{"id":327057,"date":"2020-08-03T07:10:44","date_gmt":"2020-08-03T10:10:44","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=327057"},"modified":"2020-08-03T07:10:44","modified_gmt":"2020-08-03T10:10:44","slug":"a-legalizacao-silenciosa-da-maconha-medicinal-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-legalizacao-silenciosa-da-maconha-medicinal-no-brasil\/","title":{"rendered":"A &#8216;legaliza\u00e7\u00e3o silenciosa&#8217; da maconha medicinal no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><strong><span class=\"byline__name\">Leandro Machado e Felipe Souza<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/A02E\/production\/_113760014_macoonha.png\" alt=\"Felipe Farias segurando duas plantas de maconha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO PESSOAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Quando a Justi\u00e7a nega o cultivo associativo, est\u00e1 impedindo que pessoas mais pobres acessem o rem\u00e9dio mais barato&#8221;, diz Felipe Farias, presidente da Reconstruir<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">A m\u00e9dica aposentada Nina de Queiroz, de 60 anos, sofria de uma forte depress\u00e3o quando decidiu se consultar com um m\u00e9dico que receitava cannabis sativa, a popular maconha. &#8220;Eu tomava v\u00e1rios antidepressivos, mas nenhum funcionava. Sa\u00ed do consult\u00f3rio decidida a entrar na Justi\u00e7a para garantir meu direito constitucional \u00e0 sa\u00fade&#8221;, conta.<\/p>\n<p>No final de 2018, meses depois de iniciar o processo, Nina se tornou a primeira pessoa com depress\u00e3o a obter autoriza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a brasileira para o cultivo medicinal da maconha. Hoje, ela cuida de seis plantas em sua casa em Natal e as utiliza de v\u00e1rias maneiras, mas principalmente na cozinha: faz azeite, mel, brigadeiro, leite&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Para mim, funciona melhor quando uso ao longo do dia, em pequenas doses na comida. \u00c0 noite, vaporizo um pouco para dormir bem. Antes da cannabis, cheguei a ficar 10 dias trancada em casa, muitos deles sem dormir, com as janelas fechadas, deitada na cama, sem vontade de levantar. Hoje sou outra pessoa, muito mais calma, mas tamb\u00e9m ativa, vivo o presente. Fico emocionada ao dizer que a cannabis trouxe outro sentido para minha vida.&#8221;<\/p>\n<p>O caso de Nina n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o raro no Brasil.<\/p>\n<p>Apesar de uma lei aprovada em 2006 j\u00e1 prever o uso medicinal da maconha, a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o levou a recentes decis\u00f5es judiciais autorizando pacientes a cultivar cannabis para tratar diversas patologias, como autismo, epilepsia, Alzheimer, depress\u00e3o, ansiedade e enxaqueca cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Na mesma linha, duas associa\u00e7\u00f5es de pacientes conseguiram autoriza\u00e7\u00e3o para cultivar e produzir rem\u00e9dios para seus milhares de associados.<\/p>\n<p>Essas decis\u00f5es da Justi\u00e7a, somadas a um maior n\u00famero de prescri\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da burocracia para importa\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios, est\u00e3o criando uma esp\u00e9cie de &#8220;legaliza\u00e7\u00e3o silenciosa&#8221; da maconha medicinal no Brasil. O resultado foi o florescimento desse mercado nos \u00faltimos meses, segundo m\u00e9dicos, pacientes, advogados e empres\u00e1rios ouvidos pela BBC News Brasil.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17D80\/production\/_113746679_cannabis.png\" alt=\"M\u00e9dica Nina de Queiroz\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A m\u00e9dica Nina de Queiroz usa cannabis para preparar comida: &#8216;Funciona muito bem para mim&#8217;<\/figure>\n<p>Por outro lado, quem plantar ou comercializar maconha no Brasil sem autoriza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a pode ser punido com pris\u00e3o. Na cidade de S\u00e3o Paulo, por exemplo, 35 pessoas foram detidas em flagrante por cultivar a planta dentro de casa desde 2017, segundo dados obtidos via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o. Isso sem contar os milhares de presos por tr\u00e1fico de drogas \u2014 hoje, esse \u00e9 o crime que mais leva pessoas aos pres\u00eddios brasileiros.<\/p>\n<p>J\u00e1 no caso de Nina, por exemplo, a Justi\u00e7a concedeu a ela um habeas corpus preventivo, em car\u00e1ter provis\u00f3rio, que a resguarda do risco de ser presa e processada por cultivar uma planta proibida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre tive muito preconceito com cannabis. Minha gera\u00e7\u00e3o foi preparada para enxergar a maconha como algo ruim, usado por gente que n\u00e3o queria nada com a vida. Precisei enfrentar esse preconceito, porque nenhum medicamento que usei, e foram v\u00e1rios, funcionou para meu problema&#8221;, diz a m\u00e9dica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">CBD importado<\/h2>\n<p>No \u00faltimos anos, diversos estudos cient\u00edficos apontaram que subst\u00e2ncias extra\u00eddas da cannabis, como o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabidiol (THC), seu princ\u00edpio psicoativo, podem ser usados para fins medicinais, em terapias para pacientes com dores cr\u00f4nicas e outras enfermidades graves, como c\u00e2ncer, epilepsia e fibromialgia.<\/p>\n<p>Apesar disso, profissionais e algumas entidades m\u00e9dicas, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), acreditam que mais estudos cl\u00ednicos e pesquisas de longo prazo s\u00e3o necess\u00e1rios para garantir a efic\u00e1cia e a seguran\u00e7a do uso da cannabis no tratamento de doen\u00e7as. O CFM orienta que m\u00e9dicos n\u00e3o receitem THC, por exemplo. No caso do CBD, a entidade recomendou apenas o uso &#8220;compassivo&#8221;, ou seja, ele s\u00f3 deve ser receitado depois que todas as alternativas tradicionais j\u00e1 tenham sido testadas pelo paciente.<\/p>\n<p>O plantio de cannabis para uso medicinal e cient\u00edfico j\u00e1 \u00e9 previsto no Brasil desde 2006, por meio da lei 11.343, a chamada Lei de Drogas, aprovada no governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Mas pouco se avan\u00e7ou na sua regulamenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 o in\u00edcio desta d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Foi quando pais e m\u00e3es de crian\u00e7as com epilepsia grave pressionaram o governo e entidades m\u00e9dicas, pedindo autoriza\u00e7\u00e3o para usar derivados da cannabis: os \u00fanicos medicamentos que funcionavam para diminuir a incid\u00eancia dos espasmos e melhorar a qualidade de vida das crian\u00e7as.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9708\/production\/_113746683_tv051203353.jpg\" alt=\"Flores de maconha, uma folha e dois baseados\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Associa\u00e7\u00e3o can\u00e1bica paraibana Abrace Esperan\u00e7a fornece rem\u00e9dio \u00e0 base de maconha para 3 mil brasileiros<\/figure>\n<p>Em 2014, a Anvisa passou a autorizar a importa\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios de CBD, mas trazer o produto custava caro, tornando a medica\u00e7\u00e3o invi\u00e1vel para fam\u00edlias mais pobres. J\u00e1 em dezembro de 2019, a entidade regulamentou a pesquisa, produ\u00e7\u00e3o e venda de rem\u00e9dios no pa\u00eds por parte da ind\u00fastria farmac\u00eautica, embora as plantas ainda precisem ser trazidas do exterior. O principal medicamento com permiss\u00e3o para venda em farm\u00e1cias \u2014 e que tem CBD isolado \u2014 custa mais de R$ 2 mil.<\/p>\n<p>Por outro lado, a \u00faltima resolu\u00e7\u00e3o facilitou a importa\u00e7\u00e3o, processo que demorava at\u00e9 90 dias para ser autorizado.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 dezembro, o paciente precisava fazer o pedido na Anvisa com uma receita, um termo de consentimento e um relat\u00f3rio citando outros rem\u00e9dios que ele j\u00e1 havia tomado, al\u00e9m de refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas com um artigo cient\u00edfico de impacto. Na pr\u00e1tica, muitos m\u00e9dicos n\u00e3o receitavam por pregui\u00e7a dessa burocracia&#8221;, explica a m\u00e9dica nutr\u00f3loga Patr\u00edcia Savoi, que atua com cannabis medicinal desde 2015.<\/p>\n<p>Agora, esse relat\u00f3rio detalhado n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio, e a Anvisa costuma autorizar a importa\u00e7\u00e3o em at\u00e9 10 dias. Segundo a ag\u00eancia, cerca de 7 mil pessoas j\u00e1 t\u00eam essa permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua maioria, pacientes com prescri\u00e7\u00e3o de cannabis utilizam um \u00f3leo que cont\u00e9m quantidades variadas de THC e de CBD \u2014 extra\u00eddo por meio de um processo de evapora\u00e7\u00e3o com etanol. O \u00f3leo normalmente \u00e9 administrado em gotas sob a l\u00edngua \u2014 a quantidade varia para cada pessoa. Os pre\u00e7os podem variar de R$ 100 a at\u00e9 mais de R$ 1 mil.<\/p>\n<p>&#8220;Na quarentena, aumentaram bastante as receitas para ansiedade, depress\u00e3o e ins\u00f4nia. As pessoas est\u00e3o se informando a respeito e, \u00e0s vezes, j\u00e1 chegam na consulta dizendo que querem usar cannabis, pois est\u00e3o a fim de mudar o estilo de vida&#8221;, explica Savoi, que receita esse tipo de rem\u00e9dio pelo menos uma vez por semana.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">95 cultivos autorizados<\/h2>\n<p>J\u00e1 os habeas corpus preventivos para cultivo caseiro, como o da m\u00e9dica Nina de Queiroz, t\u00eam se tornado uma das\u00a0<strong>ferramentas pelas quais a legaliza\u00e7\u00e3o tem ocorrido no Brasil.\u00a0<\/strong>Um dos grupos atuantes nesse sentido \u00e9 o Reforma, que tem 26 advogados em nove Estados. Estima-se que metade das 95 permiss\u00f5es para autocultivo tenham passado pelas m\u00e3os dos profissionais do grupo.<\/p>\n<p>Segundo Emilio Figueiredo, advogado do Reforma, o n\u00famero de habeas corpus concedidos vem aumentando a cada ano. Foram tr\u00eas casos em 2016, mais nove em 2017 e outros 16 no ano seguinte. No ano passado, a Justi\u00e7a concedeu outros 25 habeas corpus e, at\u00e9 julho de 2020, mesmo com a pausa de tribunais na pandemia, j\u00e1 foram novas 42 permiss\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9D75\/production\/_113690304_emilio.png\" alt=\"Advogado Em\u00edlio Figueiredo, do grupo Reforma\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Advogado Em\u00edlio Figueiredo acredita que em um ano aumento de decis\u00f5es favor\u00e1veis ao cultivo vai gerar uma onda de judicializa\u00e7\u00e3o, como ocorreu na Calif\u00f3rnia (EUA)<\/figure>\n<p>Figueiredo explica que esse aumento se deve a uma maior sensibilidade das autoridades e uma participa\u00e7\u00e3o de advogados de maneira organizada. O pr\u00f3prio grupo Reforma tem dado cursos ensinando como pedir habeas corpus \u2014 tamb\u00e9m est\u00e1 preparando um livro sobre o assunto.<\/p>\n<p>&#8220;O habeas corpus atende desde pessoas da elite que plantam o rem\u00e9dio por uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica e filos\u00f3fica at\u00e9 m\u00e3es perif\u00e9ricas e solteiras que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de arcar com o tratamento de seus filhos&#8221;, afirma.<\/p>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>O habeas corpus atende desde pessoas da elite que plantam o rem\u00e9dio por uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica e filos\u00f3fica at\u00e9 m\u00e3es perif\u00e9ricas e solteiras que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de arcar com o tratamento de seus filhos<\/p>\n<footer>advogado Em\u00edlio Figueiredo, do grupo Reforma<\/footer>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>A psiquiatra Eliane Nunes, diretora da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis (Sbec), tamb\u00e9m tem dado cursos sobre maconha medicinal e obten\u00e7\u00e3o de habeas corpus na periferia de S\u00e3o Paulo. Recentemente, ela criou o projeto &#8220;M\u00e3es e Mulheres Jardineiras&#8221; \u2014 o grupo re\u00fane cerca de 30 parentes e pacientes de baixa renda que est\u00e3o em busca da permiss\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>&#8220;O objetivo \u00e9 capacitar essas mulheres para que elas tenham a documenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Outro ponto importante \u00e9 que o habeas corpus \u00e9 preventivo. Uma m\u00e3e de um filho com epilepsia, por exemplo, j\u00e1 precisa estar plantando para entrar com o pedido. Mas, para isso, ela corre risco de ser presa enquanto a decis\u00e3o n\u00e3o sai&#8221;, explica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Consultas para cannabis<\/h2>\n<p>Com acesso facilitado, j\u00e1 existem sites no Brasil cujo modelo de neg\u00f3cios \u00e9 agendar consultas com m\u00e9dicos que prescrevam cannabis e tamb\u00e9m importar o \u00f3leo e outros produtos, como pomadas e sprays.<\/p>\n<p>Um dos maiores \u00e9 o Dr. Cannabis, fundado h\u00e1 pouco mais de dois anos e que trabalha com tr\u00eas produtores dos Estados Unidos e da Su\u00ed\u00e7a. &#8220;Antes da covid-19, a procura maior era para dores cr\u00f4nicas. Hoje, as consultas em nosso site dobraram com a pandemia, principalmente para ansiedade e ins\u00f4nia&#8221;, explica Viviane Sedola, fundadora e CEO da empresa.<\/p>\n<p>O site tem 1,2 mil m\u00e9dicos cadastrados, como psiquiatras e nutr\u00f3logos. &#8220;Percebemos que muitos profissionais nem sabem que podem prescrever cannabis nem conhecem os benef\u00edcios que ela tem para os pacientes. Hoje, o problema da cannabis \u00e9 mais de comunica\u00e7\u00e3o do que cient\u00edfico&#8221;, diz a empres\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem tudo s\u00e3o flores no uso medicinal de maconha no Brasil. Um dos problemas \u00e9 a qualidade do \u00f3leo utilizado pelos pacientes. Embora existam maneiras de importar legalmente medicamentos testados, h\u00e1 dezenas de outras op\u00e7\u00f5es cuja composi\u00e7\u00e3o e proced\u00eancia s\u00e3o no m\u00ednimo desconhecidas.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o dos pacientes com habeas corpus e de duas associa\u00e7\u00f5es, mais ningu\u00e9m tem permiss\u00e3o da Justi\u00e7a para plantar e produzir o \u00f3leo no Brasil. Mas isso n\u00e3o impede que ele seja vendido ilegalmente em grandes sites de e-commerce e nas redes sociais, com entrega pelo correio. Esse tipo de venda \u00e9 considerado tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/48E8\/production\/_113746681_tv054657491.jpg\" alt=\"P\u00e9s de maconha vistos de cima\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Justi\u00e7a concedeu 95 habeas corpus para plantio de maconha no Brasil; 42 deles apenas neste ano<\/figure>\n<p>&#8220;Os \u00f3leos t\u00eam concentra\u00e7\u00f5es diferentes de THC e de CBD, por isso \u00e9 muito importante o paciente saber o que est\u00e1 usando. E cada um precisa regular o uso de acordo com sua patologia. O CBD, que causa um relaxamento do corpo e acalma, quase n\u00e3o tem efeitos colaterais. No m\u00e1ximo, causa um pouco de sono e uma leve queda de press\u00e3o&#8221;, explica a m\u00e9dica Patr\u00edcia Savoi.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 o THC \u00e9 bom para dores cr\u00f4nicas fortes, depress\u00e3o e anorexia, pois ele aumenta o apetite. Mas em grandes quantidades pode causar sintomas psic\u00f3ticos. N\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel dar altas quantidades de THC para menores de 18 anos, que ainda est\u00e3o em desenvolvimento, nem para uma pessoa esquizofr\u00eanica.&#8221;<\/p>\n<p>Para o psiquiatra Pietro Vanni, o \u00f3leo com alta concentra\u00e7\u00e3o de THC n\u00e3o \u00e9 comum no Brasil, mas \u00e9 necess\u00e1rio ficar atento a produtos feitos de maneira inadequada. &#8220;Com o boom desse mercado, pode ter gente querendo se aproveitar para criar e vender \u00f3leos de m\u00e1 qualidade, sem controle de dosagem, com agrot\u00f3xicos, fungos por m\u00e1 conserva\u00e7\u00e3o e at\u00e9 outros produtos qu\u00edmicos t\u00f3xicos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A psiquiatra Eliane Nunes, que tem 500 pacientes de cannabis, concorda que \u00e9 preciso ter mais certeza sobre a qualidade dos rem\u00e9dios. &#8220;A verdade \u00e9 que o est\u00e1 no r\u00f3tulo nem sempre \u00e9 o que est\u00e1 dentro do frasco. Como cada planta \u00e9 de um jeito, cada lote de \u00f3leo vendido pode ter uma composi\u00e7\u00e3o diferente&#8221;, explica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Associa\u00e7\u00f5es que cultivam<\/h2>\n<p>Al\u00e9m dos habeas corpus preventivos individuais, a Justi\u00e7a j\u00e1 autorizou duas associa\u00e7\u00f5es de pacientes a cultivar cannabis sativa no Brasil: a paraibana Abrace Esperan\u00e7a e a Apepi, no Rio de Janeiro. E h\u00e1 outras pleiteando a mesma decis\u00e3o.<\/p>\n<p>A Abrece conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o em 2017 \u2014 ela produz medicamentos para 3 mil pacientes de epilepsia, Parkinson, Alzheimer e autismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 a carioca Apepi, que j\u00e1 tem mil associados, entrou na Justi\u00e7a Federal em setembro do ano passado, e teve parecer favor\u00e1vel do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e apoio da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz. A decis\u00e3o permitindo o plantio saiu em julho.<\/p>\n<p>Segundo Ladislau Porto, advogado e coordenador da associa\u00e7\u00e3o, durante o processo, a entidade decidiu fazer algo &#8220;ilegal&#8221;: aumentar o cultivo de maconha para outros pacientes a partir do habeas corpus individual obtido por sua fundadora, a ativista Margarete Brito, m\u00e3e da garota Sofia, que sofre da s\u00edndrome CDKL5 \u2014 um problema raro que causa convuls\u00f5es e prejudica o desenvolvimento.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7998\/production\/_107982113_maconha.jpg\" alt=\"Folha de maconha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>No Brasil, milhares de pacientes utilizam medicamentos \u00e0 base de cannabis para algumas doen\u00e7as, como epilepsia, autismo e Parkinson<\/figure>\n<p>&#8220;Foi um desobedi\u00eancia civil em benef\u00edcio de pessoas que precisam muito do rem\u00e9dio. A estrat\u00e9gia foi sensibilizar o juiz para o fato de que n\u00f3s poder\u00edamos ser presos por tr\u00e1fico de drogas caso houvesse uma opera\u00e7\u00e3o policial. O juiz foi muito sens\u00edvel: eles nos ouviu v\u00e1rias vezes e entendeu que vivemos um momento de mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cannabis.&#8221;<\/p>\n<p>Na decis\u00e3o, o magistrado Mario Victor Braga de Souza afirmou que, embora j\u00e1 existam diversos estudos comprovando a efic\u00e1cia da planta no tratamento de doen\u00e7as graves, a Uni\u00e3o e a Anvisa permaneceram &#8220;absolutamente inertes quanto a quaisquer iniciativas&#8221; para suprir o problema, escreveu.<\/p>\n<p>E completou: &#8220;Da\u00ed porque continua se mostrando relevante a atua\u00e7\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio neste campo, onde a administra\u00e7\u00e3o parece preferir n\u00e3o se imiscuir, de modo a garantir o exerc\u00edcio de direitos j\u00e1 estabelecidos em lei, obstaculizados pela simples falta de regulamenta\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>No entanto, a pr\u00f3pria Justi\u00e7a Federal tem dado decis\u00f5es conflitantes sobre o mesmo tema. Tamb\u00e9m em julho, outra associa\u00e7\u00e3o de pacientes, a ONG Reconstruir, do Rio Grande do Norte, teve seu pedido negado pelo juiz federal Janilson Bezerra de Siqueira \u2014 o MPF tamb\u00e9m se posicionou a favor da libera\u00e7\u00e3o nesse caso.<\/p>\n<p>Para o magistrado, n\u00e3o deve ser o Judici\u00e1rio a decidir sobre o tema, e sim o Legislativo ou \u00f3rg\u00e3os reguladores, como a Anvisa. Ele tamb\u00e9m argumentou que estudos &#8220;contradit\u00f3rios&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 efic\u00e1cia do medicamento sugerem &#8220;temor&#8221; e &#8220;potenciais danos&#8221; ao bem-estar dos pacientes. A ONG vai recorrer.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje a cannabis j\u00e1 est\u00e1 liberada no pa\u00eds, mas para quem pode pagar mais de R$ 2 mil na farm\u00e1cia. Quando a Justi\u00e7a nega o cultivo associativo, est\u00e1 impedindo que pessoas mais pobres acessem o rem\u00e9dio mais barato e tenham seu direito \u00e0 sa\u00fade respeitado&#8221;, diz Felipe Farias, presidente da Reconstruir.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do processo, a ONG interrompeu sua planta\u00e7\u00e3o, temendo opera\u00e7\u00f5es policiais. Segundo Farias, os pacientes da entidade t\u00eam recorrido \u00e0 importa\u00e7\u00e3o do \u00f3leo, a compra do CBD em farm\u00e1cias e at\u00e9 ao tr\u00e1fico de drogas comandado por fac\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Medicinal X recreativo<\/h2>\n<p>Para o advogado Emilio Figueiredo, do grupo Reforma, o aumento de decis\u00f5es favor\u00e1veis ao cultivo vai gerar uma onda de judicializa\u00e7\u00e3o, como ocorreu no Estado da Calif\u00f3rnia, nos Estados Unidos. &#8220;A gente est\u00e1 num caminho da consolida\u00e7\u00e3o do cultivo dom\u00e9stico para uso terap\u00eautico. Hoje n\u00e3o se fala em jurisprud\u00eancia consolidada, mas em casos precedentes em 1\u00aa e 2\u00aa inst\u00e2ncias. Acredito que essa jurisprud\u00eancia ocorra em, no m\u00e1ximo, um ano&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A defensora p\u00fablica federal Tarcila Maia Lopes concorda: &#8220;A judicializa\u00e7\u00e3o tende a aumentar. As pessoas est\u00e3o ficando mais conscientes e menos preconceituosas. Ainda existe uma carga negativa muito forte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cannabis, mas ela est\u00e1 sendo gradualmente desfeita a partir desses casos individuais de sucesso&#8221;, diz ela, que atua em processos de habeas corpus pela Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 o advogado Ladislau Porto, da Apepi, acredita que o chamado uso recreativo da maconha tamb\u00e9m deve ser relativizado \u2014 a descriminaliza\u00e7\u00e3o da posse de pequenas quantidades de drogas para consumo pr\u00f3prio ainda est\u00e1 em an\u00e1lise no Supremo Tribunal Federal, com tr\u00eas votos j\u00e1 favor\u00e1veis ao fim das puni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Existe essa discuss\u00e3o sobre o que s\u00e3o os usos medicinais e recreativos. As pessoas tamb\u00e9m usam maconha para ficar bem, mesmo que n\u00e3o estejam doentes. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade diz que o bem-estar tamb\u00e9m \u00e9 sa\u00fade. Conhe\u00e7o advogados e outros profissionais que frequentemente usam maconha durante o expediente para conseguir trabalhar melhor, para diminuir a ansiedade e o estresse. Isso \u00e9 uso recreativo ou medicinal? Para mim, a maconha deve ser classificada como fitoter\u00e1pico. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que ter\u00e1 de ser encarada&#8221;, diz.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o magistrado, n\u00e3o deve ser o Judici\u00e1rio a decidir sobre o tema, e sim o Legislativo ou \u00f3rg\u00e3os reguladores, como a Anvisa. 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