{"id":323865,"date":"2020-07-05T09:26:34","date_gmt":"2020-07-05T12:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=323865"},"modified":"2020-07-05T09:26:34","modified_gmt":"2020-07-05T12:26:34","slug":"filmagem-infernal-e-atores-no-limite-resultado-o-filme-mais-famoso-dos-veroes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/filmagem-infernal-e-atores-no-limite-resultado-o-filme-mais-famoso-dos-veroes\/","title":{"rendered":"Filmagem infernal e atores no limite. Resultado? O filme mais famoso dos ver\u00f5es"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Tubar\u00e3o&#8217; completa 45 anos. Analisamos como um jovem diretor se encarregou de um projeto monumental que fazia \u00e1gua por todos os lados e se tornou um cl\u00e1ssico por suas defici\u00eancias<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/63ZPC7ifpkhmj0rQ-BYwGKrSFrY=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/5NTHGGJVVM6K6P4OGZSPJGK3JQ.jpg\" alt=\"Richard Dreyfuss num momento de afeto com um de seus colegas de elenco, o tubar\u00e3o, durante as filmagens.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Richard Dreyfuss num momento de afeto com um de seus colegas de elenco, o tubar\u00e3o, durante as filmagens.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Juan Sanguino\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/juan-sanguino-santorio\/\">JUAN SANGUINO<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"\">\u201cCome\u00e7amos a filmar sem roteiro, sem atores e sem tubar\u00e3o.\u201d Foi assim que o ator Richard Dreyfuss resumiu uma das filmagens mais m\u00edticas de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/hollywood\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Hollywood<\/a>. Um tubar\u00e3o mec\u00e2nico que n\u00e3o funcionava, uma produ\u00e7\u00e3o que se estendeu de 55 dias para 159 e um or\u00e7amento descontrolado (acabou custando tr\u00eas vezes o que estava previsto) prometiam que\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0seria uma droga que sentenciaria a carreira de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/steven-spielberg\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Steven Spielberg<\/a>. \u201cUma atriz muito famosa me disse: \u2018Acabo de chegar de Los Angeles e todo mundo est\u00e1 falando de como voc\u00ea \u00e9 irrespons\u00e1vel e que ningu\u00e9m nunca mais vai te contratar pelo dinheiro que voc\u00ea est\u00e1 gastando\u2019\u201d, diria o diretor anos depois.<\/p>\n<p class=\"\">Mas, quando estreou, h\u00e1 45 anos, completados agora,\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0se tornou o filme de maior sucesso de todos os tempos e inaugurou uma nova era em Hollywood, um terremoto cultural cujos tremores secund\u00e1rios ainda sentimos.\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0mudou a maneira como o cinema \u00e9 concebido, divulgado e consumido: esta \u00e9 a hist\u00f3ria do primeiro\u00a0<i>blockbuster<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\">Spielberg tinha 27 anos e havia dirigido dois filmes (<i>Encurralado<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Louca Escapada<\/i>) quando assumiu a adapta\u00e7\u00e3o do best-seller de Peter Benchley sobre uma cidade costeira acossada por um tubar\u00e3o branco. Seu erro de principiante foi insistir em rodar no Oceano Atl\u00e2ntico, em vez de em um tanque ou lago particular, para assim conseguir planos amplos em que a \u00fanica coisa que cercasse os protagonistas fosse a imensid\u00e3o. Mas se antes ningu\u00e9m ousara rodar em mar aberto tinha sido por um bom motivo: o sal do mar corro\u00eda os mecanismos do tubar\u00e3o mec\u00e2nico, de 12 toneladas e 7,6 metros, e os 14 operadores encarregados de manobrar o dispositivo n\u00e3o conseguiam faz\u00ea-lo funcionar. E quando conseguiam uma tempestade, um avi\u00e3ozinho ou um navio arruinavam o plano de filmagem.<\/p>\n<p class=\"\">As centenas de horas mortas permitiram, por\u00e9m, que os atores ensaiassem improvisa\u00e7\u00f5es, dando origem a cenas t\u00e3o \u00edntimas como aquela em que o filho de Brody (Roy Scheider) imita todos os seus gestos na hora do jantar. Spielberg e os roteiristas passavam as noites reescrevendo cenas para refor\u00e7ar o componente humano da hist\u00f3ria, repensar o monstro como uma amea\u00e7a invis\u00edvel e encontrar maneiras de rodar n\u00e3o com o tubar\u00e3o mec\u00e2nico, mas apesar dele.<\/p>\n<p class=\"\">Embora as pessoas falem frequentemente sobre \u201ca magia do cinema\u201d ou de \u201cacasos felizes\u201d, o sucesso de produ\u00e7\u00f5es como Tubar\u00e3o est\u00e1 no m\u00e9todo criativo do cineasta para lidar com contratempos. O tubar\u00e3o se tornou um predador psicol\u00f3gico: quase n\u00e3o aparece no filme, mas, como acontecia com o Harry Lime de\u00a0<i>O Terceiro Homem<\/i>\u00a0ou o Hannibal Lecter de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/05\/11\/fotorrelato\/1462967794_756095.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>O Sil\u00eancio dos Inocentes<\/i><\/a>, todos os personagens est\u00e3o obcecados por ele. O terror viria, portanto, n\u00e3o do que o p\u00fablico via, mas do que n\u00e3o via. Do que imaginava.<\/p>\n<p class=\"\">O pr\u00f3logo, com uma garota devorada durante um banho noturno, \u00e9 rodado do ponto de vista do animal. A aus\u00eancia de um tubar\u00e3o levou Spielberg a substitu\u00ed-lo por objetos (quando fica preso a um dique ou a um barril amarelo, isso faz as vezes da amea\u00e7a) ou a mostrar apenas sua barbatana sulcando o mar. E a m\u00fasica de John Williams se encarregaria de dotar o tubar\u00e3o de personalidade. A simplicidade de seu ostinato, inspirado nas cordas afiadas de Bernard Herrmann para\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/28\/cultura\/1530176645_875816.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>Psicose<\/i><\/a>, fincou para sempre no subconsciente coletivo a inquieta\u00e7\u00e3o de nadar em \u00e1guas abertas, tal como 15 anos antes Hitchcock tinha feito com chuveiros em mot\u00e9is.<\/p>\n<p class=\"\">Durante o primeiro teste de exibi\u00e7\u00e3o em Dallas, Spielberg viu sair da sala um espectador que, depois de vomitar no banheiro, voltou para sua poltrona. O efeito de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0era literalmente o mesmo de uma montanha-russa. Quando as pipocas sa\u00edram voando com o sobressalto do p\u00fablico diante da primeira apari\u00e7\u00e3o completa do tubar\u00e3o (enquanto Brody joga despreocupadamente iscas na \u00e1gua, no 80\u00ba minuto do longa), os produtores comprovaram que as pessoas devoravam aquele tubar\u00e3o nojento que tanta dor de cabe\u00e7a lhes havia dado e perceberam que tinham um sucesso em m\u00e3os. A como\u00e7\u00e3o do p\u00fablico durava tanto que mal se escutava a frase que Rob Scheider improvisara para arrematar a cena (\u201cvamos precisar de um barco maior\u201d, que se tornaria a frase mais famosa do filme e uma atitude diante da vida), o que levou a produ\u00e7\u00e3o a aumentar o volume na vers\u00e3o final.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/gHynAXKpZP174Sqol3hLBq16Qqg=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/ZLYNBZQUVNMDQM5HNK2KGMYFDU.jpg\" alt=\"Roy Scheider e Richard Dreyfuss ao lado de um \u201ctubar\u00e3o\u201d.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Roy Scheider e Richard Dreyfuss ao lado de um \u201ctubar\u00e3o\u201d.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Spielberg se viu no controle e quis impactar com um segundo susto. Filmou em uma piscina uma cena adicional em que Hooper encontra a cabe\u00e7a decapitada de um pescador e a inseriu aos 50 minutos do filme, o que levaria o p\u00fablico a passar o resto da sess\u00e3o em estado de tens\u00e3o. \u201cTubar\u00e3o fazia com que os espectadores usassem partes do c\u00e9rebro que n\u00e3o estavam acostumadas a usar, porque s\u00f3 s\u00e3o ativadas diante de um perigo real\u201d, analisou\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/m-night-shyamalan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">M. Night Shyamalan<\/a>\u00a0no document\u00e1rio\u00a0<i>The Shark Is Still Working<\/i>, em um fen\u00f4meno semelhante ao de 1960, quando as primeiras pessoas que viram\u00a0<i>Psicose<\/i>\u00a0fugiram aterrorizadas da sala porque n\u00e3o conseguiam nem sequer conceber que a suposta protagonista morresse em meia hora. Mas o terror de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0era mais l\u00fadico. Na d\u00e9cada de 1970, considerava-se que atacar os sentidos primitivos do p\u00fablico era um truque barato associado \u00e0 s\u00e9rie B (com a qual Spielberg se criara), mas\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0transformou a imagina\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em um produto de consumo e uma forma de arte popular.<\/p>\n<p class=\"\">Durante o teste, os produtores se reuniram no banheiro para poder pensar com clareza sem o burburinho da sala. Lew Wassermann decidiu que, em vez de lan\u00e7ar\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0em 900 cinemas, reduziriam sua exibi\u00e7\u00e3o para 464 (que ainda era um recorde, atualmente ostentado por\u00a0<i>O Rei Le\u00e3o<\/i>, com 4.725 telas, em 2019): \u201cQuero que as pessoas fiquem sem ingressos. Que os moradores de Palm Springs tenham que dirigir at\u00e9 Hollywood, se quiserem v\u00ea-lo. Filas na rua ser\u00e3o a melhor publicidade\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">A campanha promocional empregou estrat\u00e9gias sem precedentes: come\u00e7ou um ano antes da estreia com um trailer (narrado com voz de document\u00e1rio: \u201c\u00c9 como se Deus tivesse criado o diabo e lhe dado &#8230; mand\u00edbulas [t\u00edtulo original do filme em ingl\u00eas]\u201d), apresentou um p\u00f4ster puramente visual em que o t\u00edtulo era quase desnecess\u00e1rio e inseriu an\u00fancios do filme na televis\u00e3o, uma pr\u00e1tica ent\u00e3o in\u00e9dita. Quando estreou, nas ruas s\u00f3 se falava de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\">Seu sucesso demonstrou que os filmes poderiam ser eventos n\u00e3o com o passar de meses e anos, mas antes de seu lan\u00e7amento. Tubar\u00e3o fez do cinema uma experi\u00eancia coletiva, o p\u00fablico come\u00e7ou a aplaudir durante as exibi\u00e7\u00f5es e o filme bateu o recorde mundial de bilheteria com 2,5 bilh\u00f5es de reais, superando em 1,2 bilh\u00e3o o segundo,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/25\/cultura\/1553527664_046647.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>O Poderoso Chef\u00e3o<\/i><\/a>. At\u00e9 o livro que detalha as filmagens, The Jaws Log, foi um best-seller porque, diante das novas tecnologias do cinema, o p\u00fablico sentia uma curiosidade genu\u00edna por descobrir como os filmes eram feitos.<\/p>\n<p class=\"\">Comparado aos\u00a0<i>blockbusters<\/i>\u00a0atuais, claro,\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0\u00e9 cinema de arte e ensaio. O conflito reside na solid\u00e3o dos tr\u00eas personagens principais (h\u00e1 estudos em torno de uma metaf\u00f3rica crise da masculinidade que apontam as mand\u00edbulas do animal como uma vagina simb\u00f3lica, mas Spielberg insiste em que \u201co filme \u00e9 sobre um tubar\u00e3o\u201d). O monstro ataca quatro vezes em duas horas, a ambienta\u00e7\u00e3o se beneficia de rodar com extras an\u00f4nimos, de f\u00edsicos diferentes, para transmitir o caos de qualquer cidade costeira em pleno julho e, apesar da tens\u00e3o (que ocorre no espectador, n\u00e3o no filme), o ritmo narrativo \u00e9 t\u00e3o lento como em qualquer drama europeu.<\/p>\n<p class=\"\"><i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0\u00e9 mais parecido com o movimento da Nova Hollywood de Coppola, Scorsese e Polanski (influenciados pela\u00a0<i>nouvelle vague<\/i>\u00a0francesa e obcecados pela desconfian\u00e7a quase paranoica do indiv\u00edduo ante as autoridades ap\u00f3s as decep\u00e7\u00f5es do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/06\/24\/internacional\/1403639015_846437.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Watergate<\/a>\u00a0e da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/16\/ciencia\/1552710887_506061.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Guerra do Vietn\u00e3<\/a>) do que com\u00a0<i>A Guerra das Estrelas<\/i>, a verdadeira pedra angular do\u00a0<i>blockbuster<\/i>\u00a0porque foi a que pisou no acelerador do cinema, saturou o p\u00fablico com efeitos especiais e ampliou a escala dos cen\u00e1rios onde ocorriam as aventuras de fantasia, um g\u00eanero que a partir de ent\u00e3o seria o de maior bilheteria de Hollywood.<\/p>\n<p class=\"\">Os blockbusters que vieram depois se tornaram mais agitados, mais hipertrofiados e com menos senso de suspense. Nenhuma superprodu\u00e7\u00e3o atual interromperia a a\u00e7\u00e3o para um mon\u00f3logo de seis minutos t\u00e3o melanc\u00f3lico e macabro como o de Quint sobre os soldados devorados por tubar\u00f5es ap\u00f3s o naufr\u00e1gio do USS Indianapolis (\u201cmas pelo menos mandamos a maldita bomba\u201d) justo antes do cl\u00edmax. E \u00e9 dif\u00edcil imaginar outro blockbuster que se transforme em uma aventura crepuscular durante o terceiro ato, quando os tr\u00eas homens embarcam em uma persegui\u00e7\u00e3o que evoca Jonas, o capit\u00e3o Ahab de\u00a0<i>Moby Dick<\/i>\u00a0e o velho e\u00a0<i>O Velho e o Mar<\/i>, de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/21\/cultura\/1508590742_519728.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Hemingway<\/a>, e transforma um filme pipoca em \u201cum extravagante descendente de contos mar\u00edtimos do s\u00e9culo XIX, em que a raiva e a obsess\u00e3o desencadeiam um turbilh\u00e3o de viol\u00eancia\u201d, segundo o relato admirado do cr\u00edtico da The New Yorker David Denby.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/E7orBNqb8bk-RxAosu6VwXzlErw=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/6RTD2TSHIJJLI4EZOEJMAHV3WM.jpg\" alt=\"Esta foto de Steven Spielberg em cima de um tubar\u00e3o n\u00e3o seria do agrado de nenhum defensor dos animais, n\u00e3o fosse por ser um tubar\u00e3o c\u00eanico. \" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Esta foto de Steven Spielberg em cima de um tubar\u00e3o n\u00e3o seria do agrado de nenhum defensor dos animais, n\u00e3o fosse por ser um tubar\u00e3o c\u00eanico.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Se o cinema de Spielberg transcende os demais\u00a0<i>blockbusters<\/i>\u00a0\u00e9 porque ele sabe que o verdadeiro espet\u00e1culo nasce dos medos e pavores da inf\u00e2ncia: a primeira apari\u00e7\u00e3o dos dinossauros em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/07\/cultura\/1528392084_811266.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>Jurassic Park: o Parque dos Dinossauros<\/i><\/a>\u00a0\u00e9 t\u00e3o comovente pelos convincentes efeitos digitais como pela rea\u00e7\u00e3o nos rostos de Laura Dern e Sam Neill. Como diz a cr\u00edtica Heather Havrilesky, \u201cver alien\u00edgenas, monstros e rob\u00f4s arrasarem Hong Kong n\u00e3o pode ser comparado \u00e0 excita\u00e7\u00e3o nervosa de ver uma barbatana de tubar\u00e3o se aproximando de um barco com tr\u00eas crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Claro, os cr\u00edticos de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0o apontaram como o come\u00e7o do fim da arte cinematogr\u00e1fica: \u201cUm filme barulhento e atordoante que tem menos pensamentos do que uma crian\u00e7a em uma praia\u201d (<i>The New York Times<\/i>), \u201ca pessoa se sente como um rato recebendo choques el\u00e9tricos\u201d (<i>The Village Voice<\/i>),\u201d uma atra\u00e7\u00e3o desconcertante para os glut\u00f5es dos sentidos\u201d (<i>Commentary<\/i>).<\/p>\n<p class=\"\">O legado de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0\u00e9, portanto, comercial.\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0elevou as expectativas dos est\u00fadios em rela\u00e7\u00e3o ao potencial econ\u00f4mico do cinema, incentivou o p\u00fablico a n\u00e3o ser s\u00f3 espectador, mas tamb\u00e9m participante da experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica e demonstrou que o ver\u00e3o poderia ser um momento vi\u00e1vel para o lan\u00e7amento de filmes. At\u00e9 1975, as maiores apostas de Hollywood eram lan\u00e7adas no Natal, porque no ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio Norte as pessoas s\u00f3 queriam fazer planos para estar ao ar livre. Mas, entre 1965 e 1970, os Estados Unidos passaram de 1.500 shopping centers para 12.500, gerando uma cultura em seu entorno, e todos tinham cinemas com muitas salas (com ar condicionado) para que cada membro da fam\u00edlia pudesse assistir a um filme diferente: ir ao cinema n\u00e3o era mais uma atividade sociocultural, mas um momento em um dia inteiro dedicado ao consumo.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/9ZwiZ5qFJQpAOPLSZ0j0Jahet-Y=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/AW7KE4Z4WVE7PH6E6CQZYIW32Q.jpg\" alt=\"Robert Shaw, Roy Scheider e Richard Dreyfuss em uma imagem promocional de 'Tubar\u00e3o'. \" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Robert Shaw, Roy Scheider e Richard Dreyfuss em uma imagem promocional de &#8216;Tubar\u00e3o&#8217;.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Os adolescentes agora tinham seus pr\u00f3prios ingressos e Hollywood decidiu que eles seriam seu p\u00fablico principal. (<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0recebeu uma classifica\u00e7\u00e3o para todos os p\u00fablicos porque, de acordo com o comit\u00ea encarregado da tomada de decis\u00e3o, \u201cum tubar\u00e3o nunca deu uns amassos em ningu\u00e9m\u201d.) E a fabrica\u00e7\u00e3o de camisetas, toalhas ou vasos sanit\u00e1rios com o p\u00f4ster impresso do\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>\u00a0(uma pr\u00e1tica sem precedentes na \u00e9poca: por mais sucesso que fizessem\u00a0<i>O Poderoso Chef\u00e3o<\/i>,\u00a0<i>Uma Hist\u00f3ria de Amor<\/i>\u00a0e\u00a0<i>O Exorcista<\/i>, ningu\u00e9m iria querer usar um bon\u00e9 com seu p\u00f4ster) conseguiu que, por alguns d\u00f3lares, qualquer um se tornasse um an\u00fancio ambulante do filme.<\/p>\n<p class=\"\">Com base no sucesso de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>, as superprodu\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o se tornavam um acontecimento, mas eram vendidas como um acontecimento antes do lan\u00e7amento. E suas tramas deveriam resumir-se a uma frase que coubesse em um p\u00f4ster, um trailer e um Happy Meal.<\/p>\n<p class=\"\">Mas ser respons\u00e1vel pela transforma\u00e7\u00e3o do cinema em um objeto de consumo n\u00e3o desvalorizou o legado art\u00edstico de\u00a0<i>Tubar\u00e3o<\/i>. Ao apelar a medos t\u00e3o universais como a escurid\u00e3o do mar aberto, que causam arrepios entre os espectadores de qualquer pa\u00eds e de qualquer idade, o filme n\u00e3o envelheceu um \u00fanico dia desde sua estreia. De fato, muitos se lembraram nos \u00faltimos meses do prefeito de Amity e sua obstina\u00e7\u00e3o em manter as praias abertas a todo custo para proteger a economia tur\u00edstica da cidade e que, mesmo quando os mortos come\u00e7am a flutuar, ele s\u00f3 se preocupa em se desvincular de qualquer responsabilidade: \u201c\u00c9 psicol\u00f3gico. Se voc\u00ea gritar \u2018barracuda\u2019, as pessoas n\u00e3o se movem. Mas se voc\u00ea gritar \u2018tubar\u00e3o\u2019, teremos um ataque de p\u00e2nico em pleno fim de semana do 4 de julho.\u201d \u00c0s vezes a realidade supera a fic\u00e7\u00e3o. E quase sempre, a fic\u00e7\u00e3o explica a realidade.<\/p>\n<\/div>\n<aside class=\"a_tp | border_top_dotted border_bottom_dotted border_gray border_1 border_top border_bottom\">\n<div class=\"a_tp_w | flex container_column_mobile justify_space_between\">\n<div class=\"a_tp_c | flex align_items_center justify_center\" style=\"text-align: justify;\">Adere a<\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Tubar\u00e3o&#8217; completa 45 anos. 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