{"id":327981,"date":"2020-08-12T00:21:20","date_gmt":"2020-08-12T03:21:20","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=327981"},"modified":"2020-08-11T14:28:32","modified_gmt":"2020-08-11T17:28:32","slug":"o-papel-das-mulheres-em-campos-de-concentracao-nazistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-papel-das-mulheres-em-campos-de-concentracao-nazistas\/","title":{"rendered":"O papel das mulheres em campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p class=\"intro\"><strong>Exposi\u00e7\u00e3o no memorial do antigo campo de Ravensbr\u00fcck, a 80 quil\u00f4metros de Berlim, aborda atrocidades cometidas pelas guardas femininas em prol da ideologia do Terceiro Reich. Poucas delas foram levadas a julgamento.<\/strong><\/p>\n<div id=\"sharing-bar\" class=\"min\"><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"picBox full\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-papel-das-mulheres-em-campos-de-concentra%C3%A7%C3%A3o-nazistas\/a-54526684#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Guardas femininas perfiladas durante visita de Heinrich Himmler, chefe da SS, ao campo de Ravensbr\u00fcck\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/54470549_303.jpg\" alt=\"Guardas femininas perfiladas durante visita de Heinrich Himmler, chefe da SS, ao campo de Ravensbr\u00fcck\" \/><\/a>Guardas femininas perfiladas durante visita de Heinrich Himmler, chefe da SS, ao campo de Ravensbr\u00fcck<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Consci\u00eancia pesada? Remorso? Tais sentimentos eram completamente estranhos a Maria Mandl. &#8220;N\u00e3o se podia encontrar nada de ruim no campo&#8221;, disse a chefe da guarda do campo de concentra\u00e7\u00e3o feminino de Ravensbr\u00fcck pouco antes de sua morte. Ela morreu na forca aos 36 anos, em 1948, ap\u00f3s ser condenada \u00e0 morte como criminosa de guerra na Crac\u00f3via.<\/p>\n<p>Sua cruel carreira n\u00e3o pode faltar na nova exposi\u00e7\u00e3o permanente do memorial do antigo campo de concentra\u00e7\u00e3o de Ravensbr\u00fcck sobre as guardas femininas. Porque \u00e9 assim que os alem\u00e3es da autoproclamada &#8220;ra\u00e7a superior&#8221; gostavam que fossem suas guardi\u00e3s nos campos de concentra\u00e7\u00e3o: leais e impiedosas.<\/p>\n<p>Uma pessoa como Mandl era destinada a altos cargos na l\u00f3gica perversa do regime nazista. Portanto, ap\u00f3s tr\u00eas anos em Ravensbr\u00fcck, ela foi transferida,\u00a0em 1942, para o campo de exterm\u00ednio de Auschwitz. L\u00e1 ela criou a M\u00e4dchenorchester, uma orquestra de meninas que tinha que tocar durante o transporte de prisioneiros e execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A austr\u00edaca foi sem d\u00favida uma das mais cru\u00e9is das mais de 3.300 guardas femininas de campos de concentra\u00e7\u00e3o, que eram preparadas para seu trabalho brutal em Ravensbr\u00fcck. O campo, 80 quil\u00f4metros a norte de Berlim, era o centro de treinamento e recrutamento de guardas femininas.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-papel-das-mulheres-em-campos-de-concentra%C3%A7%C3%A3o-nazistas\/a-54526684#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Mulheres andam em paisagem nevada com um pastor alem\u00e3o \" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/54470557_401.jpg\" alt=\"Mulheres andam em paisagem nevada com um pastor alem\u00e3o \" \/><\/a>Guardas de Ravensbr\u00fcck: muitas delas se candidatavam voluntariamente para o servi\u00e7o<\/p>\n<\/div>\n<p>Em 1940, quando a Segunda Guerra Mundial j\u00e1 havia come\u00e7ado, elas passaram a ficar sob responsabilidade da SS (Schutzstaffel), a assassina unidade de elite de Hitler. Da\u00ed vem o t\u00edtulo da exposi\u00e7\u00e3o, Im Gefolge der SS (Na esteira da SS), concebida pela primeira vez em 2004 e agora reorganizada e atualizada. O local tamb\u00e9m foi escolhido com cuidado: uma antiga casa de guardas de campo de concentra\u00e7\u00e3o, bem ao lado do antigo campo. Apenas um muro e arame farpado as separavam de suas 140 mil v\u00edtimas de 1939 a 1945, cuja maioria eram mulheres, crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Voc\u00ea \u00e9 mulher, mas posso bater em voc\u00ea&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Na exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel ouvir sobre as torturas e arbitrariedades a que as presas eram expostas. Algumas entrevistas com testemunhas t\u00eam mais de 20 anos.<\/p>\n<p>A polonesa Urszula Winska descreve em um v\u00eddeo como viu Maria Mandl espancando uma idosa numa rua do campo. Quando uma outra veio em seu aux\u00edlio, acabou sendo encarcerada num bunker. Meses a fio, ela levou tapas no rosto diariamente, com o coment\u00e1rio sarc\u00e1stico: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 mulher, mas posso bater em voc\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m havia guardas femininas dos campos de concentra\u00e7\u00e3o que mostraram toques de humanidade. Henryka Stanecka, tamb\u00e9m origin\u00e1ria da Pol\u00f4nia, relata sobre banhos no lago que eram permitidos depois que seu grupo de prisioneiras acabava seu trabalho for\u00e7ado sujo em uma planta\u00e7\u00e3o de beterraba. &#8220;N\u00f3s at\u00e9 receb\u00edamos uma toalha dela&#8221;, lembra o ex-presidi\u00e1ria de Ravensbr\u00fcck.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-papel-das-mulheres-em-campos-de-concentra%C3%A7%C3%A3o-nazistas\/a-54526684#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Johanna Langefeld posa abra\u00e7ada no filho Herbert e uma menina\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/54470522_401.jpg\" alt=\"Johanna Langefeld posa abra\u00e7ada no filho Herbert e uma menina\" \/><\/a>A guarda do campo de Ravensbr\u00fcck Johanna Langefeld com seu filho Herbert (esq.) e a filha de uma colega de trabalho<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>&#8220;Trabalho melhor que em linha de montagem&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Quanto mais a guerra durava, mais dif\u00edcil era para os nazistas encontrar guardas volunt\u00e1rios. Novatas tamb\u00e9m eram recrutadas por an\u00fancios em jornais. A palavra &#8220;campo de concentra\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o aparecia nesses an\u00fancios de emprego. Em vez disso, aparecia no\u00a0<em>Hannoversche Kurier<\/em>\u00a0em 1944: &#8220;Para trabalho em departamento militar, procura-se for\u00e7a de trabalho feminina com idade entre 20 e 40 anos.&#8221;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de remunera\u00e7\u00e3o baseada no sistema tarif\u00e1rio do servi\u00e7o p\u00fablico, eram garantidos gratuitamente alojamento, alimenta\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tais perspectivas motivavam muitas mulheres a se candidatar voluntariamente. Waltraut G. foi uma dessas pessoas. Em uma entrevista em 2003, ela admitiu abertamente que decidiu trabalhar como guarda de um campo de concentra\u00e7\u00e3o por raz\u00f5es financeiras. Ela diz que era a mais velha de cinco irm\u00e3os.\u00a0&#8220;Ent\u00e3o, n\u00e3o pensei duas vezes, mas pensei: se eu puder ganhar mais l\u00e1, irei para l\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Anna G. tamb\u00e9m n\u00e3o teve escr\u00fapulos. Ela achava trabalhar no campo de concentra\u00e7\u00e3o &#8220;mais atraente do que o trabalho est\u00fapido da linha de montagem&#8221; em uma f\u00e1brica.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-papel-das-mulheres-em-campos-de-concentra%C3%A7%C3%A3o-nazistas\/a-54526684#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Retratos em preto de branco de mulheres com identifica\u00e7\u00e3o sob elas\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/54470530_401.jpg\" alt=\"Retratos em preto de branco de mulheres com identifica\u00e7\u00e3o sob elas\" \/><\/a>Auxiliares da SS e guardas de campo de concentra\u00e7\u00e3o mantidas em campo americano ap\u00f3s 1945<\/p>\n<\/div>\n<p>Muito poucas parecem ter oferecido resist\u00eancia. Christel Wenzel, obrigada a servir na ind\u00fastria de armamentos, foi uma daquelas encontradas pela curadora da exposi\u00e7\u00e3o e historiadora\u00a0Simone Erpel\u00a0durante sua pesquisa. Segundo os registros, seus superiores orientavam Wenzel a &#8220;deixar claro \u00e0s internas dos campos de concentra\u00e7\u00e3o que elas tinham uma atitude errada em rela\u00e7\u00e3o ao Estado e \u00e0 vida, e tentar convert\u00ea-las para servirem ativamente ao\u00a0<em>f\u00fchrer\u00a0<\/em>e ao povo&#8221;. Isso era algo que Wenzel n\u00e3o conseguia conciliar com sua consci\u00eancia. Sua recusa n\u00e3o teve consequ\u00eancias negativas.<\/p>\n<p>Pouco a temer tamb\u00e9m teve a maioria das guardas femininas de campos de concentra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a guerra. &#8220;Houve somente 77 processos&#8221;, diz\u00a0Erpel. Senten\u00e7as de morte como que recebeu Maria Mandl ou longas penas de pris\u00e3o foram exce\u00e7\u00e3o. E investiga\u00e7\u00f5es posteriores n\u00e3o tiveram consequ\u00eancias para as guardas vivas, j\u00e1 idosas demais.<\/p>\n<p>Oito processos no estado de Brandemburgo, onde fica Ravensbr\u00fcck, foram arquivados em fevereiro de 2020. Sete porque as r\u00e9s n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de ser interrogadas, e um deles por falta de provas.<\/p>\n<p>&#8220;Inocente&#8221; \u2013 este era o veredicto reivindicado pela maioria das guardas de campo de concentra\u00e7\u00e3o nos poucos julgamentos contra elas. Com isso, tudo j\u00e1 estava dito, do ponto de vista das acusadas, embora elas n\u00e3o tivessem dito nada que pudesse ter ajudado suas v\u00edtimas de alguma forma.<\/p>\n<p>Setenta e cinco anos ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Ravensbr\u00fcck, este cap\u00edtulo da jurisprud\u00eancia alem\u00e3 \u00e9 &#8220;hist\u00f3ria&#8221;. \u00c9 o que afirma um promotor p\u00fablico em entrevista que tamb\u00e9m pode ser ouvida na mostra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exposi\u00e7\u00e3o no memorial do antigo campo de Ravensbr\u00fcck, a 80 quil\u00f4metros de Berlim, aborda atrocidades cometidas pelas guardas femininas em prol da ideologia do Terceiro Reich. 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