{"id":325331,"date":"2020-07-18T11:38:47","date_gmt":"2020-07-18T14:38:47","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=325331"},"modified":"2020-07-18T11:38:47","modified_gmt":"2020-07-18T14:38:47","slug":"as-4-vidas-de-piera-aiello-a-mulher-que-viveu-sem-rosto-durante-3-decadas-por-enfrentar-a-mafia-na-italia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/as-4-vidas-de-piera-aiello-a-mulher-que-viveu-sem-rosto-durante-3-decadas-por-enfrentar-a-mafia-na-italia\/","title":{"rendered":"As 4 vidas de Piera Aiello, a mulher que viveu sem rosto durante 3 d\u00e9cadas por enfrentar a m\u00e1fia na It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"byline__name\">Angelo Attanasio<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/17ACC\/production\/_112827969_945dbb38-b6f6-4da5-80fc-986cc13af8ef.png\" alt=\"Piera Aiello\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Piera Aiello, a mulher que viveu sem rosto por 27 anos por enfrentar a m\u00e1fia na It\u00e1lia<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Piera Aiello ainda n\u00e3o sabe, mas sua primeira vida est\u00e1 prestes a terminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o nove horas da noite de 24 de junho de 1991. Nesse exato momento, ela est\u00e1 brincando na cozinha de seu restaurante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tem 23 anos, uma filha de tr\u00eas anos que dorme em casa com os av\u00f3s, e um marido, Nicola Atria, que ser\u00e1 assassinado diante de seus olhos em alguns minutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No terra\u00e7o da pizzaria Europa, que Piera comanda com o marido, o ver\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 sinais de tr\u00e9gua. O clima abafado percorre todos os cantos da cidade de Montevago, 20 ruas e uma catedral na base do Valle del Belice, no interior do oeste da ilha da Sic\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O local n\u00e3o tem o charme dos templos gregos de Agrigento, os elegantes edif\u00edcios de Palermo, nem as \u00e1guas azul-turquesa de Marsala ou Trapani, e poucos fora da ilha sabiam de sua exist\u00eancia at\u00e9 1968, quando um terremoto varreu v\u00e1rias cidades da regi\u00e3o do mapa e causou a morte de centenas de seus habitantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome acabou gravado na mem\u00f3ria coletiva do pa\u00eds e, devido ao ritmo lento de reconstru\u00e7\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o e os interesses poucos transparentes que se tornaram evidentes nos anos seguintes acabaram associando-o irremediavelmente a duas palavras: Cosa Nostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Piera n\u00e3o pensa em nada disso enquanto ainda est\u00e1 ocupada na cozinha de sua pizzaria. Ela est\u00e1 mais preocupada em cuidar de sua irm\u00e3 gr\u00e1vida, que est\u00e1 no terra\u00e7o com outros clientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, ela ouve a cortina de vime da cozinha se mover.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera se vira e v\u00ea um homem com um capuz sobre a cabe\u00e7a: ele veste um traje de camuflagem, cheira a gasolina e tem uma espingarda na m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 baixo e avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao casal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que est\u00e1 acontecendo?&#8221;, grita ela, enquanto o homem aponta a arma. Seu marido empurra Piera contra a parede e diz: &#8220;N\u00e3o toque na minha esposa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entra outro homem, muito maior, tamb\u00e9m com uma espingarda e dedo no gatilho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera pula, agarra a culatra da espingarda, o objeto est\u00e1 quente e cheira a gasolina. Atr\u00e1s dela, ouve duas explos\u00f5es, suas m\u00e3os arrancam a culatra, o homem se liberta, a aperta contra a pia e com a outra m\u00e3o dispara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O marido de Piera grita &#8211; e cai no ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ar da cozinha cheira a p\u00f3lvora e a gasolina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nicola est\u00e1 morto.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha&#8221;, diz Piera, 29 anos depois do crime, recostando-se na poltrona do escrit\u00f3rio que compartilha com um colega em Roma, capital da It\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela limpa sua garganta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea sente al\u00edvio porque sobreviveu. Mas, ao mesmo tempo, sente um vazio. Esse \u00e9 o sentimento quando voc\u00ea testemunha um homic\u00eddio&#8221;, acrescenta ela em entrevista \u00e0 BBC News Mundo, o servi\u00e7o de not\u00edcias em espanhol da BBC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua empregada abre as janelas do escrit\u00f3rio. O ar \u00e9 permeado pela fuma\u00e7a do cigarro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DDC4\/production\/_112827765_gettyimages-186175234.jpg\" alt=\"Homens segurando duas vi\u00favas cujos maridos foram mortos pela multid\u00e3o. Sic\u00edlia, d\u00e9cada de 1950\" width=\"976\" height=\"732\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, as fam\u00edlias da m\u00e1fia siciliana impuseram seu controle sobre a ilha com assassinato e extors\u00e3o.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem mesmo um raio de sol de in\u00edcio de mar\u00e7o entra pelas persianas, iluminando uma Roma mergulhada em plena crise causada pela pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim da rua, pode-se ver o Palazzo Montecitorio, a sede do Parlamento italiano e tamb\u00e9m o local de trabalho de Piera desde que, h\u00e1 dois anos, come\u00e7ou sua quarta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Agora que sou deputada, fumo como um caminhoneiro&#8221;, confessa.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A PRIMEIRA VIDA: A VIOL\u00caNCIA DA M\u00c1FIA<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/EAC7\/production\/_112830106_piera-aiello_1-nc.png\" alt=\"Piera Aiello ilustraci\u00f3n 1\" width=\"1441\" height=\"1157\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua primeira vida, Piera \u00e9 Piera Aiello, um nome que ela perder\u00e1 e n\u00e3o recuperar\u00e1 at\u00e9 o in\u00edcio de sua quarta vida. Mas isso s\u00f3 acontecer\u00e1 mais tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, Piera \u00e9 adolescente em Partanna, vilarejo da Sic\u00edlia onde nasceu em 1967 e que deixou junto de sua fam\u00edlia alguns meses depois, quando o terremoto o devastou, para embarcar rumo \u00e0 Venezuela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cinco anos depois, ela retornaria \u00e0 terra natal.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6894\/production\/_112827762_venezuela_editada.jpg\" alt=\"Caracas nos anos 60\" width=\"976\" height=\"1163\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Entre 1946 e 1976, mais de 260 mil italianos imigraram para a Venezuela em busca de melhores oportunidades, de acordo com um estudo do instituto Neodemos.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a puberdade confundindo seus desejos, naquela cidade siciliana que nada tem a ver com a Venezuela da qual sua fam\u00edlia voltou com mais dinheiro, Piera se d\u00e1 conta de tr\u00eas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que em Partanna n\u00e3o \u00e9 bem visto que as meninas expressem seus pensamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que, como em muitos outros vilarejos da ilha italiana, existem dois guardi\u00f5es veteranos que patrulham as ruas e punem os cidad\u00e3os rebeldes: o medo e a omert\u00e0 (c\u00f3digo n\u00e3o escrito que pro\u00edbe denunciar atividades criminosas. Quem o violar, pode sofrer retalia\u00e7\u00e3o violenta).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1771F\/production\/_113313069_a9dc12a5-f366-4099-9014-0bb10bf81f7d.jpg\" alt=\"Acampamento para os afetados pelo terremoto del B\u00e9lice\" width=\"976\" height=\"697\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A fam\u00edlia de Piera Aiello retornou \u00e0 Sic\u00edlia cinco anos ap\u00f3s o terremoto varrer quase completamente sua cidade natal, Partanna<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">E que esses guardi\u00f5es respondem a um homem que eles dizem ser um paciere, que parece ser respeitado por todos e a quem se dirigem com rever\u00eancia, como o protagonista da trilogia de &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221;: Don Vito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Don Vito de Partanna n\u00e3o se chama Corleone, como o filme, mas Atria, e ele n\u00e3o tem o olhar enigm\u00e1tico de Marlon Brando, mas os modos rudes de um chefe da m\u00e1fia local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Don Vito Atria tem uma filha mais nova que Piera, Rita, e um filho um pouco mais velho, Nicola, que se apaixona por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles come\u00e7am a namorar &#8211; &#8220;com a aprova\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, \u00e9 claro!&#8221; &#8211; de suas respectivas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o comportamento possessivo de Nicola, suas frequentes trai\u00e7\u00f5es e a conversa doce que os habitantes da cidade dedicam a Piera por ser a nora de Vito Atria convencem-na a interromper o relacionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nicola n\u00e3o ficou muito afetado, mas o pai dele n\u00e3o aceitou essa afronta&#8221;, lembra ela \u00e0 BBC News Mundo de seu escrit\u00f3rio em Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Depois de algumas semanas, Don Vito veio \u00e0 minha casa e me disse: &#8216;N\u00e3o me importo se voc\u00ea o far\u00e1 sofrer por um m\u00eas, dois meses, um ano, dez anos&#8230; mas, no final, voc\u00ea ser\u00e1 minha nora. Porque todos n\u00f3s temos uma fam\u00edlia que amamos.'&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera faz uma pausa e se lan\u00e7a sobre a mesa. Ent\u00e3o continua.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12400\/production\/_112825747_gettyimages-152210374.jpg\" alt=\"Ata\u00fad fuera de una casa, en la zona del B\u00e9lice.\" width=\"976\" height=\"641\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Entre 1983 y 1997, en Sicilia se registraron 1.464 asesinatos por mafia, seg\u00fan la oficina italiana de estad\u00edsticas (ISTAT).<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele estava praticamente me amea\u00e7ando. Naqueles anos, se matava em Partanna por muito menos, mesmo por um olhar enviesado&#8221;, lembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa foi a primeira encruzilhada da minha vida.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera tem 18 anos e quatro meses quando se casa com Nicola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nove dias ap\u00f3s o casamento, em 18 de novembro de 1985, enquanto est\u00e1 em lua de mel, o casal recebe a informa\u00e7\u00e3o de que Don Vito Atria &#8220;sofreu um acidente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse acidente \u00e9 uma explos\u00e3o que claramente ningu\u00e9m viu ou ouviu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em frente ao cad\u00e1ver de Don Vito, deitado no m\u00e1rmore branco do necrot\u00e9rio, Nicola Atria grita a promessa que ser\u00e1 sua senten\u00e7a: &#8220;Quem matou meu pai pagar\u00e1 com sangue&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 1983 e 1997, na Sic\u00edlia, houve 1.464 assassinatos da m\u00e1fia, segundo o \u00f3rg\u00e3o de estat\u00edstica italiano (ISTAT). Somente na prov\u00edncia de Trapani, \u00e0 qual pertence Partanna, entre 1983 e 1993, houve 88 assassinatos envolvendo a m\u00e1fia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naqueles anos, uma guerra sangrenta foi travada entre os diferentes cl\u00e3s pelo controle do com\u00e9rcio internacional de drogas e armas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo as autoridades, Vito Atria foi v\u00edtima de um acerto de contas. No entanto, os respons\u00e1veis nunca foram encontrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos que se seguiram ao assassinato de seu sogro, Piera se d\u00e1 conta de outras tr\u00eas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira \u00e9 que o marido negocia com traficantes de drogas locais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda, que ser\u00e1 dif\u00edcil se libertar da viol\u00eancia de Nicola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca perdia a oportunidade de me aterrorizar&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma vez ele come\u00e7ou a me chutar na barriga. Estava gr\u00e1vida de oito meses. Pensei que o beb\u00ea e eu \u00edamos morrer.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o beb\u00ea nasceu, uma menina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tradi\u00e7\u00f5es exigiam que ela recebesse o nome de sua sogra, nesse caso, Giovanna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Piera decidiu desafiar a fam\u00edlia Atria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionada sobre o porqu\u00ea, ela diz: &#8220;N\u00e3o queria me curvar s\u00f3 porque eles me mandaram. Embora eu soubesse que isso teria consequ\u00eancias. E, de fato, foi o que aconteceu.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera batizou a menina de Vita Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;&#8216;Vita&#8217; porque essa garota deu sentido \u00e0 minha vida&#8221;, diz. &#8220;E Maria, porque rezei para a Virgem Maria que fosse uma menina, para n\u00e3o seguir os passos de seu pai e av\u00f4.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naqueles anos, h\u00e1 outra pessoa na fam\u00edlia de seu marido que marcar\u00e1 seu destino para sempre.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2FAB\/production\/_112830221_rita-atria-2.jpg\" alt=\"Rita Atria\" width=\"975\" height=\"323\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Rita Atria, cunhada de Piera Aiello e irm\u00e3 de seu marido Nicola<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 Rita Atria, irm\u00e3 adolescente de Nicola, com quem ela estabelece um relacionamento \u00edntimo e de confian\u00e7a m\u00fatua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira coisa que Piera se d\u00e1 conta \u00e9 que o marido est\u00e1 buscando os assassinos de seu pai e que ele obteve pistas suficientes para saber quem foi o mandante do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o c\u00f3digo de honra sequer o pro\u00edbe de falar com os sbirri (palavra depreciativa usada para se referir \u00e0 pol\u00edcia e institui\u00e7\u00f5es judiciais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nicola sabe muito bem o que significa atravessar a porta de uma delegacia com a inten\u00e7\u00e3o de acusar um membro da m\u00e1fia.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7597\/production\/_112830103_gettyimages-186168839.jpg\" alt=\"Mulher lamenta a morte de seu marido, morto por mafiosos\" width=\"976\" height=\"983\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>De acordo com as tradi\u00e7\u00f5es sicilianas e outras do sul da It\u00e1lia, as vi\u00favas tinham que chorar por anos<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele sabe que colaborar com a pol\u00edcia, revelando o que sabe sobre a organiza\u00e7\u00e3o criminosa, significa tornar-se um pentito (pessoa que pertence ao crime organizado que decide se arrepender e colaborar com a justi\u00e7a), o que, para a Cosa Nostra, \u00e9 muito pior do que um traidor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim em muitas partes da Sic\u00edlia. E ainda mais em cidades pequenas como Partanna ou Montevago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, ele tem que encontr\u00e1-los por conta pr\u00f3pria e se vingar, matando seus assassinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas pensar que algu\u00e9m pode fazer certas perguntas &#8211; naquele territ\u00f3rio e naquele per\u00edodo &#8211; e esperar que ningu\u00e9m descubra \u00e9 ingenuidade ou imprud\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nicola n\u00e3o \u00e9 uma coisa nem outra. Ele sabe que quem est\u00e1 procurando compartilha o mesmo c\u00f3digo e as mesmas regras.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E03B\/production\/_112830475_plazzi-camassa.jpg\" alt=\"Morena Plazzi\" width=\"976\" height=\"553\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Morena Plazzi (ao fundo, com a blusa verde e branca) trabalhou como promotora na Sic\u00edlia por seis anos, no in\u00edcio dos anos 90<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, acredita ter encontrado o assassino de seu pai e contrata dois assassinos profissionais para mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a emboscada falha &#8211; n\u00e3o est\u00e1 claro o porqu\u00ea &#8211; e agora \u00e9 sua vez de ficar em guarda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera n\u00e3o tem escolha a n\u00e3o ser limpar as manchas das camisas do marido na altura dos quadris todos os dias, onde ela carrega uma pistola de calibre 7,65.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu marido a convence de que n\u00e3o tem outra escolha a n\u00e3o ser aprender a atirar por conta pr\u00f3pria e sempre carregar uma submetralhadora &#8211; &#8220;o iraniano, ele a chamava&#8221; &#8211; entre as fraldas e as mamadeiras de Vita Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem o conselho de Nicola, nem as aulas de tiro nem a submetralhadora impedir\u00e3o a fat\u00eddica noite de 24 de junho de 1991, na qual Piera Aiello perder\u00e1 seu marido &#8211; e a partir da qual perder\u00e1 seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando a pol\u00edcia me informou do assassinato, decidi acompanhar a aut\u00f3psia&#8221;, lembra Morena Plazzi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Plazzi \u00e9 uma ju\u00edza de Bolonha, uma cidade no norte da It\u00e1lia, onde a m\u00e1fia naqueles anos era um fen\u00f4meno mais distante. A 1,3 mil quil\u00f4metros dali, ficava Sciacca, cidade na prov\u00edncia de Agrigento, para onde foi enviada como procuradora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi seu primeiro emprego, ela tinha 28 anos e come\u00e7ou a trabalhar ali havia um m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Plazzi chegou ao necrot\u00e9rio, a cena que assistiu parecia a imagem clich\u00ea da Sic\u00edlia para algu\u00e9m que viesse do norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Havia um grupo de mulheres, todas vestidas de preto, que cercavam a jovem vi\u00fava. Outras, tamb\u00e9m de preto, gritavam sua dor e lamentavam o &#8216;infort\u00fanio&#8217; que o destino lhe reservara&#8221;, diz ela \u00e0 BBC News Mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;&#8216;Mas de qual desgra\u00e7a elas est\u00e3o falando?&#8217;, perguntou ela \u00e0 vi\u00fava. &#8216;Seu marido foi baleado na cara, ele foi morto'&#8221;, responderam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Plazzi lembra que uma das coisas que mais a surpreendeu nesse per\u00edodo como promotora na Sic\u00edlia foram os poucos relatos de furtos ou roubos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque a Cosa Nostra se encarregava de matar esses criminosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E muitos desses assassinatos tinham um fator em comum: ningu\u00e9m tinha visto ou ouvido nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o havia lei de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s testemunhas &#8211; ela s\u00f3 entraria em vigor dez anos depois, em 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo assim, diz a ju\u00edza, ningu\u00e9m se arriscava a denunciar as atividades da m\u00e1fia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas policiais afirmaram a Plazzi que com aquela vi\u00fava poderia ser diferente, que a fam\u00edlia de Piera Aiello n\u00e3o tinha conex\u00e3o com a m\u00e1fia, que ela deveria tentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aproximei-me da jovem e disse: &#8216;Se voc\u00ea precisar conversar com algu\u00e9m, estou dispon\u00edvel, como mulher, como mulher da mesma idade, como amiga. Voc\u00ea n\u00e3o precisa se tornar uma delas, com o len\u00e7o preto enrolado na cabe\u00e7a por toda a sua vida. Deixe o luto para elas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela conseguiu esconder um peda\u00e7o de papel com o n\u00famero de telefone de Plazzi, pouco antes de sua sogra e as outras mulheres a levarem embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionada se teria sido perigoso para ela falar com a pol\u00edcia, a ju\u00edza responde: &#8220;Claro que sim!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A m\u00e1fia naqueles anos matou um garoto e dissolveu seu corpo em \u00e1cido. Voc\u00ea acha que eles teriam tido qualquer escr\u00fapulo em mat\u00e1-la por ser mulher?&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A SEGUNDA VIDA: UM LIMBO INDEFINIDO<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15FF7\/production\/_112830109_piera-aiello_2-nc.png\" alt=\"Piera Aiello ilustraci\u00f3n 2\" width=\"1441\" height=\"1157\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aiello Piera, [&#8230;] enquanto pessoa informada dos fatos, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo come\u00e7a a fornecer declara\u00e7\u00f5es detalhadas sobre in\u00fameros homic\u00eddios e outros crimes que ocorreram na \u00e1rea de Belice e est\u00e1 trazendo declara\u00e7\u00f5es interessantes sobre a estrutura e o tamanho das fam\u00edlias mafiosas naquela \u00e1rea, alvo de um banho de sangue nos \u00faltimos tempos por ataques muito s\u00e9rios entre grupos rivais.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aiello, vi\u00fava de um dos que foram mortos, faz essas declara\u00e7\u00f5es sem o conhecimento de seus familiares e vive com medo de ser descoberta.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio que a mencionada, cuja colabora\u00e7\u00e3o continua e se prolongar\u00e1 por um tempo indefinido, seja assistida para poder se afastar de Montevago e ser adequadamente protegida.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas declara\u00e7\u00f5es constam do pedido que o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Marsala &#8211; a 60 quil\u00f4metros de Partanna, na prov\u00edncia de Trapani &#8211; enviou em 26 de agosto de 1991 ao Alto Comissariado para a luta contra o crime organizado em Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Piera, no entanto, \u00e9 o papel que certifica seu segundo nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dores do parto come\u00e7am um m\u00eas antes, quando em sua casa Piera ainda ouve condol\u00eancias de conhecidos e advert\u00eancias de sua sogra para que n\u00e3o fale com os sbirri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ela decide aceitar o convite de Plazzi.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4E87\/production\/_112830102_ebc13037-3d25-4472-af2d-5497caf131d7.jpg\" alt=\"Documento com o qual tribunal solicita, em agosto de 1991, prote\u00e7\u00e3o policial para Piera Aiello\" width=\"976\" height=\"1209\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Documento com o qual tribunal solicita, em agosto de 1991, prote\u00e7\u00e3o policial para Piera Aiello<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele marca um encontro com um carabiniere (policiais) e segue em seu carro para a delegacia, onde troca de autom\u00f3vel e depois por outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caminho para Palermo, permanece com a dupla o medo de que algu\u00e9m os estivesse seguindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles mudam de rota, seguem um caminho secund\u00e1rio, mudam de rota novamente, ficam confusos, falam pouco, se entreolham, checam se est\u00e1 tudo bem, se entreolham novamente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma hora, o carro chega \u00e0 delegacia de Terrasini, uma cidade a poucos quil\u00f4metros do aeroporto da capital siciliana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 Piera se encontra com Plazzi, com outra promotora, Alessandra Camassa, e com o procurador-geral, Paolo Borsellino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Borsellino e seu colega Giovanni Falcone s\u00e3o dois dos ju\u00edzes mais envolvidos na luta contra a m\u00e1fia desde a d\u00e9cada de 1980. E ser\u00e3o at\u00e9 a morte.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1074B\/production\/_112830476_gettyimages-186175231.jpg\" alt=\"Giovanni Falcone e Paolo Borsellino\" width=\"976\" height=\"741\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ju\u00edzes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino representam para muitos italianos s\u00edmbolos da luta contra m\u00e1fia<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambos s\u00e3o de Palermo, entendem muito bem a idiossincrasia da Cosa Nostra e est\u00e3o desenvolvendo um novo sistema de investiga\u00e7\u00e3o que conseguir\u00e1 prender e condenar centenas de bandidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 gra\u00e7as a suas investiga\u00e7\u00f5es que a estrutura complexa da Cosa Nostra e as rela\u00e7\u00f5es costuradas ao longo dos anos com o poder pol\u00edtico e empresarial italiano ser\u00e3o descobertas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Piera, naquele tempo e naquela delegacia, n\u00e3o sabe de nada disso. Tampouco sabe quem \u00e9 esse homem que est\u00e1 sendo apresentado a ela, que ela v\u00ea como algu\u00e9m importante e a quem chama de &#8220;excelent\u00edssimo&#8221;, como se fosse um deputado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Borsellino, af\u00e1vel, mas conciso, diz: &#8220;A colabora\u00e7\u00e3o com a justi\u00e7a funciona assim: se a Sra. quer que prendamos aqueles que mataram seu marido, precisa nos contar tudo o que sabe, sem esconder nada. E se encontrarmos evid\u00eancias de que o que a Sra. nos diz \u00e9 verdade, ent\u00e3o podemos parar aqueles que a Sra. acusa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ent\u00e3o a Sra. ter\u00e1 que comparecer diante de um juiz, repetir tudo na frente dos assassinos de seu marido, que podem estar l\u00e1, atr\u00e1s das grades e que olhar\u00e3o para voc\u00ea com olhos cheios de \u00f3dio.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E termina com um aviso que se tornar\u00e1 prof\u00e9tico.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17C7B\/production\/_112830479_gettyimages-954629966.jpg\" alt=\"Paolo Borsellino\" width=\"976\" height=\"667\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O juiz Paolo Borsellino lutou durante anos contra a m\u00e1fia na Sic\u00edlia.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se a Sra. decidir testemunhar, ter\u00e1 que sair daqui. Ter\u00e1 que arrancar a Sic\u00edlia do seu mapa.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;J\u00e1 me decidi&#8221;, responde Piera a Borsellino. &#8220;S\u00f3 preciso de tr\u00eas dias para fechar minha conta banc\u00e1ria, dizer adeus aos meus pais, arrumar tudo e ir embora com minha filha.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas dias depois, na noite de 30 de julho de 1991, Piera est\u00e1 dormindo com a filha em um apartamento protegido pela pol\u00edcia em Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desse momento, n\u00e3o ser\u00e1 mais Piera Aiello. Seu nome e sua primeira vida aparecer\u00e3o apenas nos complexos relat\u00f3rios judiciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora ela \u00e9 um testimone di giustizi (pessoa familiarizada com certos crimes relacionados ao crime organizado que colabora com a Justi\u00e7a, figura que \u00e9 reconhecida pela lei italiana desde 2001).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pouco antes de sair da Sic\u00edlia, fui me despedir de Rita Atria&#8221;, diz Piera, balan\u00e7ando as m\u00e3os no ar, com as unhas pintadas de esmalte rosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Disse a ela: &#8216;N\u00e3o quero ser como sua m\u00e3e. N\u00e3o quero ser uma vi\u00fava da m\u00e1fia. N\u00e3o quero ver os assassinos de seu irm\u00e3o, os assassinos de seu pai, caminhar diante dos meus olhos.&#8217;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00ednhamos que colocar um basta em tudo isso. A nossa cidade se tornou um local de \u00f3rf\u00e3os e vi\u00favas. N\u00e3o havia fam\u00edlia que n\u00e3o tivesse algum ente querido assassinado&#8221;, continua ela, com seu pequeno pingente com o s\u00edmbolo da Sic\u00edlia balan\u00e7ando no decote de sua blusa listrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estava cansada dessa vida. Estava cansada de ver como essas mulheres abaixavam a cabe\u00e7a, como se vestiam com seu len\u00e7o preto de luto, como se ajoelhavam diante desse sistema de g\u00e2ngsteres.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Contei tudo isso para Rita e repetia isso todas as quintas-feiras \u00e0s tr\u00eas da tarde, quando ligava para ela de uma cabine telef\u00f4nica em Roma.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma noite em outubro, algu\u00e9m bate \u00e0 porta da casa Atria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rita atende, n\u00e3o abre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um homem a exorta a faz\u00ea-lo: &#8220;Abra a porta!&#8221; &#8211; mas Rita n\u00e3o quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele se afasta da porta. Rita grita para ele ir embora. O homem se aproxima e sussurra: &#8220;Na vida voc\u00ea tem que falar pouco, porque sen\u00e3o &#8230;&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, Rita munida de sua mochila com seus livros escolares descansa no apartamento onde Piera e sua filha est\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tamb\u00e9m decidiu contar aos ju\u00edzes tudo o que viu e ouviu em seus 17 anos vivendo em uma fam\u00edlia de mafiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas mulheres come\u00e7am a listar, calcular, relacionar e detalhar tudo o que sabem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, como Piera repetir\u00e1 para os promotores Camassa e Borsellino, &#8220;uma mulher sempre sabe o que seu marido ou filho faz&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esse per\u00edodo de conviv\u00eancia foi maravilhoso, est\u00e1vamos recuperando nossa liberdade. At\u00e9 ent\u00e3o, nunca t\u00ednhamos sido livres para dar um passeio por conta pr\u00f3pria ou ir ao cabeleireiro&#8221;, diz Piera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foram minhas &#8216;f\u00e9rias em Roma'&#8221;, ela sorri, piscando em alus\u00e3o aos filmes protagonizados por Audrey Hepburn.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ela continua me dizendo como sua felicidade n\u00e3o demorou para acabar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 23 de maio de 1992, a m\u00e1fia detonou 400 kg de explosivo na rodovia que liga o aeroporto de Palermo \u00e0 cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento, um comboio de tr\u00eas carros estava passando, no qual viajavam o juiz Giovanni Falcone, sua mulher, a ju\u00edza Francesca Morvillo, e tr\u00eas acompanhantes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15D9F\/production\/_112830598_gettyimages-612556348.jpg\" alt=\"Massacre de Capaci\" width=\"976\" height=\"640\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Local do ataque contra juiz Giovanni Falcone, em que ele, a promotora Francesca Morvillo e tr\u00eas policiais da escolta morreram<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ataque, conhecido como &#8220;o massacre de Capaci&#8221;, al\u00e9m dos corpos das cinco pessoas, foram destru\u00eddas as esperan\u00e7as levantadas naqueles anos para derrotar a Cosa Nostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas mesmas ilus\u00f5es foram enterradas 57 dias depois, em 19 de julho de 1992, sob os escombros de &#8220;a matan\u00e7a de via D&#8217;Amelio&#8221;, quando um carro-bomba matou o juiz Paolo Borsellino e cinco guarda-costas quando ele visitava a casa de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foram apenas dois ataques contra inimigos da m\u00e1fia. Foi a declara\u00e7\u00e3o de guerra da Cosa Nostra e seus padrinhos (Tot\u00f2 Riina, Bernardo Provenzano, Leoluca Bagarella, entre outros) ao Estado italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma guerra que continuaria at\u00e9 o ano seguinte com ataques ao patrim\u00f4nio art\u00edstico e cultural de Roma, Mil\u00e3o e Floren\u00e7a, e que causaria a morte de v\u00e1rias pessoas inocentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As not\u00edcias do ataque de Borsellino deixam Piera e Rita atordoadas e desorientadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edcia entende a situa\u00e7\u00e3o de ambas e decide lev\u00e1-las para um local protegido na Sic\u00edlia, perto da fam\u00edlia de Piera. Mas, no \u00faltimo momento, Rita decide ficar em Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 a \u00faltima vez que as duas mulheres se abra\u00e7am.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 25 de julho de 1992, Rita se lan\u00e7a no vazio do s\u00e9timo andar do apartamento na capital italiana para onde foi transferida &#8220;por seguran\u00e7a&#8221;, disseram as autoridades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o vive sem voc\u00ea&#8221;, dizem as folhas escritas em uma parede.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/296B\/production\/_112830601_gettyimages-643779373.jpg\" alt=\"Massacre de Via d'Amelio\" width=\"976\" height=\"651\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Em 19 de julho de 1992, carro-bomba matou o juiz Paolo Borsellino e seus cinco guarda-costas quando ele estava visitando a casa de sua m\u00e3e<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu di\u00e1rio, eles encontram a mesma frase: \u00e9 dirigida ao juiz Borsellino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Giovanna Cannova, sogra de Piera e m\u00e3e de Rita, n\u00e3o comparece ao funeral da filha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns meses depois, eles a ver\u00e3o no cemit\u00e9rio do vilarejo, destruindo com marretadas a l\u00e1pide de sua filha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela promete que, enquanto viver, no t\u00famulo da fam\u00edlia n\u00e3o haver\u00e1 vest\u00edgios de sua Rita: sem foto, sem nome, nada. Porque ela era &#8220;infame&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o quebrar\u00e1 sua promessa nos 20 anos restantes de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;&#8216;Quando eles me disseram que uma das duas havia se jogado de uma sacada, pensei que fosse voc\u00ea&#8217;, eu disse para Piera naquela noite&#8221;, lembra \u00e0 BBC News Mundo Alessandra Camassa, atual presidente do tribunal de Marsala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camassa nunca esquecer\u00e1 aquele ver\u00e3o tamb\u00e9m. &#8220;N\u00e3o se sabia quem seria a pr\u00f3xima v\u00edtima.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Piera Aiello me confessou que a Sra. era a musa dela&#8221;, digo a Camassa e acrescento: &#8220;Ela me disse que se n\u00e3o a tivesse encontrado, n\u00e3o seria a pessoa que \u00e9 agora.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0909\/production\/_112831320_ritaatria1.jpg\" alt=\"Rita Atria\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Uma semana ap\u00f3s a morte do juiz Borsellino, Rita Atria cometeu suic\u00eddio. Ela n\u00e3o tinha nem 18 anos<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camassa ri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Piera n\u00e3o ganhou nada ao fazer o que fez&#8221;, responde, com seu suave sotaque de Trapani.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela poderia ter seguido com sua vida e teria sido mais f\u00e1cil para ela; tendo feito o que muitas mulheres sicilianas fazem, que s\u00e3o consistentes com os valores dos g\u00e2ngsteres.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o seria poss\u00edvel explicar como conseguem transmiti-los de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez disso, gra\u00e7as \u00e0s revela\u00e7\u00f5es de Piera e Rita, em 1993, conseguimos levar 14 membros da m\u00e1fia a julgamento e conden\u00e1-los, alguns por assassinato&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o julgamento, um homem arrependido revelou que as not\u00edcias do suic\u00eddio de Rita Atria foram recebidas com aplausos na pris\u00e3o de Trapani.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/ECBB\/production\/_112830606_camassaeborsellino_editada.jpg\" alt=\"Alessandra Camassa\" width=\"976\" height=\"479\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ju\u00edza Alessandra Camassa, \u00e0 esquerda, durante uma reuni\u00e3o com Paolo Borsellino e alguns policiais<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nos meses seguintes \u00e0 morte de Rita, eu morava em um hotel isolado, protegido pela pol\u00edcia, sem nome. Era um vegetal&#8221;, diz Piera, com o olhar fixo na parede atr\u00e1s de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi ent\u00e3o que decidi me isolar do mundo e entrar em um convento&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muita coisa aconteceu naqueles \u00faltimos dois anos e n\u00e3o queria saber de nada, descobrir nada. N\u00e3o assisti ao notici\u00e1rio por dois anos e meio&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A2E7\/production\/_112830714_gettyimages-643779557.jpg\" alt=\"Funeral de Giovanni Falcone\" width=\"976\" height=\"640\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Assassinatos de Falcone, Borsellino e outros ju\u00edzes e jornalistas que tentavam combater a m\u00e1fia despertaram profunda consci\u00eancia c\u00edvica na sociedade italiana<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Piera &#8211; dedos entrela\u00e7ados, os olhos voltados \u00e0 mesa de f\u00f3rmica &#8211; chama de &#8220;metamorfose&#8221; durou at\u00e9 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante esses dois anos e meio, ela deixou o isolamento apenas para participar de julgamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, mesmo que quisesse, tamb\u00e9m n\u00e3o poderia ter ido a lugar algum, porque havia apagado sua identidade: Piera Aiello n\u00e3o podia mais existir, mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o havia como substitui-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como voc\u00ea explica \u00e0s pessoas que voc\u00ea n\u00e3o existe?&#8221;, pergunta Piera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o pude matricular minha filha de seis anos na escola. Se fosse ao m\u00e9dico, tinha que dar o nome de outra pessoa.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O limbo em que Piera vive sua segunda vida durar\u00e1 seis anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazia um ano que ela havia deixado o programa de prote\u00e7\u00e3o a testemunhas quando recebeu sua nova identidade, em 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim que sua terceira vida come\u00e7a: com um novo nome que quase ningu\u00e9m sabe, em uma cidade que quase ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A TERCEIRA VIDA: DUAS A\u00c7\u00d5ES PARALELAS<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C803\/production\/_112830215_piera-aiello_3-nc.png\" alt=\"Piera Aiello ilustraci\u00f3n 3\" width=\"1441\" height=\"1157\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira vida de Piera \u00e9 um jogo de &#8220;cara ou coroa&#8221; constante. Mas \u00e9 ela, n\u00e3o o acaso, quem decide quando jogar a moeda e de que lado ela cai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um novo nome, Piera se muda para um local protegido, come\u00e7a a trabalhar, conhece um homem, se apaixona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa vez, n\u00e3o ser\u00e3o os pais dele que autorizar\u00e3o o relacionamento, mas a pol\u00edcia, encarregada de examinar suas novas intera\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez obtida a aprova\u00e7\u00e3o, ela lhe revela sua outra identidade, ele n\u00e3o se sente intimidado e, em 1999, eles se casam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera d\u00e1 \u00e0 luz a outra filha, a quem ela decide n\u00e3o contar sobre seu passado ou o nome com o qual viveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando aquela garota descobrir quem era sua m\u00e3e, quem ela \u00e9 ou quem ser\u00e1 &#8211; e dessa vez, sim, ser\u00e1 obra do acaso &#8211; ela estar\u00e1 prestes a completar a maioridade e Piera, a come\u00e7ar sua quarta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, no momento, Piera \u00e9 apenas sua m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera come\u00e7a, ent\u00e3o, a contar, agora com seu nome real, suas experi\u00eancias em reuni\u00f5es p\u00fablicas cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que ela define como sua &#8220;miss\u00e3o&#8221;: visitar escolas em todas as regi\u00f5es da It\u00e1lia para explicar aos alunos como \u00e9 a cara da m\u00e1fia. Ironicamente, contudo, ela n\u00e3o pode mostrar a sua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, em 1995, Piera come\u00e7ou a se envolver no movimento civil contra a m\u00e1fia atrav\u00e9s da Associa\u00e7\u00e3o Rita Atria, fundada um ano antes por Nadia Furnari, uma ativista pol\u00edtica siciliana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera conheceu Furnari quando ainda estava &#8220;se livrando do mofo no convento&#8221;, confessa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7BD7\/production\/_112830713_piera-aiello-nadia-furnari-2009.jpg\" alt=\"Piera Aiello e Nadia Furnari\" width=\"976\" height=\"738\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Piera Aiello (de costas e com um len\u00e7o cobrindo o rosto), na companhia de Nadia Furnari (no meio) e outra amiga<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Imagine que naqueles anos eu n\u00e3o sabia quem era Berlusconi. Eu o vi na TV e ele parecia um tipo at\u00e9 simp\u00e1tico&#8221;, ela ri, j\u00e1 em sua quarta vida, a de deputada do Movimento 5 Estrelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse movimento pol\u00edtico, fundado em 2009, sempre criticou Berlusconi por sua proximidade pessoal e pol\u00edtica com pessoas ligadas ao ambiente da m\u00e1fia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isso mostra que naquela \u00e9poca eu ainda n\u00e3o entendia nada de pol\u00edtica&#8221;, diz ela, rindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nadia Furnari a acompanha em suas palestras, a apresenta ao mundo do ativismo antim\u00e1fia, a ajuda a terminar o Ensino M\u00e9dio e atua como porta-voz quando Piera n\u00e3o pode se movimentar por raz\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas mulheres tamb\u00e9m est\u00e3o envolvidas em uma campanha para aprovar uma lei que protege testemunhas e que finalmente entrar\u00e1 em vigor em 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cumplicidade das duas mulheres \u00e9 tal que, em 2008, Piera chegou a presidir a Associa\u00e7\u00e3o Rita Atria, institui\u00e7\u00e3o da qual acabar\u00e1 saindo tr\u00eas anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, em suas mem\u00f3rias, assinadas com seu primeiro nome e publicadas em 2012 junto com o jornalista Umberto Lucentini, ela se lembra desse epis\u00f3dio assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nadia me devolveu o desejo de viver no sentido mais profundo da palavra. Isso me mostrou que h\u00e1 uma possibilidade de mudan\u00e7a na Sic\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Caro Angelo,&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sou Nadia Furnari, a pessoa que acompanhou os passos de Piera Aiello por 17 anos&#8230; h\u00e1 nove anos, nossos caminhos divergiram, tanto pessoalmente quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 associa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando recebo esta resposta \u00e0 minha solicita\u00e7\u00e3o de entrevista para essa reportagem, minha primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 de espanto. Mas imediatamente surge a curiosidade de saber mais sobre os motivos dessa ruptura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Caro Angelo&#8221;, Furnari responde em um segundo e-mail: &#8220;Pessoalmente, decidi n\u00e3o falar mais sobre Piera Aiello. Se voc\u00ea quiser conhecer nossas atividades como associa\u00e7\u00e3o e\/ou nossa opini\u00e3o sobre Rita Atria, explicarei com prazer, mas a conversa n\u00e3o ser\u00e1 relacionada a Piera Aiello.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordamos em conversar por telefone na semana seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua voz \u00e9 gentil e vibrante. Ela me explica as dificuldades envolvidas na luta contra a m\u00e1fia em um pa\u00eds onde, por alguns anos, quem teve a coragem de faz\u00ea-lo era considerado uma p\u00e1ria e n\u00e3o um her\u00f3i glamoroso da justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda mais se tivessem rosto e voz femininos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11817\/production\/_112830717_gettyimages-643779449.jpg\" alt=\"Salvatore Riina\" width=\"976\" height=\"652\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Salvatore Riina \u00e9 considerado um dos chef\u00f5es da m\u00e1fia siciliana. Ele foi preso em janeiro de 1993<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, Furnari nem quer ouvir falar de her\u00f3is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o h\u00e1 her\u00f3is. Falcone, Borsellino, os policiais e jornalistas que a m\u00e1fia matou n\u00e3o pensaram em ser her\u00f3is, eles s\u00f3 queriam fazer o seu trabalho.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Torn\u00e1-los her\u00f3is faz com que o restante das pessoas n\u00e3o se sinta respons\u00e1vel. Em vez disso, queremos que cada um lute contra a m\u00e1fia que est\u00e1 dentro de si, que cada um saiba de que lado ficar sem rupturas ou meias palavras&#8221;, diz ela com firmeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto, a conversa recai sobre Piera. Furnari, com sua voz gentil e vibrante, me garante que ela n\u00e3o despreza sua antiga amizade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ela me deixa claro novamente: a \u00fanica coisa que dir\u00e1 sobre Piera \u00e9 que discorda totalmente de suas decis\u00f5es pol\u00edticas no Movimento 5 Estrelas. Furnari n\u00e3o as considera consistentes com seu passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o ela se despede e nossa conversa chega ao fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias depois de conversar com ela, entrevisto Anna Puglisi, presidente da hist\u00f3rica Associa\u00e7\u00e3o das Mulheres da Sic\u00edlia que lutam contra a m\u00e1fia. Ela tamb\u00e9m me avisa que n\u00e3o vai falar sobre Piera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Puglisi reconhece sua coragem em denunciar a m\u00e1fia &#8211; &#8220;Ela foi a primeira a faz\u00ea-lo!&#8221; &#8211; mas acredita que o que Piera busca agora explorar seu passado em troca de visibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nem a Associa\u00e7\u00e3o Rita Atria&#8221;, diz ela sem rodeios, &#8220;nem Nadia Furnari lhe daria o que ela aspirava ter&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele escrit\u00f3rio repleto de fuma\u00e7a de cigarro onde Piera me conta a hist\u00f3ria &#8211; a hist\u00f3ria dela &#8211; que ela contou in\u00fameras vezes, a conversa recai sobre seu relacionamento com Furnari.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que aconteceu?&#8221;, pergunto a ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera estende as m\u00e3os sobre a mesa. Com uma delas, pega o ma\u00e7o de cigarros e, com a outra, leva um \u00e0 boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sempre serei grata a Nadia&#8221;, diz, &#8220;porque ela e a associa\u00e7\u00e3o me tiraram do limbo&#8221;, acrescenta, batendo o cigarro no cinzeiro para livrar-se das cinzas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;S\u00f3 que&#8221;, ela d\u00e1 uma tragada, &#8220;sou um esp\u00edrito livre e, quando voc\u00ea faz parte de uma associa\u00e7\u00e3o, precisa seguir algumas regras&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera d\u00e1 uma baforada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Me sentia oprimida, digamos&#8230; controlada&#8221;, ela se recosta sobre sua poltrona. &#8220;E nesse per\u00edodo, o que queria era abrir minhas asas, decolar&#8221;, d\u00e1 mais uma tragada, &#8220;e queria fazer isso sozinha.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sou assim&#8221;, Piera faz uma pausa, &#8220;um cavalo sem freio.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A QUARTA VIDA: SER PIERA NOVAMENTE<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13D33\/production\/_112830218_piera-aiello_4-nc.png\" alt=\"Piera Aiello ilustraci\u00f3n 4\" width=\"1441\" height=\"1157\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piera ainda n\u00e3o sabe, mas o acaso decidiu que esse jogo de cara e coroa de 20 anos est\u00e1 prestes a terminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Era uma tarde de ver\u00e3o em 2017&#8221;, ela come\u00e7a a me dizer, sem esconder certo al\u00edvio em suas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;T\u00ednhamos acabado de reformar o apartamento protegido onde morava com minha fam\u00edlia e queria decorar algumas paredes.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, meu marido e eu est\u00e1vamos arrumando o \u00e1tico e, encostados na parede, havia alguns quadros que ele havia me trazido da casa dos meus pais na Sic\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram quadros que eu pintava quando jovem, quando ainda me chamava Piera Aiello.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, minha filha aparece e come\u00e7a a dizer: &#8216;Por que voc\u00ea quer comprar quadros se h\u00e1 tantos aqui?&#8217; E rasga o inv\u00f3lucro de um deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imediatamente, v\u00ea uma assinatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea quer me contar algo?&#8221;, minha filha me perguntou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela estava prestes a completar 18 anos e decidi que havia chegado a hora de dizer a verdade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;&#8216;Como voc\u00ea fez isso? Como voc\u00ea conseguiu manter esse segredo por tanto tempo?&#8217;, minha filha me pergunta. &#8216;De repente, tenho uma m\u00e3e que todo mundo conhece e outra que eu conhe\u00e7o, completamente diferente&#8217;, acrescentou ela.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/113CE\/production\/_113060607_gettyimages-1050723260.jpg\" alt=\"Don Luigi Ciotti\" width=\"976\" height=\"650\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Piera Aiello colabora h\u00e1 anos com a associa\u00e7\u00e3o anti-m\u00e1fia &#8220;Libera&#8221;, fundada pelo padre Luigi Ciotti<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse escrit\u00f3rio onde passa v\u00e1rias horas de sua quarta vida, n\u00e3o h\u00e1 foto de ningu\u00e9m: nem de suas filhas, nem de seu marido, nem dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como a Sra. conseguiu manter um segredo t\u00e3o bem guardado por tanto tempo?&#8221;, pergunto-lhe novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 como se eu desligasse um interruptor&#8221;, responde ela. &#8220;N\u00e3o sou mais essa pessoa, mas a outra&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de alguns meses, come\u00e7ar\u00e1 a quarta vida de Piera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de 2018, o Movimento 5 Estrelas quer que ela se candidate nas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento italiano, que seriam realizadas em mar\u00e7o daquele ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua resposta \u00e9 positiva, mas com duas condi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A primeira \u00e9 que eu seja candidata com meu nome verdadeiro, Piera Aiello&#8221;, diz ela categoricamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda \u00e9 que ela se lance candidata por Marsala, a mesma prov\u00edncia da Sic\u00edlia onde nasceu Matteo Messina Denaro, considerado pelas autoridades italianas o atual chefe da m\u00e1fia siciliana e um fugitivo da justi\u00e7a desde 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nessa corrida, ela corre uma desvantagem significativa: Piera n\u00e3o pode fazer campanha em locais abertos, nem ser fotografada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para todos, ela \u00e9 &#8220;a candidata sem rosto&#8221; e o len\u00e7o preto que cobre seu rosto sempre que faz um discurso se torna o s\u00edmbolo de sua campanha eleitoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muitas pessoas me olharam como se eu fosse uma alien\u00edgena&#8221;, lembra ela, com um sorriso malicioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um m\u00eas e 77.950 votos depois, Piera Aiello inicia sua quarta vida, com seu nome e como deputada da Rep\u00fablica, a primeira testemunha de justi\u00e7a a entrar no Parlamento italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 5 de mar\u00e7o de 2018, seu objetivo, explica ela, permanece o mesmo: trabalhar na Comiss\u00e3o Parlamentar contra a m\u00e1fia para melhorar as condi\u00e7\u00f5es das testemunhas de justi\u00e7a e de suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Estado n\u00e3o est\u00e1, por assim dizer, muito atento \u00e0s suas necessidades. Porque quando o tempo das den\u00fancias, dos julgamentos, do interesse da m\u00eddia passa, o n\u00edvel de prote\u00e7\u00e3o cai&#8221;, denuncia ela, enquanto sua voz se torna grave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Por outro lado, a Cosa Nostra, a &#8216;Ndrangheta, a Camorra, nunca esquecem voc\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, o celular vibra na mesa de f\u00f3rmica. \u00c9 sua escolta, que pergunta quando ela estar\u00e1 livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto conversam por alguns minutos, uma lembran\u00e7a que Piera descreve em suas mem\u00f3rias vem \u00e0 mente.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/67F5\/production\/_112831662_gettyimages-57315718.jpg\" alt=\"Esconderijo de Bernardo Provenzano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Esconderijo de um dos \u00faltimos chefes da m\u00e1fia, Bernardo Provenzano, preso perto de Corleone em 2006, depois de 42 anos como foragido<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ver\u00e3o de 1991 e fazia algumas semanas que estava denunciando aos promotores os segredos da m\u00e1fia que ouviu durante anos ao lado de seu marido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante esses dias, os companheiros de sua solid\u00e3o s\u00e3o incerteza, ang\u00fastia e medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, ela come\u00e7a a chorar na delegacia. Piera n\u00e3o quer continuar, quer rasgar os papeis de suas declara\u00e7\u00f5es, quer voltar para sua vida, seja ela o que for.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz Paolo Borsellino a abra\u00e7a, a conforta e a empurra levemente em dire\u00e7\u00e3o ao espelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que voc\u00ea v\u00ea?&#8221;, pergunta ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu vejo uma garota com um passado complicado, um presente inexistente e um enorme ponto de interroga\u00e7\u00e3o como futuro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em vez disso, vejo&#8230;&#8221;, diz Borsellino, &#8220;vejo uma garota com um passado complicado que conseguiu se rebelar. E vejo um futuro de felicidade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que acaba de falar com sua escolta, mencionei essa anedota e perguntei a ela como se v\u00ea diante do espelho:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quem \u00e9 Piera Aiello agora?&#8221;, pergunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Piera Aiello \u00e9 uma mulher que vem de 30 anos de luta contra a m\u00e1fia, que fez isso do anonimato&#8221;, responde ela.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14E6D\/production\/_112831658_rostro.jpg\" alt=\"Piera Aiello\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Piera Aiello foi eleita para o Parlamento italiano em mar\u00e7o de 2018<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Piera continua: &#8220;Piera Aiello ainda \u00e9 a mesma mulher de sempre, mesmo que agora seja pol\u00edtica&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que ela v\u00ea naquele espelho j\u00e1 me foi explicado, entre lembran\u00e7as e cigarros, entre depoimentos e olhares firmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Acima de tudo, sou Piera Aiello. Porque, embora voc\u00ea entre no sistema de prote\u00e7\u00e3o a testemunha e eles mudem seu nome, seu primeiro nome, o que seu pai lhe deu, ele nunca morre. Ningu\u00e9m pode apag\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu sou uma Aiello e, como Aiello, quero morrer.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre 1983 e 1997, na Sic\u00edlia, houve 1.464 assassinatos da m\u00e1fia, segundo o \u00f3rg\u00e3o de estat\u00edstica italiano (ISTAT). Somente na prov\u00edncia de Trapani, \u00e0 qual pertence Partanna, entre 1983 e 1993, houve 88 assassinatos envolvendo a m\u00e1fia.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":325332,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327,6],"tags":[],"class_list":["post-325331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pirrelo.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=325331"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325331\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/325332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=325331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=325331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=325331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}