{"id":326422,"date":"2020-07-28T08:19:06","date_gmt":"2020-07-28T11:19:06","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=326422"},"modified":"2020-07-28T08:19:06","modified_gmt":"2020-07-28T11:19:06","slug":"a-ressurreicao-da-grande-dama-da-ficcao-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-ressurreicao-da-grande-dama-da-ficcao-cientifica\/","title":{"rendered":"A ressurrei\u00e7\u00e3o da grande dama da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \">N\u00e3o reconhecida em seu tempo, a primeira escritora negra do g\u00eanero est\u00e1 sendo publicada no Brasil e entrar\u00e1 no pr\u00f3ximo ano no cat\u00e1logo norte-americano com novas edi\u00e7\u00f5es de seus romances e contos<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/C_gXVcFeHWAxHvcJo2rGWTFi_m0=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/OXZNBRKW55G6WBCZAZIFLEYEHA.jpg\" alt=\"Octavia E. Butler, em uma imagem da d\u00e9cada de 80.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Octavia E. Butler, em uma imagem da d\u00e9cada de 80.<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Laura Fern\u00e1ndez\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/laura-fernandez-dominguez\/\">LAURA FERN\u00c1NDEZ<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">Octavia E. Butler escreveu seu primeiro conto aos 12 anos. Tinha assistido a um filme horr\u00edvel, intitulado\u00a0<i>A Garota Diab\u00f3lica de Marte<\/i>, e havia dito a si mesma, enquanto o via, que podia fazer melhor. J\u00e1 fazia anos que a pequena Octavia devorava hist\u00f3rias de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/ciencia-ficcion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a>. Comprava revistas compulsivamente. As cl\u00e1ssicas da \u00e9poca \u2013 final dos anos 50, in\u00edcio dos 60 \u2212,\u00a0<i>Amazing<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Fantasy and Science Fiction<\/i>, al\u00e9m de\u00a0<i>Galaxy<\/i>. Embora nenhum dos protagonistas das hist\u00f3rias que lia tivesse sua cor de pele, ela n\u00e3o se importava, porque iria mudar as coisas. Primeiro cuidaria daquela garota diab\u00f3lica de Marte, depois do resto.<\/p>\n<p class=\"\">N. K. Jemisin, sua principal herdeira, hoje no topo do g\u00eanero \u2013 n\u00e3o h\u00e1 escritora mais premiada do que ela no momento, independentemente do g\u00eanero \u2212, era uma adolescente quando se deparou pela primeira vez com uma das hist\u00f3rias de Butler. \u201cNada tinha me preparado para aquilo\u201d, disse Jemisin. Corriam os anos 80, o livro se intitulava\u00a0<i>Despertar<\/i>\u00a0(Editora Morro Branco) e era protagonizado por uma mulher negra que acordava 250 anos depois de um holocausto nuclear. \u201cLembro que fiquei fascinada ao pensar em uma mulher negra habitando o futuro. Ningu\u00e9m tinha feito algo assim antes na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, afirmou a escritora, a \u00fanica pessoa a ganhar o pr\u00eamio Hugo tr\u00eas vezes seguidas.<\/p>\n<p class=\"\">Embora fosse, sem d\u00favida, revolucion\u00e1ria, Butler n\u00e3o ficou famosa em sua \u00e9poca, mas muito depois. Na verdade, a fama chegou depois de sua repentina morte, em 2006 \u2013 estava passeando, caiu e bateu a cabe\u00e7a na cal\u00e7ada. Tinha 58 anos, e n\u00e3o ficou claro se a queda foi provocada por um infarto. Foi a\u00ed que seus romances, at\u00e9 ent\u00e3o de pequeno alcance, come\u00e7aram a vender cerca de 100.000 exemplares por ano. Nascida em Pasadena, Calif\u00f3rnia, em 1947, filha de um engraxate e uma criada, Butler cresceu com sua av\u00f3 \u2013 seu pai morreu jovem, e sua m\u00e3e trabalhava o dia inteiro. Filha \u00fanica e solit\u00e1ria, desenvolveu, para se distrair, uma enorme imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">Imagina\u00e7\u00e3o que deu forma, em 1971, ao seu primeiro conto publicado,\u00a0<i>Crossover<\/i>. Uma hist\u00f3ria de perdi\u00e7\u00e3o protagonizada por uma mulher que odeia seu trabalho em uma f\u00e1brica e n\u00e3o para de pensar em cometer suic\u00eddio. \u201cSeguiram-se outros cinco anos de rejei\u00e7\u00e3o editorial, e um milh\u00e3o de empregos, at\u00e9 conseguir vender o pr\u00f3ximo\u201d, contou a pr\u00f3pria Butler certa vez. Recentemente, Jemisin e outros de seus hoje ilustres leitores, entre eles Marlon James e Nnedi Okorafor, lembraram que a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nunca foi um lugar amig\u00e1vel para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/negros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ra\u00e7a negra<\/a>\u00a0\u2013 nem para nenhuma que n\u00e3o fosse a branca. \u201cN\u00e3o se tratava apenas de que a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica fosse racista, os autores tamb\u00e9m eram\u201d, disse Jemisin.<\/p>\n<p class=\"\">De qualquer forma, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Butler sacudiu, de sua trincheira sempre inconformista, as bases do g\u00eanero, com rela\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies, homens gr\u00e1vidos e civiliza\u00e7\u00f5es submersas, abordando, de seu singular ponto de vista, assuntos como ra\u00e7a \u2013 n\u00e3o abordado nesse g\u00eanero at\u00e9 ent\u00e3o \u2013, fam\u00edlia, sexo (tudo o que ela escreveu sempre teve uma poderosa e tamb\u00e9m in\u00e9dita ambiguidade sexual), determinismo biol\u00f3gico, ci\u00eancia m\u00e9dica e classismo. Butler derrubou, um por um, todos os muros que, em sua cegueira existencial, o g\u00eanero tinha constru\u00eddo. Ao fazer isso, ela abriu caminho para o que estava por vir: a complexa\u00a0<i>new wave<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cQuando tenho de enfrentar algo que me perturba, escrevo sobre isso\u201d confessou Butler no ep\u00edlogo que se segue ao famoso conto\u00a0<i>Filhos de Sangue<\/i>, que d\u00e1 nome \u00e0 cole\u00e7\u00e3o de contos e ensaios que est\u00e3o sendo\u00a0<a href=\"https:\/\/editoramorrobranco.com.br\/livros\/filhos-de-sangue-e-outras-historias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">publicados no Brasil pela editora Morro Branco<\/a>\u00a0e na Espanha pela Consonni. A edi\u00e7\u00e3o da Consonni, intitulada\u00a0<i>Hija de Sangre y Otros Relatos<\/i>, de certa forma ressuscita a escritora em espanhol, pouco antes que ocorra o reconhecimento definitivo de sua import\u00e2ncia nos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/estados-unidos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Estados Unidos<\/a>: no pr\u00f3ximo ano, a Grand Central Publishing reeditar\u00e1 grande parte de seus romances e a Library of America a incluir\u00e1 no cat\u00e1logo publicando, em um volume, o melhor do que escreveu. Butler queria que se soubesse exatamente por que fez o que fez, porque \u00e0s vezes tinha a sensa\u00e7\u00e3o de ler interpreta\u00e7\u00f5es completamente err\u00f4neas de seus contos. \u201cFico surpresa que algumas pessoas tenham interpretado\u00a0<i>Filhos de Sangue<\/i>\u00a0como uma hist\u00f3ria de escravid\u00e3o\u201d, escreveu, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"\">N\u00e3o,\u00a0<i>Filhos de Sangue<\/i>\u00a0n\u00e3o \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/05\/cultura\/1480966487_043756.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">uma hist\u00f3ria de escravid\u00e3o<\/a>. \u201c\u00c9 uma hist\u00f3ria de amor entre dois seres muito diferentes, e \u00e9 meu conto sobre homens gr\u00e1vidos\u201d, explica. \u201cSer\u00e1 que eu poderia escrever uma hist\u00f3ria em que um homem escolhesse engravidar, n\u00e3o por alguma esp\u00e9cie de competitividade mal entendida para demonstrar que tudo que uma mulher faz um homem tamb\u00e9m pode fazer, nem porque ele fosse obrigado, nem mesmo por curiosidade, e sim como ato de amor?\u201d, perguntava-se. Escreveu. Mas a explica\u00e7\u00e3o continua: \u201cTamb\u00e9m \u00e9 uma tentativa de atenuar o medo que tenho da mosca-varejeira, que p\u00f5e seus ovos em feridas causadas por outros insetos e cresce alimentando-se de sua carne, como um verme\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">A escritora ia viajar para a Amaz\u00f4nia peruana para fazer pesquisas para os livros de sua s\u00e9rie\u00a0<i>Xenog\u00eanese<\/i>\u00a0e sabia que nessa regi\u00e3o podia se deparar com varejeiras. \u201cEscrever sobre meus problemas \u00e9 minha maneira de coloc\u00e1-los em ordem\u201d, revela, nesse mesmo ep\u00edlogo. \u201cLembro que em uma aula, em 22 de novembro de 1963, peguei um caderno e comecei a escrever minha resposta \u00e0 not\u00edcia do assassinato do John Kennedy\u201d, diz tamb\u00e9m. E acrescenta algo mais sobre\u00a0<i>Filhos de Sangue<\/i>, em um amostra de como tudo que escrevia era caleidosc\u00f3pico. \u201cTentei fazer mais uma coisa em\u00a0<i>Filhos de Sangue<\/i>. Tentei escrever uma hist\u00f3ria sobre o pagamento do aluguel\u201d, assinala. Nada de escravid\u00e3o. Sobre a escravid\u00e3o, escreveu em\u00a0<i>Kindred: La\u00e7os de Sangue<\/i>, um romance de viagens no tempo que viaja precisamente a essa \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"\">Essa pioneira do afrofuturismo tamb\u00e9m escreveu sobre religi\u00f5es fict\u00edcias (na s\u00e9rie\u00a0<i>Par\u00e1bola<\/i>, que finalmente ganhou um pr\u00eamio Nebula em 1999) e sobre humanos salvos, uma e outra vez, por ra\u00e7as extraterrestres \u2013 isto j\u00e1 ocorre em\u00a0<i>Filhos de Sangue<\/i>, que data de 1984, e significou sua entrada no universo, j\u00e1 um pouco mais aberto, da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pois conseguiu com ele o Hugo e o Nebula de melhor conto \u2013, como ocorre na s\u00e9rie\u00a0<i>Liliths\u2019 Brood<\/i>, como tamb\u00e9m \u00e9 conhecida a\u00a0<i>Xenog\u00eanese<\/i>. Escreveu at\u00e9 sobre vampiros.\u00a0<i>Fledgling<\/i>\u00a0foi seu \u00faltimo romance publicado \u2013 em 2005 \u2013, uma hist\u00f3ria de vampiros em um contexto de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ligada de certa forma ao universo de\u00a0<i>Par\u00e1bola<\/i>. Tamb\u00e9m escreveu, \u00e9 claro, a hist\u00f3ria sobre\u00a0<i>A Garota Diab\u00f3lica de Marte<\/i>.<\/p>\n<p class=\"\">Com aquela hist\u00f3ria, fez seu primeiro romance, que terminou em 1976 e chamou de\u00a0<i>Patternmaster<\/i>, mas s\u00f3 o publicou tempos depois, porque o transformou no quinto volume de sua s\u00e9rie\u00a0<i>Patternist<\/i>. Teve o apoio, praticamente desde o in\u00edcio, de Harlan Ellison e Samuel R. Delany. Pouco antes de morrer, descreveu-se como \u201cuma eremita associal em meio ao pessimismo de Seattle, e se me descuido, uma feminista, negra, batista, com uma combina\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o, pregui\u00e7a, inseguran\u00e7a, certeza e impulsividade\u201d. Esqueceu de dizer que tamb\u00e9m foi uma garota chamada por sua m\u00e3e de Junie que, certo dia, decidiu desligar a televis\u00e3o e come\u00e7ar a escrever melhor aquilo que estava vendo, porque aquilo que estava vendo n\u00e3o tinha nada a ver com ela.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o reconhecida em seu tempo, a primeira escritora negra do g\u00eanero est\u00e1 sendo publicada no Brasil e entrar\u00e1 no pr\u00f3ximo ano no cat\u00e1logo norte-americano com novas edi\u00e7\u00f5es de seus romances e contos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":326423,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-326422","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/escritora-negra.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/326422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=326422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/326422\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/326423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=326422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=326422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=326422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}