{"id":325515,"date":"2020-07-20T07:41:45","date_gmt":"2020-07-20T10:41:45","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=325515"},"modified":"2020-07-20T07:41:45","modified_gmt":"2020-07-20T10:41:45","slug":"morre-juan-marse-o-grande-romancista-do-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/morre-juan-marse-o-grande-romancista-do-seculo-xx\/","title":{"rendered":"Morre Juan Mars\u00e9, o grande romancista do s\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \">O escritor, de 87 anos, alcan\u00e7ou a fama com a publica\u00e7\u00e3o de \u2018\u00daltimas Tardes com Teresa\u2019. Pr\u00eamio Cervantes, seus livros retrataram uma sociedade em evolu\u00e7\u00e3o do franquismo at\u00e9 a democracia<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Carles Geli\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/carles-geli\/\">CARLES GELI<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/qGSzlPsOsOHVsbO5n23qTTMOsL0=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/7BMN4IQGUFLWWQFQGPEDNJJJXU.jpg\" alt=\"Na foto, o escritor Juan Mars\u00e9, em sua casa de Barcelona em 2014.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Na foto, o escritor Juan Mars\u00e9, em sua casa de Barcelona em 2014.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">CONSUELO BAUTISTA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">A f\u00f3rmula era saber de algum acontecimento real do bairro e, sentado no meio-fio, agregar toda a imagina\u00e7\u00e3o poss\u00edvel alimentada por filmes e quadrinhos da regi\u00e3o, at\u00e9 transformar o epis\u00f3dio numa narra\u00e7\u00e3o fascinante, que os demais seguiam em sil\u00eancio absoluto. As hist\u00f3rias eram contadas pelas crian\u00e7as do bairro de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/juan-marse\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Juan Mars\u00e9<\/a>, numa inf\u00e2ncia marcada pelo frio e o mercado negro de uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/barcelona\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Barcelona<\/a>\u00a0cinzenta, delimitada pelas zonas de El Carmelo, Guinard\u00f3 e Gr\u00e0cia. Eram chamadas de aventis, e a partir delas \u2014e com um dom para a descri\u00e7\u00e3o e o retrato como poucos escritores\u2014 Mars\u00e9 se transformou num dos grandes nomes da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/literatura-espanola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">literatura espanhola\u00a0<\/a>atual, mem\u00f3ria liter\u00e1ria da inf\u00e2ncia do p\u00f3s-guerra, que partiu na noite de s\u00e1bado no Hospital de Sant Pau de Barcelona, aos 87 anos, ap\u00f3s complica\u00e7\u00f5es decorrentes da insufici\u00eancia renal que sofria havia tempo.<\/p>\n<p class=\"\">A vida do autor de ic\u00f4nicos cl\u00e1ssicos contempor\u00e2neos como\u00a0<i>\u00daltimas Tardes com Teresa<\/i>\u00a0(Alfaguara Brasil), que confirmou sua voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,\u00a0<i>Si te Dicen Que Ca\u00ed\u00a0e\u00a0Un D\u00eda Volver\u00e9<\/i>\u00a0foi, no fundo, uma\u00a0<i>aventi<\/i>\u00a0(aventura) em si mesma. \u201cTornei-me escritor porque tenho um desajuste com a realidade que me rodeia, meu pa\u00eds, minha cidade, minha \u00e9poca&#8230; Isso me leva a encontrar na literatura um mundo de experi\u00eancias que n\u00e3o tive, mas que sonhei\u201d, disse ele ap\u00f3s ganhar o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/premio-cervantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pr\u00eamio Cervantes<\/a>, em 2008, que coroou sua carreira. Um dos desajustes \u00e9 que sua m\u00e3e morreu pouco depois do parto e seu pai o deu em ado\u00e7\u00e3o a um casal de amigos, Pep Mars\u00e9 e Alberta Carb\u00f3, que acabavam de perder um filho. \u00c9 mais prov\u00e1vel que os homens se conhecessem por sua passagem pelo independentista\u00a0<i>Estat Catal\u00e0<\/i>\u00a0antes da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/guerra-civil-espanola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Guerra Civil,<\/a>\u00a0um dos muitos acenos ir\u00f4nicos que a vida reservou para Mars\u00e9, \u00e1cido como poucos com a educa\u00e7\u00e3o e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/iglesia-catolica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Igreja Cat\u00f3lica<\/a>\u00a0(\u201cSou um anticlerical militante\u201d, dizia, fruto de uma heran\u00e7a paterna) e com a pol\u00edtica espanhola e catal\u00e3, em particular a nacionalista. \u201cSou um fronteiri\u00e7o e um franco-atirador, a situa\u00e7\u00e3o ideal\u201d, definia-se sempre.<\/p>\n<p class=\"\">Suas primeiras lembran\u00e7as foram os bombardeios de Barcelona e a imagem bem n\u00edtida dele e do pai chorando juntos, na varanda da casa, quando as tropas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/fascismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fascistas<\/a>\u00a0entraram em Barcelona em 26 de janeiro de 1939. Depois j\u00e1 tudo seria o p\u00f3s-guerra, quase eterno. \u201cEm meus romances, continuo transitando em meu mundo do p\u00f3s-guerra; acontece que ele se tornou t\u00e3o longo que me parece atual\u201d, dizia, sempre brincando.<\/p>\n<p class=\"\">Mars\u00e9 preencheu o p\u00f3s-guerra oficial com os quadrinhos que sua m\u00e3e lhe dava (<i>El Coyote, El\u00a0Guerrero del Antifaz<\/i>\u2026) e os escritos de Verne, Wallace e Salgari, e muitos mergulhos nas piscinas da terraconense Sant Jaume dels Domenys, de onde era sua progenitora. L\u00e1 jogava\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/futbol\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">futebol<\/a>, premonitoriamente, na posi\u00e7\u00e3o de goleiro (como Nabokov e Camus) e matou um pardal com uma espingarda de chumbinho, imagem da qual nunca mais se livrou. Tamb\u00e9m gostava de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/cine\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">cinema<\/a>, claro (\u201cfoi meu aprendizado no of\u00edcio de narrar; sempre gostei mais de trabalhar com imagens que com ideias\u201d), talvez sua melhor escola porque teve que deixar os estudos aos 13 anos para ajudar em casa. Entrou na oficina de uma joalheria, of\u00edcio \u00e1rduo mas de precis\u00e3o, t\u00e9cnica que acabou aplicando \u00e0 sua adjetiva\u00e7\u00e3o, digna de ourives, e que j\u00e1 aparecia em seu primeiro relato, feito a l\u00e1pis num caderno, aos 15 anos, sobre as lembran\u00e7as de uns ciganos da cidade.<\/p>\n<p class=\"\">Logo ficou claro quem seria sua fada madrinha liter\u00e1ria. Uma\u00a0<i>aventi<\/i>\u00a0dentro da\u00a0<i>aventi<\/i>: sua m\u00e3e cuidava de uma idosa que tinha uma filha escritora. E sugeriu que o jovem escrevesse para ela. Era Paulina Crusat. \u201cO senhor nasceu com o instinto de como se escreve, o de criar uma atmosfera (&#8230;) o dom da express\u00e3o \u00e9 seu de nascimento\u201d, ela lhe diria logo depois, numa das dezenas de cartas que ambos trocaram desde janeiro de 1957 at\u00e9 os anos setenta. As missivas ajudariam tanto o escritor como a pessoa: o Mars\u00e9 que leu\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/el-quijote\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Dom Quixote<\/a>\u00a0aos 17 anos na solid\u00e3o do vizinho Parque G\u00fcell, e Zweig, e o Hemingway contista e seu predileto P\u00edo Baroja, que durante o servi\u00e7o militar em Ceuta (onde obteria a hist\u00f3ria do impag\u00e1vel Tenente Bravo), que redigiu 130 p\u00e1ginas de um romance (o embri\u00e3o de sua estreia:\u00a0<i>Encerrados Con Un Solo Juguete<\/i>) e que ficaria estremecido com o filme\u00a0<i>A Morte de Um Ciclista<\/i>, com os anos se abriria mais nas cartas, definindo-se como \u201cbastante pregui\u00e7oso\u201d e com \u201cpouca capacidade de afeto externo\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Os textos que Mars\u00e9 vai trabalhando e que chegar\u00e3o, por indica\u00e7\u00e3o de Crusat, a revistas como \u00cdnsula, e ganhar\u00e3o o pr\u00eamio S\u00e9samo de contos (<i>Nada para Morir<\/i>) est\u00e3o impregnados de um realismo social em voga. Al\u00e9m disso, ele era um escritor oper\u00e1rio, m\u00e1ximo m\u00e9rito para o grupo de escritores e refinados de esquerda que seu pr\u00f3prio l\u00edder, Carlos Barral, batizou como Escola de Barcelona, nomes que seriam tamb\u00e9m amigos: Gil de Biedma, Garc\u00eda Hortelano, V\u00e1zquez Montalb\u00e1n,\u00a0Terenci Moix, Eduardo Mendoza e, com o passar do tempo, Joan de Sagarra e Enrique Vila-Matas, entre outros.<\/p>\n<p class=\"\">Joalheiro at\u00e9 as tr\u00eas da tarde, romancista das tr\u00eas \u00e0s nove, Mars\u00e9 legendou a entrevista que outro juven\u00edssimo V\u00e1zquez Montalb\u00e1n lhe fez em dezembro de 1960 no falangista\u00a0<i>Solidaridad Nacional<\/i>\u00a0ap\u00f3s ser finalista do Biblioteca Breve com\u00a0<i>Encerrados Con Un Solo Juguete<\/i>, a mais autobiogr\u00e1fica de suas obras junto com o j\u00e1 tardio Caligrafia dos Sonhos (Alfaguara Brasil). Ali come\u00e7aria uma nova vida, \u201cestando mais que sendo\u201d nesse grupo e em seu rumo social natural, o movimento Gauche Divine [\u201dA Esquerda Divina, em franc\u00eas] e sua emblem\u00e1tica sala Bocaccio, de cuja revista acabaria sendo redator-chefe, como tamb\u00e9m seria da revista Por Favor, um dos atores-chave da Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">Gil de Biedma seria seu melhor amigo e Pigmale\u00e3o: sugeriu que ele fosse a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/paris\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Paris<\/a>\u00a0(onde arranjaria emprego num laborat\u00f3rio do Instituto Pasteur e abandonaria oficialmente seu nome de nascimento, Juan Faneca Roca), fez a corre\u00e7\u00e3o do manuscrito e lhe deu de presente as cita\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que abrem os cap\u00edtulos de \u00daltimas Tardes com Teresa (1966), o mais ic\u00f4nico dos romances de Mars\u00e9, e as perip\u00e9cias de Pijoaparte, um pequeno marginal, para impressionar uma jovem rica da burguesia catal\u00e3. Tamb\u00e9m lhe sugeriu o t\u00edtulo de\u00a0<i>Si Te Dicen Que Ca\u00ed<\/i>\u00a0(1973), com o qual obteve o Pr\u00eamio M\u00e9xico de Romance ap\u00f3s ter problemas de censura na Espanha.<\/p>\n<p class=\"\">A carreira de romancista de Mars\u00e9, que acabaria com 13 t\u00edtulos e cerca de 30 livros no total, logo seria aclamada pela cr\u00edtica e causaria sensa\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico com\u00a0<i>La Muchacha de Las Bragas de Oro<\/i>, pr\u00eamio Planeta 1978, obra que teve seu contraponto liter\u00e1rio com uma de suas obras maiores,\u00a0<i>Un D\u00eda Volver\u00e9<\/i>.\u00a0<i>Ronda del Guinard\u00f3<\/i>\u00a0(1984, pr\u00eamio Cidade de Barcelona),\u00a0<i>El Amante Biling\u00fce<\/i>\u00a0(1990, pr\u00eamio Ateneo de Sevilla),\u00a0<i>El Embrujo de Shanghai\u00a0<\/i>(1993) e\u00a0<i>Rabos de Lagartija\u00a0<\/i>(2000, pr\u00eamios da Cr\u00edtica e Nacional de Narrativa) foram alguns dos grandes t\u00edtulos de um trabalhador incans\u00e1vel, que se levantava \u00e0s 8:30 da manh\u00e3, tomava caf\u00e9 e come\u00e7ava a escrever, revisando uma e outra vez os manuscritos, que corrigia numa mesa repleta de esferogr\u00e1ficas e canetas-tinteiro (\u201ccada vez sou mais detalhista e chato com o que escrevo\u201d, dizia), que em 1962 publicou Esta Cara de la Luna, que nunca mais quis editar, buscando em sua escrita de ressaibo impressionista uma fluidez e uma naturalidade infinitamente trabalhadas. Depois, pausa para ler as not\u00edcias, com as quais afiava sua proverbial capacidade cr\u00edtica, de uma acidez exemplar, como ficou demonstrado na maioria de seus retratos de\u00a0<i>Se\u00f1oras y Se\u00f1ores<\/i>: um prod\u00edgio liter\u00e1rio, uma chuva de dardos.<\/p>\n<p class=\"\">Cela (\u201csua prosa \u00e9 empolada demais\u201d), Umbral, Baltasar Porcel (\u201da melhor escrita catal\u00e3 depois de Carmen de Lirio), Juan e Luis Goytisolo (pela pol\u00eamica da concess\u00e3o do Biblioteca Breve a\u00a0\u00daltimas Tardes com Teresa) e muitos diretores de cinema (nunca gostaram das adapta\u00e7\u00f5es de suas obras) foram algumas de suas v\u00edtimas em duelos liter\u00e1rios que nunca recusou, independente que era at\u00e9 o extremo de abandonar um j\u00fari do Pr\u00eamio Planeta 2005 devido \u00e0 baixa qualidade das obras apresentadas. Tinha ainda menos papas na l\u00edngua com os pol\u00edticos, sobretudo os nacionalistas, o que lhe deixou \u2014\u201cfelizmente\u201d segundo dizia\u2014 \u00e0 margem da cultura catal\u00e3 oficial. Uma das batalhas veio da guerra pela l\u00edngua e o bilinguismo. \u201cAcho [o castelhano] mais confort\u00e1vel e, claro, me expresso melhor com ele. N\u00e3o conhe\u00e7o o catal\u00e3o o suficiente para escrever\u201d, confessou a Crusat j\u00e1 em 1960, quando recebeu ofertas para traduzir alguns de seus contos ao catal\u00e3o. At\u00e9 Montserrat Roig quis encontr\u00e1-lo para saber \u201ccom certeza a que cultura\u201d pertencia.<\/p>\n<p class=\"\">Mas Mars\u00e9 foi sempre muito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia catal\u00e3 (\u201cele a despiu\u201d, diz a escritora e amiga Maruja Torres no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/twitter\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Twitter<\/a>) e ao nacionalismo, como refletiu em artigos, mas tamb\u00e9m em sua obra (no pr\u00f3prio \u00daltimas Tardes com Teresa,\u00a0em\u00a0<i>La Oscura Historia de La Prima Montse,\u00a0El Amante Biling\u00fce<\/i>\u2026 ). Um desencontro que teve seu apogeu em 2007, quando a literatura catal\u00e3 foi a convidada de honra na Feira de Frankfurt e o Governo regional pediu aos grandes autores catal\u00e3es em l\u00edngua castelhana que estivessem presentes para apoiar as letras em catal\u00e3o. \u201cIr l\u00e1 s\u00f3 para abrir o show me parece o c\u00famulo\u201d, respondeu.<\/p>\n<p class=\"\">Mas quem dizia isso era algu\u00e9m que sempre foi bil\u00edngue com naturalidade extrema: com Gil de Biedma falava em castelhano, e tamb\u00e9m com sua mulher, Joaquina, e sua filha, Berta, do mesmo modo que conversava em catal\u00e3o com Barral Barral, Gabriel Ferrater e com seu filho Sacha. \u201cA l\u00edngua que se imp\u00f5e \u00e9 a dos sonhos e das\u00a0<i>aventis<\/i>\u201d, declarou em seu discurso do Cervantes. Para n\u00e3o escrever em catal\u00e3o, tamb\u00e9m havia uma quest\u00e3o pr\u00e1tica. \u201cN\u00e3o quero jogar fora meus instrumentos em castelhano.\u201d Em qualquer caso, nunca levantou bandeira de nenhum idioma.<\/p>\n<p class=\"\">Duas pontes de safena, em 1985 e 1999, e uma posterior insufici\u00eancia renal ajudaram a serenar o ardor combativo de um escritor que desmentia seu suposto desapego pela atualidade e sua falsa pregui\u00e7a (\u201csinto que est\u00e1 muito pr\u00f3ximo o fim dos meus neur\u00f4nios\u201d, se desculpava) publicando em 2011 seu d\u00e9cimo-terceiro romance, Caligrafia dos Sonhos (Alfaguara Brasil). E n\u00e3o faz nem cinco anos, veio a\u00a0<i>nouvelle Noticias Felices em Aviones de Papel<\/i>, fragmento de um romance no qual trabalhou minuciosamente como sempre, e que dedicou, claro, a Crusat. \u201cDesejo o sucesso por causa da minha fam\u00edlia. Sou adotado e n\u00e3o desejo decepcion\u00e1-los em nada\u201d, escreveu no final dos anos cinquenta para sua fada madrinha liter\u00e1ria. Nem ele, nem suas\u00a0<i>aventis<\/i>, jamais decepcionaram.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor, de 87 anos, alcan\u00e7ou a fama com a publica\u00e7\u00e3o de \u2018\u00daltimas Tardes com Teresa\u2019. Pr\u00eamio Cervantes, seus livros retrataram uma sociedade em evolu\u00e7\u00e3o do franquismo at\u00e9 a democracia<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":95090,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-325515","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/nota-de-pesar-lua.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325515","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=325515"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325515\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=325515"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=325515"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=325515"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}