contra a meningite em abril de 75\" width=\"1087\" height=\"816\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Filas se formaram durante vacina\u00e7\u00e3o contra a meningite em abril de 75<\/figure>\n<p>As not\u00edcias oficiais sobre a epidemia de meningite, confirmadas pelo governo militar, come\u00e7aram a ser veiculadas somente no come\u00e7o de 1975. Isso porque o Brasil havia assinado, no ano anterior, um acordo com o Instituto Pasteur M\u00e9rieux e importou cerca de 80 milh\u00f5es de doses de vacina contra a meningite.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros oficiais sobre a doen\u00e7a passaram a ser divulgados pelo governo militar para estimular a popula\u00e7\u00e3o a aderir \u00e0 Campanha Nacional de Vacina\u00e7\u00e3o Contra a Meningite Meningoc\u00f3cica (Camem), que teve in\u00edcio em abril de 75.<\/p>\n<p>Em menos de uma semana de campanha, cerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o brasileira foi vacinada. &#8220;Fizeram uma opera\u00e7\u00e3o militar para imunizar as pessoas&#8221;, comenta Eliseu Waldman. A imuniza\u00e7\u00e3o era feita por meio de uma pistola de vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Mas na \u00e9poca da vacina\u00e7\u00e3o, a epidemia estava em franco decl\u00ednio, porque a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava naturalmente imunizada&#8221;, diz Focaccia \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros sobre as mortes causadas pela epidemia (de 1970 a 75) s\u00e3o divergentes. H\u00e1 levantamentos que apontam para 1,6 mil apenas em S\u00e3o Paulo. J\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o do jornal O Globo, de 30 de dezembro de 74, diz que foram 2,5 mil mortos em S\u00e3o Paulo, 304 no Rio de Janeiro e 111 no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>&#8220;Os dados da epidemia foram minimizados, assim como acontece agora com a covid-19. Na \u00e9poca, computavam apenas testes com cultura positiva, mas a maioria era falso negativo, porque muitos pacientes se automedicavam com antibi\u00f3ticos para a meningite e isso falseava os resultados do exame de cultura do l\u00edquor (o l\u00edquido da espinha) ou de sangue&#8221;, relata Focaccia.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CB79\/production\/_112998025_2cfc831f-79a9-414a-984f-0b6f07530269.jpg\" alt=\"Hidroxicloroquina\" width=\"660\" height=\"371\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Bolsonaro defende uso da cloroquina no tratamento da covid-19, mesmo sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Situa\u00e7\u00e3o muito pior&#8217;<\/h2>\n<p>Enquanto a epidemia de meningite demorou anos para ser controlada, a pandemia do novo coronav\u00edrus segue permeada por incertezas. Apesar de haver diversos testes pelo mundo, ainda n\u00e3o h\u00e1 vacinas ou medicamentos com efic\u00e1cia comprovada contra o Sars-Cov-2, nome oficial do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Do ponto de vista sanit\u00e1rio, a epidemiologista Rita Barradas Barata cita que o Sars-Cov-2 traz mais preju\u00edzos que a epidemia de meningite, pois se trata de um v\u00edrus com r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Os primeiros casos de meningite foram registrados no come\u00e7o do s\u00e9culo passado. Por isso, muitas pessoas desenvolveram imunidade ao longo da vida. Al\u00e9m disso, j\u00e1 havia tratamento indicado no per\u00edodo da epidemia, apesar de a vacina ter chegado depois ao pa\u00eds. Mas o novo coronav\u00edrus circula pela primeira vez entre humanos, ent\u00e3o ningu\u00e9m tem imunidade ou mem\u00f3ria relacionada a ele, por isso a propaga\u00e7\u00e3o \u00e9 muito r\u00e1pida&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Sob o aspecto pol\u00edtico, ela ressalta a import\u00e2ncia de vivermos em um per\u00edodo de democracia. No entanto, avalia que grande parte da conduta de Bolsonaro \u00e9 mais prejudicial para os brasileiros que as medidas adotadas pelos militares no combate \u00e0 epidemia de meningite.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 coisas que nem na ditadura aconteceram. Na epidemia de meningite, nenhum profissional de sa\u00fade recebeu ordem para tratar um paciente assim ou assado. Os m\u00e9dicos tinham liberdade para seguir o tratamento que consideravam adequado&#8221;, declara, em refer\u00eancia \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro para o tratamento com cloroquina em pacientes com a covid-19.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/58FB\/production\/_112997722_0d4e9da5-6642-42c7-9483-89d2c545f25f.jpg\" alt=\"Campnha vacina\u00e7\u00e3o meningite SP\" width=\"1091\" height=\"807\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Em pouco tempo, cerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o estava vacinada contra meningite<\/figure>\n<p>Rita considera as a\u00e7\u00f5es de Bolsonaro preocupantes. Em todo o mundo, o presidente tem sido criticado em raz\u00e3o da postura adotada no enfrentamento \u00e0 pandemia.<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-51713943\">\u00a0Com mais de 53 mil \u00f3bitos<\/a>, o Brasil \u00e9 o segundo com mais mortes pelo novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 muito bom termos a liberdade de imprensa, que permite que as pessoas saibam o que est\u00e1 acontecendo. A ditadura foi um per\u00edodo horr\u00edvel. Mas n\u00e3o havia nada como o que est\u00e1 acontecendo agora, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 postura do presidente. O que estamos vivendo hoje \u00e9 algo que nunca vi&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 um comando. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade est\u00e1 tomado por diversos militares. Na \u00e9poca da epidemia de meningite, os m\u00e9dicos sanitaristas eram os respons\u00e1veis por avaliar as medidas que seriam tomadas. Mas agora, nem os m\u00e9dicos s\u00e3o ouvidos mais&#8221;, critica Rita.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 pandemia, o Brasil est\u00e1 h\u00e1 um m\u00eas sem ministro da sa\u00fade, desde a sa\u00edda do m\u00e9dico Nelson Teich. Ele deixou a pasta por se recusar a contraria evid\u00eancias cient\u00edficas para relaxar o isolamento social e recomendar o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, como queria Bolsonaro. Desde ent\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade \u00e9 comandado por um militar que est\u00e1 interinamente na fun\u00e7\u00e3o, o general Eduardo Pazuello.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca imaginei que fosse ver algo assim. \u00c9 uma coisa assustadora. Sinceramente, fico deprimida com os rumos que as coisas est\u00e3o tomando no pa\u00eds&#8221;, lamenta Rita.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os m\u00e9dicos passavam informa\u00e7\u00f5es em &#8220;off&#8221; para os jornalistas, para alertar a popula\u00e7\u00e3o. As poucas mat\u00e9rias publicadas sobre o assunto eram desmentidas pelas autoridades, que diziam que n\u00e3o se tratava de uma situa\u00e7\u00e3o preocupante.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":322909,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-322908","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/medicos-na-ditadura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=322908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322908\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/322909"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=322908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=322908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=322908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}