{"id":324664,"date":"2020-07-12T09:33:52","date_gmt":"2020-07-12T12:33:52","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=324664"},"modified":"2020-07-12T09:33:52","modified_gmt":"2020-07-12T12:33:52","slug":"em-vulnerabilidade-ciganos-temem-efeitos-da-pandemia-em-comunidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/em-vulnerabilidade-ciganos-temem-efeitos-da-pandemia-em-comunidades\/","title":{"rendered":"Em vulnerabilidade, ciganos temem efeitos da pandemia em comunidades"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Fam\u00edlias sofrem despejo e veem contamina\u00e7\u00e3o por coronav\u00edrus aumentar<\/h2>\n<div class=\"autor\" style=\"text-align: justify;\">Ag\u00eancia Brasil<\/div>\n<div id=\"div-share\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"materia\">\n<div class=\"conteudo_post\">\n<figure id=\"attachment_233420\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/12051812\/ciganos-edit.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-233420\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/12051812\/ciganos-edit.jpg\" alt=\"(Foto: F\u00e1bio Rodrigues Pozzebom\/Arquivo\/Ag\u00eancia Brasil Geral)\" width=\"600\" height=\"420\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: F\u00e1bio Rodrigues Pozzebom\/Arquivo\/Ag\u00eancia Brasil Geral<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3rica situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade das comunidades ciganas no Brasil tem cobrado seu pre\u00e7o durante a pandemia do novo coronav\u00edrus. Al\u00e9m dos casos de expuls\u00f5es de fam\u00edlias acampadas, ciganos t\u00eam relatado falta de assist\u00eancia social e sanit\u00e1ria por parte do poder p\u00fablico e aumento dos casos da covid-19, doen\u00e7a causada pelo novo coronav\u00edrus. N\u00e3o h\u00e1 um balan\u00e7o oficial, mas levantamento do Instituto Cigano no Brasil (ICB), entidade com sede em Caucaia (CE), aponta que, at\u00e9 agora, um total 13 ciganos, em pelo menos oito estados, morreram ap\u00f3s contrair a infec\u00e7\u00e3o. Esse n\u00famero, no entanto, pode estar subestimado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente tinha o temor de que o primeiro cigano adquirisse o v\u00edrus. Os ciganos, mesmo aqueles que n\u00e3o moram em acampamentos, geralmente ficam todos juntos, moram sempre no mesmo bairro, em casas pr\u00f3ximas. Dificilmente voc\u00ea v\u00ea um cigano morando isoladamente e isso faz com que o v\u00edrus, uma vez sendo contra\u00eddo por uma pessoa, rapidamente se dissemine\u201d, afirma Jucelho Dantas da Cruz, cigano da etnia Calon e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Cama\u00e7ari, regi\u00e3o metropolitana de Salvador, um surto da covid-19 em um bairro com grande concentra\u00e7\u00e3o de ciganos mobilizou uma rea\u00e7\u00e3o coletiva ap\u00f3s a suspeita de que cerca de 40 pessoas haviam sido contaminadas, no final de maio. Depois que a gente denunciou publicamente e cobramos a\u00e7\u00e3o da prefeitura, eles vieram ao bairro fazer os testes. S\u00f3 da minha fam\u00edlia, foram dez contaminados. Desses, tr\u00eas t\u00eam comorbidades. Foram duas semanas de muita tens\u00e3o. Tr\u00eas de meus irm\u00e3os foram internados, al\u00e9m da esposa de um deles. Todos se recuperaram, voltaram para casa e ficaram reclusos. Os outros que tiveram teste positivo ficaram assintom\u00e1ticos\u201d, relata Jucelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Homenagem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Presidente do Instituto Cigano do Brasil, Rog\u00e9rio Ribeiro, tamb\u00e9m da etnia Calon, criou uma p\u00e1gina nas redes sociais para registrar as mortes de ciganos v\u00edtimas da covid-19. \u201cO objetivo \u00e9 tirar da invisibilidade cidad\u00e3os que t\u00eam fam\u00edlia, hist\u00f3ria e deixaram um legado ap\u00f3s a morte\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as v\u00edtimas da covid-19 est\u00e1 o m\u00fasico Antonio Ferreira dos Santos, conhecido como Cigano Barroso, de 62 anos, que morreu na cidade Sobral (CE), no dia 2 de junho, ap\u00f3s passar uma semana internado na Santa Casa da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Bahia, o comerciante Lomanto Marques, de 57 anos, morreu no dia 12 de junho, depois de ficar 21 dias no hospital Portugu\u00eas, na capital Salvador. Ele era da comunidade cigana de Cama\u00e7ari.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ciganos jovens, fora do grupo de risco et\u00e1rio para a covid-19, tamb\u00e9m est\u00e3o entre os mortos pela doen\u00e7a, segundo levantamento do ICB. \u00c9 o caso de Velodia Joce Blado, de 36 anos, cigano da etnia Rom, que faleceu no in\u00edcio do m\u00eas passado, em Guarulhos (SP). No Esp\u00edrito Santo, a estudante cigana Dayana Soares Galv\u00e3o, de 24 anos, tamb\u00e9m morreu em decorr\u00eancia de infec\u00e7\u00e3o pelo novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas, os ciganos t\u00eam cobrado apoio para aquisi\u00e7\u00e3o de material de higiene. \u201cTemos pedido a distribui\u00e7\u00e3o de produtos para fazer a desinfec\u00e7\u00e3o. Existem muitas fam\u00edlias ciganas pobres, sem condi\u00e7\u00f5es de comprar produtos de higiene\u201d, afirma Ribeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Bahia, onde tr\u00eas ciganos j\u00e1 morreram e estimativas indicam que centenas j\u00e1 foram contaminadas, o governo estadual prometeu a distribui\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras para comunidades tradicionais. \u201cAtualmente, a Secretaria de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (Sepromi) tem trabalhado na distribui\u00e7\u00e3o de 150 mil m\u00e1scaras de tecido, por meio de entidades representativas dos segmentos, a\u00e7\u00e3o que alcan\u00e7ar\u00e1 mais de 600 comunidades tradicionais e das periferias\u201d, informou a pasta, em nota enviada \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u00e2mbito nacional, as pol\u00edticas de inclus\u00e3o social de povos e comunidades tradicionais s\u00e3o articuladas pela Secretaria Nacional de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (SNPIR) do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos (MMFDH). Procurada pela Ag\u00eancia Brasil, a pasta informou que, no caso espec\u00edfico dos ciganos, \u201ctem buscado promover a\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel diante do enfrentamento ao novo coronav\u00edrus, por meio do fortalecimento de institui\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos que atuem com trabalho volunt\u00e1rio na sociedade\u201d. Sobre a distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas, a pasta disse que a prioridade tem sido dada para \u00e1reas ind\u00edgenas e territ\u00f3rios quilombolas, mas que parcerias com governos estaduais t\u00eam sidos realizadas para atender aos ciganos. \u201cAs cestas b\u00e1sicas distribu\u00eddas foram destinadas aos povos ind\u00edgenas e comunidades quilombolas. Entretanto, iniciativas do programa P\u00e1tria Volunt\u00e1ria, dos entes estaduais e dos entes municipais, focaram, tamb\u00e9m, no atendimento aos ciganos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ciganofobia: preconceito e expuls\u00f5es<\/strong><br \/>\nEpis\u00f3dios de racismo e preconceito fazem parte do cotidiano das comunidades ciganas h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, mas o contexto da pandemia agravou esse cen\u00e1rio, principalmente para as fam\u00edlias que ainda mant\u00eam as caracter\u00edsticas de itiner\u00e2ncia, transitando entre diferentes acampamentos de tempos em tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao menos tr\u00eas casos de expuls\u00e3o de fam\u00edlias de acampamentos foram registrados em munic\u00edpios do interior do pa\u00eds. Em abril, cerca de 100 fam\u00edlias de ciganos foram proibidas de permanecer na cidade de Dois Vizinhos (PR), ap\u00f3s interven\u00e7\u00e3o de agentes da prefeitura e da Pol\u00edcia Militar. Eles estavam prestes a acampar em uma \u00e1rea tradicional de rancho cigano, quando foram interceptados e obrigados a deixar os limites do munic\u00edpio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 o que a gente chama de ciganofobia. Algumas pessoas come\u00e7aram a associar os ciganos como vetor do novo coronav\u00edrus\u201d, afirma Igor Shimura, diretor da Associa\u00e7\u00e3o Social de Apoio Integral aos Ciganos (Asaic).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s ser expulso de Dois Vizinhos, o grupo de ciganos, que inclu\u00eda grande quantidade de idosos e crian\u00e7as, se deslocou para Guarapuava (PR), outra cidade do interior paranaense, onde tamb\u00e9m foram impedidos de permanecer, em um primeiro momento. Foi preciso uma negocia\u00e7\u00e3o com o advogado das fam\u00edlias para que eles conseguissem se instalar nas imedia\u00e7\u00f5es da cidade, por meio de um acordo com a pol\u00edcia militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAntes da pandemia, j\u00e1 era dif\u00edcil para os ciganos, principalmente os itinerantes, quando chegam numa cidade. S\u00e3o mal vistos, tem aquelas lendas preconceituosas que se criam sobre o nosso povo\u201d, afirma Antonio Alves Pereira, da etnia Calon, integrante do Conselho Estadual de Povos Ind\u00edgenas e Comunidades Tradicionais do Paran\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurada pela Ag\u00eancia Brasil, a prefeitura de Dois Vizinhos informou, por meio de nota, que a chegada dos ciganos na cidade promoveu aglomera\u00e7\u00e3o, contrariando as normas de distanciamento social em locais p\u00fablicos. \u201cEsclarecemos que a fiscaliza\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio recebeu den\u00fancia de moradores das imedia\u00e7\u00f5es do Est\u00e1dio Municipal dando conta que ciganos estavam se instalando no estacionamento do mesmo. No local havia in\u00fameras pessoas em aglomera\u00e7\u00e3o. Diante da den\u00fancia os fiscais se deslocaram at\u00e9 o referido endere\u00e7o e solicitaram que os integrantes do grupo providenciassem a retirada do acampamento do local, uma vez que o grupo havia se deslocado de Cascavel (PR) para Dois Vizinhos (PR). Em Cascavel, as informa\u00e7\u00f5es eram que o munic\u00edpio j\u00e1 estava enfrentando a transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria da covid-19\u201d, diz a nota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Meu rancho, minha casa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro caso de expuls\u00e3o de ciganos em meio \u00e0 pandemia ocorreu em Paim Filho, interior do Rio Grande do Sul. Ap\u00f3s eles acamparem em uma \u00e1rea de ocupa\u00e7\u00e3o tradicional do grupo, no final de maio, a prefeitura da cidade entrou com uma a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse na Justi\u00e7a, para que eles fossem obrigados a se retirarem do local. O principal argumento utilizado pela administra\u00e7\u00e3o municipal foi justamente a ideia de evitar aglomera\u00e7\u00f5es. \u2028\u2028\u201dQuando os ciganos estabelecem acampamentos, eles permanecem mais reclusos no local, ainda mais no contexto da pandemia. Al\u00e9m disso, os locais onde eles acampam representa a casa deles, o seu territ\u00f3rio tradicional de ocupa\u00e7\u00e3o. Eles t\u00eam esse sentimento, muitos nasceram nesses acampamentos\u201d, afirma Marcelo Almeida, advogado que defende comunidades ciganas na Regi\u00e3o Sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Paim Filho, a Justi\u00e7a n\u00e3o concedeu a liminar de reintegra\u00e7\u00e3o de posse e garantiu a perman\u00eancia dos ciganos no local, mas eles acabaram, dias depois, decidindo deixar a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Maria Jane Soares, integrante do Conselho Nacional de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial, falta preparo das prefeituras para lidar com as especificidades culturais dos povos ciganos. \u201cEm nossos caminhos rotativos, a gente tem que ter um canto de parar, repousar, que s\u00e3o os ranchos, mas temos essa dificuldade porque as prefeituras n\u00e3o querem trabalhar com a inclus\u00e3o dos ciganos, garantindo reconhecimento e assist\u00eancia nesses locais. Quando a prefeitura trabalha com os povos tradicionais, o racismo \u00e9 reduzido. Quando as prefeituras viram as costas, o racismo fica mais forte\u201d, aponta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Antonio Alves Pereira, cigano do Paran\u00e1, os grupos itinerantes no estado t\u00eam adotado outras estrat\u00e9gias, durante a pandemia, para evitarem a persegui\u00e7\u00e3o em munic\u00edpios do estado. \u201cMuitos est\u00e3o separando grupos de 15 a 20 fam\u00edlias em grupos menores, por medo de serem expulsos. Nossa orienta\u00e7\u00e3o tem sido para que eles evitem as cidades maiores e permane\u00e7am isolados nos acampamentos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo federal informou que monitora as tentativas de expuls\u00e3o de ciganos instalados em acampamentos e que tem tentado dialogar com as prefeituras, por meio do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRecebemos as informa\u00e7\u00f5es de tentativas de expuls\u00f5es em Cama\u00e7ari (Bahia), Piripiri (Piau\u00ed) e Paim Filho (Rio Grande do Sul). Nas tr\u00eas cidades, a Secretaria Nacional de Promo\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Igualdade Racial entrou em contato com os representantes dos grupos ou associa\u00e7\u00f5es representativas para compreender as demandas e realizar os encaminhamentos. Todas eram relacionadas a quest\u00f5es da covid-19. Desta maneira, a secretaria encaminhou as demandas para o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade realizar um acompanhamento direto com o munic\u00edpio, com exce\u00e7\u00e3o da cidade de Paim Filho, pois o grupo j\u00e1 havia deixado a cidade por conta pr\u00f3pria, mesmo havendo uma decis\u00e3o judicial a favor da continua\u00e7\u00e3o deles na cidade\u201d, informou a SNPIR em nota enviada \u00e0 reportagem.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3rica situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade das comunidades ciganas no Brasil tem cobrado seu pre\u00e7o durante a pandemia do novo coronav\u00edrus. 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