{"id":323284,"date":"2020-06-29T09:57:02","date_gmt":"2020-06-29T12:57:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=323284"},"modified":"2020-06-29T09:57:02","modified_gmt":"2020-06-29T12:57:02","slug":"a-frustrada-tentativa-de-monteiro-lobato-em-ganhar-mercado-nos-eua-com-livro-considerado-racista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-frustrada-tentativa-de-monteiro-lobato-em-ganhar-mercado-nos-eua-com-livro-considerado-racista\/","title":{"rendered":"A frustrada tentativa de Monteiro Lobato em ganhar mercado nos EUA com livro considerado racista"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Edison Veiga<\/span><span class=\"byline__title\">De Bled\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/0486\/production\/_112985110_b26163cf-3c13-4eea-a179-bc909c47d346.jpg\" alt=\"Monteiro Lobato\" width=\"660\" height=\"371\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><span class=\"story-image-copyright\">DOM\u00cdNIO P\u00daBLICO \/ WIKIMEDIA COMMONS<\/span><\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Monteiro Lobato (1882-1948) j\u00e1 tinha v\u00e1rios livros publicados \u2014 entre os quais\u00a0<i>Cidades Mortas<\/i>,\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0e\u00a0<i>O Saci<\/i>\u00a0e contos que depois seriam inclu\u00eddos no famoso\u00a0<i>Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho<\/i>, de 1931 \u2014 quando vislumbrou fazer sucesso no mercado editorial angl\u00f3fono. Sonhando se tornar um novo H. G. Wells (1866-1946), cultuado pelo<i>\u00a0A Guerra dos Mundos<\/i>, de 1898, passou cerca de quatro anos nos Estados Unidos, na segunda metade da d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n<p>Na bagagem carregava sua esperan\u00e7a: o romance\u00a0<i>O Presidente Negro<\/i>\u00a0\u2014 originalmente\u00a0<i>O Choque das Ra\u00e7as\u00a0<\/i><i>ou\u00a0<\/i><i>O Presidente Negro<\/i>. Com um enredo fortemente racista, a obra n\u00e3o teve aceita\u00e7\u00e3o entre os editores americanos. De acordo com o livro\u00a0<i>Um Pa\u00eds se Faz com Tradutores e Tradu\u00e7\u00f5es: A Import\u00e2ncia da Tradu\u00e7\u00e3o e da Adapta\u00e7\u00e3o na Obra de Monteiro Lobato<\/i>, do escritor e tradutor brit\u00e2nico John Milton, Lobato bateu \u00e0 porta de pelo menos cinco editoras nos Estados Unidos \u2014 e colecionou n\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8220;Lobato se via como um novo H. G. Wells, mas os temas centrais (a segrega\u00e7\u00e3o completa entre brancos e negros, a tentativa dos brancos de esterilizarem os negros e a influ\u00eancia da eugenia, sugerindo que os brancos fossem superiores aos negros) eram sens\u00edveis demais para qualquer editora norte-americana se arriscar&#8221;, escreve Milton.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 1927, uma carta escrita a ele pelo editor da ag\u00eancia liter\u00e1ria Palmer, de Hollywood, sacramentou sua frustra\u00e7\u00e3o, alegando que &#8220;o enredo central se baseia em uma quest\u00e3o particularmente dif\u00edcil de ser abordada neste pa\u00eds, porque certamente resultar\u00e1 no tipo mais amargo de sectarismo&#8221;. &#8220;E, por esse motivo, os editores s\u00e3o invariavelmente avessos \u00e0 ideia de apresent\u00e1-lo ao p\u00fablico leitor&#8221;, prossegue a carta. &#8220;Nem mesmo o fato de estar ambientado 300 anos no futuro mitigaria esse fato na mente dos leitores negros.&#8221;<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o do editor ainda alerta a Lobato que &#8220;os negros s\u00e3o cidad\u00e3os americanos, parte integrante da vida nacional&#8221; e promover &#8220;seu exterm\u00ednio por meio da sabedoria e habilidade da ra\u00e7a branca&#8221; seria endossar uma &#8220;divis\u00e3o violenta&#8221;.<\/p>\n<p>O escritor brasileiro n\u00e3o parece ter se convencido a mudar suas ideias. Em carta enviada ao escritor Godofredo Rangel (1884-1951), seu amigo e correspondente ao longo de 40 anos, Lobato reclamou que\u00a0<i>O Presidente Negro<\/i>\u00a0n\u00e3o havia sido aceito porque &#8220;acham-no ofensivo \u00e0 dignidade americana&#8221;. &#8220;Errei vindo c\u00e1 t\u00e3o tarde&#8221;, escreve. &#8220;Devia ter vindo no tempo em que linchavam os negros.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Tinha lido h\u00e1 muito tempo [esse livro] e reli, mais recentemente. Tenho duas considera\u00e7\u00f5es, na verdade duas impress\u00f5es fortes que me ficaram da obra. Primeiro, do ponto de vista de uma an\u00e1lise externa, fiquei impressionada com a certeza, seguida da decep\u00e7\u00e3o, de Lobato de que a obra seria bem recepcionada, um grande sucesso nos Estados Unidos. Lobato fica perplexo porque seu livro n\u00e3o encontra editor, n\u00e3o entende por que os americanos o acharam ofensivo&#8221;, comenta \u00e0 BBC News Brasil a historiadora Lucilene Reginaldo, professora de Estudos Africanos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>&#8220;Do ponto de vista da constru\u00e7\u00e3o da obra, \u00e9 surpreendente como Lobato se instrumentaliza das ideias eugenistas, das quais ele era um entusiasta confesso. Mas ele tinha plena clareza que a literatura era uma forma sutil, indireta e eficiente de promover a eugenia.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1602E\/production\/_112985109_07c93d39-ddbe-4548-8397-fa1f7434bd6b.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de 'A chave do tamanho', um dos livros mais populares de Lobato\" width=\"1512\" height=\"891\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ilustra\u00e7\u00e3o de &#8216;A chave do tamanho&#8217;, um dos livros mais populares de Lobato<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Enredo<\/h2>\n<p><i>O Presidente Negro<\/i>\u00a0come\u00e7a no Brasil dos anos 1920. Ayrton sofre um acidente e acaba resgatado por um cientista exc\u00eantrico que lhe apresenta sua grande inven\u00e7\u00e3o: o porvirosc\u00f3pio, uma m\u00e1quina que mostra o futuro.<\/p>\n<p>Assim, os personagens acompanham a vida nos Estados Unidos de 2228, em plena campanha eleitoral. A sociedade futurista americana \u00e9 descrita como uma utopia modelo. Mas, segundo a hist\u00f3ria criada por Lobato, esse sucesso era devido a algumas medidas que haviam sido tomadas: o fim da imigra\u00e7\u00e3o, a execu\u00e7\u00e3o de todos os rec\u00e9m-nascidos com malforma\u00e7\u00f5es e a esteriliza\u00e7\u00e3o dos &#8220;doentes mentais&#8221; \u2014 balaio no qual o autor inclui prostitutas, ladr\u00f5es, pregui\u00e7osos e desocupados. Outra medida implementada por esse governo futurista era a interven\u00e7\u00e3o estatal na reprodu\u00e7\u00e3o. Para poder ter filhos, o casal precisava se submeter a uma an\u00e1lise oficial de suas caracter\u00edsticas. A ideia era garantir que apenas os melhores passassem seus genes adiante.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa sociedade que Lobato insere uma campanha eleitoral norte-americana. E vence um candidato negro, Jim Roy. Trata-se do gatilho para que Lobato apresente os negros como &#8220;o \u00fanico erro inicial contido naquela feliz composi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O livro aponta que a sorte dos Estados Unidos era que ali, devido ao \u00f3dio racial, ao contr\u00e1rio do Brasil n\u00e3o ocorreu a miscigena\u00e7\u00e3o \u2014 que para o autor causaria uma &#8220;degenera\u00e7\u00e3o&#8221; racial irrevers\u00edvel \u2014, mantendo os negros segregados.<\/p>\n<p>Por outro lado, segundo o livro, os negros teriam uma propens\u00e3o maior a se reproduzir. O que fazia com que sua popula\u00e7\u00e3o aumentasse em um ritmo superior a dos brancos. Algumas &#8220;solu\u00e7\u00f5es&#8221; s\u00e3o apresentadas para esta quest\u00e3o. Os negros pedem a divis\u00e3o do pa\u00eds em dois. Os brancos sugerem extraditar todos os negros para o Amazonas.<\/p>\n<p>Mas a Suprema Conven\u00e7\u00e3o Branca cria um plano, chamado de &#8220;solu\u00e7\u00e3o final&#8221; para o &#8220;problema negro&#8221;. Eles desenvolvem uma tecnologia para alisar os cabelos dos negros \u2014 mas instalam no aparelho um componente que esteriliza quem usa.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um livro claramente racista na ideia, na proposta, no desenlace. \u00c9 um livro que ficou datado, por demais preconceituoso. N\u00e3o vejo motivo para ser estudado em universidades nem escolas, muito diferente do universo infantil de Monteiro Lobato&#8221;, afirma \u00e0 BBC News Brasil a historiadora e antrop\u00f3loga Lilia Moritz Schwarcz, professora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e coautora do livro<i>\u00a0Reina\u00e7\u00f5es de Monteiro Lobato<\/i>, uma biografia do escritor. &#8220;\u00c9 um livro que serve apenas para teses e disserta\u00e7\u00f5es que analisam o racismo do Brasil. N\u00e3o \u00e9 um livro para ser adotado com alunos.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6872\/production\/_112983762_895cb755-5f70-4b30-b691-c4eb9b74e5ca.jpg\" alt=\"Barack Obama\" width=\"746\" height=\"864\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Com a elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama, o livro O Presidente Negro voltou a ter uma edi\u00e7\u00e3o no Brasil<\/figure>\n<p>Autora do artigo\u00a0<i>Voc\u00ea J\u00e1 Pensou no Impacto da Obra de Lobato na Constru\u00e7\u00e3o da Estima Negra?<\/i>, a psicopedagoga Clarissa Brito, especialista em Educa\u00e7\u00e3o Infantil, enfatiza \u00e0 BBC News Brasil que considera\u00a0<i>O Presidente Negro<\/i>\u00a0a &#8220;express\u00e3o expl\u00edcita de seu posicionamento pol\u00edtico, defensor da eugenia e seu desejo de exterm\u00ednio do povo negro&#8221;.<\/p>\n<p>Quando Barack Obama disputava a Presid\u00eancia dos Estados Unidos, em 2008, a editora Globo Livros relan\u00e7ou o romance. \u00c0 BBC News Brasil o editor Mauro Palermo enfatiza que Lobato precisa ser lido considerando que ele &#8220;escreveu suas obras entre 1920 e o fim da d\u00e9cada de 1940&#8221;. &#8220;Creio que leitores atuais encontrar\u00e3o nessas hist\u00f3rias, al\u00e9m do entretenimento, uma oportunidade rica de entender e discutir como se comportava a sociedade brasileira h\u00e1 um s\u00e9culo e, a partir da\u00ed, refletir sobre o quanto j\u00e1 caminhamos na luta contra o racismo e o tanto que ainda precisamos nos desenvolver e aprimorar&#8221;, diz. &#8220;Infelizmente nos entristece perceber que essa longa caminhada est\u00e1 longe de chegar ao fim.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o me julgo competente para opinar, de formar mais circunstanciada, sobre a tipifica\u00e7\u00e3o do crime de racismo na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em geral e liter\u00e1ria em particular. \u00c9 evidente que minha postura de cidad\u00e3 diante de um texto ou autor contempor\u00e2neo que propaga ideias racistas, xen\u00f3fobas, homof\u00f3bicas, machistas \u00e9 de firme rep\u00fadio, den\u00fancia e execra\u00e7\u00e3o&#8221;, avalia Reginaldo. &#8220;Creio que \u00e9 diferente tratar de textos e autores contempor\u00e2neos e de textos e autores do passado, embora para mim o racismo seja execr\u00e1vel, um cancro maligno, no s\u00e9culo 19, no s\u00e9culo 20 e nos dias atuais.&#8221;<\/p>\n<p>Ela ressalta, contudo, que como historiadora, l\u00ea obras que formularam e propagaram ideias racistas. &#8220;S\u00e3o fontes de pesquisa. Por exemplo, como dever de of\u00edcio e tamb\u00e9m por interesse, li mais de uma vez o livro Africanos do Brasil, de Raimundo Nina Rodrigues. Este e outros livros deste autor s\u00e3o fundamentais para a compreens\u00e3o do ide\u00e1rio racista que est\u00e1 na base do pensamento social brasileiro do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX. Mas a obra de Rodrigues informa muito mais, por exemplo, para os estudiosos das religi\u00f5es afro-brasileiras e dos africanos no Brasil. Um olhar cr\u00edtico sobre estas produ\u00e7\u00f5es me permite analisar texto e contexto; singularidades, di\u00e1logos intelectuais, sub-textos. Poderia dizer o mesmo sobre cl\u00e1ssicos da literatura ocidental e brasileira. A\u00ed tamb\u00e9m se inscreve parte da pol\u00eamica e resist\u00eancia sobre o reconhecimento do racismo na obra de Monteiro Lobato. Querem lhe preservar uma aura insustent\u00e1vel e, quero crer, desnecess\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 janeiro do ano passado, quando Monteiro Lobato entrou em dom\u00ednio p\u00fablico, a Globo detinha a exclusividade da publica\u00e7\u00e3o de suas obras \u2014 de acordo com Palermo, foram 7 milh\u00f5es de livros vendidos, considerando todo o cat\u00e1logo do escritor, nos \u00faltimos 12 anos. As insinua\u00e7\u00f5es preconceituosas de Lobato n\u00e3o se restringem ao romance\u00a0<i>O Presidente Negro<\/i>. Est\u00e3o presente em toda a sua obra, inclusive nos cl\u00e1ssicos infantis que comp\u00f5em a cole\u00e7\u00e3o\u00a0<i>S\u00edtio do Picapau Amarelo<\/i>.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Obras infantis<\/h2>\n<p>&#8220;Metaforicamente, podemos dizer que Narizinho e Pedrinho tinham duas av\u00f3s. A de sangue, que incessantemente buscava repassar seu conhecimento formal para seus netos. E a tia Nast\u00e1cia que era a respons\u00e1vel pelos ensinamentos advindos de sua experi\u00eancia de vida. As duas av\u00f3s eram igualmente importantes na cria\u00e7\u00e3o e na forma\u00e7\u00e3o de seus &#8216;netos&#8217;. As refer\u00eancias \u00e0 tia Nast\u00e1cia na obra refletem o pensamento da \u00e9poca e isso nos choca tremendamente hoje&#8221;, analisa Palermo, sobre o universo infantil de Lobato.<\/p>\n<p>A Companhia das Letras, outra editora que tem publicado obras de Lobato, afirma \u00e0 reportagem que opta por notas de rodap\u00e9 para que os mediadores da leitura \u2014 sejam eles professores, sejam eles pais \u2014 contextualizem a quest\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as. &#8220;Ficou estabelecido que todos os livros viriam com notas que pudessem contribuir \u00e0s discuss\u00f5es das quest\u00f5es problem\u00e1ticas da obra dele&#8221;, afirma a assessoria de comunica\u00e7\u00e3o da editora.<\/p>\n<p>Sobre\u00a0<i>O Presidente Negro<\/i>, a editora afirma que a pol\u00eamica obra &#8220;n\u00e3o est\u00e1 e n\u00e3o estar\u00e1 em cat\u00e1logo&#8221;.<\/p>\n<p>O racismo na obra infantil de Monteiro Lobato chegou at\u00e9 o Supremo Tribunal Federal. A hist\u00f3ria come\u00e7ou em 2010, quando o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE) determinou que o livro\u00a0<i>Ca\u00e7adas de Pedrinho<\/i>\u00a0n\u00e3o fosse mais disponibilizado \u00e0s escolas do sistema p\u00fablico, por conta do conte\u00fado racista. &#8220;Tia Nast\u00e1cia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carv\u00e3o&#8221; e &#8220;N\u00e3o vai escapar ningu\u00e9m \u2014 nem Tia Nast\u00e1cia, que tem carne preta&#8221; foram trechos utilizados para justificar a medida.<\/p>\n<p>Diante de recurso do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, o caso chegou ao Supremo. Os debates foram encerrados apenas no m\u00eas passado.<\/p>\n<p>&#8220;Tratava-se de mandado de seguran\u00e7a do STF com o qual se pretendia obter indiretamente a anula\u00e7\u00e3o de pareceres do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o. Referidos pareceres trataram da aquisi\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o destinados ao Programa Nacional Biblioteca na Escola. Alegavam os impetrantes que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, ao autorizar a aquisi\u00e7\u00e3o de livros que contenham express\u00f5es refor\u00e7adores de estere\u00f3tipos raciais, viola frontalmente as normas gerais da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e a legisla\u00e7\u00e3o internacional sobre o racismo&#8221;, contextualiza \u00e0 BBC News Brasil o jurista Carlos Ari Sundfeld, professor da FGV-Direito.<\/p>\n<p>&#8220;A tentativa de proibir os livros de Lobato parece estar baseada na ideia de que a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria n\u00e3o poderia, sob pena de praticar crime, tratar do racismo sem fazer sua cr\u00edtica expl\u00edcita. \u00c9 uma vis\u00e3o que reclama que toda literatura, para ser l\u00edcita, seja militante. A vis\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel em fun\u00e7\u00e3o de nosso grave problema, n\u00e3o superado, com o racismo. Mas n\u00e3o h\u00e1 fundamento jur\u00eddico para a proibi\u00e7\u00e3o de livros em casos assim, o que seria incompat\u00edvel com a liberdade, um valor fundamental, cuja preval\u00eancia justifica uma orienta\u00e7\u00e3o muito restritiva quanto ao poder de o Estado intervir no mundo das palavras&#8221;, afirma Sundfeld.<\/p>\n<p>&#8220;Para que se pro\u00edba a circula\u00e7\u00e3o de um livro n\u00e3o basta que ele incorpore, nos personagens, nas situa\u00e7\u00f5es, nas frases ou nas palavras, algum tipo de elemento que, sem conden\u00e1-lo, remeta ao racismo. \u00c9 preciso que se trate de um caso extremo, dif\u00edcil, ali\u00e1s, de ocorrer em obras apenas liter\u00e1rias, de apologia e incita\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca e grave ao racismo.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8F82\/production\/_112983763_c831e5f4-2ef3-446f-bc88-d894ce600e63.jpg\" alt=\"PDFs da capa de Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho\" width=\"552\" height=\"826\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\">&#8220;As refer\u00eancias \u00e0 tia Nast\u00e1cia em &#8216;Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho&#8217; refletem o pensamento da \u00e9poca e isso nos choca tremendamente hoje&#8221;, analisa o editor Mauro Palermo<\/figure>\n<p>O assunto foi encerrado no Supremo em 22 de maio, mas sem julgar o m\u00e9rito. &#8220;O STF entendeu que n\u00e3o lhe cabia analisar o assunto, pois o que se estava impugnando era o ato de homologa\u00e7\u00e3o, pelo Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, desses pareceres. Mas o STF n\u00e3o tem compet\u00eancia origin\u00e1ria para julgar mandados de seguran\u00e7a contra atos de ministros de Estado&#8221;, explica o jurista.<\/p>\n<p>Especialistas e educadores acreditam que a obra infantil de Lobato deve ser lida e debatida em escolas. &#8220;N\u00e3o se trata de retirar suas obras do mercado. Muito melhor do que isso \u00e9 que a obra venha acompanhada por notas que problematizem a quest\u00e3o do racismo&#8221;, defende Schwarcz. &#8220;Sempre acho que em hist\u00f3ria precisamos problematizar esses termos para que eles n\u00e3o passem &#8216;em branco&#8217;, com muitas aspas. \u00c9 preciso fazer com que fique evidente o racismo presente nessa obra, isso \u00e9 fazer muito mais do que censurar o autor.&#8221;<\/p>\n<p>Ela defende a necessidade de, no ambiente escolar, formar e informar os professores, para que eles saibam como tratar livros assim. &#8220;Que o professor alerte o aluno a todo momento em que houver personagens ou situa\u00e7\u00f5es ou contextos racistas. Chamar a aten\u00e7\u00e3o, perguntar por que a Tia Nast\u00e1cia tinha apenas saberes localizados enquanto os personagens brancos conheciam hist\u00f3ria, ci\u00eancia, civiliza\u00e7\u00e3o. Por que personagens negros foram descritos a partir de seus bei\u00e7os alargados e sua cor, enquanto os brancos, n\u00e3o, como se brancura fosse uma n\u00e3o cor. Minha atitude como professora nunca \u00e9 de censura, e sim de interpelar essas narrativas com outras quest\u00f5es, que s\u00e3o as quest\u00f5es do nosso momento&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Os livros de Lobato devem estar em cat\u00e1logo, com notas de rodap\u00e9&#8221;, prossegue. &#8220;E essas notas precisam servir de gatilho para que a classe discuta a quest\u00e3o do racismo no Brasil. Isso \u00e9 fundamental em um pa\u00eds que vive um racismo estrutural e institucional.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Sou favor\u00e1vel \u00e0s edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas&#8221;, complementa Reginaldo. &#8220;Parece que h\u00e1 algumas iniciativas nesse sentido neste momento, o que mostra a import\u00e2ncia e resson\u00e2ncia do debate iniciado em 2010. H\u00e1 tempos, circula uma nota cr\u00edtica nas\u00a0<i>Ca\u00e7adas de Pedrinho<\/i>\u00a0sobre a proibi\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a das on\u00e7as. Num artigo publicado em 2010, Ana Maria Gon\u00e7alves chama a aten\u00e7\u00e3o para a a mea culpa de Lobato reconhecendo seu preconceito contra os camponeses representados pelo personagem Jeca Tatu, que foi incorporado na quarta edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i><i>.\u00a0<\/i>Mas como j\u00e1 confessei em outra ocasi\u00e3o, ao ler\u00a0<i>Ca\u00e7adas de Pedrinho<\/i>\u00a0e outros para meu filho com ent\u00e3o 6 anos, me vi na obriga\u00e7\u00e3o de m\u00e3e de proteg\u00ea-lo. Editei e omiti termos que me soavam impronunci\u00e1veis. Mas sei que isso tamb\u00e9m foi praxe nas vers\u00f5es televisivas do\u00a0<i>S\u00edtio do Picapau Amarelo<\/i>.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Import\u00e2ncia de Lobato para crian\u00e7as<\/h2>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho nenhuma ressalva \u2014 na verdade acho fundamental \u2014 que se publique a obra de Lobato na \u00edntegra. Lobato deve ser lido&#8221;, comenta Reginaldo.<\/p>\n<p>&#8220;Como historiadora, vejo a\u00ed uma fonte preciosa para os estudiosos e para reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o Brasil. Com outras preocupa\u00e7\u00f5es e recursos anal\u00edticos, em raz\u00e3o do seu valor liter\u00e1rio \u2014 que ali\u00e1s, aqui n\u00e3o se discute, tamb\u00e9m \u00e9 fonte para os estudiosos da literatura e de outras \u00e1reas. No ambiente escolar, especialmente para jovens e adolescentes, acompanhado de boas edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, pode ser lido. Mas nas m\u00e3os do p\u00fablico infantil, no qual a literatura \u00e9 sobretudo express\u00e3o do l\u00fadico, mas que ao mesmo tempo introjeta valores, creio que n\u00e3o se pode ignorar o debate que vem sendo feito desde 2010, pelo menos. Ouvi muita gente dizendo que leu Lobato na inf\u00e2ncia e n\u00e3o se tornou racista. Mas acho que, por meio de processos indiretos sem \u00f3dio, sem trucul\u00eancia, podem ter aprendido a naturalizar as hierarquias raciais, se colocarem como personagens centrais e protagonistas da hist\u00f3ria, tornado-se, por conseguinte, insens\u00edveis \u00e0s dores e humilha\u00e7\u00f5es alheias. Defender ardorosamente a aura de Lobato \u00e9 um lugar de privil\u00e9gio!&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B692\/production\/_112983764_30c22fb8-6075-46ed-9f55-a631162bfa68.jpg\" alt=\"Imagem de divulga\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie do S\u00edtio do Picapau Amarelo, remake dos anos 2001 a 2007\" width=\"675\" height=\"449\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">S\u00e9rie do S\u00edtio do Picapau Amarelo, remake feito pela TV Globo dos anos 2001 a 2007<\/figure>\n<p>Para a especialista em Educa\u00e7\u00e3o Infantil Clarissa Brito, \u00e9 preciso atentar para o fato de que express\u00f5es da obra de Lobato \u2014 como &#8220;negra cor de lodo&#8221;, &#8220;carne preta&#8221; ou pr\u00f3prio uso do termo &#8220;negra&#8221; no vocativo \u2014 sejam compreendidas como ferramenta de reprodu\u00e7\u00e3o do racismo. Ela defende que as obras do autor sejam utilizadas em escolas, mas n\u00e3o na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, tampouco nas s\u00e9ries iniciais do Ensino Fundamental. \u00c9 para alunos mais maduros, opina.<\/p>\n<p>&#8220;Monteiro Lobato pode atravessar salas de aula no momento em que s\u00e3o estudadas as marcas da opress\u00e3o colonial e os recursos pol\u00edticos, sociais e econ\u00f4micos para a perpetua\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o racial&#8221;, defende ela.<\/p>\n<p>&#8220;Acredito que as crian\u00e7as n\u00e3o precisam entrar em di\u00e1logo com uma obra que por anos vem estigmatizando figuras negras, reproduzindo um imagin\u00e1rio social que agride a estima de tantos homens e mulheres negras&#8221;, completa. &#8220;Vejo a iniciativa de coment\u00e1rio e notas, como uma quest\u00e3o forte que assola nossa sociedade, que s\u00e3o os recursos que tratam de minimizar o racismo e buscar caminhos de n\u00e3o legitimar o crime de inj\u00faria racial.&#8221;<\/p>\n<p>Editor da Globo Livros, Palermo acredita que livros de Lobato, sejam os infantis, seja o pol\u00eamico\u00a0<i>O Presidente Negro<\/i>, &#8220;podem ser usados como subs\u00eddio \u00e0 discuss\u00e3o do racismo em escolas&#8221;. &#8220;Proibir me parece a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia&#8221;, comenta ele. &#8220;Entender o passado \u00e9 o melhor atalho para mudarmos o presente e melhorarmos o futuro.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na bagagem carregava sua esperan\u00e7a: o romance\u00a0O Presidente Negro\u00a0\u2014 originalmente\u00a0O Choque das Ra\u00e7as\u00a0ou\u00a0O Presidente Negro. 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