{"id":323524,"date":"2020-07-01T10:51:21","date_gmt":"2020-07-01T13:51:21","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=323524"},"modified":"2020-07-01T10:51:21","modified_gmt":"2020-07-01T13:51:21","slug":"quando-as-estatuas-caem-do-pedestal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quando-as-estatuas-caem-do-pedestal\/","title":{"rendered":"Quando as est\u00e1tuas caem do pedestal"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">Revis\u00e3o de monumentos nos EUA como parte da onda antirracista acende o debate sobre a conveni\u00eancia de julgar o passado com os olhos do presente<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/vNjcvoPUHUAE7CKhEbd5gxakNmU=\/1500x0\/filters:focal(1315x428:1325x438)\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/TKRIPZ5WXBEXVJOCYLBJPKYZ3I.jpg\" alt=\"Imagem de Harriet Tubman projetada sobre uma est\u00e1tua do general confederado Robert E. Lee em Richmond, na Virg\u00ednia, em 20 de junho.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Imagem de Harriet Tubman projetada sobre uma est\u00e1tua do general confederado Robert E. Lee em Richmond, na Virg\u00ednia, em 20 de junho.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">JAY PAUL \/ REUTERS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center \"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Pablo Xim\u00e9nez de Sandoval\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/pablo-ximenez-de-sandoval\/\">PABLO XIM\u00c9NEZ DE SANDOVAL<\/a><\/span><span class=\"color_gray_medium_lighter margin_right normal\">|<\/span><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Carmen Mor\u00e1n Bre\u00f1a\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/carmen-moran-brena\/\">CARMEN MOR\u00c1N BRE\u00d1A<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Na sexta-feira passada, foi a vez de John Wayne. O Partido Democrata do condado de Orange, um reduto republicano ao sul de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/los-angeles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Los Angeles<\/a>, na Calif\u00f3rnia, apresentou uma resolu\u00e7\u00e3o para pedir que o aeroporto regional deixe de se chamar John Wayne. O ator, argumentam, era racista e deixou isso muito claro em uma conhecida entrevista em que disse: \u201cAcredito no supremacismo branco enquanto os negros n\u00e3o forem educados at\u00e9 alcan\u00e7ar certo n\u00edvel de responsabilidade\u201d. O condado de Orange \u00e9 hoje um lugar diverso, que n\u00e3o tem nada que ver com o que era em 1979, quando batizou seu aeroporto com o nome do ator, pondo no sagu\u00e3o uma est\u00e1tua dele vestido de caub\u00f3i. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o nome do Aeroporto John Wayne \u00e9 questionado. Mas, pela primeira vez, \u00e9 pertinente se perguntar por quanto tempo mais\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-12\/estatuas-de-colombo-sao-o-novo-alvo-do-movimento-revisionista-nos-eua.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">a est\u00e1tua permanecer\u00e1 naquele local<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Porque o pedido surge num contexto em que uma maioria nos Estados Unidos parece n\u00e3o estar disposta a tolerar a m\u00ednima ambiguidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-21\/estados-unidos-tres-crises-capitais-para-um-pais-em-chamas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">onda de indigna\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0provocada pela morte de George Floyd desatou uma corrente de den\u00fancias e protestos similar ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/babelia\/2020-06-12\/bernardine-evaristo-o-black-lives-matter-e-o-metoo-ja-mudaram-a-sociedade.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Me Too<\/a>, s\u00f3 que antirracista. O resultado mais vis\u00edvel est\u00e1 sendo a queda dos pedestais ou a destrui\u00e7\u00e3o de est\u00e1tuas que simbolizam um racismo institucional que est\u00e1 enraizado nos EUA desde a sua funda\u00e7\u00e3o. Ataca-se o racismo em sua vertente mais monstruosa, a escravid\u00e3o, representada pelas est\u00e1tuas dos l\u00edderes confederados que lutaram na Guerra de Secess\u00e3o; e tamb\u00e9m em sua vertente mais aned\u00f3tica, como poderiam ser vistas essas opini\u00f5es xen\u00f3fobas de um ator.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/kZZxFRpU8gPjD-W4HPjIJu-uKdY=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/EOUQGYEWUBBBBDLLL4JRRTR5IM.jpg\" alt=\"A est\u00e1tua de John Wayne no aeroporto em homenagem a ele em Santa Ana, Calif\u00f3rnia.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">A est\u00e1tua de John Wayne no aeroporto em homenagem a ele em Santa Ana, Calif\u00f3rnia.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">MARIO TAMA \/ AFP<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 uma esp\u00e9cie de f\u00faria coletiva\u201d, diz Roberto Ignacio D\u00edaz, professor de Literatura Hisp\u00e2nica da Universidade do Sul da Calif\u00f3rnia e especialista na heran\u00e7a espanhola na Am\u00e9rica do Norte. \u201cN\u00e3o em um sentido negativo. \u00c9 uma rebeli\u00e3o em sentido positivo e \u00e9pico.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Nesta rebeli\u00e3o, todas as homenagens p\u00fablicas est\u00e3o sendo questionadas. Come\u00e7ou-se atacando figuras racistas \u00f3bvias, como o general Robert E. Lee (l\u00edder do Ex\u00e9rcito confederado que se rebelou contra Washington para manter a institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o). Mas logo se estendeu a outras mais amb\u00edguas. Agora est\u00e3o sendo questionadas figuras como George Washington e Thomas Jefferson, que foram donos de escravos. A Universidade de Princeton decidiu no s\u00e1bado retirar o nome do presidente Woodrow Wilson de uma de suas faculdades, pois esse presidente norte-americano que assinou o Tratado do Versalhes tinha posi\u00e7\u00f5es racistas indefens\u00e1veis. Uma est\u00e1tua equestre de Theodore Roosevelt em frente ao Museu de Hist\u00f3ria Natural de Nova York ser\u00e1 retirada por mostrar o ex-presidente acompanhado de um ind\u00edgena e um negro seminus.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, a heran\u00e7a espanhola nos Estados Unidos tamb\u00e9m est\u00e1 sendo apontada. No fim de semana retrasado, uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o racismo derrubou uma est\u00e1tua do frade Jun\u00edpero Serra (fundador das primeiras miss\u00f5es da Calif\u00f3rnia) em San Francisco. No dia seguinte, um pequeno grupo fez o mesmo em Los Angeles. Dias antes, um grupo havia tentado tirar \u00e0 for\u00e7a a est\u00e1tua do conquistador Juan de O\u00f1ate em Albuquerque, no Novo M\u00e9xico. Os que atacam estas est\u00e1tuas s\u00e3o ativistas ind\u00edgenas que v\u00eam h\u00e1 anos pedindo sua retirada. \u201cOs povos ind\u00edgenas sentem que eles tamb\u00e9m s\u00e3o parte dessa hist\u00f3ria de repress\u00e3o, embora seja menos vis\u00edvel\u201d, observa D\u00edaz.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A est\u00e1tua de Serra no centro de Los Angeles foi derrubada por um pequeno grupo em 30 segundos, amarrando uma corda ao pesco\u00e7o da figura. Entre esses ativistas estava Jessa Calder\u00f3n, artista e ativista ind\u00edgena. \u201cIsto \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o do fechamento das feridas do nosso povo\u201d, disse ela quando a est\u00e1tua caiu. Calder\u00f3n considera que a hist\u00f3ria das miss\u00f5es cat\u00f3licas na Calif\u00f3rnia \u00e9 de horror, brutalidade e opress\u00e3o para impor aos ind\u00edgenas a religi\u00e3o e as leis de outro Continente. \u201cPara n\u00f3s, ver essa est\u00e1tua \u00e9 como se um judeu fosse obrigado a passar todos os dias diante de uma est\u00e1tua de Hitler. Isso \u00e9 Serra para mim\u201d, diz Calder\u00f3n ao EL PA\u00cdS.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/XVjkJjUNJmyFni2Vi7MyzCXVIn4=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/3V2X2LCGABCYPEM3OCV3V7P6RY.jpg\" alt=\"A est\u00e1tua de Jun\u00edpero Serra no Golden Gate Park, em San Francisco, depois de ser demolida.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">A est\u00e1tua de Jun\u00edpero Serra no Golden Gate Park, em San Francisco, depois de ser demolida.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">DAVID ZANDMAN \/ REUTERS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O movimento contra frei Jun\u00edpero pode ser pequeno, mas ocorre no contexto de uma mudan\u00e7a profunda na forma como os Estados Unidos homenageiam seus personagens hist\u00f3ricos e a forma como escuta as vozes minorit\u00e1rias desse relato. Ser\u00e3o algumas dezenas de pessoas as que derrubam as est\u00e1tuas, mas est\u00e3o fazendo isso num momento t\u00e3o intenso que nem a Prefeitura de Los Angeles, nem o condado, nem o Estado da Calif\u00f3rnia se pronunciaram sobre a destrui\u00e7\u00e3o de propriedade p\u00fablica transmitida via Twitter. Nem um s\u00f3 agente de pol\u00edcia apareceu na manifesta\u00e7\u00e3o. O mesmo est\u00e1 acontecendo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-29\/mississippi-aprova-retirada-de-simbolo-confederado-da-sua-bandeira.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">com os s\u00edmbolos confederados<\/a>. Quando\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-12\/trump-se-posiciona-contra-o-movimento-de-revisao-da-simbologia-racista-dos-estados-unidos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Donald Trump se mostra indignado<\/a>\u00a0e amea\u00e7a os manifestantes, est\u00e1 muito sozinho.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Manisha Sinha, professora de Hist\u00f3ria da Universidade de Connecticut e autora de um livro sobre a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura nos EUA, participa h\u00e1 anos do movimento para retirar as est\u00e1tuas da Confedera\u00e7\u00e3o. \u201cA \u00fanica coisa que elas representam \u00e9 o triunfo do supremacismo branco no Sul depois da Guerra de Secess\u00e3o\u201d, diz Sinha. \u201cDepois a discuss\u00e3o foi se ampliando e passou a incluir outras figuras que tiveram um papel not\u00f3rio na escravid\u00e3o dos nativos norte-americanos, como a do conquistador do Novo M\u00e9xico, O\u00f1ate. O que estamos fazendo nos Estados Unidos \u00e9 revisar as est\u00e1tuas que temos do s\u00e9culo XIX e pensar se representarem a democracia multicultural que s\u00e3o os EUA hoje.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um elemento de caos em tudo isto que n\u00e3o responde a nenhuma l\u00f3gica. Quem derruba as est\u00e1tuas muitas vezes s\u00e3o pequenos grupos que, embora tenham come\u00e7ado protestando contra a brutalidade policial, t\u00eam uma motiva\u00e7\u00e3o cada vez mais ampla e difusa. Em San Francisco, por exemplo, o grupo que derrubou a est\u00e1tua de frei Jun\u00edpero danificou de passagem com picha\u00e7\u00f5es todo o conjunto ornamental do Golden Gate Park, que inclui um monumento a Miguel de Cervantes. N\u00e3o consta que ningu\u00e9m tenha nada contra o autor de Dom Quixote. Em Madison, Wisconsin, os manifestantes derrubaram uma est\u00e1tua de Hans Christian Heg, um abolicionista que lutou contra a escravid\u00e3o e morreu lutando ao lado da Uni\u00e3o contra os Confederados.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cSou parte do movimento para retirar as est\u00e1tuas e sempre nos criticaram por isso de que acabar\u00edamos derrubando todas. Usam incidentes isolados. Mas o movimento \u00e9 s\u00f3 contra as figuras realmente problem\u00e1ticas\u201d. Essas, para Sinha, \u201cs\u00e3o as da Confedera\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cEu poria o limite nas est\u00e1tuas de Jefferson e Washington. Fizeram coisas em vida que t\u00eam valor. Se essas est\u00e1tuas representarem algo no legado dessa gente que podemos valorizar como pa\u00eds em nossa \u00e9poca, devem ser conservadas.\u201d<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/eS64W3B_E9ayK_SXOLg_Bjrwc40=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/PO7NKPZORFBSTJIXAEZUK6HBCY.jpg\" alt=\"A est\u00e1tua do Presidente Theodore Roosevelt no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Nova York.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">A est\u00e1tua do Presidente Theodore Roosevelt no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Nova York.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">DAVID DEE DELGADO \/ AFP<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Entre os personagens mais perseguidos nos EUA nos \u00faltimos dias est\u00e1 Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, que, apesar de nunca ter posto os p\u00e9s na Am\u00e9rica do Norte, \u00e9 considerado um s\u00edmbolo de todo o sofrimento que o choque com a conquista europeia trouxe para os ind\u00edgenas do continente. Nos EUA, Colombo n\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo espanhol, e sim italiano (nasceu em G\u00eanova), e a maioria de suas est\u00e1tuas foi erguida na d\u00e9cada de 1920. Era uma maneira de a comunidade italiana se integrar \u00e0 hist\u00f3ria do pa\u00eds. J\u00e1 na Am\u00e9rica Latina ele \u00e9 visto como um s\u00edmbolo espanhol, e n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pol\u00eamico.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No caso da heran\u00e7a espanhola nos EUA, os valores variam inclusive de um lado a outro do pa\u00eds. \u201cMinha m\u00e3e est\u00e1 em Miami preocupad\u00edssima de que derrubem a est\u00e1tua de Ponce de Le\u00f3n [explorador espanhol da Fl\u00f3rida]\u201d, conta o professor D\u00edaz, de origem cubana. O ex-embaixador espanhol Javier Vallaure serviu como c\u00f4nsul nos dois extremos, Miami e Los Angeles, e concorda que \u201ccertamente, com rela\u00e7\u00e3o ao legado da Espanha, Miami \u00e9 mais c\u00f4moda e tranquila, e LA \u00e9 mais agitada e hostil\u201d. Em sua experi\u00eancia, \u201ca primeira \u00e9 menos revisionista e a segunda \u00e9 mais indigenista \u2015curiosamente, que grande paradoxo, ati\u00e7ada por descendentes de colonos brancos\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O movimento revisionista \u00e9 muito difuso e n\u00e3o faltam exemplos de paradoxos como o que Vallaure aponta, dependendo de quem estiver \u00e0 frente da manifesta\u00e7\u00e3o. A Universidade Stanford decidiu em 2018 retirar o nome de Jun\u00edpero Serra de seu campus. Entretanto, os pitorescos claustros do campus foram constru\u00eddos justamente tendo as miss\u00f5es cat\u00f3licas da Calif\u00f3rnia como inspira\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o governador Leland Stanford promoveu e financiou ca\u00e7adas a ind\u00edgenas quase um s\u00e9culo depois de Serra. N\u00e3o h\u00e1 planos de que a universidade mude de nome.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Todos os professores consultados est\u00e3o de acordo em aceitar a ira que leva \u00e0 derrubada das est\u00e1tuas, pois o debate nunca p\u00f4de ser aberto por outros canais democr\u00e1ticos. E o fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 exclusivo dos EUA. A Espanha precisou de 30 anos de digest\u00e3o democr\u00e1tica, at\u00e9 2005, para retirar uma est\u00e1tua equestre do ditador Francisco Franco do centro de Madri. Ativistas poderiam ter passado um la\u00e7o no pesco\u00e7o da est\u00e1tua para derrub\u00e1-la? Talvez. Possivelmente a rea\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria teria sido semelhante \u00e0 rea\u00e7\u00e3o do establishment dos Estados Unidos diante da retirada dos monumentos confederados: j\u00e1 era hora. N\u00e3o \u00e9 a forma ideal, mas ningu\u00e9m se op\u00f5e. N\u00e3o parece que algu\u00e9m esteja disposto a brigar para devolv\u00ea-las aos seus pedestais.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Assim foi, tamb\u00e9m, em 2019, com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/10\/23\/internacional\/1571826925_555416.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">exuma\u00e7\u00e3o de Franco do Vale dos Ca\u00eddos<\/a>, um mausol\u00e9u constru\u00eddo com o trabalho for\u00e7ado de prisioneiros pol\u00edticos e profundamente ofensivo para muitos espanh\u00f3is. O corpo do caudilho passou 44 anos ali. Quase um ano depois da exuma\u00e7\u00e3o, \u00e9 como se nunca tivesse acontecido. \u201cQuem se ocupa da hist\u00f3ria deve ser revisionista sempre\u201d, resume Erika Pani, historiadora do Col\u00e9gio do M\u00e9xico. A hist\u00f3ria se atualiza, \u201ccomo se atualiza a medicina\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cOlhando friamente, derrubar est\u00e1tuas \u00e9 vandalismo\u201d, conclui o professor D\u00edaz. \u201cMas a hist\u00f3ria pode fazer que isto acabe sendo como a Revolta do Ch\u00e1 de Boston, que tamb\u00e9m era vandalismo, mas hoje \u00e9 um fato \u00e9pico\u201d. Para D\u00edaz, a reflex\u00e3o a ser feita \u00e9 \u201cat\u00e9 que ponto se pode continuar vendo as est\u00e1tuas como monumentos. Derrub\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 apagar a hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria se escreve nos livros. O monumento, em geral, serve para homenagear os fatos dos quais um pa\u00eds est\u00e1 orgulhoso e sobre os quais deseja refletir\u201d. A professora Sinha resume a quest\u00e3o em uma frase: \u201cA Hist\u00f3ria \u00e9 muito complexa, e as est\u00e1tuas s\u00e3o a pior forma de cont\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revis\u00e3o de monumentos nos EUA como parte da onda antirracista acende o debate sobre a conveni\u00eancia de julgar o passado com os olhos do presente<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":323525,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-323524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ruseld.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/323524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=323524"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/323524\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/323525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=323524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=323524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=323524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}