{"id":323526,"date":"2020-07-02T00:52:18","date_gmt":"2020-07-02T03:52:18","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=323526"},"modified":"2020-07-01T10:54:07","modified_gmt":"2020-07-01T13:54:07","slug":"o-dia-em-que-dali-se-vestiu-de-almirante-para-receber-franco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-dia-em-que-dali-se-vestiu-de-almirante-para-receber-franco\/","title":{"rendered":"O dia em que Dal\u00ed se vestiu de almirante para receber Franco"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \">Di\u00e1rios in\u00e9ditos do colecionador Reynolds Morse revelam os canos que o ditador deu no artista, que se prestou a apoiar a imagem pretensamente modernizadora da ditadura<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/5nCE1jT1MCfGB-XDVGhRQ_0MaMY=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/4SUBBPC7CZBJ7NWHTDS5OOMJTQ.jpg\" alt=\"Carmen Polo, Franco e Dal\u00ed no castelo de Peralada em 1970.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Carmen Polo, Franco e Dal\u00ed no castelo de Peralada em 1970.<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\">JOSEP MASSOT\/<\/span>Palma De Mallorca<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">Os di\u00e1rios do\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/diario\/1989\/01\/27\/cultura\/601858809_850215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">colecionador Reynolds Morse<\/a>, in\u00e9ditos at\u00e9 para os bi\u00f3grafos de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/salvador-dali\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Salvador Dal\u00ed<\/a>, jogam nova luz sobre as rela\u00e7\u00f5es pessoais entre o pintor catal\u00e3o e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/francisco-franco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Francisco Franco<\/a>. Nos anos sessenta, Morse, que costumava anotar suas conversas com o artista, perguntou-lhe se temia ser fuzilado caso triunfasse uma revolu\u00e7\u00e3o na Espanha e Franco morresse. \u201cSim, assim como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/09\/cultura\/1470752926_203992.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">os camponeses ignorantes mataram Lorca<\/a> (&#8230;). Sua morte foi uma trag\u00e9dia. Teve um caso com um menino em um povoado, as pessoas ficaram furiosas e o fuzilaram\u201d, respondeu. \u201cTenho certeza absoluta de que, se eu n\u00e3o tivesse sa\u00eddo da Espanha antes da guerra, agora estaria morto\u201d, confessou outro dia a Morse um comprador dedicado da obra do pintor, cuja cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 no Salvador Dal\u00ed Museum em St. Petersburg, Fl\u00f3rida (EUA).<\/p>\n<p class=\"\">O franquismo recompensou com honras, louvores e exposi\u00e7\u00f5es a colabora\u00e7\u00e3o ativa do artista, que voltou dos EUA para a Espanha em 1948. Mas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/21\/cultura\/1500616779_353229.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">faltava a Dal\u00ed o reconhecimento pessoal<\/a>\u00a0de Franco, que deu o cano no pintor em duas ocasi\u00f5es e o fez esperar oito anos, at\u00e9 1956, como demonstram os di\u00e1rios de Morse, conservados nos Arquive of American Art do Smithsonian. \u201cSou o s\u00edmbolo que mostra a toler\u00e2ncia de Franco\u201d, disse Dal\u00ed a Morse.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\"><\/div>\n<p class=\"\">A escolha de sua pintura cl\u00e1ssica\u00a0<i>A Cesta de P\u00e3o<\/i>\u00a0como imagem para o Plano Marshall, gra\u00e7as \u00e0 capa de fevereiro de 1948 da\u00a0<i>The Week Magazine<\/i>, revista com tiragem de 15 milh\u00f5es de exemplares, mostrou Dal\u00ed como um pintor virtuoso que, amparado no clich\u00ea que associa genialidade com loucura, podia compensar sua vida escandalosa em um momento em que o Governo Truman via franco como uma barreira para o comunismo. Isso ajudou a preparar seu retorno \u00e0 Espanha.<\/p>\n<p class=\"\">Como relatou a Morse, em 1955, com o iate Azor do ditador ancorado na ba\u00eda de Cadaqu\u00e9s, na Catalunha, Dal\u00ed recebeu um emiss\u00e1rio que lhe anunciou a iminente visita de Franco. Policiais foram vistos nas colinas. O pintor fez a barba e, entusiasmado, preparou-se com seu melhor traje: um vistoso uniforme branco de almirante.<\/p>\n<div id=\"\" class=\"f | margin_top\"><\/div>\n<p class=\"\">Dal\u00ed esperou em v\u00e3o pela comitiva o dia inteiro. No dia seguinte, o mesmo emiss\u00e1rio chegou com o mesmo an\u00fancio. O artista repetiu o ritual, aguardando com sua pomposa vestimenta a chegada de Franco, que nunca veio. No terceiro dia, novo aviso com a mesma mensagem. Desta vez, Dal\u00ed j\u00e1 n\u00e3o fez nenhum preparativo nem se enfeitou e, efetivamente, o ditador n\u00e3o apareceu. Franco costumava visitar a \u00e1rea para se encontrar com o influente empres\u00e1rio falangista Miguel Mateu, um de seus assessores mais pr\u00f3ximos, dono do castelo de Peralada e de uma casa na vizinha Garbet.<\/p>\n<p class=\"\">Em 1956, o segundo cano. \u201cDal\u00ed\u201d, sempre segundo o relato de Morse, \u201cfez uma longa viagem a Madri para ver Franco, esperando ansiosamente, dia ap\u00f3s dia, a confirma\u00e7\u00e3o de uma audi\u00eancia que n\u00e3o chegava. Dal\u00ed [acompanhado por Gala] estava ansioso para voltar a Port Lligat e continuar pintando, e assim, depois de tr\u00eas dias, eles retornaram a Port Lligat. Assim que chegaram, mal tinham se instalado quando chegou um telegrama notificando que Franco os receberia. Viajaram rapidamente at\u00e9 Barcelona para pegar o trem, pois Dal\u00ed n\u00e3o gostava de voar\u201d. A reuni\u00e3o ocorreu no pal\u00e1cio de El Pardo em 6 de junho. Foi o primeiro de seus cinco encontros.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\"><\/div>\n<p class=\"\">Dal\u00ed contou a Morse que achou Franco \u201cmuito inteligente e interessado na arte\u201d e elogiou o ditador por ter criado\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/19\/internacional\/1539960952_516966.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u201cuma monarquia com a mesma genialidade<\/a>\u00a0com que Vel\u00e1zquez criou\u00a0<i>As Meninas<\/i>\u201d. \u201cFranco riu um pouco, rejeitando modestamente o g\u00eanio que Dal\u00ed lhe atribu\u00eda, mas o importante \u00e9 que a ideia da monarquia ficou plantada na mente de Franco, pois a Espanha teria de restaurar a monarquia, com Franco como chefe dos ex\u00e9rcitos\u201d, escreveu Morse.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/_Q7qybdGDHEb9qhje6MPQEg5NSk=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/URKSSADYGBHNLEKXLKFVI6D5CQ.jpg\" alt=\"Capa da revista \u2018The Week Magazine\u2019 de fevereiro de 1948 com \u2018A Cesta de P\u00e3o\u2019, obra de Dal\u00ed, para anunciar o Plano Marshall.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Capa da revista \u2018The Week Magazine\u2019 de fevereiro de 1948 com \u2018A Cesta de P\u00e3o\u2019, obra de Dal\u00ed, para anunciar o Plano Marshall.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Morse lembraria por toda sua vida a manh\u00e3 de mar\u00e7o de 1958 em que tocou o telefone de sua casa em Denver, Colorado, e ouviu a voz furiosa de Dal\u00ed do outro lado da linha. O colecionador tinha escrito\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/10\/14\/cultura\/1476463340_245470.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">um artigo sobre Dal\u00ed na revista\u00a0<i>Art in America<\/i><\/a>\u00a0no qual dizia que sua pintura religiosa era uma tentativa de ter boas rela\u00e7\u00f5es com Franco. \u201cNunca pintei para agradar ningu\u00e9m, s\u00f3 a mim mesmo. \u00c9 um z\u00e9-ningu\u00e9m! Um mequetrefe!\u201d, vociferava o artista. \u201cO curso dos acontecimentos me levou do anarquismo ao conservadorismo, do ate\u00edsmo sacr\u00edlego ao maior mundo m\u00edstico. Sou o mesmo de quando era jovem, o que mudou foi o mundo: a Guerra Civil e a bomba at\u00f4mica.\u201d<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">F\u00faria monumental<\/h3>\n<p class=\"\">A f\u00faria monumental do pintor n\u00e3o ocorreu somente porque Morse questionou sua falta de inspira\u00e7\u00e3o ou de autonomia art\u00edstica, mas tamb\u00e9m porque dinamitou seu pacto t\u00e1cito com Franco. Dal\u00ed e sua pintura hist\u00f3rica e religiosa eram o exemplo que o regime expunha no exterior para se contrapor a Picasso, exilado em Paris, e a Mir\u00f3, que, instalado em Mallorca, calava sem ocultar seu antifranquismo.<\/p>\n<p class=\"\">Franco se encontrou com Dal\u00ed pelo menos outras quatro vezes. O pintor contou a Morse detalhes do encontro mantido no castelo de Peralada em 1970. \u201cPrimeiro chegou um helic\u00f3ptero, depois soldados com fuzis, em seguida duas limusines. De uma delas saiu cambaleante um pequeno anci\u00e3o que tinha todo mundo sob seu controle\u201d, e ainda assim, escreve Morse, \u201cnegou-se a fazer a sesta quando todos estavam exaustos\u201d. Dal\u00ed ficou maravilhado com a energia exibida por uma figura t\u00e3o fr\u00e1gil. \u201cTem de ser um m\u00edstico\u201d, disse.<\/p>\n<p class=\"\">Ali mesmo, o pintor fez um r\u00e1pido retrato da esposa de Franco, Carmen Polo, e aceitou pintar outro de sua neta. Dal\u00ed buscaria a interven\u00e7\u00e3o do ditador para obter apoio inclusive financeiro para suas telas de exalta\u00e7\u00e3o m\u00edstica e patri\u00f3tica e para a constru\u00e7\u00e3o do Teatro Museu de Figueres, que vendeu como contraponto \u00e0 abertura do Museu Picasso de Barcelona e como foco de atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica.<\/p>\n<p class=\"\">Dal\u00ed, que se achava muito superior a Picasso e Mir\u00f3, entregou-se com entusiasmo a tirar proveito de sua colabora\u00e7\u00e3o com uma ditadura que precisava usar a cultura como campanha de limpeza de imagem diante das democracias ocidentais. Na inaugura\u00e7\u00e3o da Primeira Bienal de Arte Hispano-Americana, em 1951, h\u00e1 uma foto em que se v\u00ea Franco, de uniforme militar, rindo. O pintor catal\u00e3o Antoni T\u00e0pies contava que a imagem capta o momento em que o ditador recebeu a informa\u00e7\u00e3o de que estava na sala dos artistas revolucion\u00e1rios\u201d, ao que ele respondeu: \u201cAh, tudo bem, enquanto fizerem a revolu\u00e7\u00e3o assim&#8230;\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1rios in\u00e9ditos do colecionador Reynolds Morse revelam os canos que o ditador deu no artista, que se prestou a apoiar a imagem pretensamente modernizadora da ditadura<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":323527,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-323526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/salvador-dali.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/323526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=323526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/323526\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/323527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=323526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=323526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=323526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}