{"id":327722,"date":"2020-08-09T10:35:07","date_gmt":"2020-08-09T13:35:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=327722"},"modified":"2020-08-09T10:35:07","modified_gmt":"2020-08-09T13:35:07","slug":"os-russos-que-vieram-para-o-brasil-fugindo-da-revolucao-comunista-de-1917-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-russos-que-vieram-para-o-brasil-fugindo-da-revolucao-comunista-de-1917-2\/","title":{"rendered":"Os russos que vieram para o Brasil fugindo da revolu\u00e7\u00e3o comunista de 1917"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Andr\u00e9 Bernardo<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/111B0\/production\/_98646007_pic3.jpg\" alt=\"Nicolau Ivanovich Vassilnenko e fam\u00edlia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Nicolau Ivanovich Vassilnenko (de preto) era capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Branco quando os bolcheviques tomaram o poder; paara n\u00e3o ser mandado \u00e0 pris\u00e3o na Sib\u00e9ria ou, pior, fuzilado com tiro na nuca, fugiu \u00e0s pressas e se instalou no Brasil | Fonte: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Durante muito tempo, o pai de Igor Chnee, Anat\u00f3li, seguiu um mesmo ritual: na noite de R\u00e9veillon, ele abria uma garrafa de champanhe, fazia um brinde \u00e0 R\u00fassia e desejava, do fundo do cora\u00e7\u00e3o, regressar \u00e0 terra natal. Ex-tenente do Ex\u00e9rcito Branco durante a sangrenta guerra civil russa, que durou de 1918 a 1921 e dizimou 9,5 milh\u00f5es de pessoas, entre civis e militares, Anat\u00f3li Viktorovitch Chnee morreu em 1962, aos 65 anos, sem conseguir realizar seu \u00faltimo desejo.<\/p>\n<p>&#8220;A saudade de meu pai era tanta que, certa vez, chegou a confidenciar que, se necess\u00e1rio, amputaria seu bra\u00e7o direito em troca do direito de visitar sua p\u00e1tria&#8221;, recorda Igor, um economista polon\u00eas de 83 anos, 69 deles vividos no Brasil.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o dos bolcheviques (&#8220;maioria&#8221;, em russo), nome dados aos comunistas que assumiram o poder em 7 de novembro de 1917 (25 de outubro, pelo calend\u00e1rio russo), Anat\u00f3li Chnee era ajudante de ordens do general Piotr Nikolaevich Wrangel, o comandante-chefe do Ex\u00e9rcito Branco, grupo militar formado por contrarrevolucion\u00e1rios. No caso de uma eventual derrota para o Ex\u00e9rcito Vermelho, Wrangel ordenara a Anat\u00f3li que arrestasse todas as embarca\u00e7\u00f5es que entrassem no porto de Sebastopol, na Crimeia.<\/p>\n<p>Miss\u00e3o dada, miss\u00e3o cumprida. Depois de confiscar 126 navios, Wrangel mandou que os militares e suas fam\u00edlias seguissem rumo a Gallipoli, na Turquia. Antes de embarcar, o Ex\u00e9rcito ainda cantou, perfilado, o hino imperial\u00a0<i>Boje czaria chrani<\/i>\u00a0(&#8220;Deus salve o czar&#8221;). Era a \u00faltima vez que Anat\u00f3li Chnee pisava em solo russo.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai teve tr\u00eas irm\u00e3os. Todos eles foram fuzilados por ordem de Josef St\u00e1lin. Se n\u00e3o tivesse fugido da R\u00fassia, em 1921, teria tido o mesmo fim&#8221;, garante Igor. Com o fim da guerra civil, em dezembro de 1922, foi criada a Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS) &#8211; que voltaria a mergulhar em um per\u00edodo de grande sofrimento e terror nos expurgos de Josef St\u00e1lin, que mataram milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2B38\/production\/_98646011_pic1.jpg\" alt=\"Igor Chnee Anat\u00f3li e fam\u00edlia\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\">Igor Chnee Anat\u00f3li era um dos integrantes do Ex\u00e9rcito Branco, que tentava evitar a revolu\u00e7\u00e3o comunista. Ele fugiu para o Brasil quando os bolcheviques tomaram o poder | Fonte: Arquivo pessoal<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ref\u00fagio no Brasil<\/h2>\n<p>Autor do livro<i>\u00a0Imigrantes Russos no Brasil<\/i>, Igor Chnee integra o grupo de 1,8 milh\u00e3o de descendentes de imigrantes e refugiados russos que, segundo estimativas, vivem hoje no Brasil. Os Estados que concentram o maior n\u00famero de filhos, netos e bisnetos de russos s\u00e3o Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo, Goi\u00e1s e Paran\u00e1, seguidos de Rio de Janeiro, Santa Catarina e Pernambuco.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de derrotado pelo Ex\u00e9rcito Vermelho de Vladimir L\u00eanin, o Ex\u00e9rcito Branco fugiu para diversos pa\u00edses, como Bulg\u00e1ria, Fran\u00e7a e Alemanha. Na ocasi\u00e3o, aproximadamente 200 imigrantes russos, vindos em dois navios, Provence e Aquitaine, desembarcaram no porto de Santos&#8221;, relata Victor Gers J\u00fanior, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Russo Brasileira (ARB), entidade cultural com sede em S\u00e3o Paulo (SP).<\/p>\n<p>Na lista dos russos que encontraram abrigo no Brasil est\u00e3o Yuri Andreievitch Leskov e Nicolau Ivanovich Vassilnenko. O primeiro era diplomata em miss\u00e3o na Bulg\u00e1ria e o segundo, capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Branco quando os bolcheviques tomaram o poder. Para n\u00e3o serem mandados para a pris\u00e3o na Sib\u00e9ria ou, pior, fuzilados com um tiro na nuca, fugiram \u00e0s pressas. A fam\u00edlia de Yuri chegou ao Brasil em 1944. A de Nicolau, dois anos depois.<\/p>\n<p>&#8220;Minha av\u00f3 tinha verdadeiro pavor de L\u00eanin e St\u00e1lin. Para ela, eram a encarna\u00e7\u00e3o de Sat\u00e3&#8221;, afirma a bailarina, professora e core\u00f3grafa francesa Tatiana Leskova, de 94 anos. &#8220;Todos os homens da fam\u00edlia, tanto do lado da minha m\u00e3e, Helena, quanto do meu pai, Yuri, foram mortos pelo Ex\u00e9rcito Vermelho. N\u00e3o sobrou ningu\u00e9m para contar a hist\u00f3ria&#8221;, lamenta a ex-diretora do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7958\/production\/_98646013_pic6.jpg\" alt=\"Yuri Andreievitch Leskov\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Yuri Andreievitch Leskov era diplomata em miss\u00e3o na Bulg\u00e1ria quando a revolu\u00e7\u00e3o comunista aconteceu. Ele buscou ref\u00fagio no Brasil e trouxe a fam\u00edlia | Fonte: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>No meio de tanta tristeza, Tamara Kalinin, a filha de Nicolau, se atreve a contar uma hist\u00f3ria curiosa. Seus pais, relata, se casaram no dia 14 de outubro de 1920, entre duas batalhas. Ele era oficial e ela, enfermeira. O local da cerim\u00f4nia foi, no m\u00ednimo, inusitado: a capelinha de um cemit\u00e9rio no sul da R\u00fassia. O casal n\u00e3o teve tempo de curtir a lua de mel. No dia 20 de novembro, embarcava em Sebastopol, na Crimeia, rumo ao ex\u00edlio.<\/p>\n<p>&#8220;A adapta\u00e7\u00e3o deles foi dif\u00edcil. Meu pai trabalhava como mec\u00e2nico e minha m\u00e3e, costureira. Os dois custaram a arranjar emprego&#8221;, lamenta Tamara, uma professora francesa de 86 anos que d\u00e1 aula particular de russo em S\u00e3o Paulo. &#8220;Curiosamente, meu pai terminou seus dias como padre da Igreja Ortodoxa&#8221;, conta.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;A Revolu\u00e7\u00e3o Russa destruiu minha fam\u00edlia&#8217;<\/h2>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa foi uma desgra\u00e7a para o pa\u00eds. O povo foi nivelado por baixo. Todo mundo virou pobre<\/p>\n<footer>Igor Chnee, autor de &#8216;Imigrantes Russos no Brasil&#8217;<\/footer>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>Se depender de Tatiana e Tamara, o dia 7 de novembro de 2017 vai passar em branco.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho nada a comemorar. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa destruiu minha fam\u00edlia&#8221;, queixa-se Tatiana Leskova.<\/p>\n<p>&#8220;Foi um per\u00edodo tenebroso de muita fome e persegui\u00e7\u00e3o&#8221;, faz coro Tamara Kalinin.<\/p>\n<p>&#8220;Felizmente, a R\u00fassia, que estava morta desde 1917, ressuscitou em 1991&#8221;, festeja, referindo-se \u00e0s duas reformas implementadas pelo presidente Mikhail Gorbatchov: a glasnost (&#8220;transpar\u00eancia&#8221;), que abre espa\u00e7o para o debate pol\u00edtico, e a perestroika (&#8220;reconstru\u00e7\u00e3o&#8221;), que promove uma reforma econ\u00f4mica.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/116C4\/production\/_98646317_pic2.jpg\" alt=\"Tatiana Leskova\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8220;N\u00e3o tenho nada a comemorar. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa destruiu minha fam\u00edlia&#8221;, queixa-se Tatiana Leskova<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em dezembro daquele ano, as 15 rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas proclamaram sua independ\u00eancia e deram fim \u00e0 antiga URSS.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o de Tamara e Tatiana \u00e9 compartilhada por Igor Chnee.<\/p>\n<p>&#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o Russa foi uma desgra\u00e7a para o pa\u00eds. O povo foi nivelado por baixo. Todo mundo virou pobre&#8221;, opina.<\/p>\n<p>Indagado se a R\u00fassia do presidente Vladimir Putin, o terceiro l\u00edder p\u00f3s-comunista do pa\u00eds, \u00e9 diferente daquela do czar Nicolau 2\u00ba, o \u00faltimo representante da dinastia Romanov, diz que sim. &#8220;Em alguns aspectos, sou obrigado a reconhecer, melhorou. A R\u00fassia hoje est\u00e1 melhor do que na \u00e9poca do imp\u00e9rio. Atualmente, 100% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 alfabetizada&#8221;, justifica Igor.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miss\u00e3o dada, miss\u00e3o cumprida. Depois de confiscar 126 navios, Wrangel mandou que os militares e suas fam\u00edlias seguissem rumo a Gallipoli, na Turquia. Antes de embarcar, o Ex\u00e9rcito ainda cantou, perfilado, o hino imperial\u00a0Boje czaria chrani\u00a0(&#8220;Deus salve o czar&#8221;). 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