{"id":325630,"date":"2020-07-21T06:12:47","date_gmt":"2020-07-21T09:12:47","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=325630"},"modified":"2020-07-21T06:12:47","modified_gmt":"2020-07-21T09:12:47","slug":"parente-de-paciente-morta-por-cloroquina-lamenta-uso-de-remedio-alardeado-por-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/parente-de-paciente-morta-por-cloroquina-lamenta-uso-de-remedio-alardeado-por-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Parente de paciente morta por cloroquina lamenta uso de rem\u00e9dio alardeado por Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure><picture><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2020070810078_ce7ca6617611f8ea156fd65f18038813c6208f62b2426c0dfe8b99ab0507cc0d.webp\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 680px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2020070810078_ce7ca6617611f8ea156fd65f18038813c6208f62b2426c0dfe8b99ab0507cc0d.jpeg\" type=\"image\/jpeg\" media=\"(max-width: 680px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2020070810078_79f24527f982af123d62bc9cde5e46104f2be528c4849a53714e0dc3cfdb7387.webp\" type=\"image\/webp\" media=\"(min-width: 681px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2020070810078_79f24527f982af123d62bc9cde5e46104f2be528c4849a53714e0dc3cfdb7387.jpeg\" type=\"image\/jpeg\" media=\"(min-width: 681px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\"Jair Bolsonaro toma cloroquina (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o | Reuters)\" src=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2020070810078_79f24527f982af123d62bc9cde5e46104f2be528c4849a53714e0dc3cfdb7387.jpeg\" alt=\"Jair Bolsonaro toma cloroquina\" \/><\/picture><figcaption>Jair Bolsonaro toma cloroquina (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o | Reuters)<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"article__text marginTop30\">\n<p><u><b>Por Jo\u00e3o de Mari, da Ag\u00eancia P\u00fablica <\/b><\/u><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de maio deste ano, o telefone da auxiliar de enfermagem aposentada e cuidadora de idosos Zileide Silva do Nascimento, de 56 anos, tocou em sua casa em Mogi das Cruzes, na Grande S\u00e3o Paulo, enquanto ela se arrumava para iniciar um fim de semana de trabalho. Do outro lado da linha, uma pessoa da equipe comandada pelo m\u00e9dico Renan Kenji Hanada Pereira, que atua no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, refer\u00eancia no tratamento da Covid-19 na regi\u00e3o, informou o estado de sa\u00fade de sua irm\u00e3 Zemilda Silva do Nascimento Gon\u00e7alves: \u201cEla est\u00e1 est\u00e1vel, mas entramos com o medicamento hidroxicloroquina\u201d.<\/p>\n<p>Zemilda, que passou duas semanas internada no hospital por causa da Covid-19, seguiria com o tratamento por mais tr\u00eas dias, segundo o informado pelo hospital. A dona de casa de 54 anos foi medicada com a hidroxicloroquina entre os dias 30 de abril e dia 4 de maio. Depois disso teve que fazer duas hemodi\u00e1lises porque teve problemas nos rins. No dia 10 de maio, por\u00e9m, Zileide recebeu um telefonema esperan\u00e7oso: a equipe m\u00e9dica disse que o estado de sa\u00fade de sua irm\u00e3 estava melhorando, que o pulm\u00e3o ainda estava afetado, mas que os demais \u00f3rg\u00e3os estavam reagindo bem, inclusive o rim.<\/p>\n<p>Mas na madrugada do dia 11 o hospital ligou para Zileide comunicando o \u00f3bito de Zemilda. \u201cUm m\u00e9dico s\u00f3 me falou que ela teve uma parada respirat\u00f3ria. Esse m\u00e9dico me disse que ela estava mal, com os rins comprometidos, completamente o oposto do que me passaram horas antes\u201d, conta Zileide, relembrando a dor de n\u00e3o poder reconhecer o corpo de sua irm\u00e3, pois n\u00e3o tinham roupa apropriada.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o assinei o reconhecimento do corpo. O hospital me informou que iria verificar se tinha roupa apropriada para eu entrar em uma ala com dois pacientes mortos pela Covid-19, mas no final das contas s\u00f3 me pediram para assinar o atestado de \u00f3bito.\u201d No vel\u00f3rio, Zileide e seus familiares ainda tentaram olhar para a irm\u00e3 pela \u00faltima vez. Ao perguntarem aos funcion\u00e1rios do cemit\u00e9rio como eles tinham certeza de que era Zemilda dentro do caix\u00e3o lacrado ouviram que bastava ler seu nome na etiqueta colada na madeira.<\/p>\n<p>Na certid\u00e3o de \u00f3bito de Zemilda Silva do Nascimento Gon\u00e7alves, constam como causas da morte insufici\u00eancia respirat\u00f3ria aguda e infec\u00e7\u00e3o por coronav\u00edrus, HAS (press\u00e3o alta) e hipercolesterolemia (colesterol alto). As duas \u00faltimas complica\u00e7\u00f5es, que Zemilda j\u00e1 apresentava ao ser internada, al\u00e9m de obesidade m\u00f3rbida, est\u00e3o relacionadas com problemas card\u00edacos, o que torna ainda mais perigoso o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, como j\u00e1 comprovaram estudos realizados no Brasil e em outros pa\u00edses. No dia 17 de junho, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) suspendeu definitivamente as pesquisas para avaliar a efic\u00e1cia da cloroquina e de sua derivada, a hidroxicloroquina, pois os resultados mostram que, al\u00e9m de representar riscos para pacientes, n\u00e3o h\u00e1 benef\u00edcio na droga para tratar a doen\u00e7a provocada pelo novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Zemilda era m\u00e3e solo de um menino de 14 anos que nasceu com s\u00edndrome de Down. A irm\u00e3, Zileide, que cuida do garoto enquanto ele n\u00e3o vai morar com a fam\u00edlia do pai, falecido h\u00e1 quatro anos, diz pra ele todas as noites que Zemilda \u201cvirou uma estrelinha no c\u00e9u\u201d, como ela conta.<\/p>\n<div class=\"contentAd contentAd--noBackground marginBottom30\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1560994795217-0\" data-google-query-id=\"CI36uPf_3eoCFYcDuQYdwisIxw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/55115104\/article-728x90-3_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><b>Desrespeitando o protocolo<\/b><\/p>\n<p>O telefonema em que Zileide foi informada de que Zemilda seria medicada com hidroxicloroquina ocorreu no terceiro dia de interna\u00e7\u00e3o. A comunica\u00e7\u00e3o di\u00e1ria com familiares de pacientes foi adotada como protocolo por muitos hospitais brasileiros durante a pandemia porque os familiares n\u00e3o podem acompanhar os doentes na interna\u00e7\u00e3o. Mas, em rela\u00e7\u00e3o ao uso da cloroquina e hidroxicloroquina, o protocolo do Minist\u00e9rio de Sa\u00fade n\u00e3o foi cumprido, de acordo com o relato dos familiares. Eles dizem que Zemilda n\u00e3o poderia ter autorizado o uso dos medicamentos, como exigido, porque estava entubada; nesse caso, segundo o protocolo, a fam\u00edlia \u00e9 que teria que consentir, mas alega que foi apenas comunicada do tratamento. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi informada de que a droga n\u00e3o tem efic\u00e1cia nem seguran\u00e7a cientificamente comprovadas, raz\u00e3o pela qual paciente e\/ou fam\u00edlia poderia recusar a medica\u00e7\u00e3o, conforme o protocolo do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>A irm\u00e3 Zileide, que j\u00e1 trabalhou como enfermeira em uma UTI de um hospital particular de Mogi das Cruzes, diz que nem sabia da exist\u00eancia desses protocolos. \u201cNo primeiro dia, o hospital me disse: \u2018Sua irm\u00e3 est\u00e1 ruim; segundo dia, est\u00e1 ruim; no terceiro dia, falaram que entraram com hidroxicloroquina\u2019. Eu at\u00e9 pensei: \u2018S\u00f3 agora?\u2019. Eu imaginava que fosse algum medicamento bom. Se tivessem me falado dos perigos, eu n\u00e3o teria autorizado.\u201d<\/p>\n<div class=\"contentAd contentAd--noBackground marginBottom30\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1560994868836-0\" data-google-query-id=\"CLmR0ff_3eoCFbYEuQYdJ94GWQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/55115104\/article-728x90-4_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, onde Zemilda foi internada e morreu, \u00e9 refer\u00eancia ao combate da pandemia de Covid-19, sendo a unidade mais equipada das dez cidades que comp\u00f5em a regi\u00e3o do Alto Tiet\u00ea. Inaugurado em 2014, em uma parceria entre o estado de S\u00e3o Paulo e a prefeitura, hoje \u00e9 administrado pela Funda\u00e7\u00e3o do ABC, uma Organiza\u00e7\u00e3o Social de Sa\u00fade (OSS). A Ag\u00eancia P\u00fablica entrou em contato com a OSS pedindo explica\u00e7\u00f5es sobre o protocolo conhecido internamente como \u201cProtocolo Covid\u201d, que traz as normas para ministrar as drogas \u2014 uma combina\u00e7\u00e3o da hidroxicloroquina com antibi\u00f3ticos e antivirais \u2014 no tratamento do coronav\u00edrus. Solicitou tamb\u00e9m entrevistas com o diretor do hospital e com o m\u00e9dico respons\u00e1vel por atender Zemilda. A assessoria de imprensa informou apenas \u201cn\u00e3o divulgar dados relacionados ao atendimento prestado aos pacientes, como determina o C\u00f3digo de \u00c9tica M\u00e9dica\u201d.<\/p>\n<p><b>Bolsonaro e os protocolos da cloroquina<\/b><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pressionava sua equipe de sa\u00fade a adotar um protocolo orientador sobre o uso da cloroquina. Em maio, com a queda do segundo ministro da pasta, Nelson Teich, que era contra a recomenda\u00e7\u00e3o do presidente assim como o anterior, Luiz Henrique Mandetta, criou-se um documento de orienta\u00e7\u00e3o ao uso da hidroxicloroquina em pacientes com a Covid-19, que teve vers\u00e3o atualizada em junho, incluindo diretrizes para lidar com gestantes e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Na sexta-feira passada, por\u00e9m, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade admitiu a possibilidade de rever o uso da cloroquina, tamb\u00e9m condenado pela Sociedade Brasileira de Infectologia. Bolsonaro tamb\u00e9m moderou o discurso por temor de um poss\u00edvel julgamento no Tribunal Penal Internacional por suas atitudes na pandemia, inclusive em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 propaganda que fez da cloroquina, pelo risco que representa para os pacientes.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, por\u00e9m, a orienta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade recomendando a cloroquina continua sendo a base de diversos protocolos de atendimento em cidades por todo o pa\u00eds \u2014 Mogi das Cruzes \u00e9 uma delas. Cerca de um m\u00eas antes da publica\u00e7\u00e3o da normatiza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, o munic\u00edpio j\u00e1 anunciava que adotaria um protocolo \u00fanico para o uso da cloroquina. Segundo o prefeito Marcus Melo (PSDB), a medida foi tomada ap\u00f3s uma decis\u00e3o do Comit\u00ea Gestor do Coronav\u00edrus em conjunto com diretores cl\u00ednicos dos hospitais p\u00fablicos e privados. A reportagem tentou contato com o Comit\u00ea Gestor do Coronav\u00edrus, solicitando explica\u00e7\u00e3o sobre a medida. At\u00e9 o fechamento, por\u00e9m, n\u00e3o teve resposta.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade, Henrique Naufel, destacou que a indica\u00e7\u00e3o do medicamento ficaria a cargo do m\u00e9dico respons\u00e1vel pelo paciente. Mas, segundo orienta\u00e7\u00f5es, a prescri\u00e7\u00e3o seria feita assim que o paciente fosse internado com o objetivo de prevenir eventuais complica\u00e7\u00f5es e reduzir o n\u00famero de casos que precisem de UTI. \u201cDesde que haja prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e consentimento do paciente ou da fam\u00edlia, a cloroquina j\u00e1 tem sido utilizada\u201d, explicou Naufel.<\/p>\n<p>Mas nem as secretarias municipais nem o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade est\u00e3o fiscalizando o uso da droga, o que preocupa sindicatos e entidades de profissionais. Victor Vilela Dourado, presidente do Sindicato dos M\u00e9dicos de S\u00e3o Paulo (Simesp), diz que n\u00e3o cabe \u00e0 entidade regular e fiscalizar as decis\u00f5es dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>\u201cO Simesp \u00e9 contra orienta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tenham comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. No caso do uso de hidroxicloroquina em pacientes de Covid-19, vale ressaltar que, segundo os pareceres da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Imunologia, pode ocorrer malef\u00edcios graves \u00e0 sa\u00fade dessas pessoas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 canais para os profissionais comunicarem \u00e0 Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria ou outras autoridades o uso de hidroxicloroquina na Covid-19. Ou seja, em todo o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) a \u00fanica maneira de saber se o medicamento foi prescrito a algum paciente com coronav\u00edrus \u00e9 pelo prontu\u00e1rio m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u201cO que est\u00e1 acontecendo com as normas do governo federal para o uso da hidroxicloroquina \u00e9 que o m\u00e9dico fica desobrigado de avisar qualquer autoridade sanit\u00e1ria. Mas mesmo assim ele tem que avisar a fam\u00edlia ou paciente, e isso est\u00e1 na pr\u00f3pria normatiza\u00e7\u00e3o\u201d, diz a m\u00e9dica e diretora da Sociedade Brasileira de Medicina de Fam\u00edlia e Comunidade, Denize Ornelas.<\/p>\n<p>Denize lembra que, al\u00e9m do descontrole no uso do medicamento e da impossibilidade de saber exatamente como o protocolo est\u00e1 sendo executado, medicar pacientes com hidroxicloroquina sem autoriza\u00e7\u00e3o pode levar o profissional a responder processos \u00e9ticos no Conselho Federal de Medicina (CFM). \u201cPor mais que o protocolo do governo federal n\u00e3o tenha for\u00e7a de lei, n\u00e3o me obrigando a prescrever nada tanto para Covid-19 quanto para outra doen\u00e7a, porque meu exerc\u00edcio profissional n\u00e3o pode ser restrito por nenhum protocolo, o documento est\u00e1 tendo um valor para respaldar os m\u00e9dicos que querem fazer isso\u201d, avalia.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica explica que uma possibilidade para a manipula\u00e7\u00e3o da hidroxicloroquina sem autoriza\u00e7\u00e3o do paciente ou fam\u00edlia seria o m\u00e9dico declarar o chamado \u201cuso compassivo\u201d \u2014 reservado a doentes em estado grave e com progn\u00f3stico ruim. No entanto, a a\u00e7\u00e3o deve estar detalhada no prontu\u00e1rio do paciente.<\/p>\n<p><b>O prontu\u00e1rio de Zemilda<\/b><\/p>\n<p>A P\u00fablica constatou que o prontu\u00e1rio m\u00e9dico da paciente assinado pelo m\u00e9dico Renan Kenji Hanada Pereira, a que teve acesso, n\u00e3o registra informa\u00e7\u00f5es sobre seu consentimento \u2014 ou de seus parentes \u2014 ao uso da hidroxicloroquina. Procurado pela P\u00fablica por telefone, o dr. Hanada disse que n\u00e3o se lembra do caso da paciente e que todas as d\u00favidas referentes aos protocolos devem ser tratadas com o hospital. A reportagem enviou o prontu\u00e1rio para que ele analisasse o conte\u00fado, mas n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>O prontu\u00e1rio de Zemilda revela o descumprimento tamb\u00e9m de um protocolo da Secretaria Municipal de Sa\u00fade de Mogi das Cruzes, qualificado no pr\u00f3prio documento como fundamental para \u201ciniciar o tratamento antes do agravamento do caso e, desta forma, reduzir a necessidade de interna\u00e7\u00e3o e de cuidados de terapia intensiva\u201d.<\/p>\n<p>Elaborado apenas em maio deste ano, o protocolo orienta as Unidades de Pronto Atendimento (Upas) 24 horas e Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) a encaminhar os pacientes suspeitos de Covid-19 diretamente ao Hospital Municipal de Mogi das Cruzes. Antes de ser internada, por\u00e9m, Zemilda procurou atendimento m\u00e9dico duas vezes: no dia 23 de abril, ela foi \u00e0 Upa Orop\u00f3 com sintomas de febre, coriza e tosse. Foi medicada e voltou para casa. No dia 27 de abril, retornou ao posto sentindo falta de ar. Assim como da primeira vez, recomendaram que voltasse para casa.<\/p>\n<p>S\u00f3 no dia 28 de abril, quando foi socorrida por uma ambul\u00e2ncia do Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia (Samu), acionada pela irm\u00e3 Zileide, a dona de casa foi levada ao Hospital Municipal de Mogi das Cruzes. Entrou na unidade \u00e0s 20h44.<\/p>\n<p>\u201cMe deixaram ver minha irm\u00e3 de longe, e ela estava sentada em uma poltrona, ainda dizendo que estava com muita falta de ar. Era 3 e pouco da manh\u00e3 e ela ainda estava l\u00e1\u201d, relembra a enfermeira.<\/p>\n<p>A interna\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorreu cerca de 12 horas ap\u00f3s a entrada no hospital, na manh\u00e3 do dia 28 de abril. \u201cMe pediram para subir junto para o quarto, o que achei um protocolo super errado, porque subi dentro do elevador com uma cama enorme, tr\u00eas auxiliares e uma mulher que parecia enfermeira. Eu fui bem pr\u00f3xima \u00e0 minha irm\u00e3, que estava com a Covid-19\u201d, conta Zileide.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Zemilda, ao menos cinco pessoas de sua fam\u00edlia testaram positivo para a Covid-19 \u00e0 \u00e9poca. Uma de suas irm\u00e3s tamb\u00e9m teve que ser internada.<\/p>\n<p><b>Cloroquina a rodo nos hospitais p\u00fablicos<\/b><\/p>\n<p>O enfermeiro Rodrigo Rom\u00e3o, profissional que esteve na linha de frente em hospitais de campanha administrados pela mesma OSS do Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, acredita que os carregamentos de cloroquina e hidroxicloroquina que est\u00e3o chegando aos hospitais acabam impulsionando as prescri\u00e7\u00f5es feitas pelos profissionais de sa\u00fade, tamb\u00e9m pressionados pelos administradores.<\/p>\n<p>At\u00e9 maio deste ano, que s\u00e3o os dados mais recentes do governo, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade adquiriu 3 milh\u00f5es de comprimidos de cloroquina. \u00c0 \u00e9poca, o \u00f3rg\u00e3o anunciou que estaria negociando com o Laborat\u00f3rio Qu\u00edmico e Farmac\u00eautico do Ex\u00e9rcito (LQFEX), que j\u00e1 tinha produzido 1 milh\u00e3o de comprimidos e colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da pasta a produ\u00e7\u00e3o de novas unidades do medicamento. At\u00e9 aquele m\u00eas, foram distribu\u00eddos 2,9 milh\u00f5es de comprimidos de cloroquina em tr\u00eas envios diferentes para os estados com base no n\u00famero de casos confirmados apresentados nos boletins epidemiol\u00f3gicos do pr\u00f3prio minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u201cO Minist\u00e9rio da Sa\u00fade vai mandar cloroquina para todo lugar, porque compraram muitos rem\u00e9dios. Hospitais particulares de refer\u00eancia como o Albert Einstein, por exemplo, n\u00e3o v\u00e3o se queimar por causa de uma declara\u00e7\u00e3o do presidente sobre um medicamento sem comprova\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia. J\u00e1 nos hospitais p\u00fablicos parecem adotar protocolos para empurrar a medica\u00e7\u00e3o nos pacientes\u201d, diz ele, que tamb\u00e9m \u00e9 o diretor do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de S\u00e3o Paulo e representante da subsede da entidade em Mogi das Cruzes.<\/p>\n<p>O hospital de elite Albert Einstein, localizado em S\u00e3o Paulo, epicentro da doen\u00e7a no Brasil, em 25 de junho orientou que seus m\u00e9dicos n\u00e3o prescrevessem cloroquina e hidroxicloroquina. O Einstein foi a unidade que admitiu o primeiro paciente com sintomas da Covid-19 no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cSe o pr\u00f3prio governo contrata as empresas para que elas fa\u00e7am o atendimento sem serem obrigadas a abrir os dados, ele d\u00e1 total autonomia para fazer a administra\u00e7\u00e3o do jeito que bem entendem\u201d, diz K\u00e1tia Santos, diretora do Sindicato dos Trabalhadores P\u00fablicos da Sa\u00fade no Estado de S\u00e3o Paulo (SindSa\u00fadeSP) da regi\u00e3o do Alto Tiet\u00ea. \u201cAs Organiza\u00e7\u00f5es Sociais que administram os hospitais de campanha t\u00eam adotado a pr\u00e1tica de prescrever a cloroquina\u201d, afirma.<\/p>\n<p><b>A batalha pr\u00f3-cloroquina<\/b><\/p>\n<p>A cloroquina \u00e9 utilizada h\u00e1 muitos anos para a preven\u00e7\u00e3o e tratamento da mal\u00e1ria, e sua derivada, a hidroxicloroquina, indicada para o tratamento de algumas doen\u00e7as reum\u00e1ticas como artrite reumatoide e l\u00fapus. Em mar\u00e7o, ap\u00f3s pesquisadores chineses demonstrarem, em laborat\u00f3rio, que essas drogas tinham a possibilidade de inibir a replica\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus, seu uso foi encampado como causa pelos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, que fizeram propagandas p\u00fablicas do medicamento. Trump chegou a dizer que estava tomando a droga preventivamente. J\u00e1 Bolsonaro, ap\u00f3s ter declarado em 7 de julho passado que testou positivo para a Covid-19, disse estar usando o medicamento e se \u201csentindo muito bem\u201d.<\/p>\n<p>A batalha se transferiu para as redes sociais, onde apoiadores de Bolsonaro, inclusive m\u00e9dicos pr\u00f3-cloroquina, defendem abertamente o seu uso e de sua derivada, apesar do parecer contr\u00e1rio de cientistas de todo o mundo. No dia 3 de julho, o site Covid Tem Tratamento Sim, que divulgava o tratamento com um coquetel de medicamentos, incluindo a hidroxicloroquina, como cura para a Covid-19 (com base em uma suposta an\u00e1lise feita por uma comunidade m\u00e9dica internacional), saiu do ar depois de uma reportagem publicada no Uol mostrando que, dos 17 profissionais citados no site, ao menos tr\u00eas disseram n\u00e3o ter conhecimento do uso de sua imagem. A p\u00e1gina retornou ao ar em 7 de julho sem citar os nomes das medica\u00e7\u00f5es e dos profissionais que estariam dispostos a receitar as drogas.<\/p>\n<p>A obsess\u00e3o bolsonarista pela cloroquina atrapalhou o trabalho de m\u00e9dicos que est\u00e3o na linha de frente do atendimento \u00e0 Covid-19. Uma pesquisa realizada pela Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Medicina (APM), publicada no dia 7 de julho, apontou que 69,2% dos m\u00e9dicos afirma que not\u00edcias falsas, informa\u00e7\u00f5es sensacionalistas ou sem comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica s\u00e3o inimigos que hoje enfrentam simultaneamente \u00e0 pandemia. Outros 48,9% falam que, por causa das fake news, pacientes e familiares pressionam por tratamentos sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, incluindo drogas como cloroquina e hidroxicloroquina.<\/p>\n<p>Uma pesquisa do Instituto Ipsos, que consultou formadores de opini\u00e3o e jornalistas de 14 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, publicado em abril deste ano, revelou que o Brasil apresenta um dos piores \u00edndices de \u201cbom exemplo\u201d durante a crise do coronav\u00edrus, com apenas 14%, ficando \u00e0 frente apenas do M\u00e9xico, com 12%, e Venezuela, com 11%.<\/p>\n<p>Para Pedro Tourinho, professor de sa\u00fade da fam\u00edlia da PUC-Campinas e m\u00e9dico sanitarista especializado em medicina preventiva e social, o principal respons\u00e1vel pela m\u00e1 performance brasileira no combate a pandemia \u00e9 o governo, especialmente o presidente da Rep\u00fablica, que promoveu a desinforma\u00e7\u00e3o entre os brasileiros com seus discursos sobre a \u201cgripezinha\u201d e a cloroquina, e com atos de desrespeito p\u00fablico a normas de preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cO principal preju\u00edzo, na minha opini\u00e3o, foi que o Bolsonaro boicotou as orienta\u00e7\u00f5es de isolamento social. A cloroquina foi parte desse combo, porque ele vendeu \u00e0s pessoas uma falsa cura, como bom charlat\u00e3o que ele \u00e9. Isso fez com que muitas pessoas topassem se expor a um risco maior, e isso indiscutivelmente levou a dezenas de milhares de mortes.\u201d<\/p>\n<p>At\u00e9 o fechamento desta reportagem, o Brasil registrava mais de 2 milh\u00f5es de casos confirmados da Covid-19 e quase 80 mil mortes decorrentes do v\u00edrus.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zemilda, que passou duas semanas internada no hospital por causa da Covid-19, seguiria com o tratamento por mais tr\u00eas dias, segundo o informado pelo hospital. A dona de casa de 54 anos foi medicada com a hidroxicloroquina entre os dias 30 de abril e dia 4 de maio. Depois disso teve que fazer duas hemodi\u00e1lises porque teve problemas nos rins. 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