{"id":32478,"date":"2013-12-09T15:00:39","date_gmt":"2013-12-09T18:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=32478"},"modified":"2013-12-09T08:45:09","modified_gmt":"2013-12-09T11:45:09","slug":"o-amor-pela-patria-segundo-vinicius-de-moraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-amor-pela-patria-segundo-vinicius-de-moraes\/","title":{"rendered":"O AMOR PELA P\u00c1TRIA, SEGUNDO VINICIUS DE MORAES"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-32479\" alt=\"ImageProxy (12)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/ImageProxy-121-300x126.jpg\" width=\"300\" height=\"126\" \/><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong><em>P\u00c1TRIA MINHA<\/em><\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong><em>Vin\u00edcius de Moraes<\/em><\/strong><\/p>\n<div>A minha p\u00e1tria \u00e9 como se n\u00e3o fosse, \u00e9 \u00edntima<br \/>\nDo\u00e7ura e vontade de chorar; uma crian\u00e7a dormindo<br \/>\n\u00c9 minha p\u00e1tria. Por isso, no ex\u00edlio<br \/>\nAssistindo dormir meu filho<br \/>\nChoro de saudades de minha p\u00e1tria.Se me perguntarem o que \u00e9 a minha p\u00e1tria, direi:<br \/>\nN\u00e3o sei. De fato, n\u00e3o sei<br \/>\nComo, por que e quando a minha p\u00e1tria<br \/>\nMas sei que a minha p\u00e1tria \u00e9 a luz, o sal e a \u00e1gua<br \/>\nQue elaboram e liquefazem a minha m\u00e1goa<br \/>\nEm longas l\u00e1grimas amargas.&nbsp;<\/p>\n<p>Vontade de beijar os olhos de minha p\u00e1tria<br \/>\nDe nin\u00e1-la, de passar-lhe a m\u00e3o pelos cabelos\u2026<br \/>\nVontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) t\u00e3o feias<br \/>\nDe minha p\u00e1tria, de minha p\u00e1tria sem sapatos<br \/>\nE sem meias, p\u00e1tria minha<br \/>\nT\u00e3o pobrinha!<\/p>\n<p>Porque te amo tanto, p\u00e1tria minha, eu que n\u00e3o tenho<br \/>\nP\u00e1tria, eu semente que nasci do vento<br \/>\nEu que n\u00e3o vou e n\u00e3o venho, eu que permane\u00e7o<br \/>\nEm contato com a dor do tempo, eu elemento<br \/>\nDe liga\u00e7\u00e3o entre a a\u00e7\u00e3o e o pensamento<br \/>\nEu fio invis\u00edvel no espa\u00e7o de todo adeus<br \/>\nEu, o sem Deus!<\/p>\n<p>Tenho-te no entanto em mim como um gemido<br \/>\nDe flor; tenho-te como um amor morrido<br \/>\nA quem se jurou; tenho-te como uma f\u00e9<br \/>\nSem dogma; tenho-te em tudo em que n\u00e3o me sinto a jeito<br \/>\nNesta sala estrangeira com lareira<br \/>\nE sem p\u00e9-direito.<\/p>\n<p>Ah, p\u00e1tria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra<br \/>\nQuando tudo passou a ser infinito e nada terra<br \/>\nE eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte at\u00e9 o c\u00e9u<br \/>\nMuitos me surpreenderam parado no campo sem luz<br \/>\n\u00c0 espera de ver surgir a Cruz do Sul<br \/>\nQue eu sabia, mas amanheceu\u2026<\/p>\n<p>Fonte de mel, bicho triste, p\u00e1tria minha<br \/>\nAmada, idolatrada, salve, salve!<br \/>\nQue mais doce esperan\u00e7a acorrentada<br \/>\nO n\u00e3o poder dizer-te: aguarda\u2026<br \/>\nN\u00e3o tardo!<\/p>\n<p>Quero rever-te, p\u00e1tria minha, e para<br \/>\nRever-te me esqueci de tudo<br \/>\nFui cego, estropiado, surdo, mudo<br \/>\nVi minha humilde morte cara a cara<br \/>\nRasguei poemas, mulheres, horizontes<br \/>\nFiquei simples, sem fontes.<\/p>\n<p>P\u00e1tria minha\u2026 A minha p\u00e1tria n\u00e3o \u00e9 flor\u00e3o, nem ostenta<br \/>\nL\u00e1baro n\u00e3o; a minha p\u00e1tria \u00e9 desola\u00e7\u00e3o<br \/>\nDe caminhos, a minha p\u00e1tria \u00e9 terra sedenta<br \/>\nE praia branca; a minha p\u00e1tria \u00e9 o grande rio secular<br \/>\nQue bebe nuvem, come terra<br \/>\nE urina mar.<\/p>\n<p>Mais do que a mais garrida a minha p\u00e1tria tem<br \/>\nUma quentura, um querer bem, um bem<br \/>\nUm libertas quae sera tamen<br \/>\nQue um dia traduzi num exame escrito:<br \/>\n\u201cLiberta que ser\u00e1s tamb\u00e9m\u201d<br \/>\nE repito!<\/p>\n<p>Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa<br \/>\nQue brinca em teus cabelos e te alisa<br \/>\nP\u00e1tria minha, e perfuma o teu ch\u00e3o\u2026<br \/>\nQue vontade me vem de adormecer-me<br \/>\nEntre teus doces montes, p\u00e1tria minha<br \/>\nAtento \u00e0 fome em tuas entranhas<br \/>\nE ao batuque em teu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o te direi o nome, p\u00e1tria minha<br \/>\nTeu nome \u00e9 p\u00e1tria amada, \u00e9 patriazinha<br \/>\nN\u00e3o rima com m\u00e3e gentil<br \/>\nVives em mim como uma filha, que \u00e9s<br \/>\nUma ilha de ternura: a Ilha<br \/>\nBrasil, talvez.<\/p>\n<p>Agora chamarei a amiga cotovia<br \/>\nE pedirei que pe\u00e7a ao rouxinol do dia<br \/>\nQue pe\u00e7a ao sabi\u00e1<br \/>\nPara levar-te presto este avigrama:<br \/>\n\u201cP\u00e1tria minha, saudades de quem te ama\u2026\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div>\u00a0<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (<strong>Paulo Peres<\/strong>\u00a0&#8211;\u00a0 site Poemas &amp; Can\u00e7\u00f5es)<\/em><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00c1TRIA MINHA Vin\u00edcius de Moraes A minha p\u00e1tria \u00e9 como se n\u00e3o fosse, \u00e9 \u00edntima Do\u00e7ura e vontade de chorar; uma crian\u00e7a dormindo \u00c9 minha p\u00e1tria. 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